quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Aquilo que deveria ser falado e se fez silêncio.

Poderia ser mais uma daquelas estórias perdidas de amor impossível, no melhor estilo Paulo que ama Mariana, que ama Luiz, que ama José, que ama Ana, que se entrega toda noite para Sandra, porém era muito mais do mesmo.

Luigi sempre teve uma mente prodigiosa para guardar aqueles pequenos e imponderáveis detalhes, recorda com maestria a primeira vez que falou com Monique, como se apresentaram e o que ela desejava. Existe um ditado popular sobre a impressão inicial que se tem de alguém, a dele foi que ela era mistério e estes sempre o fascinaram.

Passaram a falar todo dia, manhã, tarde, noite e madrugada, se apaixonaram sem pressa alguma dos amores juvenis, até o dia que o inevitável aconteceu. Era uma tarde quente e o telefone tocou, do outro lado Monique com sua voz inconfundível lhe deu boa tarde e sem nenhuma cerimônia foi direta – preciso saber e me diz agora, tu largarias tudo para ficar comigo?

Seu coração disparou, ele sabia a resposta que queria e deveria conceder, a razão lhe dizia que não havia motivo algum para sofrimento, somente era necessário dizer sim. Ele hesitou, pensou mais do que deveria e sem compreender, contrariando seu desejo, disse não. Ali, naquele instante, sem perceber ou dimensionar, começou a percorrer um caminho sem volta, sua covardia, assim escancarada selou seus destinos. Sem ter noção ele abdicou do direito de escrever novos e intensos capítulos daquela história.

Ele queria tanto dizer que ela era o melhor que acontecera na sua modesta e vazia vida, a paixão mais ardente, o sexo mais intenso, um encontro de almas com prazo indeterminado para voltarem a se separar. Não conseguiu. Um dia simples, daqueles que inicia com o nascer do sol e finaliza com o surgimento da lua, Monique novamente ligou – assim não dá mais para mim, eu quero, preciso e mereço ser cuidada, me entende, me deixa ir.

Luigi não teve tempo de dizer que sentia não ter beijado Monique na ponte de pedras coloniais, que se arrependia de não ter pedido para que ela ficasse aquela noite de verão em sua casa, negou que somente ela lhe despertara a vontade de ser pai, se arrependia de não ter subido a serra para uma fugida providencial da loucura da cidade grande. Luigi percebeu que deveria tê-la abraçado mais, ter caminhado de mãos dadas na orla de Ipanema com vento contrário e água nos pés. E ela partiu, voou alto, chegou onde ninguém havia ousado ir.

Passados alguns anos, tardiamente captou toda a coragem que existia nele e a procurou. Pediu desculpa pelas vezes que foi rude e grosseiro, estava sendo sincero e desnudo como não era há tempos. Ela estava feliz, muito feliz, realizada, amada, vivendo como sempre sonhou. Ele ficara feliz, afinal quem não torce e se compraz com a realização da pessoa amada? Apesar de amá-la, ela já não caberia mais em seus braços, talvez alguma brasa voltasse a causar um incêndio e ele não suportaria decepcioná-la uma vez mais.

Naquele justo momento Luigi aprender que amar é perceber que a outra pessoa está infinitamente melhor longe que junto, e em um paradoxo, faz com que o amor não seja justo, mas esta seria apenas mais uma injustiça solta nestes caminhos da Terra de Vera Cruz.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Conexões

Hoje a noite foi quebrada,
Uma série de idas e vindas,
Adormecer e despertar,
Entre eles, sonhava com ela,
Mordia e sorvia sua lingua,
Sentia a maciez do seio alvo,
E assim com estes anseios
Acordava com o calor nababesco,
Solapado pelo concreto armado,
Olhava as paredes e nada via,
Apenas sombras disformes
Nascidas da luz que invadia o quarto,

Voltei esperançoso ao mundo de Morfeu,
A despia sem pressa alguma,
Pois a mão que acena também acaricia,
Explora, percorre caminhos e cabelos,
Beijo da boca a ponta do pé,
Sem nenhum tipo de pudor.
Ouço os pedidos sussurrados e os realizo,
Novo despertar acompanhado de estampidos,
Ah essa vida moderna e insegura.

Não passam das três da manhã e ela dorme,
Alguma outra cama lhe recebe,
Martelo a ideia, chamo pelo pensamento
Venha até aqui, pense que tudo vale a pena,
Outro adormecer e o que esperar agora?
Meias 7/8 brancas, pulseira e brincos,
Vestida assim, abre a porta e me recebe,
Sem pressa e angústia, a verdade surge,
Mesmo em noites longas e quentes,
Onde existe nos sonhos o explícito,
E só há uma forma de despertar,
Cansado!

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

O Chamado

Tempos modernos trazem em sua concepção uma tediosa repetição de tarefas e, por favor, não me digam que vivo em uma sugestiva auto-sabotagem. Confesso meu desconforto com a sequência de reuniões que precisamos encarar em um dia. Precisamente hoje, neste santo dia de Agosto, em função de algumas mudanças organizacionais, foram três! A sorte é que todo ônus anda entrelaçado com o bônus e recebi em uma delas o amigo João Francisco. O Chico é um cara bem articulado, torcedor alvirrubro, apreciador de jogos da série B do campeonato nacional de futebol e jogador amador, que em sua juventude chegou a jogar com meu ex-sogro. Um bom praça com quem você fica horas conversando. 

Antes de iniciarmos a reunião ele comentou que havia lido a crônica que escrevi sobre a noite que passei com Anne Hathaway. Sim meus amiguinhos e amiguinhas, o titio já teve esta fantástica companhia. Não sabe quem ela é? Joga no Google ou dê um clique no link e saiba mais (minha-noite-com-anne). Enfim, passei a responder as curiosidades dele sobre em que momento comecei a escrever se há algum padrão de criação, enfim, no melhor sentido foi uma entrevista, a primeira e provavelmente a  única que concedi a respeito desta minha faceta.

Isso me fez pensar, colocar a massa cinzenta a trabalhar, porém não me recordei qual foi o primeiro texto guardado, mas a idade aproximada deve ter gravitado entre meus quinze ou dezesseis anos. Eram produtos infinitamente inferiores aos que hoje você tem acesso, não que tenham melhorado muito, que fique claro. Ainda produzo algumas linhas que só podem ser destinadas a gaveta do esquecimento e lá se juntam com estes primeiros trabalhos. Imagino que as palavras em conluio arquitetam a vingança diabólica, definindo o exato momento que deixarão de me auxiliar neste processo de descobertas e partilhas. Talvez seja a futura mãe de todas as batalhas, dependerá da belicosidade das palavras generais, da trilha sonora que era executada no momento em que foram concebidas e ganharam vida. Algumas nasceram do silêncio ensurdecedor das madrugadas, outras acompanhadas de clássicos e estas, agora, por exemplo, nascem abençoadas por um Jota Quest.

E para quem escrevi? O fiz para meus amores, que não foram poucos e nem tantos e sim na quantidade exata para se tornarem inesquecíveis, indeléveis e transformadores. Pode-se desejar ser mais para alguém do que esta tríade? Pode? Logicamente que falar somente de sentimentos te torna um piegas insuportável, é necessário equilibrar a dose, nem tanto ao céu e nem a terra. Para tudo nesta existência há de buscar o bom senso e este é de uma complexidade incomparável. Já produzi igual Zé Ramalho, devaneios tolos, percepções aguçadas pelo olhar do tempo, sacanagem pesada e leve, poemas pueris, desejos explícitos, a nudez e decrepitude da alma e o grito sufocado em gargantas e peitos perdidos na multidão.

Chegadas na estação mental em minutos, às vezes horas, dias, meses e anos. Não há como mensurar o tempo necessário para concatenar ideais e montar as peças. Pareço o Dr. Frankstein, na busca de vida para seu monstro, verificando que palavra melhor se encaixa na outra, se haverá ritmo ou se a narrativa se tornará enfadonha. E sim amiguinha do meu coração, não existe uma regra de bolo a ser seguida no melhor estilo – escreva com caneta preta, sobre folhas azuis, influenciado pela nesga de luz que invade teu quarto. Acredite, no exato momento em que começar a criar gatilhos produtivos, estará na hora de abandonar este ofício.

Talvez seja um autodidata que aprendeu equivocadamente a arte da escrita. Aquele que causa uma revolta no Panteão dos Mestres Escritores no momento que empunha a caneta ou dedilha apressadamente as teclas do computador do mesmo jeito desengonçado que fazia naquela Remington portátil dos anos 90. Agora a deslumbrante verdade, a claridade e salvação para os problemas da humanidade, a confissão esperada por anos – isso pode ser nada mais, nada menos que as conseqüências nefastas de um quase jornalista e sim, também já escrevi sobre isto (clique para saber mais jornalista-eu.html). Para toda ação existe uma conseqüência, as redações perderam um foca, a Administração ganhou mais um maestro e o mundo digital outro escritor da aldeia! Não consigo imaginar quem perdeu ou ganhou mais com estes tortuosos caminhos profissionais.


E isso pra dizer, que tudo vale à pena quando a alma não é pequena. Opa, Fernando Pessoa já nos presenteou com este mantra, cheguei atrasado! Bom, então o problema maior que se encontra em um momento crucial igual a este é definir a forma como encerrar um monólogo que conta com mais de 800 palavras com o mesmo clímax encontrado em seu desenvolvimento e principalmente mostrar ao Chico que tudo pode se transformar na criação de uma croniqueta, de uma pequena entrevista até uma proposta comercial, basta apenas querer e ter tempo para revisitar a oficina de criação chamada imaginação!

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Dentro de um Te Amo

Hoje fui paquidérmico, deixei a sensibilidade e o tato de lado e me senti igual um elefante em uma fina loja de cristais.  Início da tarde já contava cinqüenta e três minutos que esperava na fila de uma loteria para pagar os boletos. Sim meus pequenos, adultos recebem todo mês estas apavorantes cartinhas pelas quais precisam desembolsar uma quantidade de vil metal para ficar quites com os credores. Acreditem, é uma tortura!

Pois bem, fila em estado de letargia e eis que o sinal de mensagem instantânea acusa a chegada de mais uma destas famigeradas no smartfone. Quem e o que será?  É de uma amiga de alma sensível e pura que enviou aquelas correntes que migraram dos emails para os aplicativos de celular. Começava com uma declaração de amor aos amigos, principalmente aos melhores amigos. Bacana mesmo!

Porém nesse momento o espírito de ogro se apossou de mim, poderia e deveria ter sido mais humano, agradeci a lembrança e instintivamente disse que eu amo apenas a quem foi íntima. Mentira tosca, grossa, desnecessária. Cometi um sincericídio. Errei dessa vez, como o fiz em tantas outras.

Eu te amo virou vírgula, todos usam sem moderação e de tal forma, igual os antibióticos consumidos sem controle no passado, perdeu sua eficácia e uso. Sério, não consigo sair dizendo aos quatro cantos um eu te amo despretensioso. Não está em mim, talvez a astrologia explique ou os caminhos que percorri até aqui.

Classifico meus sentimentos e a forma pela qual os expresso ou denomino dependendo das pessoas. Parece lógico, mas vamos lá. Amo meus pais pelo motivo mais básico, quem eu seria sem eles? Claro, o amor não te causa cegueira, percebo as qualidades e os defeitos de ambos e os aceito e principalmente, sei que a recíproca é verdadeira. O mesmo sinto pelo meu sobrinho, o futuro King Arthur, pelo qual tento me tornar uma pessoa melhor e deixar um exemplo bacana, para que no futuro ele consiga lembrar em algum momento que aquele velho tio até não era tão chato assim. As pessoas que amamos nos modificam e nos inspiram desta forma sem nada pedir em troca.

Bom, então, de posse dessa declaração, você pode entender ou compreender erroneamente que não amo a mulher que divide as broncas comigo, aqueles boletos que falei no inicio, as ansiedades e incomodações. O sentimento é de um amor, não me entendam mal, menos intenso. Por quê? Porque amiguinhos, uma relação em que o sexo está inserido não pode ser comparada a uma em que apenas os laços mais profundos da alma se encontram.  Ele está mais para um amor-te-adoro, porque, ele não suporta tudo, não aceita passivamente tudo, não perdoa e nem esquece tudo. E foi assim exatamente que conduzi minhas relações com outras quatro ou cinco boas companheiras de história.

E os parentes, os amigos, os camaradinhas do futebol e do serviço? Bem, destes a gente gosta ou não, tolera ou não e os mais chegados ficam guardados em um panteão de bons próximos, aqueles amigos a quem seremos os primeiros a estender as mãos e que farão o mesmo em nossa direção.  Eles são os membros da família que vamos constituindo a cada amanhecer e nova experiência; gostamos deles e eles gostam de nós, mas creiam eles não serão compassivos toda a parte do tempo, os interesses podem mudar e isso não é um crime, porque nós humanos mudamos sempre. O certo de hoje pode ser o sumido de amanhã.

Amor é para raros, adorar para poucos e gostar é para um universo de pessoas, e isso não as faz mais ou menos importantes ou as dividem e separam, não! Aceitemos, assim é a vida, um enorme e instigante tabuleiro de resta um.

domingo, 9 de abril de 2017

Os nudes de Elma

Naquela noite de verão, sentados em volta da mesa do boteco, aquele grupo heterogêneo versava sobre todo e qualquer assunto que surgisse na cabeça, sem nenhum tipo de preconceito, versavam e transitavam entre a crise econômica até a rodada do campeonato nacional de futebol.

Olhando rapidamente, quem de fora estivesse, pensaria que ali estaria um grupo de machistas, porque a única mulher entre eles estava ao canto da mesa. Não sabem os desavisados, mas incrível e invariavelmente ela acompanhava essa turma. A representante única do sexo forte, que de tão forte, poderia ser identificada como um homem honorário.

Como assim “um homem honorário” pequeno gafanhoto? Explica-se de forma didática; entre os confrades reunidos, havia um que cunhara a expressão para identificar toda mulher que agüentava a conversa masculina com a mesma desenvoltura dos barbados, aquelas cujo, os camaradinhas não ficavam constrangidos em explanar suas idéias e pensamentos, além de ser dona de total discrição, aquela parceirona da galera.

Elma era um “homem honorário”. Certeza que era! Ela já ultrapassara a fronteira que separa as jovens ingênuas das mulheres realmente interessantes. Perspicaz e dotada de uma inteligência ímpar, defendia a bandeira do oposicionismo político das esferas atuais de poder e entre um gole e outro de Stella, escutava igual uma monja tibetana, o assunto esparramado naquela noite.

Hermínio versava sobre o tema-combustível humano – sexo, mas não era o pueril vendido nas revistas água com açúcar ou tão pouco o transgressor que vive esgueirado nas sombras da noite, era aquele que ficava no meio do caminho. Dizia ele que um casal de amigos passara a se aventurar em sessões de ménage, mas como toda boa sacanagem, havia limites e regras. Para que alguém participasse deste momento lúdico, independente de ser homem ou mulher, precisaria se entregar primeiramente ao marido, depois deste test drive a esposa estaria disponível para se entregar as festas de Baco. Doido não? Porém neste mundo, nada é como parece ser.

São em momentos iguais a este que surgem as maiores teses, alguns se espantaram e passaram a divagar sobre os motivos contrários a aceitar tal situação, nenhum admitindo que toparia uma brincadeira com estas regras e eis que candidamente Elma resolve usar uma fantasia de bombeiro e apaga o incêndio com um tonel de gasolina aditivada Premium de R$ 5,00 o litro.

_ Vocês sabem que eu nunca recebi nudes?

Espanto geral, principalmente para Henry que instantaneamente colocou sua oficina de maldades a funcionar. Seria ele o primeiro a introduzi-la ao mundo fantástico dos nudes. Sim, ele se tornaria inesquecível para Elma, seria lembrado em conversas futuras com um guru que a elevara a um novo patamar. Estava decidido, ela receberia nudes dele!

Puxou o celular do bolso, acessou a galeria de fotos, buscou e encontrou o que procurava. Agora era preciso ser um pouco mais ágil, acessar o aplicativo de mensagens e voilà! Porém, existe uma força oculta que impede a maioria das pessoas de cometerem desvarios enquanto estão inebriados de suco de morango. Ponderou, aquele não era o momento adequado; e se ela se ofendesse, aguentaria o escárnio público? A gozação desmedida dos confrades? Melhor não arriscar, na dúvida, jamais, em hipótese alguma ultrapasse a faixa tênue que separa a inteligência da babaquice.

Quando o pensamento retornou a mesa, já falavam sobre as andorinhas das chaminés tão populares em Portugal, quem os escutasse pensaria tratar-se de um grupo de mestres em ornitologia. Um primor como conseguiam transitar entre o profano e o sacro, da seriedade ao humor com uma rapidez nunca antes vista.

Henry foi para casa com a tarefa auto-imposta de apresentar Elma ao mundo dos nudes. Não conseguia conceber como aquela mulher nunca havia sido presenteada com um e principalmente, porque ela jamais tomara a atitude de mandar nudes. Sentou em sua poltrona preferida, começou a preparar o clima, abriu um Malbec de boa safra, sorveu modestamente o primeiro gole. Hotel Califórnia começou a ser executada na vitrola e o abajur herdado da tia-avó iluminava a sala.

Novamente sacou o celular, desbloqueou a tela com aquele monte de letras e números fantasiados de senha. Refez o trajeto até a galeria, constatou que não havia deletado as fotos por engano ou nervosismo. Era agora ou nunca, tomou mais um gole e junto com ele a coragem para escrever um recado para sua vítima.

_ Boa noite Elma, não pude deixar de pensar em tua confissão de jamais ter recebido nudes. Isso é um crime, quero ser eu o primeiro, aquele que vai se tornar o inesquecível condutor neste mundo fantástico. Envio estes, tomara que goste.

Aguardou a confirmação do recebimento, surgiu o primeiro tique, depois dois tiques  e por fim eles ganharam cor. Nenhuma reação imediata nos primeiros 20 segundos. Ansiedade tomando conta do ser e quando tudo parecia perdido ela começou a digitar. Henry se acomodou na poltrona, viria um xingamento? Um agradecimento? Apenas um boa noite?

Primeiro chegaram três carinhas sorrindo – bom sinal pensou ele. Depois aqueles grafismos representando gargalhadas e por fim uma declaração básica – tu não existe e mais risadas. Risos e mais risos, uma infinidade!

Não, ele não ficou ofendido com suas risadas surgidas de seus nudes. Não! Ele tinha a confirmação, acertara o alvo, ainda era o velho e bom atirador de elite, estava com o sexto sentido afiado, seu poder de impressionar ainda era latente.  Desejaram bom descanso um para o outro.

Henry se recostou na poltrona, seus olhos brilhavam e somente um pensamento lhe acompanhava como Elma conseguira viver sem receber nudes, tinha certeza que as fotos dos três esmaltes nudes que lhe mandara, já imaginava as unhas dela pintadas dessa cor. Aquela noite mudaria a vida dela, ele tinha certeza ou pelo menos pensava assim!

segunda-feira, 27 de março de 2017

A Yoga de Albano

Escritório, sete da manhã, modorrenta segunda-feira onde nada que devia acontecer ocorre e o que deveria acontecer nem manda noticias.  Silêncio quebrado com aquela indagação inquisitória.

_ Albano, tu nem sabe, ontem fiz uma hora e meia de Yoga! Que exercício, a gente meche com toda a musculatura, tu devia tentar um dia desses – assim, animadamente Patrícia bombardeou o pobre Albano, antes dele beber o primeiro gole de café.

Ela estava curtindo um momento fitness, cortando carboidratos, decepando doces de sua dieta e inserindo um programa rígido de atividades físicas que cansavam só de escutar. Duas horas de caminhada, intercalada por uma de bicicleta e mais duas de caminhada. Albano pobre coitado imaginava que um dia entraria no escritório e veria um palito de um metro e sessenta no lugar de Patrícia.

Ele só teve tempo de dizer que talvez tentasse novamente um dia.

_Como assim tentar novamente. Tu já fez Yoga? Quando isso criatura? Olhando pra ti jamais poderia imaginar!

O problema, pensou o pobre Albano, é que as pessoas pensam que as outras já nasceram velhas, com os problemas de junta ou visão. Não, elas foram esbeltas e desejadas, embora pareçam velhos Mavericks, tiveram sua época, hoje só bebem.

_Sim, fiz.

_Quando, conta, detalhes!

Patrícia era assim, instigava Albano, desejava saber detalhes, depois gargalhava alto, aquela risada solta, nascida sob o estomago e que ecoa de forma gostosa por toda sala. Não foram poucas as vezes que as pessoas olhavam Patrícia com a impressão de não entenderem patavinas.

_Deixa pra lá, disse o pobre rapaz.

_ Não! Quero saber, a gente até podia fazer juntos. Tu já fez o passo do tigre?

Ele suspirou e novamente suspirou e por uma última vez puxou mais fundo o ar para os pulmões.

_Patrícia, lembrar o tempo de Yoga me faz recordar principalmente a Professorinha e aquele... pausa dramática, ele havia ultrapassado a fronteira da segurança. Não havia retorno. Era calar ou enfrentar as conseqüências.
_Agora continua – decretou a inquisitora colega.

_ É que ela tinha um belo corpo que não foi satisfatoriamente explorado, só isso.

_Olha só Albano, não ou boba, se tu diz que era um belo corpo que não foi satisfatoriamente explorado, porque ele não foi?

Patrícia era esperta, pelas beiradas comia o mingau mais frio e arrancava as confissões mais calhordas do pobre Albano. Ele lembrou a primeira vez que foi ao Studio, presente da prima solteirona adepta a técnica e a forma como aquela morena o recebeu. Cordial o deixou a vontade, explicou as técnicas de relaxamento, perguntou se poderia acender um incenso e se o volume da musica estava de agrado.

Deitado no solo começou as técnicas de relaxamento, inspira, expira, inspira, expira, esvazia a mente, pense em nada e quanto mais ela falava, mais ele pensava nas curvas que a roupa escondia, no colo farto que despertava os desejos mais sacanas. Lá pelas tantas ela disse com voz aveludada, agora vamos fazer esses movimentos que imitam animais. Pra que? Pra que?

Naquele momento Albano percebeu que aquilo não acabaria da forma que esperava. Ela olhou para ele, a caça e languidamente perguntou se ele também estava com calor. Balançou afirmativamente a cabeça. Primeiro foi a blusa, depois a calça e se fez o fio dental vermelho. Desnecessário entrar em pormenores.

As aulas se repetiram outras vezes, invariavelmente a senha era a mesma – Albano,você também está com calor? Ele se sentia único, o dono do campo. Partia para casa tomado do poder concedido somente ao macho alfa. Os amigos sacaram que acontecia algo com Albano, o que afinal tu está aprontando mocorongo?

Ele relutou e por fim contou detalhe por detalhe o que acontecia nas tarde em que buscava o relaxamento profundo.Os amigos começaram a rir, mas do que galhofavam? Até que Orestes explicou, a Lucicleide fez isso com todos nós, ela prensa um baseado instantes antes de receber os alunos, fica doidona, vê elefante azul subindo pela parede e passa todos nós em revista. É uma devoradora de incautos.

O mundo de Albano desmoronara, não apareceu mais. Anos depois saudoso de suas aventuras resolveu ligar para o telefone que tinha da outrora amada e escutou o desabafo da nova dona linha – por favor, parem de ligar atrás dessa Lucicleide, é homem telefonando de manhã, a tarde, a noite, na madrugada, o que essa criatura fazia da vida? Albano pediu desculpa.

Soube depois pelo mesmo Orestes que Lucicleide havia feito um italiano se encantar por suas curvas nacionais e fora embora para o velho mundo, já tinha três filhos, virara uma matrona sustentada por pastas, gnocchi e outras iguarias.

_Hein Albano, aterrissa, porque o corpo não foi satisfatoriamente explorado criatura? Vai me deixar nessa gastura?

Rubro de vergonha por seu antigo papel, Albano disse misteriosamente


_A maconha – pausou e deu outro gole no café – a maconha causou isso e outras coisas que não me lembro mais.

Queen Daenerys Targaryen

Ela entrou no quarto, apressada, perdera a hora apesar de ter levantado antes do tempo. Onde estava o sapato, aquele amaldiçoado que combinava perfeitamente com o vermelho de seus cabelos? Não daria trinta anos para aquele rosto nem sob tortura, mas sim, ela começa a percorrer o caminho inevitável do amadurecimento físico e íntimo.

Precisava acordar o pequeno, deixar para a avó o preparo do café, já revisou os deveres de casa, muito a fazer, pouco tempo. O trânsito caótico era prenúncio do estresse que enfrentaria para percorrer os quase dez quilômetros de casa ao serviço. Não adiantava pegar a Avenida larga, ela estava parada! Sete horas da manhã.

Desce apressada, carrega bolsa, chave do carro, óculos na testa apesar do sol já castigante, não o repousa sobre os olhos, diz que enxerga melhor assim. Brinca que não é vampira, embora tenha minhas dúvidas. Corre, tropeça em mim, tudo cai menos sua cordialidade e seu humor quase raro. A ajudo nos agachamos e reerguemos sincronizadamente.

Agradece me dando um beijo estalado na bochecha, larga um bom dia escritor e amigo do coração e parte igual míssil desgovernado. Parte sem ter hora para voltar, mas me deixa com reflexões enquanto a observo entrar no carro. Soco no estômago é a primeira reflexão querendo gritar.

Ah morar no coração é uma das maneiras mais interessantes de te transformar em ser eterno. Não te iluda, pode ter sido a forma fofa e agradável de dizer – ok, você hoje está aqui, mas amanhã talvez não. Senha de acesso ao arquivo do drama. Drama, drama, drama o eterno, a forma de se dizer, jamais me deixe longe de você.

Afff, velho e dramático sacode a segunda. Já pensou que ela ache importante não deixar de ser a amiga próxima e quiçá musa do escritor de pantufas?Assim ela pode se tornar eterna. Imagine daqui uns cem, duzentos anos quando encontrarem os modernos papiros digitais, qual será a reação das pessoas? Serão ainda pessoas como o sabemos? Quem foi a moça vampira que andava sob o sol da manhã? Ela possuía uma má conduta, seria realmente portadora de uma dúbia conduta ou apenas personagem ficcional?

A terceira reflexão enciumada que ela só, reacende o incêndio, teria sido ela alguém próximo? Um amor não correspondido? Já sei, um amor que foi batido e embatumado, morto no forno do coração? Talvez ela não tenha sido nada disso, era a menina do balcão da padaria que servia apenas pão queimado e passado do ponto ou aquela desavisada eterna Lolita tatuada que passeava com o cachorro e o deixava fazer as necessidades a esmo, presente aos pés distraídos?

Poderia ter sido tudo ou muito menos. Não passasse de delírio do doido escriba ou sonho da noite intercalada por uivos vindos da esquina e gemidos do quarto de cima. Talvez, sempre o talvez, fosse tudo, nada, o principio, o meio e o fim e como cantou Lulu, o que eu ganho, o que eu perco, ninguém precisa saber!

Jornalista, Eu?

A maior parte dos meus anos de contribuição para aumento do PIB nesta República Tupiniquim se deu nas instalações de um Jornal. Não é um mero acaso para aqueles que conhecem um pouco de minha trajetória; sempre desejei ser jornalista. Considero importante esta capa com a qual eles são investidos, tornam-se modernos Dick Tracys, aqueles que dão a cara à tapa, correm atrás da notícia, apanham chuva, levam tapa na cara, ameaças de morte, tiros, bomba e num período conturbado da vida política, visitavam os porões sem saber se voltariam a ver o nascer do sol.

Tudo começou no final da primavera do ano em que a Seleção Canarinho saiu da fila na Copa do Mundo. O Real era um bebê forte e invocado que rivalizava com seu irmão mais velho, o Dólar de igual para igual, ninguém segurava o brasileiro. Estava vivendo um novo momento do cenário Histórico, chutara um Presidente democraticamente eleito, assumiu outro em seu lugar que ressuscitava carros e aparecia ao lado de modelos desnudas da cintura para baixo.

Pois bem, nessa bucólica República encontrei um amigo de anos e entre aquelas costumeiras perguntas que surgem destes encontros casuais, como estão todos, o que estão fazendo, enfim ele perguntou com qual idade eu estava. Após responder, ele quis saber se eu já estava dispensado do Exército de Caxias. Sim, estava e no auge dos meus dezessete anos, sonhos borbulhando, cabelos revoltos e tinha a vontade de ser útil para a sociedade e ter meu próprio dinheiro.

Ele comentou que havia uma vaga no setor dele no Grupo Jornalístico e que o procurasse no outro dia pela manhã. E lá me fui, cedo da matina ao encontro do meu destino, entrar pela porta da frente, ficar mais próximo do mundo da redação, da produção do periódico líder de mercado. Claro que nem tudo ocorre da maneira que se deseja, ainda mais quando se é um adolescente recém saído das fraldas, a vaga era para a área financeira. Ok vamos em frente!

Lembro perfeitamente de minha entrevista para adentrar nas fileiras do Jornal. Estavam sentados a minha frente o coordenador da área, um tipo sério com feições bugras e o representante dos recursos humanos, um cara muito gente fina e desenvolto como todo profissional de RH deve ser. Perguntas aqui, outras ali, aquele clima de descontração e eis que surge a indagação crucial – Qual o motivo que te faz querer trabalhar conosco?

Resposta direta de bate pronto, paulada certeira iguais as do Arce batendo uma falta pelo Grêmio – Ser Jornalista. Quero em quatro anos estar na Redação! A audácia e a impertinência sempre foram características que me acompanharam, não tanto agora que já estou na meia idade, pois bem, fui contratado, lógico que o Q.I. foi imprescindível para um adolescente conseguir o primeiro emprego em uma das maiores Empresas do Estado. O importante é que estava dentro.

Incrível, mas sem saber, em uma semana estava na Redação, logicamente que não escrevendo, mas levando notas, buscando autorizações de faturamento e despesas. Fiquei na área em que fui contratado por pouco mais de um ano, não agüentava mais aquela vida, a grana curtíssima e o sonho de entrar e pagar a Faculdade cada vez mais distante. Consegui uma vaga em outra área que vejam só, possibilitava aos jornalistas independentes, entidades de classe, clubes e uma infinidade de clientes a imprimirem seus jornais nas Máquinas do Jornal. Para os iniciados, elas possuem outro nome – Rotativas! Vocês pelo menos em filme já as viram, o cara entra apressado e grita: Parem as rotativas, temos que mudar a matéria sobre os pesticidas ou algo parecido.

Aqueles que trabalham ou labutaram nessa área, podem atestar e não me deixar mentir sozinho como é viciante toda a atmosfera de produção de um Jornal. O cheiro do papel misturado a tinta que não sai das narinas exerce papel de ópio, enquanto o barulho dos cilindros das chapas e do motor da máquina são a trilha sonora perfeita para dar vida ao mensageiro de notícias diárias, semanais, mensais e de periodicidades infinitas.

Durante os dezenove anos que seguiram, conheci e convivi com fantásticos jornalistas, aqueles da velha escola, os cascudos, dinossauros que caminhavam entre os pobres mortais sem que muitas vezes me desse conta da importância daqueles momentos. Jovem geralmente é assim, dispersivo ao que interessa.

Não tentaria ser audacioso ao ponto de citar o nome de todos este míticos seres, incorreria no erro primário do homem – ser injusto. Porém, cito dois que me faziam parar toda a tarefa que porventura estivesse fazendo para escutar: Jayme Copstein, que recentemente partiu para narrar histórias em outro plano e que não havia vez que não parássemos para trocar uns dedos de prosa; com ele aprendi que o rádio possui um delay de alguns segundos e que a bandalheira vai ao ar somente se o apresentador permitir e Tibério Vargas, Mestre de uma das mais conceituadas Universidades de Jornalismo do Estado, que tem um compêndio de causos e momentos Históricos que transformam cinco minutos de conversa em uma aula completa, além de fantástico escritor!

Invariavelmente, fazemos um plano e a vida nos mostra que ele deve ser refeito. Não cursei Jornalismo, me formei em Administração me especializei em Engenharia de Produção o que alguns dizem ser Gestão Industrial, mas continuei orbitando onde Jornalistas estavam. Tanto que certa vez conversando com uma recém apresentada amiga, ela confidenciou; pensava que tu era Jornalista. Foi um dos equívocos que mais me envaideceu.

Não menosprezo em nenhum momento a carreira abraçada, muito pelo contrário sei que a Administração move o mundo, que nós, enquanto Administradores somos os regentes da orquestra, mas bate aquela ponta de inveja de quem tem a possibilidade de levar a informação à população. Aqui talvez eu cometa um pecado, mas penso exatamente assim – levar a informação, refletir e tomar partido frente a ela cabe ao leitor, ouvinte, telespectador. Inicio e fecho a possível polêmica.

Quando o STF decidiu em 2009 que não havia mais necessidade de diplomação para exercer a profissão, aquele Ser sacana que reside em cada um de nós despertou de sua letargia e por segundos me fez vislumbrar ali a possibilidade de realizar o sonho juvenil. Foram segundos, porque o duende da reflexão me chamou a razão. Naquela época estava cursando Administração e já me sentia incomodado com o fato de muitos profissionais exercerem cargos de Gestão sem nunca terem assistido uma aula do curso ou ainda que os bacharéis tivessem as mesmas prerrogativas nas Empresas que um Administrador.

Por nenhum segundo e nem por uma decisão da Suprema Corte, eu teria, pelo menos penso assim, o direito de me considerar jornalista. Onde estaria a ética se assim me considerasse? Como encarar os amigos que estudaram, labutaram, consolidaram carreiras? Ser um bode no meio da sala? O penetra da festa? Não, se não deu nessa, quem sabe na próxima.

Recordei desse caso por duas razões, a primeira porque vi dia desses um anúncio online de um importante jornal de circulação nacional que conclamava com o patrocínio de duas empresas suspeitas e sob investigação federal, aos profissionais de todas as áreas para participar do programa de treinamento em jornalismo diário. Compreendeu a profundidade da questão?

Segunda razão porque lancei um livro de crônicas com outros nove inigualáveis escritores, sendo seis deles jornalistas. Participei dos encontros prévios do lançamento da obra como um observador atento, as histórias que surgiam na mesa eram impressionantes; nomes, datas, ligações, desdobramentos, enfim, décadas de conhecimento se espraiando gratuitamente. Meu silêncio se fazia imperioso, abrir a boca para que? Estragar aquela comunhão gratuita de ensinamentos? Jamais!

 Juro, se um dia houver a possibilidade de viagem no tempo, volto para aquela época do jovem adolescente sabichão e arrogante e direi que alivie o nível de sua exigência, que aceite fazer primeiro a Faculdade e depois partir para a labuta, pois a vida não é um filme dos Smurfs, está mais para MadMax ou Bastardos Inglórios. Agora, se ele não escutar, o titio careca e cansado, que faça as mesmas escolhas, pelo menos conviverá com profissionais fantásticos e talvez, no recôndito de quatro paredes da sala, frente ao laptop possa se considerar 0,01% jornalista.


Ah, e se realmente existir reencarnação, na próxima não abro mão de ser um foca!

quinta-feira, 23 de março de 2017

Meteoro, nos salve!!!


Esta quinta-feira foi prodigiosa ao me confrontar com situações cotidianas de uma pequena-grande metrópole brasileira, já escrevi sobre o pedinte com a máquina de cartão na sinaleira, porém essa perde para o que narrarei.

Caminhava lépido e fagueiro em uma das principais Avenidas da cidade quando começo a escutar ao longe aquela tradicional batida sonora... tum-tum-tum-tum.

Aquela poluição sonora mostrou-se uma tortura quanto mais o veículo vencia o caótico trânsito do final da tarde e se aproximava de mim.

Um flamante carro de elevado valor comercial, com um cidadão que aparenta ter uma boa posição profissional, sem nenhum boné de aba reta ou de bico de pato na cabeça, espontaneamente brindava a todos com o mais belo lançamento da industria musical.

Fiquei estarrecido no exato instante que fui apresentado a letra melodiosa e repleta de sentimento e sentido. Tristemente constatei a falência da sociedade tupiniquim, com a compreensão que apenas o meteoro pode nos salvar.

"Então joga, joga o popo na piroc@..." e assim foi se repetindo a frase tão bem elaborada quanto este texto, invadindo, sem autorização os ouvidos e mentes de crianças, idosos, gente jovem, de meia idade, sem nenhuma sinalização de constrangimento.

Não que seja moralista, longe disso, quem já presenciou alguma situação muito estressante comigo, sabe que utilizo palavras de baixo calado como vírgula, mas bom senso e caldo de galinha - antes da Carne Fraca - não fazem mal a ninguém.

Toda a forma de manifestação é livre e defendida por nossa já remendada Constituição, mas o já citado bom senso parece ter sido consumido destes trópicos. Nada contra, mas se ainda há aqueles que consideram o Rock o filho do Capiroto, do Rubro, do Guampa Torta, o que esperar da paternidade desta "música"?

Prefiro não ser apresentado ao genitor da obra.

A moderna arte de pedir Esmola

Vocês vejam a modernidade deste mundo. Hoje a tarde peguei meu bom e velho pai e fomos tomar um café com o amigo de mais de três décadas Toninho Ostyn e quando para lá nos dirigíamos paramos em um semáforo próximo ao Hospital de Clinicas.
Um pedinte se aproximou e pediu umas moedas, com a negativa recebida ele lentamente dirigiu a mão ao bolso, e naquele momento pensei... Ferrou! Ele vai tocar uma pedra no carro, uma faca para arranjar a lataria e vocês não tem noção do que ele puxou.
Vocês não podem imaginar e eu não acreditaria se não tivesse acontecido comigo, ele nos mostrou uma máquina de cartões de crédito, nova, bem conservada e disse que aceitava doações através dela.
Meu pai e eu, em uníssono largamos um não acredito nisso! Olhei pelo retrovisor e lá se foi o pedinte para o próximo carro, máquina na mão e pensei que a máxima, não há o que não haja, se aplicaria perfeitamente ali.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Promessa às vezes é dívida!

Espero que você preste bem atenção ao que escreverei, porque não repetirei. Quer dizer, talvez até repita, ultimamente tenho me sentido igual aos antigos bolachões arranhados, que faziam com que a agulha caísse sempre no mesmo trecho da música. Algo tão chato quanto aquele irritante ruído que se escutava ao fundo das músicas.

Sim, para algumas coisas evoluí. Gosto do som claro, limpo, sem chiados e interferências, do mesmo jeito que me encanta a comunicação direta entre as pessoas. Por um destes acasos misteriosos da existência fomos inseridos neste mundo de eterna ebulição e onde os conceitos sociais sofrem uma pressão estonteante. Porém o caso não é este, o que realmente acontece é que desaprendemos a nos comunicar, escutar o que o outro tem a dizer.

Viramos metralhadoras ambulantes, que ao invés de expelir projéteis, disparam palavras sem um critério bem estabelecido. Poucos possuem o dom de concatená-las, inserir algum significado que crie no seu receptor o entendimento claro da idéia. Não uma simples troca de sons ou sinais gráficos, mas uma experiência que valha a pena ser relembrada por momentos sem fim.

Foi mais fácil? Com certeza foi. Quando criança a comunicação flui de maneira lúdica, é uma descoberta sem paralelos. Os sons e as palavras monossilábicas possuem significado único, o entendimento ocorre sem muitos sobressaltos. Claro, existem as exceções a regra, culpa dos adultos que desaprenderam o santo alfabeto infantil. Pensando bem, sem a renovação que as crianças executam ao nascer, o que seria dos seres arqueados e rugosos conhecidos como adultos? Logo chegarei neles!

E os adolescentes com suas gírias, palavras cortadas e risadas exageradas surgidas a partir das piadas mais sem graça? Neste momento os problemas começam a surgir para os mais tímidos. As palavras simplesmente nascem, mas não criam asas. Ficam guardadas em um grande hangar, ocupando espaço, sufocando e criando uma atmosfera nem um pouco bacana de freqüentar.

Agora com os adultos tudo é mais fácil. Será? E o tal pesar cem vezes antes de falar, serve para que? É a tal censura que nos impomos. Não se deve falar tal coisa que será interpretada de forma equivocada pelas freirinhas pecadoras do monte. O que tua família pensará se disseres a forma como encara o mundo? Os fardos vão se tornando mais pesados e quem consegue melhor assimilá-los, é o popular da turma, aqueles que se rebelam recebem o carimbo de ignorantes. Tão simples como comer jujubas para criar uma fissão nuclear.

Pare para pensar. Fora tudo isso, como anda nossa comunicação? Sou antigo, do tempo em que as meninas colecionavam papéis de carta e que invariavelmente no primeiro dia de aula devíamos escrever aquela fantástica redação – Minhas Férias. Todo inicio de ano era a mesma coisa, e lá íamos nós, com as letras trêmulas e grandes, escrever a lápis as peripécias vividas naquele paradisíaco momento de ócio que hoje faz tanta falta. Crianças se estiverem lendo isso, não tenham pressa para crescer, sério, não vale muito à pena.

Não me lembro se tive algum conselho deste tipo, porque logo cresci e assim comecei a escrever primeiro para registrar as idéias que brotavam iguais petróleo recém descoberto, depois se encontra uma finalidade mais apropriada para este dom, embora discorde que seja um dom, é apenas uma faculdade bem desenvolvida. Independente, o que realmente importa, é que escrevíamos no papel, sim, em folhas brancas, pautadas, arrancadas de cadernos, milimetradas, com caneta, lapiseira e até mesmo, pasmem, datilografadas em inacreditáveis máquinas de escrever portáteis. Isso parece um relato de ficção científica, porém aconteceu a menos de 30 anos. Um segundo se formos colocar na régua da existência do Planeta Azul.

Cartas! Mandava cartas para minhas primeiras namoradas, escrevia poesias, inseria um monte de pensamento nas folhas e enviava pela bagatela de um centavo de Real. Uma pechincha! Talvez tenha sido a última geração que se utilizou deste subterfúgio de comunicação, porque um inimigo apareceu no horizonte. E ele tem nome e é através dele que escrevo, digito ou transformo em um sistema binário estas palavras.
Veio o computador e seu Edit, Bloco de Notas, Word e afins, rápidos como essa geração desejou nasceu a troca de mensagens instantâneas, sms e agora os aplicativos. Facilitou? Sim. Melhorou? Talvez. Aprovo? Quem sabe?

Tudo isso porque hoje, me utilizando de um famigerado e moderno aplicativo de comunicação, li uma amiga escrever – “Afff, falou o velho!”. Caso alguém ainda não esteja acostumado com a ironia, o senso de humor apurado dos inteligentes, essa curta frase foi carregada em toda sua essência dela.

Ela me enviou uma foto muito bacana de um trabalho que executou numa reunião mensal do trabalho.  Fotos lindíssimas, com a frase icônica – O que quero para o futuro. Tenho certeza que não será difícil conquistar tudo o que deseja competência e energia para isso lhe sobra. Notei que havia faltado apenas o seu desejo de conhecer a terra do sol nascente, com todas suas cores e cultura milenar. Comentei e ela disse que a deixasse dormir para sonhar.

Disse que ela não deixasse de sonhar e correr atrás de seus sonhos, porque isso é o que ainda resta para a maioria das pessoas. Alguns não lidam muito bem com as frustrações de não chegarem onde queriam e partem na busca de culpados para seu próprio fracasso. Talvez por isso tenha desistido de sonhar a algum tempo, se algo surge no meu radar que venha a me interessar, a busco, ou melhor, tento buscá-la. Lógico que frustra não obter sucesso na empreitada, mas o importante é não se amargurar.

Seja lá o que aconteça é necessário manter a mente aberta e alma leve, cada qual carrega sua bagagem e sabe quanto lhe custou chegar até onde está. Deparei-me certa vez com uma frase que em essência dizia que se estávamos ali, havíamos superado muitos dias ruins e isso era um sinal que estávamos igualmente nos saindo bem da situação. Simples não?

Alguém ainda pode pensar cara, como ele permite que ela tenha enviado um “afff, falou o velho!” e fique de boa?  Lembra do que escrevi logo no inicio? Precisamos aprender a escutar, compreender a sabedoria e o significado de pequenas frases ou palavras. Ela com sua espontaneidade e conhecimento em me provocar as maiores reflexões mostrou para este velho em corpo de “jovem” que há muito mais entre o aqui e o Japão, o despertar e o sonhar, as linhas de um caderno ou os bits de um texto que a filosofia e a análise podem descobrir.


Sem muito gre-gre para Gregório ela escancarou que um jardim com flores vermelhas e brancas convidam para uma contemplação e mergulho no íntimo em busca de respostas já platinadas e principalmente, que uma má conduta não é errada, ainda mais quando a trilha sonora é Bon Jovi.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Fragmentos de Verão I

Ela me fulmina com seus castanhos olhos,
decretando sem rodeio, pena e pressa, 
o moço está inspirado agora...

É fácil nascer poesia escrita e falada
quando, a se admira na forma pura,
nas lindas curvas de mulher!

Fragmentos de Verão

Faço o que com estes estímulos que se descortinam,
despretensiosamente como se fosse fácil descobrir
a poesia escondida em lábios rosados iguais os teus

Olhe o Sol

Sol, Sol, Sol,
Aonde ele esteja é lá que desejo estar,
Sol e Lua, encontros e desencontros,
se buscam, procuram-se no Cosmos,
Integram-se, se bastam, será?

Astro Rei, ilumina, clareia e indica,
Esquenta, faz suor, transpirar e suspirar,
Deixa marcas, marquinhas e queima,
igualzinho a Alicia, que de revesgueio,
costas nuas e cabelos ao vento, diz
Vem comigo, me segue, eu faço valer a pena!

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

O Mar de Alícia



Alícia, sempre ela! Descobriu não sei como uma fórmula de surpreender-me quando mais preciso. Ela simplesmente pousa sua presença, sem importar-se com a turbulência de uma manhã, a intensidade de uma tarde ou a calma da madruga. Esta sua capacidade de inspirar de forma peculiar o meu vírus incubado da escrita é única. O faz sem palavras, apenas com a letra A de seu nome ou com seus Olhos e agora com costas desnudas e coração ao mar!

Intensidade. Este seria o substantivo que define perfeitamente a ela e o mar a quem se declara. Assim como um paciente montador que dá forma a complexos quebra-cabeças, observá-los com toda grandiosidade não é tarefa para afoitos. Este é um privilégio que compete somente aos experimentados e treinados seres que desconhecem a celeridade do tempo.

Observá-los assim, lembra que sempre fui fascinado, talvez seja uma das minhas marcantes características – fascinar-me com uma facilidade voluptuosa, pelo mar. Este mesmo que Alícia nos convida a observar. O horizonte alcançado pelo limite ocular proporciona o aparecimento da linha tênue que divide e funde a água e o firmamento, impossibilitando distinguir onde é o começo de um e o fim do outro, grandioso! E Alícia? Creiam, confiem você jamais a esquece!

Nunca me importei com a ditadura de cozinhar minha pele alva de garoto de apartamento sob o sol escaldante do litoral. Jamais! Até porque o resultado nunca variava da coloração vermelho –camarão. Gosto realmente de observar a água sob efeito do vento, transforma o movimento das ondas em uma dança sedutora sem tempo e hora de acabar.

Presente da criação a todo aquele que se esquece dos ponteiros do tempo a beira da praia. Você necessariamente não precisa ficar olhando perdidamente a este espetáculo, pode desviá-lo para o lado e constatar que modernamente, sereias possuem pernas e estão junto a nós. Elas deixaram aquela vida monótona de cantar, encantar e afogar, preferem agora é torturar os pobres mortais com seu desfile incessante sobre a areia fofa.

Retorno ao mar, sem pressa alguma, apenas exercitando o sagrado direito de autorizar a imaginação que alce vôo e trace paralelos onde poucos conseguem. Posso compará-lo totalmente a Alícia, e o faço em pormenores que guardo para mim de um jeito imperfeitamente perfeito de egoísta.

Observá-lo é mais que teorizar, permite perceber que Posseidon ao contrário do que ocorria na Grécia 
Antiga é quem nos reverencia beijando nossos pés, é a oportunidade de viajar no tempo, imaginar os navegadores chegando àquele mesmo litoral tão diverso de hoje. O impacto da primeira vista jamais é superado por nada, talvez por isso, e somente por isto, exista ainda tanta paixão à primeira vista nestes tempos de pixels e dpis.

Poetas não cansam de se declarar a ele e a sua grandiosidade. Inclusive eu, no início de minha amadora e audaciosa carreira poética, como bom canastrão, escrevi algumas linhas em que comparava os olhos de alguma musa já perdida no tempo e espaço, a um mar de águas profundas, que guardava neles os mais profundos segredos e como os inexperientes exploradores não obtiveram êxito ao resgatá-los e os tornarem possíveis e reais. Sim, uma obra de discutível qualidade.

Logicamente, que outros Poetas alcançaram seus objetivos, criaram paralelos e estabeleceram conexões profundas. Assim como o Mestre Fernando Pessoa, conseguiu sabiamente em Mar Português

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador
Tem que passa além da dor
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Sim Alícia, tudo sempre vale a pena se a alma não é pequena, e para a tua, tudo vale a pena ser vivido, pois este ímpar jeito de ser, aparentando tanta tranqüilidade e sendo tão gigante quanto às águas do Pacífico te convida a aproveitar O mar, amar, rearmar, o ar, o mar,amar e assim recomeçar.

Diga, existe melhor definição a uma alma que esta?

domingo, 29 de janeiro de 2017

Te Amo

"Te amo – assim, declaração despretensiosa, dita por antigo amor causa o efeito esperado ou não; um sentimento que mesmo forçosamente inspira poucas linhas". 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Juliana Paes e o salvo conduto

O que um homem cumpridor de seus compromissos sociais mais deseja em um domingo de sol a pino? Exato! Ficar atirado no sofá da sala, cerveja na mão e os controles remotos como seus fies escudeiros. Principalmente quando na tarde, há aquela final da Série C-2 tão esperada pelos apaixonados pelo esporte bretão.

Após anos de espera, o time onde dei os primeiros chutes, onde marcava o Alam... brado, a Associação São Carlense enfrentaria pelo inédito título o Atleticano de Regatas e Futebol. Um clássico do futebol estadual, TV no mudo, rádio a todo volume. O jogo está tenso, Betão, narrador oficial da XYKWXM vai gritando no microfone o ataque do São Carlense, uma troca intensa de passes com origem na falha do meia-esquerda do Atleticano. Tensão no ar, eis que ela surge e desliga tudo.  Como assim? É a final!

Ela, para situar os amigos, é Solange, aquela a quem jurei meu amor e minha servidão eterna.

_Luis, precisamos conversar.

O mundo parou. Seria aquela a senha para a hecatombe nuclear? Estaria ela em conluio com os ianques ou com os cossacos? Não, deve ser algo que fiz, só pode. Ligo meu 386-XT e começo a escanear, buscar em algum canto perdido de meu HD o que seria capaz de gerar uma onda de tal magnitude, também conhecida como d.r. bem no meio da final da C-2. Nada, nenhuma idéia. Estava limpo, era inocente, realmente inocente.

_ Agora? – balbuciei com toda a coragem que me restava.

_Não Luis, pode ser no Natal.

Entendi a fina ironia e achei melhor não contrariar, afinal, algo de ruim estava prestes a acontecer. Ninguém usa um “precisamos conversar” do nada. Algo de muito grave se avizinhava. Solange nunca teve uma paciência primorosa, na verdade, quando distribuíam esta qualidade, ela devia estar em outra fila do céu, só isso explicaria o pavio curtíssimo, quase inexistente.

_Olha só Luis, andei pensando, acho que nosso casamento tem que evoluir. Afinal são mais de quinze anos juntos, desde a faculdade. Precisamos ter uma mente mais aberta, mais européia, somos muito conservadores, apegados a preceitos tradicionais dessa sociedade retrógrada e opressora.

_ Sei – foi o máximo que consegui articular, aquilo era muito surreal. Havia um golpe, uma câmera escondida, uma pegadinha. Pensei que invadiriam a sala com um bolo cantando parabéns, mas depois lembrei que ninguém estava aniversariando, então...

_ Pois então, a partir de hoje tu tem a minha autorização pra me trair com outra mulher, e mais, pra tu não perder tempo, já escolhi a minha sócia nesse corpinho decrépito, é a Juliana...

A interrompi.

_ A Juliana? – My Lord, a Juliana, colega do tempo de faculdade da Solange, vem em casa direto, janta aos sábados, churrasco aos domingos, sempre solteira, uma loira que só podia ter pacto com o capiroto de tão linda que é, aquela que faz padre abandonar a batina, neguinho tomar cerveja quente e queimar a carne.  E completei – A Juliana Silva?

_ O Luis, tu me acha besta? Sério,tu me acha idiota ao ponto de permitir que tu me traísse com a Ju Silva? Alôooo, eu te capo antes de tu pensar em encostar nela. Tu pode me trair é com a Juliana Paes! Se ela aparecer na tua frente e quiser sair contigo, ta liberado, não precisa nem te preocupar.
_Espera ai. Quem é a Juliana Paes?

_Sério, tu ta brincando comigo, só pode. Como assim quem é a Juliana Paes.  A da televisão!

_ A Juliana Paes, atriz, deusa de ébano, aquela musa da TV?

Saiu um – arrã contrariado.

_Aquela do bocão, dos zoião, dos “peitão”, dos...

_ Essa mesma!

_ Mas ela ta no Rio de Janeiro!!!! Eu to a centenas de quilômetros, isso não ta me parecendo muito justo, não.

_Ah, não? O bonitão esta se achando injustiçado? Luis como não é justo? Eu estou te liberando do juramento do altar, farei o papel de “cornélia” e tu vem me dizer com essa cara amarrotada que eu não estou sendo justa?

Senti que havia adentrado em terreno perigoso. A proposta não teria brecha para acordo e se tentasse forçar algo, o salvo conduto seria picotado em milhões de pedaços. Tudo podia ser perdido no mais rápido piscar de olhos. Tentei um último e tolo argumento, mas negociações com mulheres maquiavélicas não são para inexperientes.

_ Tá, mas digamos, eu encontrei uma mulher muito parecida com a Juliana Paes, não serve? Por exemplo, a sobrinha da Dona Matilda é muito parecida com ela. Ela só tão tem o bocão, o cabelo, o zoião, mas no mais, passa batido.

_ Qual o nome da menina e o sobrenome?

_ O nome eu não sei minha paixão, mas o sobrenome deve ser o mesmo da Dona Matilda, Gonçalves.

_ Pois então Luis! Gonçalves é igual a Paes?  E eu não sei é o mesmo que Juliana?Eu te respondo sumidade intelectual, não, não são a mesma coisa! Quer saber? Cansei, tu não valoriza o que eu faço por ti, chega de ser boazinha. Não tem mais acordo, acabou! Quero ser “pra frentex”, mas não, o bonito não pode ficar só com a mão, quer o braço todo!

Eis que surge a real essência da proposta,  nada é gratuito e como diz um político da cidade, não existe almoço de graça, alguém pagará a conta.

_Fica com teu futebol e me dá o cartão que vou pro shopping , preciso me desestressar, chega, além do mais tem uma liquidação de sapatos e bolsas. Viu? Eu estava calma, mas tu tem esse dom de estragar tudo o que eu penso em fazer por ti, me tira o sossego, me tira do sério. Agora, só comprando uns cinco pares de sapatos e umas dez bolsas pra me acalmar. É impressionante

E assim, intempestivamente, me deixando com uma cara de tacho, Solange virou e saiu batendo os tamancos, portas e o que mais encontrou pela frente. Por breves minutos tive o paraíso ofertado, me senti Adão nos primórdios da criação e quando menos percebi, já tinha mordido uma daquelas farinhentas maçãs argentinas, para que tudo me fosse retirado igual doce arrancado de criança.


Voltei para o futebol, já estava 3 a 1 para o Atleticano. Minha dor de cabeça na segunda seria enorme, título perdido, cartão estourado e a Juliana Paes nas nuvens.

Os Deuses Vendem quando Dão

Os deuses vendem quando dão melhor saber, e assim, o homem se torna prisioneiro, um eterno devedor das benesses divinas. Não adianta, por mais que o homem, este gênero cão tente não se entregar aos prazeres transitórios da carne, ele sucumbe à paixão. É fato!

Era noite, provavelmente fizesse frio, lembro vagamente que ela vestia um blusão nas cores azul e cinza. Aquela indumentária não fazia nem um pouco jus ao que escondia, calça jeans e tênis. Entrou na sala como se tivesse esperado o exato momento que meu olhar se direcionasse para a porta, desfilou, na verdade deslizou por entre as cadeiras, olhou para os lados e claro, não me notou. Quedou-se na cadeira , riu, riu muito, riu bonito e apenas riu.

 Desejei-a naquele instante de cores vivas e que hoje está perdido em uma ata, atirado em uma gaveta qualquer de meu arquivo semimorto. Uma noite qualquer, dessas que faz um frio razoável, aceitável, tolerável. Um curso, um aprendizado a mais, qual diferença pode fazer? Estratégia meu caro, do grego strateegia, do latim strategi, do francês stratégie, do inglês strategy, do alemão strategie, do italiano strategia, do espanhol estrategia, isso é o que precisaria encontrar para me fazer notar. Tão simples quanto resolver um problema proposto por um Mestre Jedi da Matemática.

Busquei em todo canto como chegar perto dela, observei-a como uma fera prestes a dar o bote na vítima indefesa, virou covardia. Estava pronto, calculei os ganhos e as perdas de minha ação. Não me importava se teria sucesso ou sucesso, se a teria em minha caminhada por toda existência como mulher, amante ou amiga. Um homem com medo, não conquista mulher bonita.

Nesse momento, confiando em mim da mesma maneira que uma equipe de futebol confia em uma defesa de juvenis, falei com os deuses. Eles se ofenderam, acaso não teriam nada mais importante para se preocupar do que com as investidas amorosas dos mortais? Confrontei, afinal, Zeus, quantas sementes plantou nos úteros humanos ao descer do Olimpo? Por esta tua afronta, terás sucesso, mas pagarás como pedágio a vergonha em vossa primeira noite.

Saímos. Fizemos o que tínhamos que fazer, sem pressa, sem rodeios, tudo aquilo que poderia acontecer com um casal jovem, desnudei o corpo moreno, encontrando simetria e proporcionalidade em cada curva e pedaço rabiscado no mais perfeito rascunho, o perfume daqueles cabelos encaracolados em meu nariz, as mãos rápidas que de bobas não possuíam sequer a mais pálida lembrança, a boca pequena, a língua ligeira e aquele par de olhos castanhos, que, por favor, tudo deram, sem nada pedir em troca.

Após o embate adormecemos. Morfeu nos conduziu em seu reino, gozamos do sono dos justos e nele os deuses me cobraram. Você terá que pagar o pedágio, lembre-se, a banca paga e cobra. Era uma manhã de domingo, qualquer dia de Setembro e devia saber que algo estava errado. Jamais, em instante algum, por motivo aparente ou sombrio, acordei às 7 da manhã. Despertei-a com um beijo. Espreguiçou na cama, me olhou de forma diferente. Como não percebi?

Somente o sopro de Sísifo em seu ouvido, conduzindo seus pensamentos seria capaz de tamanha desenvoltura ou desfaçatez. Respondeu a meu questionamento se desejava beber algo, com um simples, pode ser teu leite. Levantei e fui à cozinha, na geladeira peguei as misturas, do armário saiu a lata da bebida láctea em pó, preparei dois copos, bandeja, pães, demais apetrechos e fui ao quarto. Tomamos o desjejum. Havia sido sua primeira noite em minha casa, não teria como saber. Atormentava-me a dúvida, não a controlei mais.


Deixa te fazer uma pergunta, como, em que instante, de que forma descobriste que eu utilizo leite em pó para pedir dele? Ela sorriu maliciosamente e neste momento, aquele meu pacato e pueril mundo começou a desmoronar. Arregalei os olhos e ela riu ainda mais. Antes de proclamar a sentença – não era bem desse que eu falava – os deuses disseram, está pago o pedágio, tua vergonha é o preço justo e definido por nós. Lembre sempre inseto mortal, nós vendemos quando damos!