quarta-feira, 16 de agosto de 2017

O Chamado

Tempos modernos trazem em sua concepção uma tediosa repetição de tarefas e, por favor, não me digam que vivo em uma sugestiva auto-sabotagem. Confesso meu desconforto com a sequência de reuniões que precisamos encarar em um dia. Precisamente hoje, neste santo dia de Agosto, em função de algumas mudanças organizacionais, foram três! A sorte é que todo ônus anda entrelaçado com o bônus e recebi em uma delas o amigo João Francisco. O Chico é um cara bem articulado, torcedor alvirrubro, apreciador de jogos da série B do campeonato nacional de futebol e jogador amador, que em sua juventude chegou a jogar com meu ex-sogro. Um bom praça com quem você fica horas conversando. 

Antes de iniciarmos a reunião ele comentou que havia lido a crônica que escrevi sobre a noite que passei com Anne Hathaway. Sim meus amiguinhos e amiguinhas, o titio já teve esta fantástica companhia. Não sabe quem ela é? Joga no Google ou dê um clique no link e saiba mais (minha-noite-com-anne). Enfim, passei a responder as curiosidades dele sobre em que momento comecei a escrever se há algum padrão de criação, enfim, no melhor sentido foi uma entrevista, a primeira e provavelmente a  única que concedi a respeito desta minha faceta.

Isso me fez pensar, colocar a massa cinzenta a trabalhar, porém não me recordei qual foi o primeiro texto guardado, mas a idade aproximada deve ter gravitado entre meus quinze ou dezesseis anos. Eram produtos infinitamente inferiores aos que hoje você tem acesso, não que tenham melhorado muito, que fique claro. Ainda produzo algumas linhas que só podem ser destinadas a gaveta do esquecimento e lá se juntam com estes primeiros trabalhos. Imagino que as palavras em conluio arquitetam a vingança diabólica, definindo o exato momento que deixarão de me auxiliar neste processo de descobertas e partilhas. Talvez seja a futura mãe de todas as batalhas, dependerá da belicosidade das palavras generais, da trilha sonora que era executada no momento em que foram concebidas e ganharam vida. Algumas nasceram do silêncio ensurdecedor das madrugadas, outras acompanhadas de clássicos e estas, agora, por exemplo, nascem abençoadas por um Jota Quest.

E para quem escrevi? O fiz para meus amores, que não foram poucos e nem tantos e sim na quantidade exata para se tornarem inesquecíveis, indeléveis e transformadores. Pode-se desejar ser mais para alguém do que esta tríade? Pode? Logicamente que falar somente de sentimentos te torna um piegas insuportável, é necessário equilibrar a dose, nem tanto ao céu e nem a terra. Para tudo nesta existência há de buscar o bom senso e este é de uma complexidade incomparável. Já produzi igual Zé Ramalho, devaneios tolos, percepções aguçadas pelo olhar do tempo, sacanagem pesada e leve, poemas pueris, desejos explícitos, a nudez e decrepitude da alma e o grito sufocado em gargantas e peitos perdidos na multidão.

Chegadas na estação mental em minutos, às vezes horas, dias, meses e anos. Não há como mensurar o tempo necessário para concatenar ideais e montar as peças. Pareço o Dr. Frankstein, na busca de vida para seu monstro, verificando que palavra melhor se encaixa na outra, se haverá ritmo ou se a narrativa se tornará enfadonha. E sim amiguinha do meu coração, não existe uma regra de bolo a ser seguida no melhor estilo – escreva com caneta preta, sobre folhas azuis, influenciado pela nesga de luz que invade teu quarto. Acredite, no exato momento em que começar a criar gatilhos produtivos, estará na hora de abandonar este ofício.

Talvez seja um autodidata que aprendeu equivocadamente a arte da escrita. Aquele que causa uma revolta no Panteão dos Mestres Escritores no momento que empunha a caneta ou dedilha apressadamente as teclas do computador do mesmo jeito desengonçado que fazia naquela Remington portátil dos anos 90. Agora a deslumbrante verdade, a claridade e salvação para os problemas da humanidade, a confissão esperada por anos – isso pode ser nada mais, nada menos que as conseqüências nefastas de um quase jornalista e sim, também já escrevi sobre isto (clique para saber mais jornalista-eu.html). Para toda ação existe uma conseqüência, as redações perderam um foca, a Administração ganhou mais um maestro e o mundo digital outro escritor da aldeia! Não consigo imaginar quem perdeu ou ganhou mais com estes tortuosos caminhos profissionais.


E isso pra dizer, que tudo vale à pena quando a alma não é pequena. Opa, Fernando Pessoa já nos presenteou com este mantra, cheguei atrasado! Bom, então o problema maior que se encontra em um momento crucial igual a este é definir a forma como encerrar um monólogo que conta com mais de 800 palavras com o mesmo clímax encontrado em seu desenvolvimento e principalmente mostrar ao Chico que tudo pode se transformar na criação de uma croniqueta, de uma pequena entrevista até uma proposta comercial, basta apenas querer e ter tempo para revisitar a oficina de criação chamada imaginação!

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