Entre as certezas que o
simpático Manuel registrava em seu íntimo é que toda sexta-feira a tarde, eles
apareceriam, independente das condições de temperatura e pressão atmosférica.
Não importava se fazia um frio polar, um calor desértico, chuva fraca e vento
intenso ou sopro e precipitação intensa. Era sagrado, às 16 horas entravam e
cumprimentavam com acenos a todos e buscavam a última mesa que ficava previamente
reservada e encostada na janela. Pegavam alguma revista do aparador e iniciavam
a cerimônia milenar.
Raquel roubava a atenção de
todos com seus cabelos loiros naturais cortados à altura do pescoço. A volúpia
lhe fez moradia e todos conheciam muito bem suas preferências, pelo menos as
gastronômicas. Uma xícara de café preto, forte, sem açúcar e um quindim. Pobre
daquele que afirmasse que ela plagiava descaradamente o gosto refinado do poeta
das coisas simples. Ela iniciava um bombardeio de justificativas para demonstrar
que era uma tradição de sua família pelotense. Raquel era de uma candura e selvageria
contrastantes. Gostava de ler as publicações de amenidades, para tensão, já
bastava o mercado financeiro que encarava diariamente.
Relacionamentos longos como o
de Raquel e Heitor guardam extremamente escondidas sob as mais absurdas
sutilizas a sua verdadeira essência. Isso aprimorou a obsessão de Heitor pelos
detalhes. Todos tinham a convicção que houvesse algum concurso para escolher a
face do detalhista padrão, aquele reconhecido em todos os cantos do globo ele
venceria com larga vantagem sobre o segundo colocado. Os atendentes estavam calejados com suas
manias e a forma com que apreciava ser servido. A caneca com o pingado longo,
deveria ter sua asa direcionada para a direita da mesa, em uma angulo de dez
graus em paralelo a linha central da mesa, para que sua mão, automaticamente a
segurasse sem que precisasse desviar os olhos dos artigos automotivos. A cereja do bolo ficava por conta do pão de
queijo que deveria ser de um dourado uniforme, tarefa insana de ser atingida
com perfeição.
Outro detalhe importante a ser
observado, o café era sempre consumido em silêncio. Nenhuma palavra trocada
entre eles, sempre em obsequioso silencioso! Sempre, sem exceções, pelo menos
até aquele dia. Todos testemunhariam a quebra de um dogma e o rompimento das
amarras das tradições que transformam certezas em dúvidas, dias em noite de
forma traumática, independente de seu resultado. Nem tudo é uma operação
matemática em que o somatório de duas duplas resulta em um quarteto.
“A Cléo está uma delicia, que
mulher linda, por ela eu esquecia que sou casada. Não concorda?” – sentencia do
nada Raquel.
Algo que não ensinam no grupo
escolar é que este tipo de questionamento, oriundo do nada, em momentos de
relaxamento e desatenção é capaz de desencadear uma catástrofe sem precedentes,
a derradeira hecatombe. Terra para Heitor, Terra para Heitor. We have a
problem! “Ela descobriu minha saliência com a atendente da academia. Estou acabado!
Adeus existência carnal!” Começou a sofrer ao imaginar suas roupas sendo lançadas
da janela, ao vivo teria um AVC quando acontecesse essa manifestação de carinho
pós uma inocente cagadinha matrimonial.
“Oi? Quem?” – foi o máximo que
conseguiu articular enquanto estudava alguma desculpa factível e reconhecia as
rotas de fuga que se apresentavam.
“Heitor, onde estás com a cabeça?
Como quem, a Cléo Pires. Aqui oh, vai me dizer que tu nunca reparaste. Vocês
homens reparam até as barangas da esquina, imagina ela!” – disse lhe mostrando
a deusa escalando uma cadeira, vestindo apenas uma camiseta, deixando suas
coxas a mostra.
“Ah! Essa, sim, sim”.
“Como assim, essa Heitor,
acaso existe outra Cléo que eu não conheça?”
“Claro que não Raquel, que
idéia! Estava apenas distraído, fiquei preocupado com o que li, parece que a
fábrica de carros...”
“Heitor, amor meu – interrompeu-o
com ironia – estou aqui, dizendo que acho a Cléo uma mulher digna de entrar na
nossa vida, que eu toparia viver um triângulo amoroso e tu fala de carro? Sério
isso?”
Situações extremas requerem
atitudes igualmente extremas. Este é o momento clássico, em que palavras se fazem
desnecessárias. O silêncio torna-se imperioso e seguir as tradições já
experimentadas e aprovadas é o único caminho seguro. Lembre do silencio! Todas
as sextas anteriores foram acompanhadas dele, porque quebrar a rotina? Geralmente
menos é mais, pensou ele antes de tentar justificar sua imperdoável gafe
“Desculpe, é que...” balbuciou
ele, antes de ser atropelado por uma narrativa do que os três poderiam fazer
juntos no recôndito do quarto, a região sagrada e dedicada a luxuria e
devassidão. Enquanto Raquel lhe sussurrava
com sua metralhadora oral todas as fantasias e situações dignas de ruborizar a
mais devotada meretriz, o cérebro masculino de Heitor entrou em um repentino
trabalho de criação.
Imaginou aquele contraste de
mulheres em sua casa. Uma loira e a outra morena, desfilando em trajes mínimos
e talvez até dispensando os mesmos, entre a cozinha e a sala. Suspirou. Seria o
rei de duas rainhas e os feitos de Artur de Camelot nada seriam perto dos dele.
Criariam odes a ele, o grande Heitor,
filho de Mário, neto de Luis, descendente de Antônio “o conquistador”, jamais
seria esquecido por ter encontrado com tanta facilidade o nirvana. Viu Cléo
experimentando o brigadeiro feito na panela azul e oferecendo com o dedo
indicado para a doce Raquel. Ele aproveitaria para pedir uma taça do Malbec
mais encorpado quando elas viessem ao seu encontro. O paraíso! Perceberia os
olhares invejosos dos vizinhos quando saísse com as duas entrelaçadas em seus
braços e não se importaria, pois teria a certeza de ser o filho dileto do
Criador!
Porém a felicidade e
realização plena não se destinam para o homem simples, creia que em todo sonho
perfeito, a introdução do tridente do pequeno rubro, surte o mesmo efeito do pó
de pirlimpimpim. Foi tomado da consciência
do ônus que lhe causaria aquele sonho, transportado, sem escalas para o
purgatório, onde uma tela gigante mostrou o inevitável. Shampoo em dobro,
cremes corporais em profusão, teria que abrir mão de seu recanto criativo para
que ali fosse declarado closet imperial, cabelos soltos no ralo, falta de
espaço na cama, desavenças por blusas e sapatos, cartão estourado por compra de
bolsas em dúzias, TPM dobrada, reclamações potencializadas por causa daquela
toalha esquecida sobre a cama, implicância com o sagrado futebol de quartas, ciúmes
exacerbado, mas o pior lhe foi revelado. O pavor de todo homem, para ele seria
um castigo duplo – A sogra, ou melhor, duas sogras! Ele não merecia tamanha má
sorte!
“Claro que isso tudo
hipoteticamente, porque no mundo real a Cléo nem olharia pra nós” – foi a senha
que autorizou o pouso na realidade da padaria. Olhou para os azulados olhos de
Raquel e num rompante fez o que todo homem faria em seu lugar. Ergueu o braço e
pediu a conta.
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