domingo, 7 de outubro de 2018

Réu Confesso


“O amor em tempos de cólera”, obra do genial Gabriel Garcia Márquez, relata a história real de seus pais, o telegrafista, violinista e poeta Florentino Ariza por Fermina Daza. Porém como em toda boa e surpreendente história de amor, o pai da moça, tentou impedir o casamento, enviando a filha ao interior numa viagem de um ano. Como manter viva a chama do amor? Florentino, com a ajuda de amigos telegrafistas criou uma rede de comunicação que alcançava a amada, onde ela estivesse. Impensável um esforço igual nos dias de hoje, em que as relações se tornam breves. Eu mesmo, vil escritor, estou me tornando um ponto fora dessa curva, quando ultrapasso uma década de convivência conjugal, entre altos e baixos, atritos e convivências pacíficas.

Chegar até aqui foi possível graças ao que aprendi percorrendo a “Route Relacionamentos” com minhas primeiras companheiras; cada uma delas ajudou, com paciência e explosões a moldar quem sou hoje. Entre tantos ensinamentos, um dos mais notáveis foi o de não expor a vida do casal para quem fosse. Por este motivo, preciso confessar, me tornar um réu confesso que se surpreende quando presencia casais se declarando de forma efusiva nas redes sociais.

Compreenderia, entenderia e me emocionaria se estas declarações fossem feitas em tempos de guerra, quando os casais se despedem nos portões desgastados de sítios e fazendas, embaixo de alguma árvore que serviu de testemunha para o nascimento de seu amor ou ainda nas portas rústicas que presenciariam o último encontro daquelas almas destinadas a incerteza do amanhã, mas como me acostumar com a banalidade que se transformou o amor? Por mais esforço que faça, não obtenho sucesso.

Quando me deparo com casais a dividir, com uma grande platéia de conhecidos e desconhecidos os seus momentos banais, legendados com as declarações mais respeitosas e simples de posse, vejo que algo não evoluiu na caminhada do homo sapiens. Os clichês sofrem apenas diferenças com a posição dos elementos – eu e meu marido, minha esposa e eu, minha amada companheira, eu e meu eterno amor, para sempre namorados e uma enxurrada de variações e declarações que surgem do mesmo princípio. Deixar claro, todos precisam saber, que ali se apresenta uma pessoa comprometida e devotada. Perdoem minha frieza e incapacidade empática, mas ao invés de sentir uma ponta de inveja destes descobridores do Éden, como todo reles mortal deveria, sou tomado de uma onda de pena.

Compreendo dentro desta minha lógica humanista e difusa, que tais declarações são um grito desesperado de auto-afirmação, uma necessidade quase infantil e urgente de marcar território. Não basta mais deixar a calcinha pendurada no registro do chuveiro, a escova de dente no armário ou uma troca de roupas no roupeiro, estes sinais não são visíveis a distância. É necessário algo mais contundente, deixar claro aos olhos desavisados e sedentos de aventuras e paixões furtivas que aquele ser humano, dono de um CPF e capacidade mental está amarrado para todo o sempre ou fazendo uma analogia mais grosseira, que aquele pedaço de carne ambulante possui um (a) dono (a).

A cereja do bolo, o grande prêmio concedido a quem presencia tal fenômeno é ler a enxurrada de comentários favoráveis e incentivadores deste comportamento. Quando não existe crise, ela é criada por um gabinete instaurado dentro da mente criativa do declarante. Não foram poucas as vezes que li digitalmente textos bíblicos e barracos Homéricos, oriundos de simples comentários ou curtida de foto ou postagem. Meus olhos até hoje não se recuperaram por terem lido uma destas obras primas, em que a esposa criticava publicamente o fato de mulheres comentarem as publicações de seu companheiro, em um flagrante desrespeito a individualidade do parceiro.

Parece-me que a humanidade vive um momento sem volta, um retorno a fase da imaturidade, independente do tempo cronológico que se tenha na certidão de nascimento. A vida se torna menos surpreendente, pelo menos para mim. Não quero acreditar que existam irmãos que pensem desta forma. Acaso imaginam que a simples identificação civil de marido ou esposa, os torne imunes a traições e desilusões amorosas. 

Nestas horas sou impelido a buscar em meus arquivos mentais exemplos que desmistifiquem tais comportamentos. Recordo rapidamente de dois. O primeiro é de um casal de colegas que declaravam seus amores infinitos a seus respectivos cônjuges para quem desejasse ou não saber. Acreditava neles até o dia que os flagrei em beijos e abraços em uma rua pouco movimentada próxima ao trabalho, independente disso, continuaram firmes e fortes com seus relacionamentos nas redes sociais, causando inveja até nestes neófitos casais de duas semanas.

O outro caso é o de um casal que se mostrava exageradamente apaixonado. A esposa declarava a todos o quanto ele a fazia feliz, que antes dele sua vida era vazia e sem graça, um marasmo sem fim e por ai seguia em um desfilar de frases de efeito. Eis que o destino, este mimado brincalhão a presenteou como uma inesperada viuvez. Declarações de desespero substituíram as anteriores, a vida se tornara fria, sem sentido, o seu amor e real motivo de respirar não estava mais com ela. Não lhe aqueceria nas noites frias e tão pouco compraria o pão para o café da manhã. Cenário desolador que durou dois meses, quando encontrou um novo companheiro e o bombardeio de declarações de eterno amor ressurgiram em sua caminhada.

Não existe certo e errado nas coisas do coração, algum sábio já deve ter dito isso, ainda mais se ele leu o Soneto da Fidelidade de Vinicius de Moraes – “Eu possa lhe dizer do amor (que tive); Que não seja imortal, posto que é chama; Mas que seja infinito enquanto dure”. Independente, fico com o pensamento de minha bisavó, viúva antes dos quarenta anos que afirmava – “não se engane meu filho, viúvo é aquele que morre”.

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