domingo, 7 de outubro de 2018

Alice e o caminho das maravilhas


Ela havia recebido seu nome graças a história de Lewis Carroll. Não poderia ter melhor nome para ser registrada que Alice. Afinal ela possuía características encontradas na personagem que poderiam levar aos mais desavisados a acreditar que a ficção imitou a realidade. Procurava ser educada e cortês com todos, inclusive com os ruminantes bípedes que lhe encaravam pelas costas, enquanto desfilava pelas calçadas descuidadas do centro. Era impossível permanecer incólume em sua presença, ao longe se escutava o bater do salto fino do scarpin cor de vinho marcando o doce balanço enquanto seu derriére parecia lançar um provocativo “um pra ti, um pra mim, um pra ti, um pra mim” instigando a imaginação criativa de homens e mulheres.

Apesar disso, conservava inesperadamente uma ponta de introspecção fantástica. Poderia ser comparada com o mais envolvente thriller de suspense e não foram poucos os que desejaram desvendar seus mistérios e climas, porém era a Esfinge moderna, não concedia espaço para tentativas e nem para meio termos. O incauto representante masculino precisava se garantir, deixá-la livre, com espaço e vontade de retornar. Direta, deixava claro que entrara várias vezes na fila da confiança enquanto se preparava para descer ao mundo dos mortais. Havia decidido deixar os boçais em um canto esquecido da existência.

Invariavelmente ao chegar em casa, executava dois movimentos quase simultâneos, atirava o molho de chaves sobre a mesa e a bolsa no sofá vermelho, herança da amiga que tinha partido para a Europa. Tentaria a sorte primeiro na Irlanda, se não tivesse sucesso Escócia e Espanha estavam em seu radar. Ela já havia chamado Alice, mais de uma dezena de vezes para fazer o mesmo, largar tudo e aterrissar de corpo e alma em algum aeroporto do Velho Mundo. Tinha esse plano, mas apenas para turismo. Desejava conhecer a região de Champagne, os vinhedos franceses, as oliveiras gregas e os Alpes suíços. Mergulhar em Paris, almoçar em Berlin, dormir em Londres e percorrer Madrid. Sonhos e mais sonhos. Enquanto não aconteciam, viajava na internet conhecendo um pouco mais de seus futuros destinos.

 Alice era descontroladamente curiosa, nada lhe aparecia sem que esmiuçasse por completo a origem, a composição e serventia, afinal, conhecimento nunca é demais e pode ser uma importante desculpa para iniciar uma conversa ou uma aproximação e um flerte na sala de espera do dentista, na fila do pão e até mesmo para dividir os impressionantes resultados obtidos com a utilização de alvejantes sem cloro e a diferença que o alecrim proporciona num molho. Sim, é uma mulher fascinante e interessante, capaz de surpreender a cada passo.

O ritual pós lançamento duplo consistia em alimentar seus dois bichanos – Cheshire e Cruel – preparar a janta e impregnar pelo apartamento o perfume de lavanda que exalava de seu corpo após a ducha. Saía enrolada em sua toalha branca preferia, ligava o som e de forma eclética entre o samba e o pop rock internacional, escolhia quem lhe embalaria durante a viagem virtual. O escocês rouco e doido foi o escolhido da noite e começou cantando Sailing, enquanto ela ia clicando e pulando de página em página. Sem explicações lógicas, em mais um dogma da computação, iniciou sua pesquisa sobre a Brazilian Painted Lady e chegou ali, uma página de sexshop. Nunca lhe chamara a atenção este segmento do entretenimento adulto, mesmo passando diariamente na frente de um para o serviço.

Discreto, apesar da vitrine apresentar um manequim feminino com uma camisola bem provocante e uma algema no pulso, ela percebia que as pessoas paravam em frente a porta, olhavam rapidamente para os lados e entravam apressadas, como se aquele ritual as fizesse invisíveis para algum conhecido que estivesse furtivamente o observando. Achava engraçada aquela reação e apesar da curiosidade, nunca teve vontade de conhecer o que tinha lá dentro.

Encarou aquela como uma oportunidade excelente de visitar o mundo inexplorado do comércio de brinquedos e fantasias adultas, sem se expor. Lembrou do que faziam na rua, olhou para os lados. Primeiro o esquerdo e depois para direito, onde encontrou Cruel lhe observando com olhos que deixavam claro, ele sabia o que ela faria. Engoliu a seco, olhou novamente para a tela do PC e começou a percorrer os caminhos virtuais da loja.

Encontrou de tudo.  Livros, revistas, lingeries, dados, algemas, máscaras, chicotes, fantasias de enfermeira, professora, mulher gato, objetos que reproduziam partes do corpo humano. Achava tudo engraçado e até ingênuo. Nada demais até sua expressão mudar. Franziu a testa, olhou mais de perto, recuou, colocou a mão esquerda no queixo e se dedicou a explorar aquele item. As bolinhas eróticas.

Elas prometiam o nirvana, ganhos capazes de causar inveja aos investidores financeiros, tornar as promessas políticas em meros contos da carochinha, praticamente um reclame de prazer garantido ou seu dinheiro de volta. Bolhinhas que explodem e exalam perfume e gostos variados, de morango silvestre a caipirinha litorânea, que lubrificam, que esquentam e esfriam, vibratórias, que podem explorar o corpo dos amantes ou serem escondidas para aumentar o clímax do encontro carnal. Ruborizou ao ler os comentários de quem já havia usado o produto e recomendava aquela viagem inesquecível ao mundo do prazer.

Percebeu que estava na hora de ir dormir, colocar o corpo para relaxar e tentar frear o pensamento que já viajara até Marte e retornara mais intenso e louco. Deitou, não sem antes chamar Adriana no aplicativo de mensagens. Eram amigas desde a época de colégio, portanto a intimidade entre elas permitia que dissessem e fizessem tudo juntas. Não poderia se entregar a Morfeu sem antes dividir sua descoberta e as reações percebidas. A amiga escutou o áudio que enviara, contanto com detalhes as incursões noturnas.

Adriana lhe disse que estava perdendo tempo, que devia se permitir experimentar alguma novidade daquele mix de possibilidades e isso era pra ontem! Uma mulher que conhece a reação de seu corpo é dona de seu destino Alice! Não perde tempo! Se tu não for amanhã eu te arrasto pelos cabelos pra dentro da sexshop, ta ouvindo? Compro o que tiver que comprar e vamos encontrar a felicidade!

Adormeceu e sonhou. Uma banheira cheia daquelas esferas, misturadas, sem que ela soubesse o que cada uma lhe proporcionaria. Despiu a lingerie vermelha e entrou. Um pé após o outro, se apoiou nas bordas e deixou o corpo mergulhar e receber o efeito dos óleos em seu corpo. Ofegante fechava os olhos a cada nova explosão, estava entregue ao momento e estremeceu ao perceber que dois lábios lhe beijavam o pescoço e uma língua atrevida percorria a face, fazendo abrir os olhos. Era Cheshire a lembrar que a madrugada passara, o horário de começar um novo dia chegara.

Levantou, tomou banho e depois o balde de café, prendeu os cabelos, passou o batom vermelho nos lábios, calçou scarpin amarelos, meias e saia pretas e saiu apressada. Quase nove horas, desceu duas paradas antes de seu destino, caminhou uma dúzia de passos, parou, olhou para os lados, ninguém lhe observava entrou rápido, invisível aos olhares insidiosos e se atirou para o caminho da redenção.

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