Os deuses vendem quando dão
melhor saber, e assim, o homem se torna prisioneiro, um eterno devedor das
benesses divinas. Não adianta, por mais que o homem, este gênero cão tente não
se entregar aos prazeres transitórios da carne, ele sucumbe à paixão. É fato!
Era noite, provavelmente fizesse
frio, lembro vagamente que ela vestia um blusão nas cores azul e cinza. Aquela indumentária
não fazia nem um pouco jus ao que escondia, calça jeans e tênis. Entrou na sala
como se tivesse esperado o exato momento que meu olhar se direcionasse para a
porta, desfilou, na verdade deslizou por entre as cadeiras, olhou para os lados
e claro, não me notou. Quedou-se na cadeira , riu, riu muito, riu bonito e
apenas riu.
Desejei-a naquele instante de cores vivas e
que hoje está perdido em uma ata, atirado em uma gaveta qualquer de meu arquivo
semimorto. Uma noite qualquer, dessas que faz um frio razoável, aceitável,
tolerável. Um curso, um aprendizado a mais, qual diferença pode fazer?
Estratégia meu caro, do grego strateegia, do latim strategi, do francês
stratégie, do inglês strategy, do alemão strategie, do italiano strategia, do
espanhol estrategia, isso é o que precisaria encontrar para me fazer notar. Tão
simples quanto resolver um problema proposto por um Mestre Jedi da Matemática.
Busquei em todo canto como chegar
perto dela, observei-a como uma fera prestes a dar o bote na vítima indefesa,
virou covardia. Estava pronto, calculei os ganhos e as perdas de minha ação.
Não me importava se teria sucesso ou sucesso, se a teria em minha caminhada por
toda existência como mulher, amante ou amiga. Um homem com medo, não conquista
mulher bonita.
Nesse momento, confiando em mim
da mesma maneira que uma equipe de futebol confia em uma defesa de juvenis,
falei com os deuses. Eles se ofenderam, acaso não teriam nada mais importante
para se preocupar do que com as investidas amorosas dos mortais? Confrontei,
afinal, Zeus, quantas sementes plantou nos úteros humanos ao descer do Olimpo?
Por esta tua afronta, terás sucesso, mas pagarás como pedágio a vergonha em
vossa primeira noite.
Saímos. Fizemos o que tínhamos
que fazer, sem pressa, sem rodeios, tudo aquilo que poderia acontecer com um
casal jovem, desnudei o corpo moreno, encontrando simetria e proporcionalidade
em cada curva e pedaço rabiscado no mais perfeito rascunho, o perfume daqueles
cabelos encaracolados em meu nariz, as mãos rápidas que de bobas não possuíam sequer
a mais pálida lembrança, a boca pequena, a língua ligeira e aquele par de olhos
castanhos, que, por favor, tudo deram, sem nada pedir em troca.
Após o embate adormecemos. Morfeu
nos conduziu em seu reino, gozamos do sono dos justos e nele os deuses me
cobraram. Você terá que pagar o pedágio, lembre-se, a banca paga e cobra. Era
uma manhã de domingo, qualquer dia de Setembro e devia saber que algo estava
errado. Jamais, em instante algum, por motivo aparente ou sombrio, acordei às 7
da manhã. Despertei-a com um beijo. Espreguiçou na cama, me olhou de forma
diferente. Como não percebi?
Somente o sopro de Sísifo em seu
ouvido, conduzindo seus pensamentos seria capaz de tamanha desenvoltura ou desfaçatez.
Respondeu a meu questionamento se desejava beber algo, com um simples, pode ser
teu leite. Levantei e fui à cozinha, na geladeira peguei as misturas, do
armário saiu a lata da bebida láctea em pó, preparei dois copos, bandeja, pães,
demais apetrechos e fui ao quarto. Tomamos o desjejum. Havia sido sua primeira
noite em minha casa, não teria como saber. Atormentava-me a dúvida, não a controlei
mais.
Deixa te fazer uma pergunta,
como, em que instante, de que forma descobriste que eu utilizo leite em pó para
pedir dele? Ela sorriu maliciosamente e neste momento, aquele meu pacato e
pueril mundo começou a desmoronar. Arregalei os olhos e ela riu ainda mais.
Antes de proclamar a sentença – não era bem desse que eu falava – os deuses
disseram, está pago o pedágio, tua vergonha é o preço justo e definido por nós.
Lembre sempre inseto mortal, nós vendemos quando damos!
Nenhum comentário:
Postar um comentário