Ele passou parte da sua vida
escutando as piadas sem graça acerca de sua identidade civil. Jeremias ao
contrário de seu homônimo musical, não era maconheiro e tão pouco sabia dançar.
Semelhante somente o fato de ser um tanto sem vergonha e que desaprendera a
rezar há muito tempo. Amadureceu a toques de facão, conhecendo a crueza e
dificuldade da vida. O esforço lhe foi compensado, advogado iniciante, defendeu
uma causa quase impossível contra uma grande corporação e venceu. Daquele dia
em diante, passou a ser um dos advogados mais requisitados e vencedor da
cidade.
Todo bônus carrega consigo um
ônus de igual grandeza, o seu era de dispor de pouco tempo para gozar os
prazeres da vida. Abria de toda forma uma exceção quando se tratava de sair
para jantar com Vanice. Conheceram-se ainda no segundo grau, quando ele tinha o
rosto tomado de espinhas, usava tênis de basquete e camisetas pretas enquanto
ela ostentava um corte moderno de cabelos ao estilo Bozo e preferia ombreiras e
casacos de toureiro. Definitivamente o tempo fora generoso com eles, em nada
lembravam aqueles adolescentes tomados de certezas.
Encontravam-se sempre no mesmo
restaurante. A localização privilegiada, no alto da cidade, permitia que
contemplassem toda a selva de concreto, emoldurada pelas luzes que iluminavam a
noite. Tinham elegido aquele local como o refugio das correrias e dissabores
que experimentavam, um momento de comunhão entre eles. Pediram a carta de
vinhos e escolheram um Catena Zapata Malbec. Fazia algum tempo que não se
encontravam, portanto, muito assunto para ser atualizado, comentar sobre as conquistas
profissionais, os perrengues emocionais e até mesmo as lembranças esquecidas em
cantos obscuros da mente, que incrivelmente ressurgiam quando estavam juntos.
Entre goles, diálogos e
garfadas,não necessariamente nesta ordem, Jeremias lembrou que recebera um
convite inusitado no inicio da semana e contou para Vanice. Durante uma
consulta em seu escritório, um casal, expressava a admiração por ele e como se
sentiam confortáveis em sua presença a ponto de lhe convidar para partilhar da
intimidade deles em um ménage. Assim, de forma direta este convite foi feito, como
se estivesse sido convidado para correr uma maratona ou ir a feira livre de
domingo. Gentilmente ele declinou, afirmando que se fosse para decepcionar duas
pessoas ao mesmo tempo ele preferia levar os pais para almoçar.
“Capaz, morri” – disse Vanice,
explodindo em uma risada que ecoou pelo salão do restaurante. Recuperada,
completou – “Pensando bem, tu foste perverso! Melhor fazer isso para não criar
expectativas e surpreender depois!”
“Não sabia que pode surtir
esse efeito. Vou começar a lançar esse artifício, vai que dê certo com alguém –
disse com jeito reservado, esperando a reação da amiga.
“Pois é, sempre dá certo, só
não pode ser demais, tem que ser na medida certa” – sentenciou olhando
diretamente nos olhos que a analisavam profundamente.
“Sempre dá certo?”
“Fica a dica, só isso.”
“Vou encarar como um incentivo
ou sei lá...”
“Coisa querida e ingênua da
minha vida, vamos sair daqui?” – Vanice sendo Vanice, direta!
Abriram a porta do apartamento
de Vanice, que estava iluminado apenas pelas luzes dos postes. Tudo em
silêncio, não se ouvia nada, um absoluto e necessário silêncio. Quebrado pela
primeira vez com o som das chaves aterrissando no tampo de madeira da mesa. Foi
a senha, a sequência necessária para que a tensão crescente chegasse a seu
ápice e explodisse. Iniciaram uma intensa briga de línguas, retiradas de
batalha apenas para que as bocas pudessem percorrer os pescoços alheios com a
vontade luxuriosa dos fins de noite, arfares continuavam a desvirginar o
outrora intocado silêncio. Roupas começaram a ser jogadas pela sala, sobre o
sofá vermelho ficaram o vestido listrado branco e preto e a camisa azul.
Pegou-o pela mão e o puxou
para o quarto, enquanto deixava a mostra um quarteto de belezas composto pela
nudez das costas e a tatuagem que a cobria inteira, a cintura desenhada e os glúteos
perfeitos. A cama estava intocada, esperando apenas a oportunidade para ser
desfeita, testemunha perfeita e discreta da devassidão que ali nascia e
crescia. Exploravam seus corpos sem pressa alguma, a noite era longa e sempre,
mas sempre, pode ser surpreendente. Escutaram um barulho na porta de entrada,
somente naquele momento lembraram-se de como foram desatentos, deixaram provas
espalhadas pelos cômodos sem recordar que morava mais alguém ali. Surpresos,
viram Natalia, colega de apartamento, entrar sala adentro vestida com um minúsculo
vestido de Mamãe Noel, um gorro e uma perneira rendada.
“Olhem só meus amores,
parabéns! Quem diria, o Natal chegou mais cedo para vocês, e eu serei o
presente! Posso?”
Rápida, sem esperar pela
resposta a sua pergunta, se juntou a eles e na medida em que a excitação aumentava
mais vontade de chorar Jeremias tinha. Por um simples motivo. Natal sempre lhe
deixava triste e nostálgico, sensível à época em que as crianças repletas de
esperança esperam com ansiedade os presentes do Papai Noel, após um ano de
comportamento questionável. Recordou das vezes que se comportara, mas não
recebera a visita do bom velhinho, chegou a pensar que Papai Noel não gostava
de ir à casa de pobres e quando aparecia nunca trazia o que lhe pedia. Descobriu
anos depois quem eram os verdadeiros Papai Noel. Nunca se recuperou do trauma infantil.
Não havia mais clima, apesar
de estar nos braços da morena e desejável Vanice e da voluptuosa e loira Natalia.
O guerreiro estava abatido, fora atingido em um lugar impossível de recuperação
– a mente! Começou a chorar o choro dos humilhados que não serão exaltados, o
choro miserável de quem perdeu a oportunidade de escrever uma página dourada no
livro das memórias. O choro daquele que percebe o quanto a vida pode ser
engraçada e ingrata, que somos peças no tabuleiro dos Deuses que nos mexem
conforme os dados rolam.
“Jeremias, Jeremias, Jeremias,
Terra para Jeremias, o que vamos pedir de sobremesa?”
Acordou de seu devaneio, ainda
estava no restaurante e Vanice, linda, bronzeada e plenamente vestida, estava
em sua frente, querendo escolher a sobremesa. Teve vontade de dizer que devia
ser ela, mas lembrou que estavam nos idos de Dezembro e o Natal se aproximava,
melhor não arriscar nenhuma jogada ousada e terminar a noite com o pouco de
dignidade que a inspiração lhe presenteava.
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