Inegavelmente o dito popular que
propaga o fato de ninguém passar em nossas vidas sem deixar uma marca é
verdadeiro. Nestes dias encontrei nos corredores de um supermercado da capital o
Professor Remi. Para aqueles que não sabem, o Professor Remi foi meu Mestre no
distante ano de 1984, ou seja, é uma história ocorrida há quase 30 anos e neste
tempo seguidamente nos encontramos.
A forma como ele ministrava as
aulas, se trazida para os dias atuais, lhe proporcionaria boas dores de cabeça.
Pode-se dizer, sem medo de engano que ele possuía uma forma pouco ortodoxa para
tratar com a baderna e bagunça de encapetados alunos na faixa entre 7 e 8 anos.
Você poderia conversar na última classe da aula que giz lhe acertaria a cabeça
ou o apagador repousaria sobre sua classe, isto tudo arremessado da frente sala
com uma precisão cirúrgica, era a forma de chamar a atenção para o que realmente
importava, o conteúdo, a aula ministrada.
Crianças nesta faixa etária
possuem uma capacidade imensurável de perder o foco e logo surgia algum
desavisado que começava a brincar com réguas e canetas formando aviões ou tentava
trocar figurinhas de futebol na aula. Pronto, as figuras eram confiscadas para
o armário de aço com a promessa de serem entregues somente no último dia de
aula ou se os pais fossem retirá-la. Não me recordo de alguém ter pedido para
os pais resgatarem os cromos, mas vai saber! Quanto as réguas, bem, elas
realmente criavam asas e eram incentivadas a voar pela janela. Justiça seja feita, no intervalo da aula ou
no dia seguinte elas sempre nos eram devolvidas.
Por favor, não pensem que o
Professor Remi era um sádico, pois não era. Posso classificá-lo como um Mestre
severo, porém justo e talvez esta característica sobressai-se principalmente
por sua aparência física. Para aquela turma de pequenos humanos ele era um
gigante com seu quase 1,75 m e sua barba ao melhor estilo D. Pedro II, com a
única diferença da coloração. Hoje pouco se alterou em sua aparência, com
exceção do grisalho que vai repousando sobre seus cabelos e barba.
Esqueci de comentar que tive aula
com ele na 2ª série primária e nesta época um novo mistério da matemática seria
apresentado; a multiplicação! Agora neste momento é surge a genialidade de um
verdadeiro Mestre. Como fazer para os alunos sentirem interesse ou aprendessem
de forma permanente as multiplicações que iam da tabuada do 1 ao 6?
O Professor Remi possuía a
fórmula, ele criara a “Olimpíada da Tabuada”, que consistia em nada mais nada
menos que cada aluno declamar as operações de multiplicação sequencialmente, sem
gaguejar ou demorar a responder e tão pouco contar nos dedos. Iniciava do 1 vezes
1 até o 6 vezes 10 e como resultado o aluno que completasse corretamente a
sequência era premiado com uma medalha prateada, gravada com “Tabuada – 1984”.
Costumo contar esta história para
as pessoas mais próximas e em um destes encontros inesperados que tive com o
Professor, comentei que guardava a medalha e como ele havia sido severo
conosco. A resposta que recebi foi fantástica e até mesmo desconcertante, como
as que só recebemos dos Mestres: “mas garanto que depois tu nunca tiveste
dificuldade para encontrar o resultado de 6 vezes 7”.
Há quase 30 anos o Professor já
incutia em nossas mentes o que fomos apresentados durante o restante de nossa
formação acadêmica e profissional: a repetição à exaustão proporciona a
excelência, é importante haver concentração para alcançar os objetivos
estabelecidos e assimilar conhecimento, a certeza da recompensa faz com que as
pessoas se esforcem mais, existe algo chamado hierarquia e ela deve ser
respeitada, e principalmente, que ser severo não implica em ser injusto.
É fato,
o Professor Remi faz parte do rol cada vez mais raro de Mestres, aqueles que
transmitem conhecimento e ensinam mais do que os conteúdos dos livros e tornam-se
eternos.
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