segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Juliana Paes e o salvo conduto

O que um homem cumpridor de seus compromissos sociais mais deseja em um domingo de sol a pino? Exato! Ficar atirado no sofá da sala, cerveja na mão e os controles remotos como seus fies escudeiros. Principalmente quando na tarde, há aquela final da Série C-2 tão esperada pelos apaixonados pelo esporte bretão.

Após anos de espera, o time onde dei os primeiros chutes, onde marcava o Alam... brado, a Associação São Carlense enfrentaria pelo inédito título o Atleticano de Regatas e Futebol. Um clássico do futebol estadual, TV no mudo, rádio a todo volume. O jogo está tenso, Betão, narrador oficial da XYKWXM vai gritando no microfone o ataque do São Carlense, uma troca intensa de passes com origem na falha do meia-esquerda do Atleticano. Tensão no ar, eis que ela surge e desliga tudo.  Como assim? É a final!

Ela, para situar os amigos, é Solange, aquela a quem jurei meu amor e minha servidão eterna.

_Luis, precisamos conversar.

O mundo parou. Seria aquela a senha para a hecatombe nuclear? Estaria ela em conluio com os ianques ou com os cossacos? Não, deve ser algo que fiz, só pode. Ligo meu 386-XT e começo a escanear, buscar em algum canto perdido de meu HD o que seria capaz de gerar uma onda de tal magnitude, também conhecida como d.r. bem no meio da final da C-2. Nada, nenhuma idéia. Estava limpo, era inocente, realmente inocente.

_ Agora? – balbuciei com toda a coragem que me restava.

_Não Luis, pode ser no Natal.

Entendi a fina ironia e achei melhor não contrariar, afinal, algo de ruim estava prestes a acontecer. Ninguém usa um “precisamos conversar” do nada. Algo de muito grave se avizinhava. Solange nunca teve uma paciência primorosa, na verdade, quando distribuíam esta qualidade, ela devia estar em outra fila do céu, só isso explicaria o pavio curtíssimo, quase inexistente.

_Olha só Luis, andei pensando, acho que nosso casamento tem que evoluir. Afinal são mais de quinze anos juntos, desde a faculdade. Precisamos ter uma mente mais aberta, mais européia, somos muito conservadores, apegados a preceitos tradicionais dessa sociedade retrógrada e opressora.

_ Sei – foi o máximo que consegui articular, aquilo era muito surreal. Havia um golpe, uma câmera escondida, uma pegadinha. Pensei que invadiriam a sala com um bolo cantando parabéns, mas depois lembrei que ninguém estava aniversariando, então...

_ Pois então, a partir de hoje tu tem a minha autorização pra me trair com outra mulher, e mais, pra tu não perder tempo, já escolhi a minha sócia nesse corpinho decrépito, é a Juliana...

A interrompi.

_ A Juliana? – My Lord, a Juliana, colega do tempo de faculdade da Solange, vem em casa direto, janta aos sábados, churrasco aos domingos, sempre solteira, uma loira que só podia ter pacto com o capiroto de tão linda que é, aquela que faz padre abandonar a batina, neguinho tomar cerveja quente e queimar a carne.  E completei – A Juliana Silva?

_ O Luis, tu me acha besta? Sério,tu me acha idiota ao ponto de permitir que tu me traísse com a Ju Silva? Alôooo, eu te capo antes de tu pensar em encostar nela. Tu pode me trair é com a Juliana Paes! Se ela aparecer na tua frente e quiser sair contigo, ta liberado, não precisa nem te preocupar.
_Espera ai. Quem é a Juliana Paes?

_Sério, tu ta brincando comigo, só pode. Como assim quem é a Juliana Paes.  A da televisão!

_ A Juliana Paes, atriz, deusa de ébano, aquela musa da TV?

Saiu um – arrã contrariado.

_Aquela do bocão, dos zoião, dos “peitão”, dos...

_ Essa mesma!

_ Mas ela ta no Rio de Janeiro!!!! Eu to a centenas de quilômetros, isso não ta me parecendo muito justo, não.

_Ah, não? O bonitão esta se achando injustiçado? Luis como não é justo? Eu estou te liberando do juramento do altar, farei o papel de “cornélia” e tu vem me dizer com essa cara amarrotada que eu não estou sendo justa?

Senti que havia adentrado em terreno perigoso. A proposta não teria brecha para acordo e se tentasse forçar algo, o salvo conduto seria picotado em milhões de pedaços. Tudo podia ser perdido no mais rápido piscar de olhos. Tentei um último e tolo argumento, mas negociações com mulheres maquiavélicas não são para inexperientes.

_ Tá, mas digamos, eu encontrei uma mulher muito parecida com a Juliana Paes, não serve? Por exemplo, a sobrinha da Dona Matilda é muito parecida com ela. Ela só tão tem o bocão, o cabelo, o zoião, mas no mais, passa batido.

_ Qual o nome da menina e o sobrenome?

_ O nome eu não sei minha paixão, mas o sobrenome deve ser o mesmo da Dona Matilda, Gonçalves.

_ Pois então Luis! Gonçalves é igual a Paes?  E eu não sei é o mesmo que Juliana?Eu te respondo sumidade intelectual, não, não são a mesma coisa! Quer saber? Cansei, tu não valoriza o que eu faço por ti, chega de ser boazinha. Não tem mais acordo, acabou! Quero ser “pra frentex”, mas não, o bonito não pode ficar só com a mão, quer o braço todo!

Eis que surge a real essência da proposta,  nada é gratuito e como diz um político da cidade, não existe almoço de graça, alguém pagará a conta.

_Fica com teu futebol e me dá o cartão que vou pro shopping , preciso me desestressar, chega, além do mais tem uma liquidação de sapatos e bolsas. Viu? Eu estava calma, mas tu tem esse dom de estragar tudo o que eu penso em fazer por ti, me tira o sossego, me tira do sério. Agora, só comprando uns cinco pares de sapatos e umas dez bolsas pra me acalmar. É impressionante

E assim, intempestivamente, me deixando com uma cara de tacho, Solange virou e saiu batendo os tamancos, portas e o que mais encontrou pela frente. Por breves minutos tive o paraíso ofertado, me senti Adão nos primórdios da criação e quando menos percebi, já tinha mordido uma daquelas farinhentas maçãs argentinas, para que tudo me fosse retirado igual doce arrancado de criança.


Voltei para o futebol, já estava 3 a 1 para o Atleticano. Minha dor de cabeça na segunda seria enorme, título perdido, cartão estourado e a Juliana Paes nas nuvens.

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