domingo, 30 de dezembro de 2018

Scotland

Ela escrevia há tempo para ele, em uma época em que as comunicações eram mais delicadas e difíceis do que estas trocas instantâneas de mensagem. Tinham o que poderia classificar de um canal aberto, em que se expressavam do jeito que bem entendessem. Falavam do tempo, da variação cambial, troca de estações, atraso do ônibus, fantasias, música, filosofia, literatura e cinema.

Naquela noite mais do que nunca ela estava com a mente afiada. Assistira durante a tarde a película em que Mel Gibson, no auge de sua fama, estreava a estória do escocês libertador e ali estava um combustível interessante. Provocou-o. Disse que lhe vira vestido daquele jeito, com kilt, tocando a gaita de fole sobre uma montanha enquanto o vento balançava seus pêlos ruivos.

Ele gostou. Mesmo que rapidamente, por uma questão de segundos, ele se sentiu parte dela, estava em seu pensamento de forma alegórica, mas estava. Desejou que realmente ela lhe visse assim, em comunhão com as forças da natureza, enquanto os pensamentos voavam rapidamente daquela cabecinha castanha.

Se despediram, ela disse que ia ao banho e ele ficou olhando para a tela fria e sem vida, pensando. Não nela, tirando peça por peça de roupa, até se mostrar natural e abrindo o registro do chuveiro, mas se conseguiria tirar alguma melodia do Queen em uma gaita de fole.

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