segunda-feira, 27 de março de 2017

A Yoga de Albano

Escritório, sete da manhã, modorrenta segunda-feira onde nada que devia acontecer ocorre e o que deveria acontecer nem manda noticias.  Silêncio quebrado com aquela indagação inquisitória.

_ Albano, tu nem sabe, ontem fiz uma hora e meia de Yoga! Que exercício, a gente meche com toda a musculatura, tu devia tentar um dia desses – assim, animadamente Patrícia bombardeou o pobre Albano, antes dele beber o primeiro gole de café.

Ela estava curtindo um momento fitness, cortando carboidratos, decepando doces de sua dieta e inserindo um programa rígido de atividades físicas que cansavam só de escutar. Duas horas de caminhada, intercalada por uma de bicicleta e mais duas de caminhada. Albano pobre coitado imaginava que um dia entraria no escritório e veria um palito de um metro e sessenta no lugar de Patrícia.

Ele só teve tempo de dizer que talvez tentasse novamente um dia.

_Como assim tentar novamente. Tu já fez Yoga? Quando isso criatura? Olhando pra ti jamais poderia imaginar!

O problema, pensou o pobre Albano, é que as pessoas pensam que as outras já nasceram velhas, com os problemas de junta ou visão. Não, elas foram esbeltas e desejadas, embora pareçam velhos Mavericks, tiveram sua época, hoje só bebem.

_Sim, fiz.

_Quando, conta, detalhes!

Patrícia era assim, instigava Albano, desejava saber detalhes, depois gargalhava alto, aquela risada solta, nascida sob o estomago e que ecoa de forma gostosa por toda sala. Não foram poucas as vezes que as pessoas olhavam Patrícia com a impressão de não entenderem patavinas.

_Deixa pra lá, disse o pobre rapaz.

_ Não! Quero saber, a gente até podia fazer juntos. Tu já fez o passo do tigre?

Ele suspirou e novamente suspirou e por uma última vez puxou mais fundo o ar para os pulmões.

_Patrícia, lembrar o tempo de Yoga me faz recordar principalmente a Professorinha e aquele... pausa dramática, ele havia ultrapassado a fronteira da segurança. Não havia retorno. Era calar ou enfrentar as conseqüências.
_Agora continua – decretou a inquisitora colega.

_ É que ela tinha um belo corpo que não foi satisfatoriamente explorado, só isso.

_Olha só Albano, não ou boba, se tu diz que era um belo corpo que não foi satisfatoriamente explorado, porque ele não foi?

Patrícia era esperta, pelas beiradas comia o mingau mais frio e arrancava as confissões mais calhordas do pobre Albano. Ele lembrou a primeira vez que foi ao Studio, presente da prima solteirona adepta a técnica e a forma como aquela morena o recebeu. Cordial o deixou a vontade, explicou as técnicas de relaxamento, perguntou se poderia acender um incenso e se o volume da musica estava de agrado.

Deitado no solo começou as técnicas de relaxamento, inspira, expira, inspira, expira, esvazia a mente, pense em nada e quanto mais ela falava, mais ele pensava nas curvas que a roupa escondia, no colo farto que despertava os desejos mais sacanas. Lá pelas tantas ela disse com voz aveludada, agora vamos fazer esses movimentos que imitam animais. Pra que? Pra que?

Naquele momento Albano percebeu que aquilo não acabaria da forma que esperava. Ela olhou para ele, a caça e languidamente perguntou se ele também estava com calor. Balançou afirmativamente a cabeça. Primeiro foi a blusa, depois a calça e se fez o fio dental vermelho. Desnecessário entrar em pormenores.

As aulas se repetiram outras vezes, invariavelmente a senha era a mesma – Albano,você também está com calor? Ele se sentia único, o dono do campo. Partia para casa tomado do poder concedido somente ao macho alfa. Os amigos sacaram que acontecia algo com Albano, o que afinal tu está aprontando mocorongo?

Ele relutou e por fim contou detalhe por detalhe o que acontecia nas tarde em que buscava o relaxamento profundo.Os amigos começaram a rir, mas do que galhofavam? Até que Orestes explicou, a Lucicleide fez isso com todos nós, ela prensa um baseado instantes antes de receber os alunos, fica doidona, vê elefante azul subindo pela parede e passa todos nós em revista. É uma devoradora de incautos.

O mundo de Albano desmoronara, não apareceu mais. Anos depois saudoso de suas aventuras resolveu ligar para o telefone que tinha da outrora amada e escutou o desabafo da nova dona linha – por favor, parem de ligar atrás dessa Lucicleide, é homem telefonando de manhã, a tarde, a noite, na madrugada, o que essa criatura fazia da vida? Albano pediu desculpa.

Soube depois pelo mesmo Orestes que Lucicleide havia feito um italiano se encantar por suas curvas nacionais e fora embora para o velho mundo, já tinha três filhos, virara uma matrona sustentada por pastas, gnocchi e outras iguarias.

_Hein Albano, aterrissa, porque o corpo não foi satisfatoriamente explorado criatura? Vai me deixar nessa gastura?

Rubro de vergonha por seu antigo papel, Albano disse misteriosamente


_A maconha – pausou e deu outro gole no café – a maconha causou isso e outras coisas que não me lembro mais.

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