Ela havia recebido seu nome
graças a história de Lewis Carroll. Não poderia ter melhor nome para ser
registrada que Alice. Afinal ela possuía características encontradas na
personagem que poderiam levar aos mais desavisados a acreditar que a ficção imitou a
realidade. Procurava ser educada e cortês com todos, inclusive com os
ruminantes bípedes que lhe encaravam pelas costas, enquanto desfilava pelas
calçadas descuidadas do centro. Era impossível permanecer incólume em sua presença,
ao longe se escutava o bater do salto fino do scarpin cor de vinho marcando o doce balanço enquanto seu derriére parecia lançar um provocativo “um pra
ti, um pra mim, um pra ti, um pra mim” instigando a imaginação criativa de
homens e mulheres.
Apesar disso, conservava
inesperadamente uma ponta de introspecção fantástica. Poderia ser comparada com
o mais envolvente thriller de suspense e não foram poucos os que desejaram
desvendar seus mistérios e climas, porém era a Esfinge moderna, não concedia espaço
para tentativas e nem para meio termos. O incauto representante masculino
precisava se garantir, deixá-la livre, com espaço e vontade de retornar.
Direta, deixava claro que entrara várias vezes na fila da confiança
enquanto se preparava para descer ao mundo dos mortais. Havia decidido deixar
os boçais em um canto esquecido da existência.
Invariavelmente ao chegar em
casa, executava dois movimentos quase simultâneos, atirava o molho de chaves
sobre a mesa e a bolsa no sofá vermelho, herança da amiga que tinha partido
para a Europa. Tentaria a sorte primeiro na Irlanda, se não tivesse sucesso
Escócia e Espanha estavam em seu radar. Ela já havia chamado Alice, mais de uma
dezena de vezes para fazer o mesmo, largar tudo e aterrissar de corpo e alma em
algum aeroporto do Velho Mundo. Tinha esse plano, mas apenas para turismo. Desejava
conhecer a região de Champagne, os vinhedos franceses, as oliveiras gregas e os
Alpes suíços. Mergulhar em Paris, almoçar em Berlin, dormir em Londres e percorrer Madrid.
Sonhos e mais sonhos. Enquanto não aconteciam, viajava na internet conhecendo
um pouco mais de seus futuros destinos.
Alice era descontroladamente curiosa, nada lhe
aparecia sem que esmiuçasse por completo a origem, a composição e serventia,
afinal, conhecimento nunca é demais e pode ser uma importante desculpa para
iniciar uma conversa ou uma aproximação e um flerte na sala de espera do
dentista, na fila do pão e até mesmo para dividir os impressionantes resultados
obtidos com a utilização de alvejantes sem cloro e a diferença que o alecrim proporciona
num molho. Sim, é uma mulher fascinante e interessante, capaz de surpreender a
cada passo.
O ritual pós lançamento duplo
consistia em alimentar seus dois bichanos – Cheshire e Cruel – preparar a janta
e impregnar pelo apartamento o perfume de lavanda que exalava de seu corpo após
a ducha. Saía enrolada em sua toalha branca preferia, ligava o som e de forma
eclética entre o samba e o pop rock internacional, escolhia quem lhe embalaria durante a viagem virtual. O escocês rouco e doido foi o escolhido da noite e começou
cantando Sailing, enquanto ela ia clicando e pulando de página em página. Sem
explicações lógicas, em mais um dogma da computação, iniciou sua pesquisa sobre
a Brazilian Painted Lady e chegou ali, uma página de sexshop. Nunca lhe chamara
a atenção este segmento do entretenimento adulto, mesmo passando diariamente na
frente de um para o serviço.
Discreto, apesar da vitrine
apresentar um manequim feminino com uma camisola bem provocante e uma algema no
pulso, ela percebia que as pessoas paravam em frente a porta, olhavam
rapidamente para os lados e entravam apressadas, como se aquele ritual as
fizesse invisíveis para algum conhecido que estivesse furtivamente o observando.
Achava engraçada aquela reação e apesar da curiosidade, nunca teve vontade de
conhecer o que tinha lá dentro.
Encarou aquela como uma
oportunidade excelente de visitar o mundo inexplorado do comércio de brinquedos
e fantasias adultas, sem se expor. Lembrou do que faziam na rua, olhou para os
lados. Primeiro o esquerdo e depois para direito, onde encontrou Cruel lhe
observando com olhos que deixavam claro, ele sabia o que ela faria. Engoliu a
seco, olhou novamente para a tela do PC e começou a percorrer os caminhos
virtuais da loja.
Encontrou de tudo. Livros, revistas, lingeries, dados, algemas, máscaras,
chicotes, fantasias de enfermeira, professora, mulher gato, objetos que
reproduziam partes do corpo humano. Achava tudo engraçado e até ingênuo. Nada
demais até sua expressão mudar. Franziu a testa, olhou mais de perto, recuou,
colocou a mão esquerda no queixo e se dedicou a explorar aquele item. As
bolinhas eróticas.
Elas prometiam o nirvana,
ganhos capazes de causar inveja aos investidores financeiros, tornar as
promessas políticas em meros contos da carochinha, praticamente um reclame de
prazer garantido ou seu dinheiro de volta. Bolhinhas que explodem e exalam
perfume e gostos variados, de morango silvestre a caipirinha litorânea, que lubrificam,
que esquentam e esfriam, vibratórias, que podem explorar o corpo dos amantes ou
serem escondidas para aumentar o clímax do encontro carnal. Ruborizou ao ler os
comentários de quem já havia usado o produto e recomendava aquela viagem
inesquecível ao mundo do prazer.
Percebeu que estava na hora de
ir dormir, colocar o corpo para relaxar e tentar frear o pensamento que já
viajara até Marte e retornara mais intenso e louco. Deitou, não sem antes
chamar Adriana no aplicativo de mensagens. Eram amigas desde a época de colégio,
portanto a intimidade entre elas permitia que dissessem e fizessem tudo juntas.
Não poderia se entregar a Morfeu sem antes dividir sua descoberta e as reações percebidas.
A amiga escutou o áudio que enviara, contanto com detalhes as incursões
noturnas.
Adriana lhe disse que estava
perdendo tempo, que devia se permitir experimentar alguma novidade daquele mix de
possibilidades e isso era pra ontem! Uma mulher que conhece a reação de seu
corpo é dona de seu destino Alice! Não perde tempo! Se tu não for amanhã eu te
arrasto pelos cabelos pra dentro da sexshop, ta ouvindo? Compro o que tiver que
comprar e vamos encontrar a felicidade!
Adormeceu e sonhou. Uma banheira
cheia daquelas esferas, misturadas, sem que ela soubesse o que cada uma lhe
proporcionaria. Despiu a lingerie vermelha e entrou. Um pé após o outro, se
apoiou nas bordas e deixou o corpo mergulhar e receber o efeito dos óleos em
seu corpo. Ofegante fechava os olhos a cada nova explosão, estava entregue ao
momento e estremeceu ao perceber que dois lábios lhe beijavam o pescoço e uma língua
atrevida percorria a face, fazendo abrir os olhos. Era Cheshire a lembrar que a
madrugada passara, o horário de começar um novo dia chegara.
Levantou, tomou banho e depois
o balde de café, prendeu os cabelos, passou o batom vermelho nos lábios, calçou
scarpin amarelos, meias e saia pretas e saiu apressada. Quase nove horas,
desceu duas paradas antes de seu destino, caminhou uma dúzia de passos, parou,
olhou para os lados, ninguém lhe observava entrou rápido, invisível aos olhares
insidiosos e se atirou para o caminho da redenção.
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