segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Os Deuses Vendem quando Dão

Os deuses vendem quando dão melhor saber, e assim, o homem se torna prisioneiro, um eterno devedor das benesses divinas. Não adianta, por mais que o homem, este gênero cão tente não se entregar aos prazeres transitórios da carne, ele sucumbe à paixão. É fato!

Era noite, provavelmente fizesse frio, lembro vagamente que ela vestia um blusão nas cores azul e cinza. Aquela indumentária não fazia nem um pouco jus ao que escondia, calça jeans e tênis. Entrou na sala como se tivesse esperado o exato momento que meu olhar se direcionasse para a porta, desfilou, na verdade deslizou por entre as cadeiras, olhou para os lados e claro, não me notou. Quedou-se na cadeira , riu, riu muito, riu bonito e apenas riu.

 Desejei-a naquele instante de cores vivas e que hoje está perdido em uma ata, atirado em uma gaveta qualquer de meu arquivo semimorto. Uma noite qualquer, dessas que faz um frio razoável, aceitável, tolerável. Um curso, um aprendizado a mais, qual diferença pode fazer? Estratégia meu caro, do grego strateegia, do latim strategi, do francês stratégie, do inglês strategy, do alemão strategie, do italiano strategia, do espanhol estrategia, isso é o que precisaria encontrar para me fazer notar. Tão simples quanto resolver um problema proposto por um Mestre Jedi da Matemática.

Busquei em todo canto como chegar perto dela, observei-a como uma fera prestes a dar o bote na vítima indefesa, virou covardia. Estava pronto, calculei os ganhos e as perdas de minha ação. Não me importava se teria sucesso ou sucesso, se a teria em minha caminhada por toda existência como mulher, amante ou amiga. Um homem com medo, não conquista mulher bonita.

Nesse momento, confiando em mim da mesma maneira que uma equipe de futebol confia em uma defesa de juvenis, falei com os deuses. Eles se ofenderam, acaso não teriam nada mais importante para se preocupar do que com as investidas amorosas dos mortais? Confrontei, afinal, Zeus, quantas sementes plantou nos úteros humanos ao descer do Olimpo? Por esta tua afronta, terás sucesso, mas pagarás como pedágio a vergonha em vossa primeira noite.

Saímos. Fizemos o que tínhamos que fazer, sem pressa, sem rodeios, tudo aquilo que poderia acontecer com um casal jovem, desnudei o corpo moreno, encontrando simetria e proporcionalidade em cada curva e pedaço rabiscado no mais perfeito rascunho, o perfume daqueles cabelos encaracolados em meu nariz, as mãos rápidas que de bobas não possuíam sequer a mais pálida lembrança, a boca pequena, a língua ligeira e aquele par de olhos castanhos, que, por favor, tudo deram, sem nada pedir em troca.

Após o embate adormecemos. Morfeu nos conduziu em seu reino, gozamos do sono dos justos e nele os deuses me cobraram. Você terá que pagar o pedágio, lembre-se, a banca paga e cobra. Era uma manhã de domingo, qualquer dia de Setembro e devia saber que algo estava errado. Jamais, em instante algum, por motivo aparente ou sombrio, acordei às 7 da manhã. Despertei-a com um beijo. Espreguiçou na cama, me olhou de forma diferente. Como não percebi?

Somente o sopro de Sísifo em seu ouvido, conduzindo seus pensamentos seria capaz de tamanha desenvoltura ou desfaçatez. Respondeu a meu questionamento se desejava beber algo, com um simples, pode ser teu leite. Levantei e fui à cozinha, na geladeira peguei as misturas, do armário saiu a lata da bebida láctea em pó, preparei dois copos, bandeja, pães, demais apetrechos e fui ao quarto. Tomamos o desjejum. Havia sido sua primeira noite em minha casa, não teria como saber. Atormentava-me a dúvida, não a controlei mais.


Deixa te fazer uma pergunta, como, em que instante, de que forma descobriste que eu utilizo leite em pó para pedir dele? Ela sorriu maliciosamente e neste momento, aquele meu pacato e pueril mundo começou a desmoronar. Arregalei os olhos e ela riu ainda mais. Antes de proclamar a sentença – não era bem desse que eu falava – os deuses disseram, está pago o pedágio, tua vergonha é o preço justo e definido por nós. Lembre sempre inseto mortal, nós vendemos quando damos!

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