Ela entrou no quarto,
apressada, perdera a hora apesar de ter levantado antes do tempo. Onde estava o
sapato, aquele amaldiçoado que combinava perfeitamente com o vermelho de seus
cabelos? Não daria trinta anos para aquele rosto nem sob tortura, mas sim, ela
começa a percorrer o caminho inevitável do amadurecimento físico e íntimo.
Precisava acordar o pequeno,
deixar para a avó o preparo do café, já revisou os deveres de casa, muito a
fazer, pouco tempo. O trânsito caótico era prenúncio do estresse que
enfrentaria para percorrer os quase dez quilômetros de casa ao serviço. Não
adiantava pegar a Avenida larga, ela estava parada! Sete horas da manhã.
Desce apressada, carrega
bolsa, chave do carro, óculos na testa apesar do sol já castigante, não o
repousa sobre os olhos, diz que enxerga melhor assim. Brinca que não é vampira,
embora tenha minhas dúvidas. Corre, tropeça em mim, tudo cai menos sua
cordialidade e seu humor quase raro. A ajudo nos agachamos e reerguemos
sincronizadamente.
Agradece me dando um beijo
estalado na bochecha, larga um bom dia escritor e amigo do coração e parte
igual míssil desgovernado. Parte sem ter hora para voltar, mas me deixa com
reflexões enquanto a observo entrar no carro. Soco no estômago é a primeira
reflexão querendo gritar.
Ah morar no coração é uma das maneiras mais
interessantes de te transformar em ser eterno. Não te iluda, pode ter sido a forma
fofa e agradável de dizer – ok, você hoje está aqui, mas amanhã talvez não.
Senha de acesso ao arquivo do drama. Drama, drama, drama o eterno, a forma de
se dizer, jamais me deixe longe de você.
Afff, velho e dramático sacode
a segunda. Já pensou que ela ache importante não deixar de ser a amiga próxima
e quiçá musa do escritor de pantufas?Assim ela pode se tornar eterna. Imagine
daqui uns cem, duzentos anos quando encontrarem os modernos papiros digitais,
qual será a reação das pessoas? Serão ainda pessoas como o sabemos? Quem foi a
moça vampira que andava sob o sol da manhã? Ela possuía uma má conduta, seria
realmente portadora de uma dúbia conduta ou apenas personagem ficcional?
A terceira reflexão enciumada
que ela só, reacende o incêndio, teria sido ela alguém próximo? Um amor não correspondido?
Já sei, um amor que foi batido e embatumado, morto no forno do coração? Talvez
ela não tenha sido nada disso, era a menina do balcão da padaria que servia
apenas pão queimado e passado do ponto ou aquela desavisada eterna Lolita tatuada
que passeava com o cachorro e o deixava fazer as necessidades a esmo, presente
aos pés distraídos?
Poderia ter sido tudo ou muito
menos. Não passasse de delírio do doido escriba ou sonho da noite intercalada
por uivos vindos da esquina e gemidos do quarto de cima. Talvez, sempre o
talvez, fosse tudo, nada, o principio, o meio e o fim e como cantou Lulu, o que
eu ganho, o que eu perco, ninguém precisa saber!
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