Domingo, quero te encontrar e
desabafar todo meu sofrer, estar ao seu lado, esquecer de tudo. Tudo que o amor
até hoje nos fez sofrer, esse é o trecho de um pagode de sucesso nos anos
noventa, que ressurgiu em minha mente enquanto descia as escadas claras da
escola onde fui exercer meu dever de cidadão com direito constitucional de eleger
os representantes do povo.
Todo o pleito envolve a disputa
de idéias e doutrinas, algumas tão iguais que se confundem em uma simbiose duvidosa.
Depois de anos em que a corrupção e o descaso se tornaram endêmicos, a polarização
eleitoral foi a conseqüência lógica, dividindo uma vez mais os brasileiros.
Estas reflexões me acompanhavam quando ganhei a rua e decidi tomar o caminho
mais longo em direção a casa.
A escola fica próxima da rua em
que nasci, cresci e vivi até meus dezessete anos e inesperadamente uma vontade
de revisitar aquelas quadras onde passei as primeiras fases desta caminhada
carnal. Entrei no carro, olhei para o volante e girei a ignição, engatei a ré e
coloquei o bólido em movimento. O trajeto seria curto, a rua que homenageia um
herói Farroupilha possui apenas nove quadras.
Entrei na primeira rua à esquerda,
andei alguns metros e direcionei o carro para a direita. Iniciava minha viagem
ao passado, apesar de dizerem que viver nele é prejudicial, pois acabamos
atrelados ao que já aconteceu, recomeçando uma espécie de espiral. Para mim,
revisitá-lo é ver a minha história com olhos distantes, capazes de perceber os
acertos e erros. Tão simples quanto encontrar um resultado matemático.
Transversalmente na quadra
inicial viveu meu padrinho. Um bom homem, que não procurava com a freqüência que
merecia reflexo da imaturidade da idade, pelo menos pensar assim exime uma
parcela da culpa que carrego. Outro motivo não haveria. Lembrava que morava em
um prédio próximo a esquina. Talvez fosse aquele primeiro, não tenho certeza e
se estivesse com meu pai ele cravaria a posição exata, ele sempre foi bom com
estas questões geográficas. Determinei que fosse aquele prédio e mentalmente
pedi perdão por meu descaso, acredito que os pensamentos chegam longe e aqueles
a quem são destinados os recebem.
Cruzei a rua e logo à esquerda
encontro a Igreja em que fui batizado e a qual freqüentei nos primeiros anos de
caminhada espiritualizada. Nela fiz minha Comunhão, meu irmão foi batizado e
minhas tias trabalharam. Também ali me prepararia para a realização do outro
sacramento cristão, a Crisma. Provavelmente a tivesse feito se aquele que
escolhi para Padrinho não tivesse partido tão cedo. Recordei como esse irmão de
meu pai foi presente em sua vida e um tio amoroso, mesmo morando em outro
Estado. Senti uma saudade boa, agradeci por tudo o que ele fez e pensou em
fazer por nossa família.
Ainda faltavam mais duas quadras
a percorrer, e a seguinte se encontrava entre a Gomes Jardim e a Santana.
Procurei a casa onde minha primeira paixão platônica viveu. Eram casas
geminadas que foram demolidas e onde hoje existe um estacionamento. Lembrei do
loiro de seu cabelo e de seu físico irreparável para os anos adolescentes. Esta quadra e a próxima, onde morei são as que
guardam mais lembranças. Os dois restaurantes ainda existem, agora, com novos
nomes e o armarinho que vendia de tudo, se transformou em ferragem. E assim a
vida vai mudando seus ciclos, se refazendo e se recriando.
O primeiro restaurante era o
“Prenda Minha”. Apesar do nome gaúcho, servia um Filé à Parmeggiana que era uma
perdição. Quase todo final de semana, íamos buscá-lo ou almoçar ali. O Darci e
o Pila tocavam o estabelecimento e estavam sempre disponíveis para um dedo de
prosa; da manhã a noite o movimento era grande, em uma época em que as pessoas
andavam e não corriam como hoje.
A penúltima quadra é onde morei.
Dela me lembro com mais detalhes e riqueza de histórias. Olhando para o lado da
esquerda, perfilam-se três prédios de três andares, que eram diferenciados pela
cor. O primeiro era azul, o segundo verde e no que morávamos rosa. Pelo lado
direito, havia o Restaurante do Portuga, do seu Manoel que agora é um Sushi. Toda
manhã havia forte concentração de taxistas e de vários trabalhadores da região
que tomavam o desjejum antes da labuta. Era um movimento bárbaro! Colado a ele
havia o armazém do Luis, um bonachão que vendia de tudo. Ki-suco, raspadinhas,
fazia jogo do bicho, refrigerante, queijo da colônia, jornal, frutas e cigarros.
O armazém teve vida mais longa que a do Luis, que passou a dormir nele e um dia
simplesmente não abriu as portas. Partira durante o sono. Hoje o armazém não
existe mais.
Entre o prédio verde e o rosa
existe um espaço que deveria ser uma rua, que levaria até a Avenida Vicente da
Fontoura, porém em uma destas inexplicáveis questões político administrativas, nunca
saiu do papel. Pois ali, naquele espaço vivia uma Mangueira e sob sua sombra
foi enterrado meu cordão umbilical. Nenhum dos dois existe mais, o cordão virou
adubo ao se decompor e a árvore foi derrubada quando suas raízes começaram a
surgir dentro dos apartamentos. Naquele
projeto de rua, jogávamos bola e uma das goleiras era o espaço entre duas
árvores ao fim do terreno. Elas ainda estão lá, com os troncos mais grossos e
encurvados.
Parei o carro e fiquei observando, lembrando
das defesas que fazia ali e de tudo mais que acontecia. Os vizinhos desciam com
suas cadeiras de praia no fim da tarde e conversavam entre eles. Nunca entendi
como podia surgir tanto assunto, mas eles tinham e como tinham! E a gurizada em
volta. Hoje está tudo gradeado, os carros continuam estacionados ali, mas
estranhamente me lembrava do espaço ser maior. Talvez esse seja um mistério, um
fenômeno típico a todos que crescem. Os lugares sempre parecem maiores e mais
assustadores do que realmente eram.
A frente do prédio em que morávamos
era enfeitada com uma cerca de Coroa de Cristo e neste pátio meus pais
plantaram, quando se casaram, um Pinheiro. É dispensável dizer que nada disso
existe mais, exceto o casamento de meus genitores. Os prédios foram pintados em
tonalidades de marrom que escondem como ali existia vida e cor. Rapidamente
lembrei que meses atrás, meio sem querer, descobri que o apartamento em que
morávamos estava a venda. Entrei no anúncio e matei um pouco da saudade dele,
constatei pelas fotos que a pia de pedra que meus pais ficavam escovando para
que não criasse limo e gordura é a mesma, fazendo companhia para os azulejos
originais de quatro décadas!
A casa que fica ao lado do prédio
onde morei está lá! Agora não faz mais divisa com a casa da dona Carmen; o
terreno que ela ocupava, junto com o Pátio da Moda e o terreno do Manoel, deram
lugar a um arranha céu, fora dos padrões de verticalidade da rua. Igualmente a
casa dos meus amigos de infância, onde nos reuníamos para comer bergamotas nas
noites de inverno ainda existe, está lá, firme e forte. A tia e a vó, já
partiram, ficaram somente a gurizada a quem não vejo há algum tempo. Desculpas
e mais desculpas para tentar justificar o injustificável, mas assim são os
ciclos da vida. Já devo ter dito isso. São muitas recordações. Inúmeras!
O muro em que ficávamos sentados durante
a noite e inicio da madrugada e que cercava o Instituto de Pesquisas Biológicas
do Estado não existe mais, cedeu lugar a cercas que fazem a proteção do
local. Ali andávamos de bicicleta, jogávamos
bola, fazíamos estripulias típicas das crianças do século passado. Não sei
qual, entre as muitas espécies de arvores plantadas ali possuía um odor
característico que lembro perfeitamente, como se o sentisse agora. E assim,
lentamente fui chegando ao final de minha viagem no tempo.
Ainda resistem as casas do seu
José, a oficina mecânica que o dono abria após avisar que estava chegando com
sua potente DKW cinza chumbo e o posto de gasolina. Quase nada está do jeito
que deixei ao partir. Tolice minha pensar que seria diferente, afinal também
não sou mais aquele adolescente que saiu de lá contrariado e com esperanças de
voltar brevemente. E assim entrei na João Pessoa, desliguei a chave do passado,
cantarolando domingo quero te encontrar e desabafar todo meu sofrer...