quinta-feira, 25 de outubro de 2018

O Oitavo Dia



Não é segredo para aqueles que me conhecem, meu gosto pela leitura é enorme, rivaliza em grandeza com minha necessidade de escrever. E tenho feito de forma mais consistente e diária. Para que a mente se mantenha afiada, ela precisa estar ativa, para que a imaginação atinja os efeitos esperados é necessário devorar publicações. Nunca fui dado aos romances, prefiro a litura de poesia, contos, crônicas, livros de História e de Biografias. Esta última me conquista por completo, pois através dela, do contato com a história de outros, agregamos novas visões de vida, captamos o conhecimento ofertado e somos capazes de receber injeções extras de inspiração e exemplos de superação. Nunca esquecendo que uma de nossas primeiras tarefas quando chegamos neste plano é influenciar positivamente a vida daqueles que nos cercam e imprimir uma marca incapaz de ser apagada com o tempo. Sem isso, nada faria sentido.

Fiquei sabendo que haveria o lançamento do livro “O Oitavo Dia”, escrito em conjunto entre a fantástica escritora Letícia Wierczchowski e de Nelson P. Sirotsky, que é classificado pelo próprio desta forma – “Este não é um livro de memórias. Não é uma biografia. Não é uma história empresarial. Não é uma obra de ficção. Não é um romance. Não é um livro de revelações. O oitavo dia é um pouco de tudo isso”. Prontamente me interessei pela publicação, pois além de tratar da história da criação do Grupo RBS através dos esforços de Mauricio Sirotsky Sobrinho e de seus sócios, compartilhava a experiência profissional de Nelson e a herança Familiar e sua importância nessa caminhada.

Ter acesso a este volume tão grande de fatos e lembranças espontaneamente divididos com o público me proporcionou viajar no tempo e relembrar os anos que formei fileira no Grupo capitaneado por Nelson, sob a matrícula 060.770 entre os séculos XX e XXI. Minha caminhada teve inicio aos dezessete anos, mais precisamente no dia dezenove de dezembro de mil novecentos e noventa e quatro e terminou em março de dois mil e quatorze. Estranhamente não registrei em meu banco de memória o dia da partida. Talvez por sempre ter dito que tive data para entrar na Empresa, mas não sabia quando seria o dia da parada. Enfim.

Saber a origem de um sonho, como ele começou a germinar em terreno fértil e se desenvolveu de forma tão intensa, reforça ainda mais minha certeza de que nada é por acaso, que todas as pessoas, de uma forma consciente ou não, estão ligadas e sim, influenciam na existência do outro. Que bom conseguir perceber esse ensinamento enquanto ainda dispomos de tempo para multiplicá-lo. “O Oitavo Dia”, para mim, possui essa capacidade. É muito mais que um livro bem escrito, ele é o convite para uma reflexão, porque é impossível não se conectar com aquelas passagens, traçar um paralelo com suas próprias experiências.

Pessoalmente me realizei naqueles quase vinte anos completos. Conheci como diz Renato Russo, muita gente interessante, disposta a multiplicar conhecimento de forma espontânea e desinteressada, parceiros que possuíam um mesmo objetivo e que se compraziam com o crescimento dos colegas, pessoas incríveis que trouxe como uma herança maravilhosa e imensurável e com as quais falo diariamente, mesmo depois de tanto tempo. Os anos de RBS me proporcionaram viver amores inesquecíveis, casar com uma colega, financiar minha casa e aprender. Aprendi muito!

Pude perceber o quanto a existência do Grupo impactou minha vida, além do que já explanei, nele amadureci como cidadão e através da caminhada profissional pude freqüentar a Universidade, me graduar como Administrador de Empresas, embora os mais desavisados acreditem que sou jornalista – fato que muito me orgulha. Conquistei minha Especialização em Engenharia de Produção, retratando no artigo a produção no Parque Gráfico Jayme Sirotsky e tive a oportunidade de ser Gestor de um dos setores do Zero Hora.

Mirei o exemplo dos colegas mais experientes e com os gestores, aprendi boas práticas profissionais, tanto com os bons quanto com os não tão bons. Tive um privilégio enorme, porque em minha caminhada encontrei mais profissionais do primeiro do que do segundo grupo. Neles ainda busco a inspiração quando problemas surgem em minha nova ocupação. Não foram poucas as vezes que me perguntei o que A, B ou C fariam naquela situação crítica. Seguir estes exemplos é sempre garantia de bons resultados, e hoje passados quatro anos de nossa separação, olhando com o distanciamento do dia a dia, sou muito grato por esse ciclo. Não há como ser diferente!

Como conseqüência da leitura de suas histórias, recordei dos primeiros dias e das gafes que um jovem de dezessete anos poderia cometer ao entrar no mercado de trabalho. Coisas banais, mas que foram mostrando que o mundo fora do conforto da Família é infinitamente mais desafiador e regrado. Entre estas gafes, conto seguidamente a vez em que me pediram para ligar para uma secretária e perguntar se o Carlos estava. Lá foi o contínuo telefonar e sem cerimônia perguntou se o Carlos estava disponível para assinar um cheque de pagamentos. O detalhe é que ele era um dos Diretores e a secretária ficou indignada por um contínuo não usar o “Sr” antes do nome próprio. Confesso que fiquei com temor dela nos primeiros tempos e depois se transformou numa querida parceira que muito me mostrou os caminhos dentro da Empresa.

Outra feita ocorreu um dia após a conquista do Bi-campeonato da Libertadores da América pelo Grêmio em 1995. Como realizava minhas tarefas externamente não vi mal em ir trabalhar com o Manto Tricolor. Porém em uma destas jogadas mágicas e irônicas do destino, precisei falar pessoalmente com um dos Superintendentes da Empresa.  Cheguei a sua sala e a secretária não estava presente, sem cerimônia bati na porta semi aberta e escutei um “entra”. Quando adentrei na sala, ele me olhou bem e perguntou – “uniforme novo da Empresa?”. Respondi que não, que aquele era um dia de exceção em que demonstrava a alegria pela conquista esportiva. Recebi uma bela tréplica – “vocês jovens devem realmente comemorar, isso é bonito, mas que não se torne um hábito usá-la”.

Dois fatos que ensinaram que eu não estava isolado. Fazia parte de um conjunto e que representava uma Empresa, e minhas atitudes de certa forma impactavam na sua imagem. Assim vão se formando as pessoas e as criaturas. Procurei ser o melhor profissional possível, dentro das minhas limitações e gosto de pensar que consegui, apesar de ter sido muitas vezes intransigente na defesa daquilo que acreditava e julgava ser correto. O importante é reconhecer as falhas e tentar honestamente pedir desculpas pelos excessos. Fiz isso com três pessoas, dois ex-colegas e um cliente que se tornou amigo de loucuras literárias. Reconhecer-se errado é o primeiro passo para a melhoria.

Voltando a falar sobre “O Oitavo Dia”, ele é de uma sinceridade impressionante, com passagens realmente comoventes. Digo sem equivoco, será uma grata surpresa para quem decidir debruçar-se sobre ele. Para mim, o livro serviu como um gatilho, uma viagem de redescoberta, reforçou minha visão da importância da Família e do apoio dos Pais em nossa vida e principalmente lembrou que tudo é possível, com foco, seriedade, ética, empatia e profissionalismo! Tenho certeza que você também será positivamente impactado por ele.

E no final, desejo que todos sejam arrebatados da mesma forma que fui e desejem brevemente chegar ao seu Oitavo Dia!

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