A maior parte dos meus anos de
contribuição para aumento do PIB nesta República Tupiniquim se deu nas
instalações de um Jornal. Não é um mero acaso para aqueles que conhecem um
pouco de minha trajetória; sempre desejei ser jornalista. Considero importante
esta capa com a qual eles são investidos, tornam-se modernos Dick Tracys, aqueles
que dão a cara à tapa, correm atrás da notícia, apanham chuva, levam tapa na
cara, ameaças de morte, tiros, bomba e num período conturbado da vida política,
visitavam os porões sem saber se voltariam a ver o nascer do sol.
Tudo começou no final da
primavera do ano em que a Seleção Canarinho saiu da fila na Copa do Mundo. O
Real era um bebê forte e invocado que rivalizava com seu irmão mais velho, o
Dólar de igual para igual, ninguém segurava o brasileiro. Estava vivendo um
novo momento do cenário Histórico, chutara um Presidente democraticamente
eleito, assumiu outro em seu lugar que ressuscitava carros e aparecia ao lado
de modelos desnudas da cintura para baixo.
Pois bem, nessa bucólica
República encontrei um amigo de anos e entre aquelas costumeiras perguntas que
surgem destes encontros casuais, como estão todos, o que estão fazendo, enfim
ele perguntou com qual idade eu estava. Após responder, ele quis saber se eu já
estava dispensado do Exército de Caxias. Sim, estava e no auge dos meus dezessete
anos, sonhos borbulhando, cabelos revoltos e tinha a vontade de ser útil para a
sociedade e ter meu próprio dinheiro.
Ele comentou que havia uma
vaga no setor dele no Grupo Jornalístico e que o procurasse no outro dia pela
manhã. E lá me fui, cedo da matina ao encontro do meu destino, entrar pela porta
da frente, ficar mais próximo do mundo da redação, da produção do periódico
líder de mercado. Claro que nem tudo ocorre da maneira que se deseja, ainda
mais quando se é um adolescente recém saído das fraldas, a vaga era para a área
financeira. Ok vamos em frente!
Lembro perfeitamente de minha
entrevista para adentrar nas fileiras do Jornal. Estavam sentados a minha
frente o coordenador da área, um tipo sério com feições bugras e o
representante dos recursos humanos, um cara muito gente fina e desenvolto como
todo profissional de RH deve ser. Perguntas aqui, outras ali, aquele clima de
descontração e eis que surge a indagação crucial – Qual o motivo que te faz
querer trabalhar conosco?
Resposta direta de bate
pronto, paulada certeira iguais as do Arce batendo uma falta pelo Grêmio – Ser Jornalista.
Quero em quatro anos estar na Redação! A audácia e a impertinência sempre foram
características que me acompanharam, não tanto agora que já estou na meia
idade, pois bem, fui contratado, lógico que o Q.I. foi imprescindível para um
adolescente conseguir o primeiro emprego em uma das maiores Empresas do Estado.
O importante é que estava dentro.
Incrível, mas sem saber, em
uma semana estava na Redação, logicamente que não escrevendo, mas levando
notas, buscando autorizações de faturamento e despesas. Fiquei na área em que
fui contratado por pouco mais de um ano, não agüentava mais aquela vida, a
grana curtíssima e o sonho de entrar e pagar a Faculdade cada vez mais
distante. Consegui uma vaga em outra área que vejam só, possibilitava aos
jornalistas independentes, entidades de classe, clubes e uma infinidade de
clientes a imprimirem seus jornais nas Máquinas do Jornal. Para os iniciados,
elas possuem outro nome – Rotativas! Vocês pelo menos em filme já as viram, o
cara entra apressado e grita: Parem as rotativas, temos que mudar a matéria
sobre os pesticidas ou algo parecido.
Aqueles que trabalham ou
labutaram nessa área, podem atestar e não me deixar mentir sozinho como é
viciante toda a atmosfera de produção de um Jornal. O cheiro do papel misturado
a tinta que não sai das narinas exerce papel de ópio, enquanto o barulho dos
cilindros das chapas e do motor da máquina são a trilha sonora perfeita para
dar vida ao mensageiro de notícias diárias, semanais, mensais e de
periodicidades infinitas.
Durante os dezenove anos que
seguiram, conheci e convivi com fantásticos jornalistas, aqueles da velha
escola, os cascudos, dinossauros que caminhavam entre os pobres mortais sem que
muitas vezes me desse conta da importância daqueles momentos. Jovem geralmente
é assim, dispersivo ao que interessa.
Não tentaria ser audacioso ao
ponto de citar o nome de todos este míticos seres, incorreria no erro primário
do homem – ser injusto. Porém, cito dois que me faziam parar toda a tarefa que
porventura estivesse fazendo para escutar: Jayme Copstein, que recentemente
partiu para narrar histórias em outro plano e que não havia vez que não
parássemos para trocar uns dedos de prosa; com ele aprendi que o rádio possui
um delay de alguns segundos e que a bandalheira vai ao ar somente se o apresentador
permitir e Tibério Vargas, Mestre de uma das mais conceituadas Universidades de
Jornalismo do Estado, que tem um compêndio de causos e momentos Históricos que
transformam cinco minutos de conversa em uma aula completa, além de fantástico
escritor!
Invariavelmente, fazemos um
plano e a vida nos mostra que ele deve ser refeito. Não cursei Jornalismo, me
formei em Administração me especializei em Engenharia de Produção o que alguns
dizem ser Gestão Industrial, mas continuei orbitando onde Jornalistas estavam.
Tanto que certa vez conversando com uma recém apresentada amiga, ela
confidenciou; pensava que tu era Jornalista. Foi um dos equívocos que mais me
envaideceu.
Não menosprezo em nenhum
momento a carreira abraçada, muito pelo contrário sei que a Administração move
o mundo, que nós, enquanto Administradores somos os regentes da orquestra, mas
bate aquela ponta de inveja de quem tem a possibilidade de levar a informação à
população. Aqui talvez eu cometa um pecado, mas penso exatamente assim – levar a
informação, refletir e tomar partido frente a ela cabe ao leitor, ouvinte,
telespectador. Inicio e fecho a possível polêmica.
Quando o STF decidiu em 2009
que não havia mais necessidade de diplomação para exercer a profissão, aquele Ser
sacana que reside em cada um de nós despertou de sua letargia e por segundos me
fez vislumbrar ali a possibilidade de realizar o sonho juvenil. Foram segundos,
porque o duende da reflexão me chamou a razão. Naquela época estava cursando
Administração e já me sentia incomodado com o fato de muitos profissionais
exercerem cargos de Gestão sem nunca terem assistido uma aula do curso ou ainda
que os bacharéis tivessem as mesmas prerrogativas nas Empresas que um
Administrador.
Por nenhum segundo e nem por
uma decisão da Suprema Corte, eu teria, pelo menos penso assim, o direito de me
considerar jornalista. Onde estaria a ética se assim me considerasse? Como
encarar os amigos que estudaram, labutaram, consolidaram carreiras? Ser um bode
no meio da sala? O penetra da festa? Não, se não deu nessa, quem sabe na
próxima.
Recordei desse caso por duas
razões, a primeira porque vi dia desses um anúncio online de um importante
jornal de circulação nacional que conclamava com o patrocínio de duas empresas
suspeitas e sob investigação federal, aos profissionais de todas as áreas para
participar do programa de treinamento em jornalismo diário. Compreendeu a
profundidade da questão?
Segunda razão porque lancei um
livro de crônicas com outros nove inigualáveis escritores, sendo seis deles jornalistas.
Participei dos encontros prévios do lançamento da obra como um observador
atento, as histórias que surgiam na mesa eram impressionantes; nomes, datas,
ligações, desdobramentos, enfim, décadas de conhecimento se espraiando
gratuitamente. Meu silêncio se fazia imperioso, abrir a boca para que? Estragar
aquela comunhão gratuita de ensinamentos? Jamais!
Juro, se um dia houver a possibilidade de
viagem no tempo, volto para aquela época do jovem adolescente sabichão e
arrogante e direi que alivie o nível de sua exigência, que aceite fazer
primeiro a Faculdade e depois partir para a labuta, pois a vida não é um filme
dos Smurfs, está mais para MadMax ou Bastardos Inglórios. Agora, se ele não
escutar, o titio careca e cansado, que faça as mesmas escolhas, pelo menos
conviverá com profissionais fantásticos e talvez, no recôndito de quatro
paredes da sala, frente ao laptop possa se considerar 0,01% jornalista.
Ah, e se realmente existir
reencarnação, na próxima não abro mão de ser um foca!
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