Escritório, sete da manhã,
modorrenta segunda-feira onde nada que devia acontecer ocorre e o que deveria
acontecer nem manda noticias. Silêncio
quebrado com aquela indagação inquisitória.
_ Albano, tu nem sabe, ontem
fiz uma hora e meia de Yoga! Que exercício, a gente meche com toda a
musculatura, tu devia tentar um dia desses – assim, animadamente Patrícia
bombardeou o pobre Albano, antes dele beber o primeiro gole de café.
Ela estava curtindo um momento
fitness, cortando carboidratos, decepando doces de sua dieta e inserindo um
programa rígido de atividades físicas que cansavam só de escutar. Duas horas de
caminhada, intercalada por uma de bicicleta e mais duas de caminhada. Albano
pobre coitado imaginava que um dia entraria no escritório e veria um palito de
um metro e sessenta no lugar de Patrícia.
Ele só teve tempo de dizer que
talvez tentasse novamente um dia.
_Como assim tentar novamente.
Tu já fez Yoga? Quando isso criatura? Olhando pra ti jamais poderia imaginar!
O problema, pensou o pobre
Albano, é que as pessoas pensam que as outras já nasceram velhas, com os
problemas de junta ou visão. Não, elas foram esbeltas e desejadas, embora
pareçam velhos Mavericks, tiveram sua época, hoje só bebem.
_Sim, fiz.
_Quando, conta, detalhes!
Patrícia era assim, instigava
Albano, desejava saber detalhes, depois gargalhava alto, aquela risada solta,
nascida sob o estomago e que ecoa de forma gostosa por toda sala. Não foram
poucas as vezes que as pessoas olhavam Patrícia com a impressão de não
entenderem patavinas.
_Deixa pra lá, disse o pobre
rapaz.
_ Não! Quero saber, a gente
até podia fazer juntos. Tu já fez o passo do tigre?
Ele suspirou e novamente
suspirou e por uma última vez puxou mais fundo o ar para os pulmões.
_Patrícia, lembrar o tempo de
Yoga me faz recordar principalmente a Professorinha e aquele... pausa dramática,
ele havia ultrapassado a fronteira da segurança. Não havia retorno. Era calar
ou enfrentar as conseqüências.
_Agora continua – decretou a inquisitora
colega.
_ É que ela tinha um belo
corpo que não foi satisfatoriamente explorado, só isso.
_Olha só Albano, não ou boba,
se tu diz que era um belo corpo que não foi satisfatoriamente explorado, porque
ele não foi?
Patrícia era esperta, pelas
beiradas comia o mingau mais frio e arrancava as confissões mais calhordas do
pobre Albano. Ele lembrou a primeira vez que foi ao Studio, presente da prima
solteirona adepta a técnica e a forma como aquela morena o recebeu. Cordial o
deixou a vontade, explicou as técnicas de relaxamento, perguntou se poderia
acender um incenso e se o volume da musica estava de agrado.
Deitado no solo começou as
técnicas de relaxamento, inspira, expira, inspira, expira, esvazia a mente,
pense em nada e quanto mais ela falava, mais ele pensava nas curvas que a roupa
escondia, no colo farto que despertava os desejos mais sacanas. Lá pelas tantas
ela disse com voz aveludada, agora vamos fazer esses movimentos que imitam
animais. Pra que? Pra que?
Naquele momento Albano
percebeu que aquilo não acabaria da forma que esperava. Ela olhou para ele, a
caça e languidamente perguntou se ele também estava com calor. Balançou
afirmativamente a cabeça. Primeiro foi a blusa, depois a calça e se fez o fio
dental vermelho. Desnecessário entrar em pormenores.
As aulas se repetiram outras
vezes, invariavelmente a senha era a mesma – Albano,você também está com calor?
Ele se sentia único, o dono do campo. Partia para casa tomado do poder
concedido somente ao macho alfa. Os amigos sacaram que acontecia algo com
Albano, o que afinal tu está aprontando mocorongo?
Ele relutou e por fim contou
detalhe por detalhe o que acontecia nas tarde em que buscava o relaxamento
profundo.Os amigos começaram a rir, mas do que galhofavam? Até que Orestes
explicou, a Lucicleide fez isso com todos nós, ela prensa um baseado instantes
antes de receber os alunos, fica doidona, vê elefante azul subindo pela parede
e passa todos nós em revista. É uma devoradora de incautos.
O mundo de Albano desmoronara,
não apareceu mais. Anos depois saudoso de suas aventuras resolveu ligar para o
telefone que tinha da outrora amada e escutou o desabafo da nova dona linha –
por favor, parem de ligar atrás dessa Lucicleide, é homem telefonando de manhã,
a tarde, a noite, na madrugada, o que essa criatura fazia da vida? Albano pediu
desculpa.
Soube depois pelo mesmo
Orestes que Lucicleide havia feito um italiano se encantar por suas curvas
nacionais e fora embora para o velho mundo, já tinha três filhos, virara uma
matrona sustentada por pastas, gnocchi e outras iguarias.
_Hein Albano, aterrissa,
porque o corpo não foi satisfatoriamente explorado criatura? Vai me deixar
nessa gastura?
Rubro de vergonha por seu
antigo papel, Albano disse misteriosamente
_A maconha – pausou e deu
outro gole no café – a maconha causou isso e outras coisas que não me lembro
mais.
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