sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Roberta's Coffee


Creio que se algum instituto sério realizar uma pesquisa isenta entre os brasileiros de bem sobre qual a bebida que é preferência nacional, três rivalizarão pelo posto – café, cerveja e caipirinha, não necessariamente nesta ordem, porém todas com a letra “c” de seu nome em destaque. Uma bela trinca líquida! Aqui nos pagos as coisas seriam um pouco diferentes, entraria na contenda o bom e velho chimarrão e assim formariam um quarteto líquido imbatível! Vocês sabem, sou do contra, prefiro um bom Malbec, cultivado com esmero e afinco em terras Argentinas, coisas de gente esnobe, enfim.

Agora, se você conhece a Roberta, bom, você saberia o que é o amor e devoção de uma pessoa por aquela bebida negra e forte oriunda das terras da Etiópia. Tenho cá minhas dúvidas, mas penso que se houvesse essa possibilidade, ela ergueria uma estátua em homenagem ao sargento Francisco de Mello Palleta, responsável por ter trazido para estes trópicos a primeira muda desta inigualável planta no já distante 1727.

Pensando bem, assim, no silêncio deste inicio de madrugada, fico em dúvida sobre qual é o verdadeiro objeto de maior veneração e dedicação, porque a danada é apaixonada por aquele coroa meia boca chamado John Francis. Não conhece? Agora se eu disser John BonJovi, não só saberá quem é, como começará a cantarolar “Always”.

Suspeito, embora ela nunca tenha confessado que, essa paixão pelo gringo ianque foi a responsável por incentivá-la a tornar-se vocalista de pop rock. Quando você para e escuta aquela voz melódica e inconfundível de mezzo soprano, atesta que ela é capaz de rivalizar com a diva Madonna, que em meus tempos adolescentes era o sonho impossível de consumo!

É engraçado isso, porque conheço a Roberta há quase vinte anos, nos encontramos ao acaso na vida. A verdade é que ela foi trabalhar no lugar de uma destas santas mulheres que me aturou por determinado período de tempo e nunca perguntei o que a levou a amar o grisalho cantor. O melhor dessas amizades longas é a forma que vocês vão encontrando para conviver com as peculiaridades do outro, as manias, a vibração e a forma de encarar a vida.

Talvez por isso e somente por isso que no segundo jogo da disputa continental entre o mitológico e imortal Tricolor Gaúcho e um clube de menor monta da terra de los hermanos, ficava com um olho na televisão e outro no celular para que ela, colorada, me aguentasse “aporrinhando” a paciência nos noventa minutos de partida e o pós-jogo. Propus repetirmos a ação no mundial, mas ela desligou o celular. Mesmo que ela venha a negar, sei que fez isso, afinal, para que correr o risco de proporcionar ao rival uma nova conquista? Coisas de rivalidade Gre-nal!

A paixão da Roberta pelo café é de tal porte, que às vezes não são nove horas e ela me encaminha uma mensagem – advinha, eu já estou na terceira caneca, e tu? Geralmente estou iniciando o primeiro balde do dia, mania de gente estressada. Já imaginei por causa disso um diálogo fantástico e todos sabem, quem conta um conto, invariavelmente aumenta um ponto!

“Velho, tu nem sabe! Ontem sonhei que estava na primeira fila do show do BonJovi. Ele cantava olhando direto pra mim, incrível, parecia muito real. Eu sentia a vibração do som a todo o momento e tu não vai acreditar, ele me chamou ao palco e começamos a cantar You Give Love a Bad Name, foi demais! Quando eu percebi, já estava no camarim deles, todos eles estavam elogiando minha potência vocal e interpretação. Diziam que meu inglês era impecável e mais, me convidaram para participar da turnê deles, dá pra acreditar? Mas tu sabe né, sonho é sonho e no fim deu errado. Que raiva eu senti da audácia dele. O que pensa que eu sou?”

Eu perguntaria num misto de curiosidade e surpresa o que de tão grave o ancião roqueiro fez.

“Ele disse que só havia uma exigência para que eu pudesse acompanhar eles. Sério, o que ele pensa que sou? Uma vendida? Uma qualquer? Jamais, em hipótese alguma, sob nenhuma circunstância eu deixaria isso acontecer!”

Insistiria em saber e ela completaria da forma mais indignada possível.

“Ele não queria mais que eu tomasse café! Tu tem noção? Não né? Velho, jamais, em hipótese alguma eu abandonaria meu pretinho básico, nem mesmo por aquele pedaço de mau caminho!”

Sei que riríamos muito da situação, diria que ela não tem solução, é uma mocinha entregue ao mundo da perdição do vicio da cafeína, ela contra argumentaria que estou cada vez mais velho e ranzinza e por fim eu compreenderia que se dependesse apenas de sua vontade o mundo seria repleto de máquinas de café em cada esquina, rock e pôsteres do americano espalhados em todas as paredes.

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