quinta-feira, 16 de março de 2017

Promessa às vezes é dívida!

Espero que você preste bem atenção ao que escreverei, porque não repetirei. Quer dizer, talvez até repita, ultimamente tenho me sentido igual aos antigos bolachões arranhados, que faziam com que a agulha caísse sempre no mesmo trecho da música. Algo tão chato quanto aquele irritante ruído que se escutava ao fundo das músicas.

Sim, para algumas coisas evoluí. Gosto do som claro, limpo, sem chiados e interferências, do mesmo jeito que me encanta a comunicação direta entre as pessoas. Por um destes acasos misteriosos da existência fomos inseridos neste mundo de eterna ebulição e onde os conceitos sociais sofrem uma pressão estonteante. Porém o caso não é este, o que realmente acontece é que desaprendemos a nos comunicar, escutar o que o outro tem a dizer.

Viramos metralhadoras ambulantes, que ao invés de expelir projéteis, disparam palavras sem um critério bem estabelecido. Poucos possuem o dom de concatená-las, inserir algum significado que crie no seu receptor o entendimento claro da idéia. Não uma simples troca de sons ou sinais gráficos, mas uma experiência que valha a pena ser relembrada por momentos sem fim.

Foi mais fácil? Com certeza foi. Quando criança a comunicação flui de maneira lúdica, é uma descoberta sem paralelos. Os sons e as palavras monossilábicas possuem significado único, o entendimento ocorre sem muitos sobressaltos. Claro, existem as exceções a regra, culpa dos adultos que desaprenderam o santo alfabeto infantil. Pensando bem, sem a renovação que as crianças executam ao nascer, o que seria dos seres arqueados e rugosos conhecidos como adultos? Logo chegarei neles!

E os adolescentes com suas gírias, palavras cortadas e risadas exageradas surgidas a partir das piadas mais sem graça? Neste momento os problemas começam a surgir para os mais tímidos. As palavras simplesmente nascem, mas não criam asas. Ficam guardadas em um grande hangar, ocupando espaço, sufocando e criando uma atmosfera nem um pouco bacana de freqüentar.

Agora com os adultos tudo é mais fácil. Será? E o tal pesar cem vezes antes de falar, serve para que? É a tal censura que nos impomos. Não se deve falar tal coisa que será interpretada de forma equivocada pelas freirinhas pecadoras do monte. O que tua família pensará se disseres a forma como encara o mundo? Os fardos vão se tornando mais pesados e quem consegue melhor assimilá-los, é o popular da turma, aqueles que se rebelam recebem o carimbo de ignorantes. Tão simples como comer jujubas para criar uma fissão nuclear.

Pare para pensar. Fora tudo isso, como anda nossa comunicação? Sou antigo, do tempo em que as meninas colecionavam papéis de carta e que invariavelmente no primeiro dia de aula devíamos escrever aquela fantástica redação – Minhas Férias. Todo inicio de ano era a mesma coisa, e lá íamos nós, com as letras trêmulas e grandes, escrever a lápis as peripécias vividas naquele paradisíaco momento de ócio que hoje faz tanta falta. Crianças se estiverem lendo isso, não tenham pressa para crescer, sério, não vale muito à pena.

Não me lembro se tive algum conselho deste tipo, porque logo cresci e assim comecei a escrever primeiro para registrar as idéias que brotavam iguais petróleo recém descoberto, depois se encontra uma finalidade mais apropriada para este dom, embora discorde que seja um dom, é apenas uma faculdade bem desenvolvida. Independente, o que realmente importa, é que escrevíamos no papel, sim, em folhas brancas, pautadas, arrancadas de cadernos, milimetradas, com caneta, lapiseira e até mesmo, pasmem, datilografadas em inacreditáveis máquinas de escrever portáteis. Isso parece um relato de ficção científica, porém aconteceu a menos de 30 anos. Um segundo se formos colocar na régua da existência do Planeta Azul.

Cartas! Mandava cartas para minhas primeiras namoradas, escrevia poesias, inseria um monte de pensamento nas folhas e enviava pela bagatela de um centavo de Real. Uma pechincha! Talvez tenha sido a última geração que se utilizou deste subterfúgio de comunicação, porque um inimigo apareceu no horizonte. E ele tem nome e é através dele que escrevo, digito ou transformo em um sistema binário estas palavras.
Veio o computador e seu Edit, Bloco de Notas, Word e afins, rápidos como essa geração desejou nasceu a troca de mensagens instantâneas, sms e agora os aplicativos. Facilitou? Sim. Melhorou? Talvez. Aprovo? Quem sabe?

Tudo isso porque hoje, me utilizando de um famigerado e moderno aplicativo de comunicação, li uma amiga escrever – “Afff, falou o velho!”. Caso alguém ainda não esteja acostumado com a ironia, o senso de humor apurado dos inteligentes, essa curta frase foi carregada em toda sua essência dela.

Ela me enviou uma foto muito bacana de um trabalho que executou numa reunião mensal do trabalho.  Fotos lindíssimas, com a frase icônica – O que quero para o futuro. Tenho certeza que não será difícil conquistar tudo o que deseja competência e energia para isso lhe sobra. Notei que havia faltado apenas o seu desejo de conhecer a terra do sol nascente, com todas suas cores e cultura milenar. Comentei e ela disse que a deixasse dormir para sonhar.

Disse que ela não deixasse de sonhar e correr atrás de seus sonhos, porque isso é o que ainda resta para a maioria das pessoas. Alguns não lidam muito bem com as frustrações de não chegarem onde queriam e partem na busca de culpados para seu próprio fracasso. Talvez por isso tenha desistido de sonhar a algum tempo, se algo surge no meu radar que venha a me interessar, a busco, ou melhor, tento buscá-la. Lógico que frustra não obter sucesso na empreitada, mas o importante é não se amargurar.

Seja lá o que aconteça é necessário manter a mente aberta e alma leve, cada qual carrega sua bagagem e sabe quanto lhe custou chegar até onde está. Deparei-me certa vez com uma frase que em essência dizia que se estávamos ali, havíamos superado muitos dias ruins e isso era um sinal que estávamos igualmente nos saindo bem da situação. Simples não?

Alguém ainda pode pensar cara, como ele permite que ela tenha enviado um “afff, falou o velho!” e fique de boa?  Lembra do que escrevi logo no inicio? Precisamos aprender a escutar, compreender a sabedoria e o significado de pequenas frases ou palavras. Ela com sua espontaneidade e conhecimento em me provocar as maiores reflexões mostrou para este velho em corpo de “jovem” que há muito mais entre o aqui e o Japão, o despertar e o sonhar, as linhas de um caderno ou os bits de um texto que a filosofia e a análise podem descobrir.


Sem muito gre-gre para Gregório ela escancarou que um jardim com flores vermelhas e brancas convidam para uma contemplação e mergulho no íntimo em busca de respostas já platinadas e principalmente, que uma má conduta não é errada, ainda mais quando a trilha sonora é Bon Jovi.

Nenhum comentário:

Postar um comentário