domingo, 30 de dezembro de 2018

Altas Horas

Olhei no relógio, era duas da manhã. Todos dormiam e a cidade em suas sombras descansava. Recuperava sua sanidade em meio as luzes altas dos prédios e os primeiros acordes canoros. Por vez escutava ao longe algum carro mais barulhento ou moto chamativa, a rasgar o silêncio da madrugada, sem pedir autorização alguma.

Pensei exatamente, naquele momento em escrever algo inteligente, que fosse capaz de te chamar a atenção para estes meandros do mundo, na igualdade tão desigual que fermenta no peito e cria uma indignação intangível. Pensei, busquei o PC, abri o e-mail, rabisquei meia dúzia de linhas e desisti. 

Desisti, não por um motivo especial ou algo do gênero, apenas desisti ao tomar ciência de algo inapelável. Você estaria dormindo.

E de que forma, me diga, eu poderia perturbar a santidade de teu sono? Por onde estaria tua alma liberta? Acaso em algum templo ou floresta? Estaria apenas descansando sem nenhuma viagem espiritual? Não quis mandar. Desisti. Me revi nesse movimento e aí percebi.

Aquela verdade inapelável, escancarada a minha frente. Você estaria dormindo, talvez de pijama, talvez não. Usando apenas uma gota de perfume, talvez mais! Estaria entre essa atmosfera do sonho e da realidade, exposta, tal a mais bela estátua majestosa, mármore em forma de carne. Perfeita em sua imperfeição e mesmo assim, desisti de escrever.

Desejaria que fosse o primeiro e-mail a ser lido, aquele que deseja bom dia ou que perturba logo cedo, marcante, surpreendente e apenas e tão apenas para me fazer presente. Porém, como me repeti, eu desisti.

E ao fazê-lo, continuei pensando de uma forma única em ti. Destas formas que não se deve destacar e tão pouco confessar, que levam a interpretações e caminhos infinitos igual a paixão dos poetas e dos amantes. Este caminho tortuoso e cheio de paradouros, de estações de embarque e desembarque. Pensei sim, confesso. Imaginei, pensei, sonhei, fantasiei e materializei. Assim, dessa exata maneira e ao perceber que as palavras seriam inúteis, desisti de escrever.






Levei meu corpo e alma para o quarto, se estavas dormindo e visitando o mundo de Morfeu, que outro lugar desejaria estar se não lá, para encontrar com aquela que, assim despretensiosamente, fez moradia na imaginação tardia de um velho escrevinhador?

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