segunda-feira, 10 de abril de 2017

Dentro de um Te Amo

Hoje fui paquidérmico, deixei a sensibilidade e o tato de lado e me senti igual um elefante em uma fina loja de cristais.  Início da tarde já contava cinqüenta e três minutos que esperava na fila de uma loteria para pagar os boletos. Sim meus pequenos, adultos recebem todo mês estas apavorantes cartinhas pelas quais precisam desembolsar uma quantidade de vil metal para ficar quites com os credores. Acreditem, é uma tortura!

Pois bem, fila em estado de letargia e eis que o sinal de mensagem instantânea acusa a chegada de mais uma destas famigeradas no smartfone. Quem e o que será?  É de uma amiga de alma sensível e pura que enviou aquelas correntes que migraram dos emails para os aplicativos de celular. Começava com uma declaração de amor aos amigos, principalmente aos melhores amigos. Bacana mesmo!

Porém nesse momento o espírito de ogro se apossou de mim, poderia e deveria ter sido mais humano, agradeci a lembrança e instintivamente disse que eu amo apenas a quem foi íntima. Mentira tosca, grossa, desnecessária. Cometi um sincericídio. Errei dessa vez, como o fiz em tantas outras.

Eu te amo virou vírgula, todos usam sem moderação e de tal forma, igual os antibióticos consumidos sem controle no passado, perdeu sua eficácia e uso. Sério, não consigo sair dizendo aos quatro cantos um eu te amo despretensioso. Não está em mim, talvez a astrologia explique ou os caminhos que percorri até aqui.

Classifico meus sentimentos e a forma pela qual os expresso ou denomino dependendo das pessoas. Parece lógico, mas vamos lá. Amo meus pais pelo motivo mais básico, quem eu seria sem eles? Claro, o amor não te causa cegueira, percebo as qualidades e os defeitos de ambos e os aceito e principalmente, sei que a recíproca é verdadeira. O mesmo sinto pelo meu sobrinho, o futuro King Arthur, pelo qual tento me tornar uma pessoa melhor e deixar um exemplo bacana, para que no futuro ele consiga lembrar em algum momento que aquele velho tio até não era tão chato assim. As pessoas que amamos nos modificam e nos inspiram desta forma sem nada pedir em troca.

Bom, então, de posse dessa declaração, você pode entender ou compreender erroneamente que não amo a mulher que divide as broncas comigo, aqueles boletos que falei no inicio, as ansiedades e incomodações. O sentimento é de um amor, não me entendam mal, menos intenso. Por quê? Porque amiguinhos, uma relação em que o sexo está inserido não pode ser comparada a uma em que apenas os laços mais profundos da alma se encontram.  Ele está mais para um amor-te-adoro, porque, ele não suporta tudo, não aceita passivamente tudo, não perdoa e nem esquece tudo. E foi assim exatamente que conduzi minhas relações com outras quatro ou cinco boas companheiras de história.

E os parentes, os amigos, os camaradinhas do futebol e do serviço? Bem, destes a gente gosta ou não, tolera ou não e os mais chegados ficam guardados em um panteão de bons próximos, aqueles amigos a quem seremos os primeiros a estender as mãos e que farão o mesmo em nossa direção.  Eles são os membros da família que vamos constituindo a cada amanhecer e nova experiência; gostamos deles e eles gostam de nós, mas creiam eles não serão compassivos toda a parte do tempo, os interesses podem mudar e isso não é um crime, porque nós humanos mudamos sempre. O certo de hoje pode ser o sumido de amanhã.

Amor é para raros, adorar para poucos e gostar é para um universo de pessoas, e isso não as faz mais ou menos importantes ou as dividem e separam, não! Aceitemos, assim é a vida, um enorme e instigante tabuleiro de resta um.

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