domingo, 30 de dezembro de 2018

A Passarela de Alice


Ela percorria as ruas do centro, sempre com a maestria das grandes modelos. Desenvolta, não caminhava e sim flutuava sobre as calçadas mal conservadas. O caminho era sempre o mesmo, saia de seu prédio, dobrava para direita e ia em direção a praça.

A superava em poucos passos e logo passava na frente da livraria de Tomaz. Ele já sabia o horário de seu desfile e quando se aproximavam os ponteiros do relógio, lá ele ia para frente do estabelecimento.

Naquele dia não foi diferente. Ela passou, não lhe olhou. Não proferiu um bom dia. Ele não se sentiu derrotado, superou as lentes dos óculos dela e mirou seus olhos. Os cabelos revoltos e bem cuidados lhe faziam imaginar o cheiro do shampoo. Como ela lavaria as medeixas. Apertaria os fios ou apenas os alisaria?

Olhou o todo. A blusa decotada lhe deixou ver partes lascivas do corpo. Uma tatuagem aparecia. Teria mais? Onde? Quais seriam os desenhos eternizados na pele alva?

O olhar continuou quedado sobre ela na medida que se distanciava. A saia preta e curta sambava a medida que os quadris se mexiam. Teve vontade de correr atrás da moça.

Porém seria chamado de louco, insano, doido de amarrar em poste. Ela poderia se assustar e nunca mais passar por ali. Perderia seu objeto de veneração.

Enquanto isso ela percorria seu caminho, pensava apenas em voltar e finalmente se declarar para o rapazinho bonitinho, porém tinha medo. E se ele, ali todo dia fosse apenas uma dessas coincidências?

E assim a imaginação do ser e do não ser, das impossibilidades lhes torturavam e roubavam a chance de um café no fim da tarde.

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