Minha amada Anna,
Talvez devesse começar a escrever
mais cedo, sabes como sou impreciso quando necessário e um relógio suíço quando
é inútil. Compreendo que você queira respostas e satisfações e não uma série de
desculpas e palavras evasivas, porém minha intenção jamais foi nos trazer a
este ponto. Preciso te pedir desculpa
Anna. Reconhecer que nada aconteceu da forma que combinamos e imaginamos, e
isso se torna mais doloroso, pois recordo claramente todo o planejamento e os
ajustes que fizemos para passar alguns anos juntos.
Não pense que é fácil e cômodo.
Saiba que existe nas profundezas do lago onde afoguei minha consciência, um
remorso velado, imperceptível na superfície que deixo a mostra. Constantemente
ao fechar os olhos, te vejo correr em minha direção com os braços abertos e o
sorriso que desarma qualquer mau humor e me dói o peito saber que somente assim
e em sonhos consigo relembrar teus negros e encaracolados cabelos e a
vivacidade de teus olhos verdes. Estão aqui, em mim, cada vez que me permito
pensar em ti.
Espero que você acredite em minha
franqueza, pode soar como apenas a repetição inútil de uma frase vazia, mas me
desculpe Anna por preferir escrever que dizer frente a ti que existe apenas um
culpado por toda essa indefinição e impossibilidade de seguir em frente. Talvez
você não acredite e se revolte, pelo medo que tenho do silêncio desta casa, a
cada dia que passa mais distantes ficamos. A culpa não é tua. Nunca foi. Tive medo,
hesitei quando não podia.
Provavelmente não vais ler estas linhas, não
sei onde vives agora, então para onde enviá-las? Talvez viva em alguma casa
amorosa distante e não é fácil imaginar isso. Não, não precisa dizer que sou
pessimista, apenas tento ser o mais realista possível. O sofrimento nascido das
impossibilidades auto-impostas é um fardo pesado e indivisível. Porém saiba
amada Anna, te quis sim em minha vida, mas não encontrei a hora para tua
chegada e foi isso que desejei te dizer no sonho de ontem.
O mesmo local com o sol quente a
beijar a grama da praça, o céu limpo de nuvens, com os gritos e risadas das
crianças e os cães correndo capturando tua atenção enquanto brincava no balanço
vermelho, o teu preferido! Tudo seria igual, acordaria em seguida e levaria a
mesma rotina diária. Porém ontem o roteiro foi diferente; no auge de tua
sabedoria infantil, me indagou – Papai está na hora de ir embora e já estou com
saudades de novo! Quando você volta? Quando eu chego?
Nenhum comentário:
Postar um comentário