domingo, 30 de dezembro de 2018

Observação Poética

E como observo, assim são os escritores, 
caçadores e desocupados.
Observam sem a pressa dos comuns 
ou com a fidalguia dos lordes. 
Apenas observam e percorrem cada marca do corpo,
sinal, cicatriz, entrada, monte e curva, 
assim como fazem os incautos nas aulas de geografia. 
Seja mapa, 2d, 3d ou braile, mas permita ser descoberta!

Poesia II

Essa capetinha já tem o seu lugar,
Diz que lhe encanto,
Mas desconhece,
Que já sou prisioneiro
Seja da sua presença
Ou da beleza tímida
Que esconde pelos cantos,
Mal sabe que do poder
Que emana de uma calça preta
E de uma blusa branca,
Que diria do que conquistaria,
Se tudo usasse ou dispensasse tudo,
Teria enfim um escravo sem fim!

Menina-cereja

Menina-cereja, cheirosa que só,
Confessa baixinho,
Responde rápido com esmero,
Que boca é essa que tens?
Bocas assim iguais a tua,
Foram desenhadas com esmero pela mão da natureza,
Obra de arte viva e pulsante,
Feitas para se observar,
Criadas para receber veneração,
Quando pintadas de vermelho, lilás, rosa ou nuas,
Autorizam que lábios mortais,
Singelos como pólen Encostem nos seus,
Para impor no fim,
Um desejo desenfreado,
Descobrir se o beijo dela,
Também possui o gosto doce,
Próprio da cerejeira que exala,
Quando desejo estar perto assim.

Esmero

Bocas assim, desenhadas com esmero 
pela mão da natureza, não são feitas para observar. 
Elas estão ali para receber veneração, 
para autorizar que outros lábios encostem nos seus 
e principalmente para que nós desejemos experimenta-las..

Colo

Preciso de colo, assim ela disse em uma noite de primavera. Fechei os olhos e a vi aninhada, com os braços em volta de meu pescoço. Meus lábios encostaram em sua testa, enquanto escutava sua respiração e sentia seu queixo procurar espaço em meu peito.

Minha mão esquerda encontrou a nuca e depois os cabelos macios, que foram acariciados por cinco dedos. A mão direita, atrevida e safada, repousou em sua coxa, a puxou para cima e a deitou melhor. Queria ficar assim, resistente ao tempo e as dores físicas e mentais. 

Aninhados, abraçados, entrelaçados, em estado puro de imaginação, que conforta, ameniza, envolve e liberta, mesmo quando tudo não passa de um sonho que se tem acordado.

Chuvas de Março

Chove muito! Vejo pela janela a névoa densa que se forma com a água que insistentemente se joga sobre os prédios, ruas e praças.


Penso, e assim o faço com a liberdade que ninguém me concedeu, que sair a rua agora é o que melhor poderia acontecer.

Misturar a chuva com lágrimas, molhar o sorriso, enquanto se gira igual pião nesse tabuleiro de vidas tristes e secas.

Guardaria emoções e pensamentos de tal forma que você não encontraria, por mais que desejasse. Não por despreparo.

Pode ser que seja egoísmo meu, e o é. Agir assim faz com que esses pensamentos e sentimentos sejam únicos e exclusivos.

Dizem muito e ouvem pouco. Calam e gritam, fazem birra e se amotinam. Guerra e paz, desejos e tormentos.

Enquanto a noite se alonga e a chuva continua a bater na janela, penso por onde estará.

E assim, guardo para mim, as sensações e pensamentos que nascem quando imagino tua presença.  por assim dizer

Altas Horas

Olhei no relógio, era duas da manhã. Todos dormiam e a cidade em suas sombras descansava. Recuperava sua sanidade em meio as luzes altas dos prédios e os primeiros acordes canoros. Por vez escutava ao longe algum carro mais barulhento ou moto chamativa, a rasgar o silêncio da madrugada, sem pedir autorização alguma.

Pensei exatamente, naquele momento em escrever algo inteligente, que fosse capaz de te chamar a atenção para estes meandros do mundo, na igualdade tão desigual que fermenta no peito e cria uma indignação intangível. Pensei, busquei o PC, abri o e-mail, rabisquei meia dúzia de linhas e desisti. 

Desisti, não por um motivo especial ou algo do gênero, apenas desisti ao tomar ciência de algo inapelável. Você estaria dormindo.

E de que forma, me diga, eu poderia perturbar a santidade de teu sono? Por onde estaria tua alma liberta? Acaso em algum templo ou floresta? Estaria apenas descansando sem nenhuma viagem espiritual? Não quis mandar. Desisti. Me revi nesse movimento e aí percebi.

Aquela verdade inapelável, escancarada a minha frente. Você estaria dormindo, talvez de pijama, talvez não. Usando apenas uma gota de perfume, talvez mais! Estaria entre essa atmosfera do sonho e da realidade, exposta, tal a mais bela estátua majestosa, mármore em forma de carne. Perfeita em sua imperfeição e mesmo assim, desisti de escrever.

Desejaria que fosse o primeiro e-mail a ser lido, aquele que deseja bom dia ou que perturba logo cedo, marcante, surpreendente e apenas e tão apenas para me fazer presente. Porém, como me repeti, eu desisti.

E ao fazê-lo, continuei pensando de uma forma única em ti. Destas formas que não se deve destacar e tão pouco confessar, que levam a interpretações e caminhos infinitos igual a paixão dos poetas e dos amantes. Este caminho tortuoso e cheio de paradouros, de estações de embarque e desembarque. Pensei sim, confesso. Imaginei, pensei, sonhei, fantasiei e materializei. Assim, dessa exata maneira e ao perceber que as palavras seriam inúteis, desisti de escrever.






Levei meu corpo e alma para o quarto, se estavas dormindo e visitando o mundo de Morfeu, que outro lugar desejaria estar se não lá, para encontrar com aquela que, assim despretensiosamente, fez moradia na imaginação tardia de um velho escrevinhador?

Poesia I

Viajei por uma estrada
Assim de forma despretensiosa
Numa tentativa de esquecer
Enquanto caiam lágrimas,
Salgadas e frias,
Surgidas da alma
Algumas tristezas guardadas

Poesia

Menina, garota, Mulher
Assim dessa forma,
Misturada e separada,
Deixa solto no ar,
Para quem desejar,
A certeza que vale bem lhe querer



Breve devaneio

Acordou decidida, não passaria daquela manhã. Ainda deitada, vestindo o mínimo possível, sentia o toque do lençol em todo o corpo, os radares ligados, percepções a mil.

Olhou para o lado, duas garrafas de cerveja no criado mudo, que por sorte na falava nada do que escutava naquela casa. Havia mais uma garrafa jogada no chão, próxima do sutiã e da blusa. 

Ergueu de leve, a cabeça doída, o show tinha sido espetacular, gostou das músicas, dos acordes e da companhia.

Dizia que ele a fazia bem. Talvez o fizesse mesmo. Ela contava e ele acreditava, queria escrever canções, poemas e preencher outdoors. Existia algo diferente, se completavam desinteressadamente. Incrível, diferente, raro.

Levantou finalmente, os cheiros se confundiram no ar. A cerveja choca, o suor nos cabelos e o azedo no pescoço. Decidiu, ia estrear o presente que ganhara.

Buscou na gaveta o sabonete novo e cheiroso. Cereja. Odor suave, leve e ao mesmo tempo marcante. Se perfumaria de fruta, ficaria mais doce, provocaria as imaginações férteis.

Entrou no box, tirou a última peça do corpo, branca, tamanho apropriado para seu corpo, ficará livre, bela, natural.

Abriu o registro, a água quente começou a jorrar e a experimentou com a ponta do pé. Perfeita! A temperatura e ela. Entrou sem medo e deixou que a água escorresse por todo o corpo.

Suspirou, a cerejeira se mudou para o quarto de banho. Começou a fazer raiz nela, enquanto do outro lado da cidade o despertador acordava os incautos...



Nossa Morte

Quando morremos, não partimos de súbito,
ao contrário do que se pode pensar.
Não somos aqueles balões impulsionados ao céu
que deixam o ar que lhes preenche escapar.

Partimos demoradamente, com intensidade variada
e vamos sumindo dessa existência,
de forma irreversível quando aqueles
que nos conheceram nos acompanham
nessa viagem ao desconhecido.

E assim, quando a última vez nosso nome,
feito mantra evocado nos agradecimentos
e orações for citado por estes lábios conhecidos,
finalmente encontraremos o descanso eterno.

Teimosia

Eu tinha algumas coisas para falar no início dessa tarde,
mas simplesmente, palavras se tornam desnecessárias,
praticamente dispensáveis quando se tenta
explicar uma sensação ou sentimento
que teima em guardar moradia onde não se deve demorar...

Que lugar é este?

Existe um lugar, daqueles que você só enxerga em sonhos em que se poderia escrever as mais belas páginas, sejam com estórias fantásticas ou somente com pensamentos esparsos, soltos como brisa no campo.

Gostaria de encontrar tal destino, poder trilhar um caminho belo e se não o fosse, que ao menos se tornasse suave, para lá escrever dos amores que não tive, das bocas que desejei e não beijei e das paixões platônicas que morreram em segredo. 

Lugares assim foram feitos para que se de vazão a imaginação, sem preocupações extras, em que se pode ser tudo ao mesmo tempo. Deus e demônio, corajoso e covarde, criador e criatura, mocinho e bandido. Tudo isso sem haver pressa de acabar e se ainda, não bastasse, apenas me contentaria em morrer no quarto...

O Sofá da Sala

"Estavam os dois, sentados no sofá vermelho, trazido da década de 70 para cá. Um vermelho vivo, gritante, como deve ser todo a testemunha que se preza. Uma crescente tensão tomava conta do ambiente, se encaravam como duas bestas feras prontas para o combate de suas vidas. Ele passou a mão por trás do pescoço dela e a trouxe para perto, bocas próximas, troca de olhares. Olho no olho, boca na boca, suspiros e desejos. As línguas se entrelaçam e saem a rodopiar no salão de suas bocas. Ela desliza no sofá e a mão repousa em suas pernas. Mão atrevida de homem acostumado a desbravar caminhos pelo fato, sobe em direção a sua cintura, passa pelo joelho, coxa e sobe... É chegado o momento! Toca o despertador, é hora de levantar".

Scotland

Ela escrevia há tempo para ele, em uma época em que as comunicações eram mais delicadas e difíceis do que estas trocas instantâneas de mensagem. Tinham o que poderia classificar de um canal aberto, em que se expressavam do jeito que bem entendessem. Falavam do tempo, da variação cambial, troca de estações, atraso do ônibus, fantasias, música, filosofia, literatura e cinema.

Naquela noite mais do que nunca ela estava com a mente afiada. Assistira durante a tarde a película em que Mel Gibson, no auge de sua fama, estreava a estória do escocês libertador e ali estava um combustível interessante. Provocou-o. Disse que lhe vira vestido daquele jeito, com kilt, tocando a gaita de fole sobre uma montanha enquanto o vento balançava seus pêlos ruivos.

Ele gostou. Mesmo que rapidamente, por uma questão de segundos, ele se sentiu parte dela, estava em seu pensamento de forma alegórica, mas estava. Desejou que realmente ela lhe visse assim, em comunhão com as forças da natureza, enquanto os pensamentos voavam rapidamente daquela cabecinha castanha.

Se despediram, ela disse que ia ao banho e ele ficou olhando para a tela fria e sem vida, pensando. Não nela, tirando peça por peça de roupa, até se mostrar natural e abrindo o registro do chuveiro, mas se conseguiria tirar alguma melodia do Queen em uma gaita de fole.

A Passarela de Alice


Ela percorria as ruas do centro, sempre com a maestria das grandes modelos. Desenvolta, não caminhava e sim flutuava sobre as calçadas mal conservadas. O caminho era sempre o mesmo, saia de seu prédio, dobrava para direita e ia em direção a praça.

A superava em poucos passos e logo passava na frente da livraria de Tomaz. Ele já sabia o horário de seu desfile e quando se aproximavam os ponteiros do relógio, lá ele ia para frente do estabelecimento.

Naquele dia não foi diferente. Ela passou, não lhe olhou. Não proferiu um bom dia. Ele não se sentiu derrotado, superou as lentes dos óculos dela e mirou seus olhos. Os cabelos revoltos e bem cuidados lhe faziam imaginar o cheiro do shampoo. Como ela lavaria as medeixas. Apertaria os fios ou apenas os alisaria?

Olhou o todo. A blusa decotada lhe deixou ver partes lascivas do corpo. Uma tatuagem aparecia. Teria mais? Onde? Quais seriam os desenhos eternizados na pele alva?

O olhar continuou quedado sobre ela na medida que se distanciava. A saia preta e curta sambava a medida que os quadris se mexiam. Teve vontade de correr atrás da moça.

Porém seria chamado de louco, insano, doido de amarrar em poste. Ela poderia se assustar e nunca mais passar por ali. Perderia seu objeto de veneração.

Enquanto isso ela percorria seu caminho, pensava apenas em voltar e finalmente se declarar para o rapazinho bonitinho, porém tinha medo. E se ele, ali todo dia fosse apenas uma dessas coincidências?

E assim a imaginação do ser e do não ser, das impossibilidades lhes torturavam e roubavam a chance de um café no fim da tarde.

Nudez - Carlos Drummond

"Não cantarei amores que não tenho,
e, quando tive, nunca celebrei.
Não cantarei o riso que não rira
e que, se risse, ofertaria a pobres.
Minha matéria é o nada.
Jamais ousei cantar algo de vida:
se o canto sai da boca ensimesmada,
é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa,
nem sabe a planta o vento que a visita.

Ou sabe? Algo de nós acaso se transmite,
mas tão disperso, e vago, tão estranho,
que, se regressa a mim que o apascentava,
o ouro suposto é nele cobre e estanho,
estanho e cobre,
e o que não é maleável deixa de ser nobre,
nem era amor aquilo que se amava.

Nem era dor aquilo que doía;
ou dói, agora, quando já se foi?
Que dor se sabe dor, e não se extingue?
(Não cantarei o mar: que ele se vingue
de meu silêncio, nesta concha.)
Que sentimento vive, e já prospera
cavando em nós a terra necessária
para se sepultar à moda austera
de quem vive sua morte?
Não cantarei o morto: é o próprio canto.
E já não sei do espanto,
da úmida assombração que vem do norte
e vai do sul, e, quatro, aos quatro ventos,
ajusta em mim seu terno de lamentos.
Não canto, pois não sei, e toda sílaba
acaso reunida
a sua irmã, em serpes irritadas vejo as duas.

Amador de serpentes, minha vida
passarei, sobre a relva debruçado,
a ver a linha curva que se estende,
ou se contrai e atrai, além da pobre
área de luz de nossa geometria.
Estanho, estanho e cobre,
tais meus pecados, quanto mais fugi
do que enfim capturei, não mais visando
aos alvos imortais.

Ó descobrimento retardado
pela força de ver.
Ó encontro de mim, no meu silêncio,
configurado, repleto, numa casta
expressão de temor que se despede.
O golfo mais dourado me circunda
com apenas cerrar-se uma janela.
E já não brinco a luz. E dou notícia
estrita do que dorme,
sob placa de estanho, sonho informe,
um lembrar de raízes, ainda menos
um calar de serenos
desidratados, sublimes ossuários
sem ossos;
a morte sem os mortos; a perfeita
anulação do tempo em tempos vários,
essa nudez, enfim, além dos corpos,
a modelar campinas no vazio
da alma, que é apenas alma, e se dissolve.”

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

O ménage de Jeremias


Ele passou parte da sua vida escutando as piadas sem graça acerca de sua identidade civil. Jeremias ao contrário de seu homônimo musical, não era maconheiro e tão pouco sabia dançar. Semelhante somente o fato de ser um tanto sem vergonha e que desaprendera a rezar há muito tempo. Amadureceu a toques de facão, conhecendo a crueza e dificuldade da vida. O esforço lhe foi compensado, advogado iniciante, defendeu uma causa quase impossível contra uma grande corporação e venceu. Daquele dia em diante, passou a ser um dos advogados mais requisitados e vencedor da cidade.

Todo bônus carrega consigo um ônus de igual grandeza, o seu era de dispor de pouco tempo para gozar os prazeres da vida. Abria de toda forma uma exceção quando se tratava de sair para jantar com Vanice. Conheceram-se ainda no segundo grau, quando ele tinha o rosto tomado de espinhas, usava tênis de basquete e camisetas pretas enquanto ela ostentava um corte moderno de cabelos ao estilo Bozo e preferia ombreiras e casacos de toureiro. Definitivamente o tempo fora generoso com eles, em nada lembravam aqueles adolescentes tomados de certezas.

Encontravam-se sempre no mesmo restaurante. A localização privilegiada, no alto da cidade, permitia que contemplassem toda a selva de concreto, emoldurada pelas luzes que iluminavam a noite. Tinham elegido aquele local como o refugio das correrias e dissabores que experimentavam, um momento de comunhão entre eles. Pediram a carta de vinhos e escolheram um Catena Zapata Malbec. Fazia algum tempo que não se encontravam, portanto, muito assunto para ser atualizado, comentar sobre as conquistas profissionais, os perrengues emocionais e até mesmo as lembranças esquecidas em cantos obscuros da mente, que incrivelmente ressurgiam quando estavam juntos.

Entre goles, diálogos e garfadas,não necessariamente nesta ordem, Jeremias lembrou que recebera um convite inusitado no inicio da semana e contou para Vanice. Durante uma consulta em seu escritório, um casal, expressava a admiração por ele e como se sentiam confortáveis em sua presença a ponto de lhe convidar para partilhar da intimidade deles em um ménage. Assim, de forma direta este convite foi feito, como se estivesse sido convidado para correr uma maratona ou ir a feira livre de domingo. Gentilmente ele declinou, afirmando que se fosse para decepcionar duas pessoas ao mesmo tempo ele preferia levar os pais para almoçar.

“Capaz, morri” – disse Vanice, explodindo em uma risada que ecoou pelo salão do restaurante. Recuperada, completou – “Pensando bem, tu foste perverso! Melhor fazer isso para não criar expectativas e surpreender depois!”

“Não sabia que pode surtir esse efeito. Vou começar a lançar esse artifício, vai que dê certo com alguém – disse com jeito reservado, esperando a reação da amiga.

“Pois é, sempre dá certo, só não pode ser demais, tem que ser na medida certa” – sentenciou olhando diretamente nos olhos que a analisavam profundamente.

“Sempre dá certo?”

“Fica a dica, só isso.”

“Vou encarar como um incentivo ou sei lá...”

“Coisa querida e ingênua da minha vida, vamos sair daqui?” – Vanice sendo Vanice, direta!

Abriram a porta do apartamento de Vanice, que estava iluminado apenas pelas luzes dos postes. Tudo em silêncio, não se ouvia nada, um absoluto e necessário silêncio. Quebrado pela primeira vez com o som das chaves aterrissando no tampo de madeira da mesa. Foi a senha, a sequência necessária para que a tensão crescente chegasse a seu ápice e explodisse. Iniciaram uma intensa briga de línguas, retiradas de batalha apenas para que as bocas pudessem percorrer os pescoços alheios com a vontade luxuriosa dos fins de noite, arfares continuavam a desvirginar o outrora intocado silêncio. Roupas começaram a ser jogadas pela sala, sobre o sofá vermelho ficaram o vestido listrado branco e preto e a camisa azul.

Pegou-o pela mão e o puxou para o quarto, enquanto deixava a mostra um quarteto de belezas composto pela nudez das costas e a tatuagem que a cobria inteira, a cintura desenhada e os glúteos perfeitos. A cama estava intocada, esperando apenas a oportunidade para ser desfeita, testemunha perfeita e discreta da devassidão que ali nascia e crescia. Exploravam seus corpos sem pressa alguma, a noite era longa e sempre, mas sempre, pode ser surpreendente. Escutaram um barulho na porta de entrada, somente naquele momento lembraram-se de como foram desatentos, deixaram provas espalhadas pelos cômodos sem recordar que morava mais alguém ali. Surpresos, viram Natalia, colega de apartamento, entrar sala adentro vestida com um minúsculo vestido de Mamãe Noel, um gorro e uma perneira rendada.

“Olhem só meus amores, parabéns! Quem diria, o Natal chegou mais cedo para vocês, e eu serei o presente! Posso?”

Rápida, sem esperar pela resposta a sua pergunta, se juntou a eles e na medida em que a excitação aumentava mais vontade de chorar Jeremias tinha. Por um simples motivo. Natal sempre lhe deixava triste e nostálgico, sensível à época em que as crianças repletas de esperança esperam com ansiedade os presentes do Papai Noel, após um ano de comportamento questionável. Recordou das vezes que se comportara, mas não recebera a visita do bom velhinho, chegou a pensar que Papai Noel não gostava de ir à casa de pobres e quando aparecia nunca trazia o que lhe pedia. Descobriu anos depois quem eram os verdadeiros Papai Noel.  Nunca se recuperou do trauma infantil.

Não havia mais clima, apesar de estar nos braços da morena e desejável Vanice e da voluptuosa e loira Natalia. O guerreiro estava abatido, fora atingido em um lugar impossível de recuperação – a mente! Começou a chorar o choro dos humilhados que não serão exaltados, o choro miserável de quem perdeu a oportunidade de escrever uma página dourada no livro das memórias. O choro daquele que percebe o quanto a vida pode ser engraçada e ingrata, que somos peças no tabuleiro dos Deuses que nos mexem conforme os dados rolam.

“Jeremias, Jeremias, Jeremias, Terra para Jeremias, o que vamos pedir de sobremesa?”

Acordou de seu devaneio, ainda estava no restaurante e Vanice, linda, bronzeada e plenamente vestida, estava em sua frente, querendo escolher a sobremesa. Teve vontade de dizer que devia ser ela, mas lembrou que estavam nos idos de Dezembro e o Natal se aproximava, melhor não arriscar nenhuma jogada ousada e terminar a noite com o pouco de dignidade que a inspiração lhe presenteava.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Meu vovô!


Carta para meu vovô!

As pessoas podem pensar que o fato de ser pequeno me impossibilite ter uma boa memória. Não, não, não! Lembro muito bem de várias coisas. Sim, coisas, porque apesar de ter essa memória privilegiada não aprendi todos os nomes deste mundo.

Sei bem o nome do Velociraptor, do Tiranossauro Rex, do Batman, Homem-Aranha, Hulk, Super-Homem e principalmente que a Patrulha Canina salva o dia! O que não me interessa vou deixando pra depois. Assim deve ser a vida de uma criança, e assim é a minha!

Eu sou um garoto bem sortudo, sério, no duro! Olha, tenho papai e mamãe que me amam e cuidam bem de mim e também tenho um plus de cuidado e amor – Vovôs! Vocês sabem o que é ter vovôs? Pois então, eu tenho mais de um, tenho quatro! Sim, eu sei, não quero me aparecer, são muitos vovôs; dois que moram perto e dois que tenho que pegar avião para visitar. Todos eles são muito legais, mas já notei que minhas vovós falam mais que meus vovôs. Eles são mais quietos e um dia ainda vou descobrir por que. E o melhor, sei que eles me amam bastantão!

Tem um dos meus vovôs que eu fico bem ligado. Quando eu ainda estava no aconchego e proteção da barriga da mamãe eu escutava a voz dele e ficava imaginando como seria o dono daquela voz grave. Ele não falava muito e ria menos ainda e isso me deixava mais curioso. Porque sim, crianças são muito curiosas, querem, como dizem os adultos, dar fé logo no que está acontecendo. E eu não sou diferente no auge dos meus três anos de vida. Vou contar um segredo, faltam apenas dois para eu ficar grandão e ai sim, ninguém vai me segurar!

Voltando ao vovô, eu queria mesmo saber como ele era. Quando nasci, reconheci logo meu papai, ele estava todo bobo e acho que até chorou junto comigo quando as luzes desse mundo começaram a me incomodar. Quando ele me levou para conhecer o resto da família fiquei perplexo! Tinham quatro que podiam ser o vovô que ria pouco.

Olhei com os olhos meio fechados e vi que dois que não tinham cabelo não pareciam com vovôs, logo descartei eles. Os outros dois sim pareciam vovôs, mas estávamos separados por uma janela, meu ouvido não conseguia escutar nada do outro lado, então precisei esperar mais algumas horas para que minha expectativa se solucionasse.  Quando ele me pegou meio sem jeito no colo não tive mais dúvida. Era ele! E mais, descobri que até aquele dia ele não era vovô! Eu o fiz vovô! Fui o criador, refiz o trajeto natural da vida, através dele meu papai nasceu e eu cheguei aqui e agora eu retribuía, lhe dando o título de vovô.

Acho que até fui meio mágico, porque dizem que ele voltou a sorrir mais e a ficar bobo com as minhas tiradas inteligentes e rápidas. Gosto dele, muito mesmo, tanto que eu quero ficar sentado na cadeira dele que balança e aprendi a imitar o jeito dele andar com as mãozinhas para trás. Percebi que ele não lava a minha roupa como a vovó faz e nem cozinha bem iguala ela. Aprendi a dizer isso só para implicar com ele, não sei onde escutei que só implicamos com quem gostamos. A verdade é que da comida do vovô nunca provei, mas já comemos pão de mel juntos, que é quase a mesma coisa, né?

O vovô quando quer falar comigo me chama de lindo e eu fico olhando como se não soubesse direito, mas sei bem o que é ser lindo! Meus vovôs me lembram sempre disso. Sou o lindo do vovô e o lindinho da vovó! Isso não é pouco. Decididamente sou um garoto de muita sorte mesmo e sei disso, principalmente quando escuto o meu titio de nome estranho – Ando ou Anson, ah não sei – dizer que ele não sabe o que é ter vovô! Eu sei! Por isso peço para ir pra casa deles, peço pro meu pai os chamare para a minha casinha e não quero que ele vá embora quando me leva feijão, porque eu tenho sorte de ter vovôs que me chamam de lindo e principalmente porque nos fazemos felizes!

Monica


Perdoem-me a falta de precisão em meu relato, confesso que hoje, falar nela me transporta para um nível de consciência em que dispenso os detalhes maiores para poder me concentrar ao que realmente importa. A conheci em um dia incerto de um mês desconhecido em um ano não registrado e disso tudo, a única certeza é que nosso encontro aconteceu em uma época inconsequente, onde minha preocupação com a contagem do tempo rivalizaria com a atenção que dispensaria para a reprodução de uma planária.

Ela se mostrava, desde os primeiros momentos, sem filtros e rodeios. Sempre direta, deixava claro que não era o tipo de menina que levava desaforo para casa. Não senhor! Dona de uma personalidade forte e ao mesmo tempo romântica, Monica sempre soube muito bem o que desejava, de uma forma positiva, exigindo e impondo respeito com sua maneira peculiar de enxergar a vida.

Tenho certeza que seu pai não imaginou o impacto que as ações da pequena Monica representariam e a importância e influência que exerceria sobre gerações de garotas e garotos que tiveram contato com ela quando trouxe a vida e a registrou no distante 1963. Mauricio de Sousa foi extremamente feliz e sem perceber, mudaria a partir dali, principalmente a forma como as meninas se enxergariam através da personagem de vestido vermelho.

Monica mostrou, ao contrário do que alguns desejam fazer crer que o mundo é das mulheres e ela tem cumprido seu papel de embaixadora informal dessa bandeira de forma exemplar, sendo essencial ao reforçar essa mensagem. Mulheres fortes uni-vos, vocês podem tudo! Sempre e cada vez mais! Quando você começa a observar as que estão a sua volta, encontrará muitos exemplos que corroboram esse argumento.

Uma verdadeira Monica larga tudo para viver um romance em outra cidade, Estado ou País se esse for o seu desejo. Ela foca e planeja sua carreira sem a menor preocupação com os comentários de terceiros. A Monica raiz percebe que não precisa dos velhos modelos de relacionamento para se sentir completa, pode constituir uma família, viver sozinha, ser mãe solteira e até mesmo não aceitar o papel de reprodutora como meta de vida, sem medo algum das maledicentes tias. Uma Monica de carne e osso não aceita um não com a passividade de outrora, cobra respeito da sociedade, acorda cedo e dorme tarde correndo atrás de seu sonho. Esta Monica moderna é criativa, empreendedora e não quer depender de ninguém que não seja ela própria. A Monica do século XXI é justa e mal agradecida, doida e sã, pecadora e sacra. Sabe bem o que deseja e como se realizar.

Sabendo disso, cresci e me tornei um homem observador, dedicado a encontrar o máximo de Monicas em minha existência, para permanentemente aprender com elas a me tornar um elemento mais flexível, um ser humano decente e despido das visões arcaicas eternizadas por discursos vazios. Assim fui encontrando uma série de Monicas disfarçadas de Anas, Márcias, Adrianas, Fernandas, Marias, Robertas, Andreias, Vanessas, Sandras, Helenas, Milenas, Jussaras, entre tantas que me presentearam com seus exemplos e conquistaram minha eterna admiração.

Carta para Anna


Minha amada Anna,

Talvez devesse começar a escrever mais cedo, sabes como sou impreciso quando necessário e um relógio suíço quando é inútil. Compreendo que você queira respostas e satisfações e não uma série de desculpas e palavras evasivas, porém minha intenção jamais foi nos trazer a este ponto.  Preciso te pedir desculpa Anna. Reconhecer que nada aconteceu da forma que combinamos e imaginamos, e isso se torna mais doloroso, pois recordo claramente todo o planejamento e os ajustes que fizemos para passar alguns anos juntos.

Não pense que é fácil e cômodo. Saiba que existe nas profundezas do lago onde afoguei minha consciência, um remorso velado, imperceptível na superfície que deixo a mostra. Constantemente ao fechar os olhos, te vejo correr em minha direção com os braços abertos e o sorriso que desarma qualquer mau humor e me dói o peito saber que somente assim e em sonhos consigo relembrar teus negros e encaracolados cabelos e a vivacidade de teus olhos verdes. Estão aqui, em mim, cada vez que me permito pensar em ti.

Espero que você acredite em minha franqueza, pode soar como apenas a repetição inútil de uma frase vazia, mas me desculpe Anna por preferir escrever que dizer frente a ti que existe apenas um culpado por toda essa indefinição e impossibilidade de seguir em frente. Talvez você não acredite e se revolte, pelo medo que tenho do silêncio desta casa, a cada dia que passa mais distantes ficamos. A culpa não é tua. Nunca foi. Tive medo, hesitei quando não podia.

 Provavelmente não vais ler estas linhas, não sei onde vives agora, então para onde enviá-las? Talvez viva em alguma casa amorosa distante e não é fácil imaginar isso. Não, não precisa dizer que sou pessimista, apenas tento ser o mais realista possível. O sofrimento nascido das impossibilidades auto-impostas é um fardo pesado e indivisível. Porém saiba amada Anna, te quis sim em minha vida, mas não encontrei a hora para tua chegada e foi isso que desejei te dizer no sonho de ontem.

O mesmo local com o sol quente a beijar a grama da praça, o céu limpo de nuvens, com os gritos e risadas das crianças e os cães correndo capturando tua atenção enquanto brincava no balanço vermelho, o teu preferido! Tudo seria igual, acordaria em seguida e levaria a mesma rotina diária. Porém ontem o roteiro foi diferente; no auge de tua sabedoria infantil, me indagou – Papai está na hora de ir embora e já estou com saudades de novo! Quando você volta? Quando eu chego?

Domingos


Domingo, quero te encontrar e desabafar todo meu sofrer, estar ao seu lado, esquecer de tudo. Tudo que o amor até hoje nos fez sofrer, esse é o trecho de um pagode de sucesso nos anos noventa, que ressurgiu em minha mente enquanto descia as escadas claras da escola onde fui exercer meu dever de cidadão com direito constitucional de eleger os representantes do povo.

Todo o pleito envolve a disputa de idéias e doutrinas, algumas tão iguais que se confundem em uma simbiose duvidosa. Depois de anos em que a corrupção e o descaso se tornaram endêmicos, a polarização eleitoral foi a conseqüência lógica, dividindo uma vez mais os brasileiros. Estas reflexões me acompanhavam quando ganhei a rua e decidi tomar o caminho mais longo em direção a casa.

A escola fica próxima da rua em que nasci, cresci e vivi até meus dezessete anos e inesperadamente uma vontade de revisitar aquelas quadras onde passei as primeiras fases desta caminhada carnal. Entrei no carro, olhei para o volante e girei a ignição, engatei a ré e coloquei o bólido em movimento. O trajeto seria curto, a rua que homenageia um herói Farroupilha possui apenas nove quadras.

Entrei na primeira rua à esquerda, andei alguns metros e direcionei o carro para a direita. Iniciava minha viagem ao passado, apesar de dizerem que viver nele é prejudicial, pois acabamos atrelados ao que já aconteceu, recomeçando uma espécie de espiral. Para mim, revisitá-lo é ver a minha história com olhos distantes, capazes de perceber os acertos e erros. Tão simples quanto encontrar um resultado matemático.

Transversalmente na quadra inicial viveu meu padrinho. Um bom homem, que não procurava com a freqüência que merecia reflexo da imaturidade da idade, pelo menos pensar assim exime uma parcela da culpa que carrego. Outro motivo não haveria. Lembrava que morava em um prédio próximo a esquina. Talvez fosse aquele primeiro, não tenho certeza e se estivesse com meu pai ele cravaria a posição exata, ele sempre foi bom com estas questões geográficas. Determinei que fosse aquele prédio e mentalmente pedi perdão por meu descaso, acredito que os pensamentos chegam longe e aqueles a quem são destinados os recebem.

Cruzei a rua e logo à esquerda encontro a Igreja em que fui batizado e a qual freqüentei nos primeiros anos de caminhada espiritualizada. Nela fiz minha Comunhão, meu irmão foi batizado e minhas tias trabalharam. Também ali me prepararia para a realização do outro sacramento cristão, a Crisma. Provavelmente a tivesse feito se aquele que escolhi para Padrinho não tivesse partido tão cedo. Recordei como esse irmão de meu pai foi presente em sua vida e um tio amoroso, mesmo morando em outro Estado. Senti uma saudade boa, agradeci por tudo o que ele fez e pensou em fazer por nossa família.

Ainda faltavam mais duas quadras a percorrer, e a seguinte se encontrava entre a Gomes Jardim e a Santana. Procurei a casa onde minha primeira paixão platônica viveu. Eram casas geminadas que foram demolidas e onde hoje existe um estacionamento. Lembrei do loiro de seu cabelo e de seu físico irreparável para os anos adolescentes.  Esta quadra e a próxima, onde morei são as que guardam mais lembranças. Os dois restaurantes ainda existem, agora, com novos nomes e o armarinho que vendia de tudo, se transformou em ferragem. E assim a vida vai mudando seus ciclos, se refazendo e se recriando.

O primeiro restaurante era o “Prenda Minha”. Apesar do nome gaúcho, servia um Filé à Parmeggiana que era uma perdição. Quase todo final de semana, íamos buscá-lo ou almoçar ali. O Darci e o Pila tocavam o estabelecimento e estavam sempre disponíveis para um dedo de prosa; da manhã a noite o movimento era grande, em uma época em que as pessoas andavam e não corriam como hoje. 

A penúltima quadra é onde morei. Dela me lembro com mais detalhes e riqueza de histórias. Olhando para o lado da esquerda, perfilam-se três prédios de três andares, que eram diferenciados pela cor. O primeiro era azul, o segundo verde e no que morávamos rosa. Pelo lado direito, havia o Restaurante do Portuga, do seu Manoel que agora é um Sushi. Toda manhã havia forte concentração de taxistas e de vários trabalhadores da região que tomavam o desjejum antes da labuta. Era um movimento bárbaro! Colado a ele havia o armazém do Luis, um bonachão que vendia de tudo. Ki-suco, raspadinhas, fazia jogo do bicho, refrigerante, queijo da colônia, jornal, frutas e cigarros. O armazém teve vida mais longa que a do Luis, que passou a dormir nele e um dia simplesmente não abriu as portas. Partira durante o sono. Hoje o armazém não existe mais.

Entre o prédio verde e o rosa existe um espaço que deveria ser uma rua, que levaria até a Avenida Vicente da Fontoura, porém em uma destas inexplicáveis questões político administrativas, nunca saiu do papel. Pois ali, naquele espaço vivia uma Mangueira e sob sua sombra foi enterrado meu cordão umbilical. Nenhum dos dois existe mais, o cordão virou adubo ao se decompor e a árvore foi derrubada quando suas raízes começaram a surgir dentro dos apartamentos.  Naquele projeto de rua, jogávamos bola e uma das goleiras era o espaço entre duas árvores ao fim do terreno. Elas ainda estão lá, com os troncos mais grossos e encurvados.

Parei o carro e fiquei observando, lembrando das defesas que fazia ali e de tudo mais que acontecia. Os vizinhos desciam com suas cadeiras de praia no fim da tarde e conversavam entre eles. Nunca entendi como podia surgir tanto assunto, mas eles tinham e como tinham! E a gurizada em volta. Hoje está tudo gradeado, os carros continuam estacionados ali, mas estranhamente me lembrava do espaço ser maior. Talvez esse seja um mistério, um fenômeno típico a todos que crescem. Os lugares sempre parecem maiores e mais assustadores do que realmente eram.

A frente do prédio em que morávamos era enfeitada com uma cerca de Coroa de Cristo e neste pátio meus pais plantaram, quando se casaram, um Pinheiro. É dispensável dizer que nada disso existe mais, exceto o casamento de meus genitores. Os prédios foram pintados em tonalidades de marrom que escondem como ali existia vida e cor. Rapidamente lembrei que meses atrás, meio sem querer, descobri que o apartamento em que morávamos estava a venda. Entrei no anúncio e matei um pouco da saudade dele, constatei pelas fotos que a pia de pedra que meus pais ficavam escovando para que não criasse limo e gordura é a mesma, fazendo companhia para os azulejos originais de quatro décadas!

A casa que fica ao lado do prédio onde morei está lá! Agora não faz mais divisa com a casa da dona Carmen; o terreno que ela ocupava, junto com o Pátio da Moda e o terreno do Manoel, deram lugar a um arranha céu, fora dos padrões de verticalidade da rua. Igualmente a casa dos meus amigos de infância, onde nos reuníamos para comer bergamotas nas noites de inverno ainda existe, está lá, firme e forte. A tia e a vó, já partiram, ficaram somente a gurizada a quem não vejo há algum tempo. Desculpas e mais desculpas para tentar justificar o injustificável, mas assim são os ciclos da vida. Já devo ter dito isso. São muitas recordações. Inúmeras!

O muro em que ficávamos sentados durante a noite e inicio da madrugada e que cercava o Instituto de Pesquisas Biológicas do Estado não existe mais, cedeu lugar a cercas que fazem a proteção do local.  Ali andávamos de bicicleta, jogávamos bola, fazíamos estripulias típicas das crianças do século passado. Não sei qual, entre as muitas espécies de arvores plantadas ali possuía um odor característico que lembro perfeitamente, como se o sentisse agora. E assim, lentamente fui chegando ao final de minha viagem no tempo.

Ainda resistem as casas do seu José, a oficina mecânica que o dono abria após avisar que estava chegando com sua potente DKW cinza chumbo e o posto de gasolina. Quase nada está do jeito que deixei ao partir. Tolice minha pensar que seria diferente, afinal também não sou mais aquele adolescente que saiu de lá contrariado e com esperanças de voltar brevemente. E assim entrei na João Pessoa, desliguei a chave do passado, cantarolando domingo quero te encontrar e desabafar todo meu sofrer...

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

O Oitavo Dia



Não é segredo para aqueles que me conhecem, meu gosto pela leitura é enorme, rivaliza em grandeza com minha necessidade de escrever. E tenho feito de forma mais consistente e diária. Para que a mente se mantenha afiada, ela precisa estar ativa, para que a imaginação atinja os efeitos esperados é necessário devorar publicações. Nunca fui dado aos romances, prefiro a litura de poesia, contos, crônicas, livros de História e de Biografias. Esta última me conquista por completo, pois através dela, do contato com a história de outros, agregamos novas visões de vida, captamos o conhecimento ofertado e somos capazes de receber injeções extras de inspiração e exemplos de superação. Nunca esquecendo que uma de nossas primeiras tarefas quando chegamos neste plano é influenciar positivamente a vida daqueles que nos cercam e imprimir uma marca incapaz de ser apagada com o tempo. Sem isso, nada faria sentido.

Fiquei sabendo que haveria o lançamento do livro “O Oitavo Dia”, escrito em conjunto entre a fantástica escritora Letícia Wierczchowski e de Nelson P. Sirotsky, que é classificado pelo próprio desta forma – “Este não é um livro de memórias. Não é uma biografia. Não é uma história empresarial. Não é uma obra de ficção. Não é um romance. Não é um livro de revelações. O oitavo dia é um pouco de tudo isso”. Prontamente me interessei pela publicação, pois além de tratar da história da criação do Grupo RBS através dos esforços de Mauricio Sirotsky Sobrinho e de seus sócios, compartilhava a experiência profissional de Nelson e a herança Familiar e sua importância nessa caminhada.

Ter acesso a este volume tão grande de fatos e lembranças espontaneamente divididos com o público me proporcionou viajar no tempo e relembrar os anos que formei fileira no Grupo capitaneado por Nelson, sob a matrícula 060.770 entre os séculos XX e XXI. Minha caminhada teve inicio aos dezessete anos, mais precisamente no dia dezenove de dezembro de mil novecentos e noventa e quatro e terminou em março de dois mil e quatorze. Estranhamente não registrei em meu banco de memória o dia da partida. Talvez por sempre ter dito que tive data para entrar na Empresa, mas não sabia quando seria o dia da parada. Enfim.

Saber a origem de um sonho, como ele começou a germinar em terreno fértil e se desenvolveu de forma tão intensa, reforça ainda mais minha certeza de que nada é por acaso, que todas as pessoas, de uma forma consciente ou não, estão ligadas e sim, influenciam na existência do outro. Que bom conseguir perceber esse ensinamento enquanto ainda dispomos de tempo para multiplicá-lo. “O Oitavo Dia”, para mim, possui essa capacidade. É muito mais que um livro bem escrito, ele é o convite para uma reflexão, porque é impossível não se conectar com aquelas passagens, traçar um paralelo com suas próprias experiências.

Pessoalmente me realizei naqueles quase vinte anos completos. Conheci como diz Renato Russo, muita gente interessante, disposta a multiplicar conhecimento de forma espontânea e desinteressada, parceiros que possuíam um mesmo objetivo e que se compraziam com o crescimento dos colegas, pessoas incríveis que trouxe como uma herança maravilhosa e imensurável e com as quais falo diariamente, mesmo depois de tanto tempo. Os anos de RBS me proporcionaram viver amores inesquecíveis, casar com uma colega, financiar minha casa e aprender. Aprendi muito!

Pude perceber o quanto a existência do Grupo impactou minha vida, além do que já explanei, nele amadureci como cidadão e através da caminhada profissional pude freqüentar a Universidade, me graduar como Administrador de Empresas, embora os mais desavisados acreditem que sou jornalista – fato que muito me orgulha. Conquistei minha Especialização em Engenharia de Produção, retratando no artigo a produção no Parque Gráfico Jayme Sirotsky e tive a oportunidade de ser Gestor de um dos setores do Zero Hora.

Mirei o exemplo dos colegas mais experientes e com os gestores, aprendi boas práticas profissionais, tanto com os bons quanto com os não tão bons. Tive um privilégio enorme, porque em minha caminhada encontrei mais profissionais do primeiro do que do segundo grupo. Neles ainda busco a inspiração quando problemas surgem em minha nova ocupação. Não foram poucas as vezes que me perguntei o que A, B ou C fariam naquela situação crítica. Seguir estes exemplos é sempre garantia de bons resultados, e hoje passados quatro anos de nossa separação, olhando com o distanciamento do dia a dia, sou muito grato por esse ciclo. Não há como ser diferente!

Como conseqüência da leitura de suas histórias, recordei dos primeiros dias e das gafes que um jovem de dezessete anos poderia cometer ao entrar no mercado de trabalho. Coisas banais, mas que foram mostrando que o mundo fora do conforto da Família é infinitamente mais desafiador e regrado. Entre estas gafes, conto seguidamente a vez em que me pediram para ligar para uma secretária e perguntar se o Carlos estava. Lá foi o contínuo telefonar e sem cerimônia perguntou se o Carlos estava disponível para assinar um cheque de pagamentos. O detalhe é que ele era um dos Diretores e a secretária ficou indignada por um contínuo não usar o “Sr” antes do nome próprio. Confesso que fiquei com temor dela nos primeiros tempos e depois se transformou numa querida parceira que muito me mostrou os caminhos dentro da Empresa.

Outra feita ocorreu um dia após a conquista do Bi-campeonato da Libertadores da América pelo Grêmio em 1995. Como realizava minhas tarefas externamente não vi mal em ir trabalhar com o Manto Tricolor. Porém em uma destas jogadas mágicas e irônicas do destino, precisei falar pessoalmente com um dos Superintendentes da Empresa.  Cheguei a sua sala e a secretária não estava presente, sem cerimônia bati na porta semi aberta e escutei um “entra”. Quando adentrei na sala, ele me olhou bem e perguntou – “uniforme novo da Empresa?”. Respondi que não, que aquele era um dia de exceção em que demonstrava a alegria pela conquista esportiva. Recebi uma bela tréplica – “vocês jovens devem realmente comemorar, isso é bonito, mas que não se torne um hábito usá-la”.

Dois fatos que ensinaram que eu não estava isolado. Fazia parte de um conjunto e que representava uma Empresa, e minhas atitudes de certa forma impactavam na sua imagem. Assim vão se formando as pessoas e as criaturas. Procurei ser o melhor profissional possível, dentro das minhas limitações e gosto de pensar que consegui, apesar de ter sido muitas vezes intransigente na defesa daquilo que acreditava e julgava ser correto. O importante é reconhecer as falhas e tentar honestamente pedir desculpas pelos excessos. Fiz isso com três pessoas, dois ex-colegas e um cliente que se tornou amigo de loucuras literárias. Reconhecer-se errado é o primeiro passo para a melhoria.

Voltando a falar sobre “O Oitavo Dia”, ele é de uma sinceridade impressionante, com passagens realmente comoventes. Digo sem equivoco, será uma grata surpresa para quem decidir debruçar-se sobre ele. Para mim, o livro serviu como um gatilho, uma viagem de redescoberta, reforçou minha visão da importância da Família e do apoio dos Pais em nossa vida e principalmente lembrou que tudo é possível, com foco, seriedade, ética, empatia e profissionalismo! Tenho certeza que você também será positivamente impactado por ele.

E no final, desejo que todos sejam arrebatados da mesma forma que fui e desejem brevemente chegar ao seu Oitavo Dia!

domingo, 7 de outubro de 2018

Alice e o caminho das maravilhas


Ela havia recebido seu nome graças a história de Lewis Carroll. Não poderia ter melhor nome para ser registrada que Alice. Afinal ela possuía características encontradas na personagem que poderiam levar aos mais desavisados a acreditar que a ficção imitou a realidade. Procurava ser educada e cortês com todos, inclusive com os ruminantes bípedes que lhe encaravam pelas costas, enquanto desfilava pelas calçadas descuidadas do centro. Era impossível permanecer incólume em sua presença, ao longe se escutava o bater do salto fino do scarpin cor de vinho marcando o doce balanço enquanto seu derriére parecia lançar um provocativo “um pra ti, um pra mim, um pra ti, um pra mim” instigando a imaginação criativa de homens e mulheres.

Apesar disso, conservava inesperadamente uma ponta de introspecção fantástica. Poderia ser comparada com o mais envolvente thriller de suspense e não foram poucos os que desejaram desvendar seus mistérios e climas, porém era a Esfinge moderna, não concedia espaço para tentativas e nem para meio termos. O incauto representante masculino precisava se garantir, deixá-la livre, com espaço e vontade de retornar. Direta, deixava claro que entrara várias vezes na fila da confiança enquanto se preparava para descer ao mundo dos mortais. Havia decidido deixar os boçais em um canto esquecido da existência.

Invariavelmente ao chegar em casa, executava dois movimentos quase simultâneos, atirava o molho de chaves sobre a mesa e a bolsa no sofá vermelho, herança da amiga que tinha partido para a Europa. Tentaria a sorte primeiro na Irlanda, se não tivesse sucesso Escócia e Espanha estavam em seu radar. Ela já havia chamado Alice, mais de uma dezena de vezes para fazer o mesmo, largar tudo e aterrissar de corpo e alma em algum aeroporto do Velho Mundo. Tinha esse plano, mas apenas para turismo. Desejava conhecer a região de Champagne, os vinhedos franceses, as oliveiras gregas e os Alpes suíços. Mergulhar em Paris, almoçar em Berlin, dormir em Londres e percorrer Madrid. Sonhos e mais sonhos. Enquanto não aconteciam, viajava na internet conhecendo um pouco mais de seus futuros destinos.

 Alice era descontroladamente curiosa, nada lhe aparecia sem que esmiuçasse por completo a origem, a composição e serventia, afinal, conhecimento nunca é demais e pode ser uma importante desculpa para iniciar uma conversa ou uma aproximação e um flerte na sala de espera do dentista, na fila do pão e até mesmo para dividir os impressionantes resultados obtidos com a utilização de alvejantes sem cloro e a diferença que o alecrim proporciona num molho. Sim, é uma mulher fascinante e interessante, capaz de surpreender a cada passo.

O ritual pós lançamento duplo consistia em alimentar seus dois bichanos – Cheshire e Cruel – preparar a janta e impregnar pelo apartamento o perfume de lavanda que exalava de seu corpo após a ducha. Saía enrolada em sua toalha branca preferia, ligava o som e de forma eclética entre o samba e o pop rock internacional, escolhia quem lhe embalaria durante a viagem virtual. O escocês rouco e doido foi o escolhido da noite e começou cantando Sailing, enquanto ela ia clicando e pulando de página em página. Sem explicações lógicas, em mais um dogma da computação, iniciou sua pesquisa sobre a Brazilian Painted Lady e chegou ali, uma página de sexshop. Nunca lhe chamara a atenção este segmento do entretenimento adulto, mesmo passando diariamente na frente de um para o serviço.

Discreto, apesar da vitrine apresentar um manequim feminino com uma camisola bem provocante e uma algema no pulso, ela percebia que as pessoas paravam em frente a porta, olhavam rapidamente para os lados e entravam apressadas, como se aquele ritual as fizesse invisíveis para algum conhecido que estivesse furtivamente o observando. Achava engraçada aquela reação e apesar da curiosidade, nunca teve vontade de conhecer o que tinha lá dentro.

Encarou aquela como uma oportunidade excelente de visitar o mundo inexplorado do comércio de brinquedos e fantasias adultas, sem se expor. Lembrou do que faziam na rua, olhou para os lados. Primeiro o esquerdo e depois para direito, onde encontrou Cruel lhe observando com olhos que deixavam claro, ele sabia o que ela faria. Engoliu a seco, olhou novamente para a tela do PC e começou a percorrer os caminhos virtuais da loja.

Encontrou de tudo.  Livros, revistas, lingeries, dados, algemas, máscaras, chicotes, fantasias de enfermeira, professora, mulher gato, objetos que reproduziam partes do corpo humano. Achava tudo engraçado e até ingênuo. Nada demais até sua expressão mudar. Franziu a testa, olhou mais de perto, recuou, colocou a mão esquerda no queixo e se dedicou a explorar aquele item. As bolinhas eróticas.

Elas prometiam o nirvana, ganhos capazes de causar inveja aos investidores financeiros, tornar as promessas políticas em meros contos da carochinha, praticamente um reclame de prazer garantido ou seu dinheiro de volta. Bolhinhas que explodem e exalam perfume e gostos variados, de morango silvestre a caipirinha litorânea, que lubrificam, que esquentam e esfriam, vibratórias, que podem explorar o corpo dos amantes ou serem escondidas para aumentar o clímax do encontro carnal. Ruborizou ao ler os comentários de quem já havia usado o produto e recomendava aquela viagem inesquecível ao mundo do prazer.

Percebeu que estava na hora de ir dormir, colocar o corpo para relaxar e tentar frear o pensamento que já viajara até Marte e retornara mais intenso e louco. Deitou, não sem antes chamar Adriana no aplicativo de mensagens. Eram amigas desde a época de colégio, portanto a intimidade entre elas permitia que dissessem e fizessem tudo juntas. Não poderia se entregar a Morfeu sem antes dividir sua descoberta e as reações percebidas. A amiga escutou o áudio que enviara, contanto com detalhes as incursões noturnas.

Adriana lhe disse que estava perdendo tempo, que devia se permitir experimentar alguma novidade daquele mix de possibilidades e isso era pra ontem! Uma mulher que conhece a reação de seu corpo é dona de seu destino Alice! Não perde tempo! Se tu não for amanhã eu te arrasto pelos cabelos pra dentro da sexshop, ta ouvindo? Compro o que tiver que comprar e vamos encontrar a felicidade!

Adormeceu e sonhou. Uma banheira cheia daquelas esferas, misturadas, sem que ela soubesse o que cada uma lhe proporcionaria. Despiu a lingerie vermelha e entrou. Um pé após o outro, se apoiou nas bordas e deixou o corpo mergulhar e receber o efeito dos óleos em seu corpo. Ofegante fechava os olhos a cada nova explosão, estava entregue ao momento e estremeceu ao perceber que dois lábios lhe beijavam o pescoço e uma língua atrevida percorria a face, fazendo abrir os olhos. Era Cheshire a lembrar que a madrugada passara, o horário de começar um novo dia chegara.

Levantou, tomou banho e depois o balde de café, prendeu os cabelos, passou o batom vermelho nos lábios, calçou scarpin amarelos, meias e saia pretas e saiu apressada. Quase nove horas, desceu duas paradas antes de seu destino, caminhou uma dúzia de passos, parou, olhou para os lados, ninguém lhe observava entrou rápido, invisível aos olhares insidiosos e se atirou para o caminho da redenção.

Réu Confesso


“O amor em tempos de cólera”, obra do genial Gabriel Garcia Márquez, relata a história real de seus pais, o telegrafista, violinista e poeta Florentino Ariza por Fermina Daza. Porém como em toda boa e surpreendente história de amor, o pai da moça, tentou impedir o casamento, enviando a filha ao interior numa viagem de um ano. Como manter viva a chama do amor? Florentino, com a ajuda de amigos telegrafistas criou uma rede de comunicação que alcançava a amada, onde ela estivesse. Impensável um esforço igual nos dias de hoje, em que as relações se tornam breves. Eu mesmo, vil escritor, estou me tornando um ponto fora dessa curva, quando ultrapasso uma década de convivência conjugal, entre altos e baixos, atritos e convivências pacíficas.

Chegar até aqui foi possível graças ao que aprendi percorrendo a “Route Relacionamentos” com minhas primeiras companheiras; cada uma delas ajudou, com paciência e explosões a moldar quem sou hoje. Entre tantos ensinamentos, um dos mais notáveis foi o de não expor a vida do casal para quem fosse. Por este motivo, preciso confessar, me tornar um réu confesso que se surpreende quando presencia casais se declarando de forma efusiva nas redes sociais.

Compreenderia, entenderia e me emocionaria se estas declarações fossem feitas em tempos de guerra, quando os casais se despedem nos portões desgastados de sítios e fazendas, embaixo de alguma árvore que serviu de testemunha para o nascimento de seu amor ou ainda nas portas rústicas que presenciariam o último encontro daquelas almas destinadas a incerteza do amanhã, mas como me acostumar com a banalidade que se transformou o amor? Por mais esforço que faça, não obtenho sucesso.

Quando me deparo com casais a dividir, com uma grande platéia de conhecidos e desconhecidos os seus momentos banais, legendados com as declarações mais respeitosas e simples de posse, vejo que algo não evoluiu na caminhada do homo sapiens. Os clichês sofrem apenas diferenças com a posição dos elementos – eu e meu marido, minha esposa e eu, minha amada companheira, eu e meu eterno amor, para sempre namorados e uma enxurrada de variações e declarações que surgem do mesmo princípio. Deixar claro, todos precisam saber, que ali se apresenta uma pessoa comprometida e devotada. Perdoem minha frieza e incapacidade empática, mas ao invés de sentir uma ponta de inveja destes descobridores do Éden, como todo reles mortal deveria, sou tomado de uma onda de pena.

Compreendo dentro desta minha lógica humanista e difusa, que tais declarações são um grito desesperado de auto-afirmação, uma necessidade quase infantil e urgente de marcar território. Não basta mais deixar a calcinha pendurada no registro do chuveiro, a escova de dente no armário ou uma troca de roupas no roupeiro, estes sinais não são visíveis a distância. É necessário algo mais contundente, deixar claro aos olhos desavisados e sedentos de aventuras e paixões furtivas que aquele ser humano, dono de um CPF e capacidade mental está amarrado para todo o sempre ou fazendo uma analogia mais grosseira, que aquele pedaço de carne ambulante possui um (a) dono (a).

A cereja do bolo, o grande prêmio concedido a quem presencia tal fenômeno é ler a enxurrada de comentários favoráveis e incentivadores deste comportamento. Quando não existe crise, ela é criada por um gabinete instaurado dentro da mente criativa do declarante. Não foram poucas as vezes que li digitalmente textos bíblicos e barracos Homéricos, oriundos de simples comentários ou curtida de foto ou postagem. Meus olhos até hoje não se recuperaram por terem lido uma destas obras primas, em que a esposa criticava publicamente o fato de mulheres comentarem as publicações de seu companheiro, em um flagrante desrespeito a individualidade do parceiro.

Parece-me que a humanidade vive um momento sem volta, um retorno a fase da imaturidade, independente do tempo cronológico que se tenha na certidão de nascimento. A vida se torna menos surpreendente, pelo menos para mim. Não quero acreditar que existam irmãos que pensem desta forma. Acaso imaginam que a simples identificação civil de marido ou esposa, os torne imunes a traições e desilusões amorosas. 

Nestas horas sou impelido a buscar em meus arquivos mentais exemplos que desmistifiquem tais comportamentos. Recordo rapidamente de dois. O primeiro é de um casal de colegas que declaravam seus amores infinitos a seus respectivos cônjuges para quem desejasse ou não saber. Acreditava neles até o dia que os flagrei em beijos e abraços em uma rua pouco movimentada próxima ao trabalho, independente disso, continuaram firmes e fortes com seus relacionamentos nas redes sociais, causando inveja até nestes neófitos casais de duas semanas.

O outro caso é o de um casal que se mostrava exageradamente apaixonado. A esposa declarava a todos o quanto ele a fazia feliz, que antes dele sua vida era vazia e sem graça, um marasmo sem fim e por ai seguia em um desfilar de frases de efeito. Eis que o destino, este mimado brincalhão a presenteou como uma inesperada viuvez. Declarações de desespero substituíram as anteriores, a vida se tornara fria, sem sentido, o seu amor e real motivo de respirar não estava mais com ela. Não lhe aqueceria nas noites frias e tão pouco compraria o pão para o café da manhã. Cenário desolador que durou dois meses, quando encontrou um novo companheiro e o bombardeio de declarações de eterno amor ressurgiram em sua caminhada.

Não existe certo e errado nas coisas do coração, algum sábio já deve ter dito isso, ainda mais se ele leu o Soneto da Fidelidade de Vinicius de Moraes – “Eu possa lhe dizer do amor (que tive); Que não seja imortal, posto que é chama; Mas que seja infinito enquanto dure”. Independente, fico com o pensamento de minha bisavó, viúva antes dos quarenta anos que afirmava – “não se engane meu filho, viúvo é aquele que morre”.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Sempre há tempo


Os primeiros raios de sol rompiam o horizonte e encontravam como destino o canto de seu rosto. Era o despertador natural seguido do piar agudo e triste de uma ave que ainda não distinguira qual era. Olhou para o teto e observou o ventilador velho que cumpria bravamente seu papel, apesar de lançar o bafo quente do quarto fechado. A mania adquirida com uma antiga namorada lhe fez moradia, claro que por motivos diferentes. Ela não conseguia dormir com nenhuma claridade, ele apenas acreditava que no quarto fechado só entrariam boas vibrações, recordações e inspirações.

Olhou o relógio no pulso, marcava seis horas. Precisou confirmar com o do celular, afinal, nem sempre é possível confiar no tempo, o inclemente e severo mestre. A preocupação com o passar dos ponteiros, horas, dias, meses e anos era uma constante. Por vezes se pegava a pensar se todo aquele estilo de vida não era uma forma de provocar essa contagem instituída e seguida por todos. Lembrou de um poema que decorara por completo. O único em sua caminhada; riu o sorriso dos ingênuos e o recitou – “O tempo perguntou ao tempo, quanto tempo o tempo tem. O tempo respondeu ao tempo, que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem”.

Aproveitou que o sinal da internet estava cheio e antes mesmo de colocar os pés no chão acessou a rede social. Buscou atualizações e interações com seu perfil. Um colega curtiu seu comentário a respeito do transito caótico da cidade e da necessidade dos motoristas mais lentos trafegarem pela pista da esquerda, num notório esquecimento do que se aprende nas aulas de trânsito, veículos lentos devem se deslocar pelas faixas da direita. Infrutífero pensamento. Cinco amigos apreciaram a foto em que imortalizou uma casinha açoriana, com entradas pintadas de um azul celeste e parede branca. Passou a olhar a sua linha de tempo e encontrou piadas, frases sarcásticas, pensamentos tolos, músicas que atestavam o gosto musical duvidoso de alguns e o refinamento de outros. Seguiu sua busca até se deparar com uma postagem em especial. 

Fazia tempo que sua dona não aparecia nas buscas e ali estava ela a dar um bom dia especial. Não era nenhuma mensagem cifrada, nem escrita em letra bonita ou em papel que o valha. Simples, como devem ser os pensamentos que tocam uma alma – “Há quem fique contigo quando sobra tempo e há quem arranje tempo para ficar contigo. Aprende a diferença”. Tempo, tempo, oh tempo, novamente tu aqui! Recordou que a amara em segredo, baixinho, assim como ensinara Quintana, sem fazer alardes, afugentar os passarinhos e provocar tempestades tropicais.

Resolveu entrar no perfil e encontrou pensamentos, fotos, textos que reacenderam a fagulha adormecida. Sentiu a nostalgia dos amantes que não viveram e apenas se prometeram e juraram o impossível. Sentou na cama, tirou primeiro o pé direito e depois o esquerdo de cima do colchão, mas os pousou no solo na ordem inversa. Passou a mão na cabeça e tentou acomodar os cabelos com a mão esquerda enquanto segurava o celular com a direita. Continuou sua expedição virtual e descobriu uma publicação de poucos dias. Uma foto que registrava um grupo de adolescentes tomados da esperança e da ilusão tão própria daquela idade, o ano era 1993. Constatou dois fatos, já era bela no auge de seus quatorze anos e que aquela foi uma época pouco valorizada, pois a legenda era uma confissão – “E hoje olhando dá uma baita saudade”.

Deixou o aparelho de lado, levantou e foi até o som. Apertou o play e Malika Ayane trouxe vida a casa com sua “E se poi”; se tivesse escolhido, não acertaria em trilha melhor para sua reflexão matutina. Retornou a foto, imaginou o que ela fazia naquela idade, quais as dúvidas que a acompanhavam. Talvez já houvesse começado a planejar a festa de quinze anos ou ainda mais, decidido que ela era dispensável. Estaria enfrentando dificuldades nos estudos? Alguma matéria mais complicada a deixaria insegura de superar aquela série? Haveria entre aqueles jovens rapazes o foco de seu afeto?  Lembrou então que ele tinha dezessete à época, corria atrás de emprego, difícil de conseguir enquanto não recebesse a dispensa do Exército. Escutava Legião Urbana e se via como o Eduardo da música em busca de um lugar ao sol enquanto não encontrava sua cara metade.

Olhou para o relógio que portava no pulso direito, já era sete horas.  O desejo de revê-la tomou conta de seus pensamentos. Não tinha o telefone guardado na agenda do celular e tão pouco em sua memória, mas sabia que o havia anotado numa pequena agenda, perdida em algum canto da casa. Abriu a janela rispidamente, o sol invadiu com carga ligeira o quarto e ele iniciou a busca pelos sagrados números. Seria infinitamente mais fácil enviar uma mensagem com um oi ou até mesmo pedir novamente os nove dígitos. Porém ele queria surpreender da mesma forma que fora surpreendido ao ganhar uma barra de Diamante Negro entregue em uma tarde de outubro.

Depois de uma procura intensa os encontrou. Ali estavam, em sequência, o que buscava. Seria ainda dela o número? Lançou-os no aparelho transformando os nove dígitos na senha para o recomeço. Nova consulta ao marcador de tempo. Oito horas. Completou a ligação, um toque, dois toques, três toques – já decidira, desligaria no quinto toque – quatro toques e quando foi iniciar o derradeiro, escutou o alô.

Balbuciou um bom dia e engatou a série de questionamentos cordiais – Tudo bem? Como está? Atrapalho? Escutou mais do que esperava – Jamais me atrapalha, estou super bem e tu não vai acreditar, hoje pela manhã acordei pensando em ti. Sempre desconfiei que te importava muito comigo e que não percebia o quanto torcia pelo meu sucesso e nessa hora me dei por conta que fazia muito tempo que não nos falávamos.  E agora a tua ligação. Sinais do universo, hein? – Concordou com ela e antes que dissesse algo, ela emendou – “Já sei, vamos jantar hoje? Passa aqui em casa às oito horas, anota o endereço, porque sei que já deve ter perdido ele, temos que recuperar esse tempo perdido”. Anotou e se despediram com um breve até logo.

“O tempo perguntou ao tempo...” novamente recitou o poeminha tão verdadeiro.

sábado, 29 de setembro de 2018

Cléo, café e quindim


Entre as certezas que o simpático Manuel registrava em seu íntimo é que toda sexta-feira a tarde, eles apareceriam, independente das condições de temperatura e pressão atmosférica. Não importava se fazia um frio polar, um calor desértico, chuva fraca e vento intenso ou sopro e precipitação intensa. Era sagrado, às 16 horas entravam e cumprimentavam com acenos a todos e buscavam a última mesa que ficava previamente reservada e encostada na janela. Pegavam alguma revista do aparador e iniciavam a cerimônia milenar.

Raquel roubava a atenção de todos com seus cabelos loiros naturais cortados à altura do pescoço. A volúpia lhe fez moradia e todos conheciam muito bem suas preferências, pelo menos as gastronômicas. Uma xícara de café preto, forte, sem açúcar e um quindim. Pobre daquele que afirmasse que ela plagiava descaradamente o gosto refinado do poeta das coisas simples. Ela iniciava um bombardeio de justificativas para demonstrar que era uma tradição de sua família pelotense. Raquel era de uma candura e selvageria contrastantes. Gostava de ler as publicações de amenidades, para tensão, já bastava o mercado financeiro que encarava diariamente.

Relacionamentos longos como o de Raquel e Heitor guardam extremamente escondidas sob as mais absurdas sutilizas a sua verdadeira essência. Isso aprimorou a obsessão de Heitor pelos detalhes. Todos tinham a convicção que houvesse algum concurso para escolher a face do detalhista padrão, aquele reconhecido em todos os cantos do globo ele venceria com larga vantagem sobre o segundo colocado.  Os atendentes estavam calejados com suas manias e a forma com que apreciava ser servido. A caneca com o pingado longo, deveria ter sua asa direcionada para a direita da mesa, em uma angulo de dez graus em paralelo a linha central da mesa, para que sua mão, automaticamente a segurasse sem que precisasse desviar os olhos dos artigos automotivos.  A cereja do bolo ficava por conta do pão de queijo que deveria ser de um dourado uniforme, tarefa insana de ser atingida com perfeição.

Outro detalhe importante a ser observado, o café era sempre consumido em silêncio. Nenhuma palavra trocada entre eles, sempre em obsequioso silencioso! Sempre, sem exceções, pelo menos até aquele dia. Todos testemunhariam a quebra de um dogma e o rompimento das amarras das tradições que transformam certezas em dúvidas, dias em noite de forma traumática, independente de seu resultado. Nem tudo é uma operação matemática em que o somatório de duas duplas resulta em um quarteto.

“A Cléo está uma delicia, que mulher linda, por ela eu esquecia que sou casada. Não concorda?” – sentencia do nada Raquel.

Algo que não ensinam no grupo escolar é que este tipo de questionamento, oriundo do nada, em momentos de relaxamento e desatenção é capaz de desencadear uma catástrofe sem precedentes, a derradeira hecatombe. Terra para Heitor, Terra para Heitor. We have a problem! “Ela descobriu minha saliência com a atendente da academia. Estou acabado! Adeus existência carnal!” Começou a sofrer ao imaginar suas roupas sendo lançadas da janela, ao vivo teria um AVC quando acontecesse essa manifestação de carinho pós uma inocente cagadinha matrimonial.

“Oi? Quem?” – foi o máximo que conseguiu articular enquanto estudava alguma desculpa factível e reconhecia as rotas de fuga que se apresentavam.

“Heitor, onde estás com a cabeça? Como quem, a Cléo Pires. Aqui oh, vai me dizer que tu nunca reparaste. Vocês homens reparam até as barangas da esquina, imagina ela!” – disse lhe mostrando a deusa escalando uma cadeira, vestindo apenas uma camiseta, deixando suas coxas a mostra.

“Ah! Essa, sim, sim”.

“Como assim, essa Heitor, acaso existe outra Cléo que eu não conheça?”

“Claro que não Raquel, que idéia! Estava apenas distraído, fiquei preocupado com o que li, parece que a fábrica de carros...”

“Heitor, amor meu – interrompeu-o com ironia – estou aqui, dizendo que acho a Cléo uma mulher digna de entrar na nossa vida, que eu toparia viver um triângulo amoroso e tu fala de carro? Sério isso?”

Situações extremas requerem atitudes igualmente extremas. Este é o momento clássico, em que palavras se fazem desnecessárias. O silêncio torna-se imperioso e seguir as tradições já experimentadas e aprovadas é o único caminho seguro. Lembre do silencio! Todas as sextas anteriores foram acompanhadas dele, porque quebrar a rotina? Geralmente menos é mais, pensou ele antes de tentar justificar sua imperdoável gafe

“Desculpe, é que...” balbuciou ele, antes de ser atropelado por uma narrativa do que os três poderiam fazer juntos no recôndito do quarto, a região sagrada e dedicada a luxuria e devassidão.  Enquanto Raquel lhe sussurrava com sua metralhadora oral todas as fantasias e situações dignas de ruborizar a mais devotada meretriz, o cérebro masculino de Heitor entrou em um repentino trabalho de criação.

Imaginou aquele contraste de mulheres em sua casa. Uma loira e a outra morena, desfilando em trajes mínimos e talvez até dispensando os mesmos, entre a cozinha e a sala. Suspirou. Seria o rei de duas rainhas e os feitos de Artur de Camelot nada seriam perto dos dele.  Criariam odes a ele, o grande Heitor, filho de Mário, neto de Luis, descendente de Antônio “o conquistador”, jamais seria esquecido por ter encontrado com tanta facilidade o nirvana. Viu Cléo experimentando o brigadeiro feito na panela azul e oferecendo com o dedo indicado para a doce Raquel. Ele aproveitaria para pedir uma taça do Malbec mais encorpado quando elas viessem ao seu encontro. O paraíso! Perceberia os olhares invejosos dos vizinhos quando saísse com as duas entrelaçadas em seus braços e não se importaria, pois teria a certeza de ser o filho dileto do Criador!

Porém a felicidade e realização plena não se destinam para o homem simples, creia que em todo sonho perfeito, a introdução do tridente do pequeno rubro, surte o mesmo efeito do pó de pirlimpimpim.  Foi tomado da consciência do ônus que lhe causaria aquele sonho, transportado, sem escalas para o purgatório, onde uma tela gigante mostrou o inevitável. Shampoo em dobro, cremes corporais em profusão, teria que abrir mão de seu recanto criativo para que ali fosse declarado closet imperial, cabelos soltos no ralo, falta de espaço na cama, desavenças por blusas e sapatos, cartão estourado por compra de bolsas em dúzias, TPM dobrada, reclamações potencializadas por causa daquela toalha esquecida sobre a cama, implicância com o sagrado futebol de quartas, ciúmes exacerbado, mas o pior lhe foi revelado. O pavor de todo homem, para ele seria um castigo duplo – A sogra, ou melhor, duas sogras! Ele não merecia tamanha má sorte!

“Claro que isso tudo hipoteticamente, porque no mundo real a Cléo nem olharia pra nós” – foi a senha que autorizou o pouso na realidade da padaria. Olhou para os azulados olhos de Raquel e num rompante fez o que todo homem faria em seu lugar. Ergueu o braço e pediu a conta.