Os primeiros raios de sol
rompiam o horizonte e encontravam como destino o canto de seu rosto. Era o
despertador natural seguido do piar agudo e triste de uma ave que ainda não distinguira
qual era. Olhou para o teto e observou o ventilador velho que cumpria
bravamente seu papel, apesar de lançar o bafo quente do quarto fechado. A mania
adquirida com uma antiga namorada lhe fez moradia, claro que por motivos
diferentes. Ela não conseguia dormir com nenhuma claridade, ele apenas
acreditava que no quarto fechado só entrariam boas vibrações, recordações e
inspirações.
Olhou o relógio no pulso,
marcava seis horas. Precisou confirmar com o do celular, afinal, nem sempre é
possível confiar no tempo, o inclemente e severo mestre. A preocupação com o
passar dos ponteiros, horas, dias, meses e anos era uma constante. Por vezes se
pegava a pensar se todo aquele estilo de vida não era uma forma de provocar
essa contagem instituída e seguida por todos. Lembrou de um poema que decorara
por completo. O único em sua caminhada; riu o sorriso dos ingênuos e o recitou –
“O tempo perguntou ao tempo, quanto tempo o tempo tem. O tempo respondeu ao
tempo, que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem”.
Aproveitou que o sinal da
internet estava cheio e antes mesmo de colocar os pés no chão acessou a rede
social. Buscou atualizações e interações com seu perfil. Um colega curtiu seu
comentário a respeito do transito caótico da cidade e da necessidade dos
motoristas mais lentos trafegarem pela pista da esquerda, num notório
esquecimento do que se aprende nas aulas de trânsito, veículos lentos devem se
deslocar pelas faixas da direita. Infrutífero pensamento. Cinco amigos
apreciaram a foto em que imortalizou uma casinha açoriana, com entradas
pintadas de um azul celeste e parede branca. Passou a olhar a sua linha de
tempo e encontrou piadas, frases sarcásticas, pensamentos tolos, músicas que
atestavam o gosto musical duvidoso de alguns e o refinamento de outros. Seguiu sua
busca até se deparar com uma postagem em especial.
Fazia tempo que sua dona não
aparecia nas buscas e ali estava ela a dar um bom dia especial. Não era nenhuma
mensagem cifrada, nem escrita em letra bonita ou em papel que o valha. Simples,
como devem ser os pensamentos que tocam uma alma – “Há quem fique contigo
quando sobra tempo e há quem arranje tempo para ficar contigo. Aprende a
diferença”. Tempo, tempo, oh tempo, novamente tu aqui! Recordou que a amara em
segredo, baixinho, assim como ensinara Quintana, sem fazer alardes, afugentar
os passarinhos e provocar tempestades tropicais.
Resolveu entrar no perfil e encontrou
pensamentos, fotos, textos que reacenderam a fagulha adormecida. Sentiu a
nostalgia dos amantes que não viveram e apenas se prometeram e juraram o impossível.
Sentou na cama, tirou primeiro o pé direito e depois o esquerdo de cima do
colchão, mas os pousou no solo na ordem inversa. Passou a mão na cabeça e
tentou acomodar os cabelos com a mão esquerda enquanto segurava o celular com a
direita. Continuou sua expedição virtual e descobriu uma publicação de poucos
dias. Uma foto que registrava um grupo de adolescentes tomados da esperança e
da ilusão tão própria daquela idade, o ano era 1993. Constatou dois fatos, já
era bela no auge de seus quatorze anos e que aquela foi uma época pouco
valorizada, pois a legenda era uma confissão – “E hoje olhando dá uma baita
saudade”.
Deixou o aparelho de lado,
levantou e foi até o som. Apertou o play e Malika Ayane trouxe vida a casa com
sua “E se poi”; se tivesse escolhido, não acertaria em trilha melhor para sua
reflexão matutina. Retornou a foto, imaginou o que ela fazia naquela idade,
quais as dúvidas que a acompanhavam. Talvez já houvesse começado a planejar a
festa de quinze anos ou ainda mais, decidido que ela era dispensável. Estaria enfrentando
dificuldades nos estudos? Alguma matéria mais complicada a deixaria insegura de
superar aquela série? Haveria entre aqueles jovens rapazes o foco de seu
afeto? Lembrou então que ele tinha
dezessete à época, corria atrás de emprego, difícil de conseguir enquanto não
recebesse a dispensa do Exército. Escutava Legião Urbana e se via como o
Eduardo da música em busca de um lugar ao sol enquanto não encontrava sua cara
metade.
Olhou para o relógio que
portava no pulso direito, já era sete horas.
O desejo de revê-la tomou conta de seus pensamentos. Não tinha o
telefone guardado na agenda do celular e tão pouco em sua memória, mas sabia
que o havia anotado numa pequena agenda, perdida em algum canto da casa. Abriu a
janela rispidamente, o sol invadiu com carga ligeira o quarto e ele iniciou a
busca pelos sagrados números. Seria infinitamente mais fácil enviar uma
mensagem com um oi ou até mesmo pedir novamente os nove dígitos. Porém ele
queria surpreender da mesma forma que fora surpreendido ao ganhar uma barra de
Diamante Negro entregue em uma tarde de outubro.
Depois de uma procura intensa
os encontrou. Ali estavam, em sequência, o que buscava. Seria ainda dela o número?
Lançou-os no aparelho transformando os nove dígitos na senha para o recomeço. Nova
consulta ao marcador de tempo. Oito horas. Completou a ligação, um toque, dois
toques, três toques – já decidira, desligaria no quinto toque – quatro toques e
quando foi iniciar o derradeiro, escutou o alô.
Balbuciou um bom dia e engatou
a série de questionamentos cordiais – Tudo bem? Como está? Atrapalho? Escutou mais
do que esperava – Jamais me atrapalha, estou super bem e tu não vai acreditar,
hoje pela manhã acordei pensando em ti. Sempre desconfiei que te importava
muito comigo e que não percebia o quanto torcia pelo meu sucesso e nessa hora
me dei por conta que fazia muito tempo que não nos falávamos. E agora a tua ligação. Sinais do universo,
hein? – Concordou com ela e antes que dissesse algo, ela emendou – “Já sei,
vamos jantar hoje? Passa aqui em casa às oito horas, anota o endereço, porque
sei que já deve ter perdido ele, temos que recuperar esse tempo perdido”. Anotou
e se despediram com um breve até logo.
“O tempo perguntou ao tempo...”
novamente recitou o poeminha tão verdadeiro.
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