quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Carta para Anna


Minha amada Anna,

Talvez devesse começar a escrever mais cedo, sabes como sou impreciso quando necessário e um relógio suíço quando é inútil. Compreendo que você queira respostas e satisfações e não uma série de desculpas e palavras evasivas, porém minha intenção jamais foi nos trazer a este ponto.  Preciso te pedir desculpa Anna. Reconhecer que nada aconteceu da forma que combinamos e imaginamos, e isso se torna mais doloroso, pois recordo claramente todo o planejamento e os ajustes que fizemos para passar alguns anos juntos.

Não pense que é fácil e cômodo. Saiba que existe nas profundezas do lago onde afoguei minha consciência, um remorso velado, imperceptível na superfície que deixo a mostra. Constantemente ao fechar os olhos, te vejo correr em minha direção com os braços abertos e o sorriso que desarma qualquer mau humor e me dói o peito saber que somente assim e em sonhos consigo relembrar teus negros e encaracolados cabelos e a vivacidade de teus olhos verdes. Estão aqui, em mim, cada vez que me permito pensar em ti.

Espero que você acredite em minha franqueza, pode soar como apenas a repetição inútil de uma frase vazia, mas me desculpe Anna por preferir escrever que dizer frente a ti que existe apenas um culpado por toda essa indefinição e impossibilidade de seguir em frente. Talvez você não acredite e se revolte, pelo medo que tenho do silêncio desta casa, a cada dia que passa mais distantes ficamos. A culpa não é tua. Nunca foi. Tive medo, hesitei quando não podia.

 Provavelmente não vais ler estas linhas, não sei onde vives agora, então para onde enviá-las? Talvez viva em alguma casa amorosa distante e não é fácil imaginar isso. Não, não precisa dizer que sou pessimista, apenas tento ser o mais realista possível. O sofrimento nascido das impossibilidades auto-impostas é um fardo pesado e indivisível. Porém saiba amada Anna, te quis sim em minha vida, mas não encontrei a hora para tua chegada e foi isso que desejei te dizer no sonho de ontem.

O mesmo local com o sol quente a beijar a grama da praça, o céu limpo de nuvens, com os gritos e risadas das crianças e os cães correndo capturando tua atenção enquanto brincava no balanço vermelho, o teu preferido! Tudo seria igual, acordaria em seguida e levaria a mesma rotina diária. Porém ontem o roteiro foi diferente; no auge de tua sabedoria infantil, me indagou – Papai está na hora de ir embora e já estou com saudades de novo! Quando você volta? Quando eu chego?

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