Existe vida fora da temporada brasileira de futebol, acreditem irmãos hereges! Durante este período, que por uma destas coincidências incríveis, coincide com parte do verão, há elevação no número de reuniões em meses de bar.
Encontrei, em função deste fenômeno, o Mascarenhas. Colega dos tempos de Julinho, em uma época que pintavamos os rostos e percorríamos as ruas da Capital pedindo a cabeça presidencial. Um primor de época democrática recém nascida.
Mascarenhas também está na casa dos "enta", membro da tradicional família brasileira, pai de duas gêmeas, casado há mais de quinze anos com a namorada dos tempos de faculdade, é o típico cidadão bem sucedidos. Saudável, casa na cidade e na praia, carro bacana na garagem e um profissional muito requisitado. Talvez por isso tenha me surpreendido quando ele me disse - Cerva, não sei o que acontece comigo, mas apesar disso tudo que a minha vida é, eu não consigo me sentir feliz.
Só consegui olhar com surpresa e largar um - como é? Não entendi.
Isso aí Cerva, não consigo me feliz. Sei que é muita ingratidão, mas esse é um pensamento que me corroi, dia após dia.
E ele continuou sua confidencia como se estivesse em um templo religioso.
Eu nunca fui santo e vou te dizer, durante muito tempo eu tive uma namorada fora do casamento. Ela me completava, era o melhor e o pior que aconteceu na minha vida e eu a deixei ir.
Consegui apenas dizer que não acreditava no que escutava.
É verdade Cerva, a mais pura verdade. Eu estava apaixonado, entrei em um espiral de amor e prazer, pensava do amanhecer ao adormecer nela. Ela estudava na mesma faculdade, tínhamos os mesmos interesses, mas eu a deixei partir.
Não tive tempo de dizer nada, porque ele continuou.
Fui covarde! Quando ela pediu para morarmos juntos, a Cláudia me disse que estava grávida. Como é que eu poderia deixar ela desse jeito? E tu sabe o que é pior? Nunca quis ter filhos com a Cláudia. Uma lástima de tempo perdido, porque hoje ela é muito bem casada, mora fora do Estado e eu só queria uma única chance de voltar no tempo e não ser esse covarde que hoje sou. Queria infinitamente um novo recomeço.
Mascarenhas, virou o copo de cerveja, o encheu novamente, tomou agora metade do líquido, me olhou e questionou.
E aí, tu lembra daquela vez que fomos parar no s.o.e. porque pegavamos no pé daquela colega de sobrenome Pinto?
A minha antenção não estava mais ligada nos assuntos vindouros, só pensava no que Mascarenhas havia dito. Quantos perdem a oportunidade encilhada de ter uma vida com mais motivos para ser feliz por simples medo ou por se manter fiel às convenções falidas de uma sociedade falsa.
Olhando ali para o amigo de juventude, hoje um sério e respeitável membro da sociedade médica, entregue a tristeza profunda por não ter seu amor ao lado e mesmo assim estar resignado, lembrei da frase que escutei em um filme da sessão da tarde - resolvi cuidar melhor do coração dela do que o meu.
Nenhum comentário:
Postar um comentário