Naquela noite de verão, sentados
em volta da mesa do boteco, aquele grupo heterogêneo versava sobre todo e
qualquer assunto que surgisse na cabeça, sem nenhum tipo de preconceito,
versavam e transitavam entre a crise econômica até a rodada do campeonato nacional
de futebol.
Olhando rapidamente, quem de fora
estivesse, pensaria que ali estaria um grupo de machistas, porque a única
mulher entre eles estava ao canto da mesa. Não sabem os desavisados, mas incrível
e invariavelmente ela acompanhava essa turma. A representante única do sexo
forte, que de tão forte, poderia ser identificada como um homem honorário.
Como assim “um homem honorário”
pequeno gafanhoto? Explica-se de forma didática; entre os confrades reunidos,
havia um que cunhara a expressão para identificar toda mulher que agüentava a
conversa masculina com a mesma desenvoltura dos barbados, aquelas cujo, os
camaradinhas não ficavam constrangidos em explanar suas idéias e pensamentos,
além de ser dona de total discrição, aquela parceirona da galera.
Elma era um “homem honorário”.
Certeza que era! Ela já ultrapassara a fronteira que separa as jovens ingênuas das
mulheres realmente interessantes. Perspicaz e dotada de uma inteligência ímpar,
defendia a bandeira do oposicionismo político das esferas atuais de poder e
entre um gole e outro de Stella, escutava igual uma monja tibetana, o assunto
esparramado naquela noite.
Hermínio versava sobre o
tema-combustível humano – sexo, mas não era o pueril vendido nas revistas água
com açúcar ou tão pouco o transgressor que vive esgueirado nas sombras da
noite, era aquele que ficava no meio do caminho. Dizia ele que um casal de
amigos passara a se aventurar em sessões de ménage, mas como toda boa
sacanagem, havia limites e regras. Para que alguém participasse deste momento
lúdico, independente de ser homem ou mulher, precisaria se entregar primeiramente
ao marido, depois deste test drive a esposa estaria disponível para se entregar
as festas de Baco. Doido não? Porém neste mundo, nada é como parece ser.
São em momentos iguais a este que
surgem as maiores teses, alguns se espantaram e passaram a divagar sobre os
motivos contrários a aceitar tal situação, nenhum admitindo que toparia uma
brincadeira com estas regras e eis que candidamente Elma resolve usar uma
fantasia de bombeiro e apaga o incêndio com um tonel de gasolina aditivada Premium
de R$ 5,00 o litro.
_ Vocês sabem que eu nunca recebi
nudes?
Espanto geral, principalmente
para Henry que instantaneamente colocou sua oficina de maldades a funcionar.
Seria ele o primeiro a introduzi-la ao mundo fantástico dos nudes. Sim, ele se
tornaria inesquecível para Elma, seria lembrado em conversas futuras com um
guru que a elevara a um novo patamar. Estava decidido, ela receberia nudes
dele!
Puxou o celular do bolso, acessou
a galeria de fotos, buscou e encontrou o que procurava. Agora era preciso ser
um pouco mais ágil, acessar o aplicativo de mensagens e voilà! Porém, existe
uma força oculta que impede a maioria das pessoas de cometerem desvarios
enquanto estão inebriados de suco de morango. Ponderou, aquele não era o
momento adequado; e se ela se ofendesse, aguentaria o escárnio público? A
gozação desmedida dos confrades? Melhor não arriscar, na dúvida, jamais, em
hipótese alguma ultrapasse a faixa tênue que separa a inteligência da babaquice.
Quando o pensamento retornou a
mesa, já falavam sobre as andorinhas das chaminés tão populares em Portugal,
quem os escutasse pensaria tratar-se de um grupo de mestres em ornitologia. Um
primor como conseguiam transitar entre o profano e o sacro, da seriedade ao
humor com uma rapidez nunca antes vista.
Henry foi para casa com a tarefa
auto-imposta de apresentar Elma ao mundo dos nudes. Não conseguia conceber como
aquela mulher nunca havia sido presenteada com um e principalmente, porque ela jamais
tomara a atitude de mandar nudes. Sentou em sua poltrona preferida, começou a
preparar o clima, abriu um Malbec de boa safra, sorveu modestamente o primeiro
gole. Hotel Califórnia começou a ser executada na vitrola e o abajur herdado da
tia-avó iluminava a sala.
Novamente sacou o celular,
desbloqueou a tela com aquele monte de letras e números fantasiados de senha. Refez
o trajeto até a galeria, constatou que não havia deletado as fotos por engano
ou nervosismo. Era agora ou nunca, tomou mais um gole e junto com ele a coragem
para escrever um recado para sua vítima.
_ Boa noite Elma, não pude deixar
de pensar em tua confissão de jamais ter recebido nudes. Isso é um crime, quero
ser eu o primeiro, aquele que vai se tornar o inesquecível condutor neste mundo
fantástico. Envio estes, tomara que goste.
Aguardou a confirmação do
recebimento, surgiu o primeiro tique, depois dois tiques e por fim eles ganharam cor. Nenhuma reação
imediata nos primeiros 20 segundos. Ansiedade tomando conta do ser e quando
tudo parecia perdido ela começou a digitar. Henry se acomodou na poltrona,
viria um xingamento? Um agradecimento? Apenas um boa noite?
Primeiro chegaram três carinhas
sorrindo – bom sinal pensou ele. Depois aqueles grafismos representando
gargalhadas e por fim uma declaração básica – tu não existe e mais risadas.
Risos e mais risos, uma infinidade!
Não, ele não ficou ofendido com
suas risadas surgidas de seus nudes. Não! Ele tinha a confirmação, acertara o
alvo, ainda era o velho e bom atirador de elite, estava com o sexto sentido
afiado, seu poder de impressionar ainda era latente. Desejaram bom descanso um para o outro.
Henry se recostou na poltrona,
seus olhos brilhavam e somente um pensamento lhe acompanhava como Elma
conseguira viver sem receber nudes, tinha certeza que as fotos dos três
esmaltes nudes que lhe mandara, já imaginava as unhas dela pintadas dessa cor.
Aquela noite mudaria a vida dela, ele tinha certeza ou pelo menos pensava
assim!
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