segunda-feira, 27 de março de 2017

Jornalista, Eu?

A maior parte dos meus anos de contribuição para aumento do PIB nesta República Tupiniquim se deu nas instalações de um Jornal. Não é um mero acaso para aqueles que conhecem um pouco de minha trajetória; sempre desejei ser jornalista. Considero importante esta capa com a qual eles são investidos, tornam-se modernos Dick Tracys, aqueles que dão a cara à tapa, correm atrás da notícia, apanham chuva, levam tapa na cara, ameaças de morte, tiros, bomba e num período conturbado da vida política, visitavam os porões sem saber se voltariam a ver o nascer do sol.

Tudo começou no final da primavera do ano em que a Seleção Canarinho saiu da fila na Copa do Mundo. O Real era um bebê forte e invocado que rivalizava com seu irmão mais velho, o Dólar de igual para igual, ninguém segurava o brasileiro. Estava vivendo um novo momento do cenário Histórico, chutara um Presidente democraticamente eleito, assumiu outro em seu lugar que ressuscitava carros e aparecia ao lado de modelos desnudas da cintura para baixo.

Pois bem, nessa bucólica República encontrei um amigo de anos e entre aquelas costumeiras perguntas que surgem destes encontros casuais, como estão todos, o que estão fazendo, enfim ele perguntou com qual idade eu estava. Após responder, ele quis saber se eu já estava dispensado do Exército de Caxias. Sim, estava e no auge dos meus dezessete anos, sonhos borbulhando, cabelos revoltos e tinha a vontade de ser útil para a sociedade e ter meu próprio dinheiro.

Ele comentou que havia uma vaga no setor dele no Grupo Jornalístico e que o procurasse no outro dia pela manhã. E lá me fui, cedo da matina ao encontro do meu destino, entrar pela porta da frente, ficar mais próximo do mundo da redação, da produção do periódico líder de mercado. Claro que nem tudo ocorre da maneira que se deseja, ainda mais quando se é um adolescente recém saído das fraldas, a vaga era para a área financeira. Ok vamos em frente!

Lembro perfeitamente de minha entrevista para adentrar nas fileiras do Jornal. Estavam sentados a minha frente o coordenador da área, um tipo sério com feições bugras e o representante dos recursos humanos, um cara muito gente fina e desenvolto como todo profissional de RH deve ser. Perguntas aqui, outras ali, aquele clima de descontração e eis que surge a indagação crucial – Qual o motivo que te faz querer trabalhar conosco?

Resposta direta de bate pronto, paulada certeira iguais as do Arce batendo uma falta pelo Grêmio – Ser Jornalista. Quero em quatro anos estar na Redação! A audácia e a impertinência sempre foram características que me acompanharam, não tanto agora que já estou na meia idade, pois bem, fui contratado, lógico que o Q.I. foi imprescindível para um adolescente conseguir o primeiro emprego em uma das maiores Empresas do Estado. O importante é que estava dentro.

Incrível, mas sem saber, em uma semana estava na Redação, logicamente que não escrevendo, mas levando notas, buscando autorizações de faturamento e despesas. Fiquei na área em que fui contratado por pouco mais de um ano, não agüentava mais aquela vida, a grana curtíssima e o sonho de entrar e pagar a Faculdade cada vez mais distante. Consegui uma vaga em outra área que vejam só, possibilitava aos jornalistas independentes, entidades de classe, clubes e uma infinidade de clientes a imprimirem seus jornais nas Máquinas do Jornal. Para os iniciados, elas possuem outro nome – Rotativas! Vocês pelo menos em filme já as viram, o cara entra apressado e grita: Parem as rotativas, temos que mudar a matéria sobre os pesticidas ou algo parecido.

Aqueles que trabalham ou labutaram nessa área, podem atestar e não me deixar mentir sozinho como é viciante toda a atmosfera de produção de um Jornal. O cheiro do papel misturado a tinta que não sai das narinas exerce papel de ópio, enquanto o barulho dos cilindros das chapas e do motor da máquina são a trilha sonora perfeita para dar vida ao mensageiro de notícias diárias, semanais, mensais e de periodicidades infinitas.

Durante os dezenove anos que seguiram, conheci e convivi com fantásticos jornalistas, aqueles da velha escola, os cascudos, dinossauros que caminhavam entre os pobres mortais sem que muitas vezes me desse conta da importância daqueles momentos. Jovem geralmente é assim, dispersivo ao que interessa.

Não tentaria ser audacioso ao ponto de citar o nome de todos este míticos seres, incorreria no erro primário do homem – ser injusto. Porém, cito dois que me faziam parar toda a tarefa que porventura estivesse fazendo para escutar: Jayme Copstein, que recentemente partiu para narrar histórias em outro plano e que não havia vez que não parássemos para trocar uns dedos de prosa; com ele aprendi que o rádio possui um delay de alguns segundos e que a bandalheira vai ao ar somente se o apresentador permitir e Tibério Vargas, Mestre de uma das mais conceituadas Universidades de Jornalismo do Estado, que tem um compêndio de causos e momentos Históricos que transformam cinco minutos de conversa em uma aula completa, além de fantástico escritor!

Invariavelmente, fazemos um plano e a vida nos mostra que ele deve ser refeito. Não cursei Jornalismo, me formei em Administração me especializei em Engenharia de Produção o que alguns dizem ser Gestão Industrial, mas continuei orbitando onde Jornalistas estavam. Tanto que certa vez conversando com uma recém apresentada amiga, ela confidenciou; pensava que tu era Jornalista. Foi um dos equívocos que mais me envaideceu.

Não menosprezo em nenhum momento a carreira abraçada, muito pelo contrário sei que a Administração move o mundo, que nós, enquanto Administradores somos os regentes da orquestra, mas bate aquela ponta de inveja de quem tem a possibilidade de levar a informação à população. Aqui talvez eu cometa um pecado, mas penso exatamente assim – levar a informação, refletir e tomar partido frente a ela cabe ao leitor, ouvinte, telespectador. Inicio e fecho a possível polêmica.

Quando o STF decidiu em 2009 que não havia mais necessidade de diplomação para exercer a profissão, aquele Ser sacana que reside em cada um de nós despertou de sua letargia e por segundos me fez vislumbrar ali a possibilidade de realizar o sonho juvenil. Foram segundos, porque o duende da reflexão me chamou a razão. Naquela época estava cursando Administração e já me sentia incomodado com o fato de muitos profissionais exercerem cargos de Gestão sem nunca terem assistido uma aula do curso ou ainda que os bacharéis tivessem as mesmas prerrogativas nas Empresas que um Administrador.

Por nenhum segundo e nem por uma decisão da Suprema Corte, eu teria, pelo menos penso assim, o direito de me considerar jornalista. Onde estaria a ética se assim me considerasse? Como encarar os amigos que estudaram, labutaram, consolidaram carreiras? Ser um bode no meio da sala? O penetra da festa? Não, se não deu nessa, quem sabe na próxima.

Recordei desse caso por duas razões, a primeira porque vi dia desses um anúncio online de um importante jornal de circulação nacional que conclamava com o patrocínio de duas empresas suspeitas e sob investigação federal, aos profissionais de todas as áreas para participar do programa de treinamento em jornalismo diário. Compreendeu a profundidade da questão?

Segunda razão porque lancei um livro de crônicas com outros nove inigualáveis escritores, sendo seis deles jornalistas. Participei dos encontros prévios do lançamento da obra como um observador atento, as histórias que surgiam na mesa eram impressionantes; nomes, datas, ligações, desdobramentos, enfim, décadas de conhecimento se espraiando gratuitamente. Meu silêncio se fazia imperioso, abrir a boca para que? Estragar aquela comunhão gratuita de ensinamentos? Jamais!

 Juro, se um dia houver a possibilidade de viagem no tempo, volto para aquela época do jovem adolescente sabichão e arrogante e direi que alivie o nível de sua exigência, que aceite fazer primeiro a Faculdade e depois partir para a labuta, pois a vida não é um filme dos Smurfs, está mais para MadMax ou Bastardos Inglórios. Agora, se ele não escutar, o titio careca e cansado, que faça as mesmas escolhas, pelo menos conviverá com profissionais fantásticos e talvez, no recôndito de quatro paredes da sala, frente ao laptop possa se considerar 0,01% jornalista.


Ah, e se realmente existir reencarnação, na próxima não abro mão de ser um foca!

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