segunda-feira, 27 de março de 2017

Queen Daenerys Targaryen

Ela entrou no quarto, apressada, perdera a hora apesar de ter levantado antes do tempo. Onde estava o sapato, aquele amaldiçoado que combinava perfeitamente com o vermelho de seus cabelos? Não daria trinta anos para aquele rosto nem sob tortura, mas sim, ela começa a percorrer o caminho inevitável do amadurecimento físico e íntimo.

Precisava acordar o pequeno, deixar para a avó o preparo do café, já revisou os deveres de casa, muito a fazer, pouco tempo. O trânsito caótico era prenúncio do estresse que enfrentaria para percorrer os quase dez quilômetros de casa ao serviço. Não adiantava pegar a Avenida larga, ela estava parada! Sete horas da manhã.

Desce apressada, carrega bolsa, chave do carro, óculos na testa apesar do sol já castigante, não o repousa sobre os olhos, diz que enxerga melhor assim. Brinca que não é vampira, embora tenha minhas dúvidas. Corre, tropeça em mim, tudo cai menos sua cordialidade e seu humor quase raro. A ajudo nos agachamos e reerguemos sincronizadamente.

Agradece me dando um beijo estalado na bochecha, larga um bom dia escritor e amigo do coração e parte igual míssil desgovernado. Parte sem ter hora para voltar, mas me deixa com reflexões enquanto a observo entrar no carro. Soco no estômago é a primeira reflexão querendo gritar.

Ah morar no coração é uma das maneiras mais interessantes de te transformar em ser eterno. Não te iluda, pode ter sido a forma fofa e agradável de dizer – ok, você hoje está aqui, mas amanhã talvez não. Senha de acesso ao arquivo do drama. Drama, drama, drama o eterno, a forma de se dizer, jamais me deixe longe de você.

Afff, velho e dramático sacode a segunda. Já pensou que ela ache importante não deixar de ser a amiga próxima e quiçá musa do escritor de pantufas?Assim ela pode se tornar eterna. Imagine daqui uns cem, duzentos anos quando encontrarem os modernos papiros digitais, qual será a reação das pessoas? Serão ainda pessoas como o sabemos? Quem foi a moça vampira que andava sob o sol da manhã? Ela possuía uma má conduta, seria realmente portadora de uma dúbia conduta ou apenas personagem ficcional?

A terceira reflexão enciumada que ela só, reacende o incêndio, teria sido ela alguém próximo? Um amor não correspondido? Já sei, um amor que foi batido e embatumado, morto no forno do coração? Talvez ela não tenha sido nada disso, era a menina do balcão da padaria que servia apenas pão queimado e passado do ponto ou aquela desavisada eterna Lolita tatuada que passeava com o cachorro e o deixava fazer as necessidades a esmo, presente aos pés distraídos?

Poderia ter sido tudo ou muito menos. Não passasse de delírio do doido escriba ou sonho da noite intercalada por uivos vindos da esquina e gemidos do quarto de cima. Talvez, sempre o talvez, fosse tudo, nada, o principio, o meio e o fim e como cantou Lulu, o que eu ganho, o que eu perco, ninguém precisa saber!

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