sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O Professor Remi

Inegavelmente o dito popular que propaga o fato de ninguém passar em nossas vidas sem deixar uma marca é verdadeiro. Nestes dias encontrei nos corredores de um supermercado da capital o Professor Remi. Para aqueles que não sabem, o Professor Remi foi meu Mestre no distante ano de 1984, ou seja, é uma história ocorrida há quase 30 anos e neste tempo seguidamente nos encontramos.

A forma como ele ministrava as aulas, se trazida para os dias atuais, lhe proporcionaria boas dores de cabeça. Pode-se dizer, sem medo de engano que ele possuía uma forma pouco ortodoxa para tratar com a baderna e bagunça de encapetados alunos na faixa entre 7 e 8 anos. Você poderia conversar na última classe da aula que giz lhe acertaria a cabeça ou o apagador repousaria sobre sua classe, isto tudo arremessado da frente sala com uma precisão cirúrgica, era a forma de chamar a atenção para o que realmente importava, o conteúdo, a aula ministrada.

Crianças nesta faixa etária possuem uma capacidade imensurável de perder o foco e logo surgia algum desavisado que começava a brincar com réguas e canetas formando aviões ou tentava trocar figurinhas de futebol na aula. Pronto, as figuras eram confiscadas para o armário de aço com a promessa de serem entregues somente no último dia de aula ou se os pais fossem retirá-la. Não me recordo de alguém ter pedido para os pais resgatarem os cromos, mas vai saber! Quanto as réguas, bem, elas realmente criavam asas e eram incentivadas a voar pela janela.  Justiça seja feita, no intervalo da aula ou no dia seguinte elas sempre nos eram devolvidas.

Por favor, não pensem que o Professor Remi era um sádico, pois não era. Posso classificá-lo como um Mestre severo, porém justo e talvez esta característica sobressai-se principalmente por sua aparência física. Para aquela turma de pequenos humanos ele era um gigante com seu quase 1,75 m e sua barba ao melhor estilo D. Pedro II, com a única diferença da coloração. Hoje pouco se alterou em sua aparência, com exceção do grisalho que vai repousando sobre seus cabelos e barba.

Esqueci de comentar que tive aula com ele na 2ª série primária e nesta época um novo mistério da matemática seria apresentado; a multiplicação! Agora neste momento é surge a genialidade de um verdadeiro Mestre. Como fazer para os alunos sentirem interesse ou aprendessem de forma permanente as multiplicações que iam da tabuada do 1 ao 6?

O Professor Remi possuía a fórmula, ele criara a “Olimpíada da Tabuada”, que consistia em nada mais nada menos que cada aluno declamar as operações de multiplicação sequencialmente, sem gaguejar ou demorar a responder e tão pouco contar nos dedos. Iniciava do 1 vezes 1 até o 6 vezes 10 e como resultado o aluno que completasse corretamente a sequência era premiado com uma medalha prateada, gravada com “Tabuada – 1984”.

Costumo contar esta história para as pessoas mais próximas e em um destes encontros inesperados que tive com o Professor, comentei que guardava a medalha e como ele havia sido severo conosco. A resposta que recebi foi fantástica e até mesmo desconcertante, como as que só recebemos dos Mestres: “mas garanto que depois tu nunca tiveste dificuldade para encontrar o resultado de 6 vezes 7”.


Há quase 30 anos o Professor já incutia em nossas mentes o que fomos apresentados durante o restante de nossa formação acadêmica e profissional: a repetição à exaustão proporciona a excelência, é importante haver concentração para alcançar os objetivos estabelecidos e assimilar conhecimento, a certeza da recompensa faz com que as pessoas se esforcem mais, existe algo chamado hierarquia e ela deve ser respeitada, e principalmente, que ser severo não implica em ser injusto. 

É fato, o Professor Remi faz parte do rol cada vez mais raro de Mestres, aqueles que transmitem conhecimento e ensinam mais do que os conteúdos dos livros e tornam-se eternos.

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