Alícia, sempre ela! Descobriu não sei como uma fórmula de
surpreender-me quando mais preciso. Ela simplesmente pousa sua presença, sem
importar-se com a turbulência de uma manhã, a intensidade de uma tarde ou a
calma da madruga. Esta sua capacidade de inspirar de forma peculiar o meu vírus
incubado da escrita é única. O faz sem palavras, apenas com a letra A de seu
nome ou com seus Olhos e agora com costas desnudas e coração ao mar!
Intensidade. Este seria o substantivo que define
perfeitamente a ela e o mar a quem se declara. Assim como um paciente montador
que dá forma a complexos quebra-cabeças, observá-los com toda grandiosidade não
é tarefa para afoitos. Este é um privilégio que compete somente aos
experimentados e treinados seres que desconhecem a celeridade do tempo.
Observá-los assim, lembra que sempre fui fascinado, talvez
seja uma das minhas marcantes características – fascinar-me com uma facilidade
voluptuosa, pelo mar. Este mesmo que Alícia nos convida a observar. O horizonte
alcançado pelo limite ocular proporciona o aparecimento da linha tênue que
divide e funde a água e o firmamento, impossibilitando distinguir onde é o
começo de um e o fim do outro, grandioso! E Alícia? Creiam, confiem você jamais
a esquece!
Nunca me importei com a ditadura de cozinhar minha pele alva
de garoto de apartamento sob o sol escaldante do litoral. Jamais! Até porque o resultado
nunca variava da coloração vermelho –camarão. Gosto realmente de observar a
água sob efeito do vento, transforma o movimento das ondas em uma dança
sedutora sem tempo e hora de acabar.
Presente da criação a todo aquele que se esquece dos
ponteiros do tempo a beira da praia. Você necessariamente não precisa ficar
olhando perdidamente a este espetáculo, pode desviá-lo para o lado e constatar
que modernamente, sereias possuem pernas e estão junto a nós. Elas deixaram
aquela vida monótona de cantar, encantar e afogar, preferem agora é torturar os
pobres mortais com seu desfile incessante sobre a areia fofa.
Retorno ao mar, sem pressa alguma, apenas exercitando o
sagrado direito de autorizar a imaginação que alce vôo e trace paralelos onde poucos
conseguem. Posso compará-lo totalmente a Alícia, e o faço em pormenores que
guardo para mim de um jeito imperfeitamente perfeito de egoísta.
Observá-lo é mais que teorizar, permite perceber que Posseidon
ao contrário do que ocorria na Grécia
Antiga é quem nos reverencia beijando
nossos pés, é a oportunidade de viajar no tempo, imaginar os navegadores
chegando àquele mesmo litoral tão diverso de hoje. O impacto da primeira vista
jamais é superado por nada, talvez por isso, e somente por isto, exista ainda
tanta paixão à primeira vista nestes tempos de pixels e dpis.
Poetas não cansam de se declarar a ele e a sua grandiosidade.
Inclusive eu, no início de minha amadora e audaciosa carreira poética, como bom
canastrão, escrevi algumas linhas em que comparava os olhos de alguma musa já
perdida no tempo e espaço, a um mar de águas profundas, que guardava neles os
mais profundos segredos e como os inexperientes exploradores não obtiveram
êxito ao resgatá-los e os tornarem possíveis e reais. Sim, uma obra de discutível
qualidade.
Logicamente, que outros Poetas alcançaram seus
objetivos, criaram paralelos e estabeleceram conexões profundas. Assim como o
Mestre Fernando Pessoa, conseguiu sabiamente em Mar Português
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passa além da dor
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Sim Alícia, tudo sempre vale a pena se a alma não é
pequena, e para a tua, tudo vale a pena ser vivido, pois este ímpar jeito de ser,
aparentando tanta tranqüilidade e sendo tão gigante quanto às águas do Pacífico
te convida a aproveitar O mar, amar, rearmar, o ar, o mar,amar e assim
recomeçar.
Diga, existe melhor definição a uma alma que esta?

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