quarta-feira, 3 de novembro de 2021

O Resgate do Estrelão Perdido


Durante os anos 70 e 80 do século passado, uma época distante em que a internet era um sonho e os jogos eletrônicos um produto raro, o futebol de mesa, criado pelo brasileiro Geraldo Dêcourt era uma verdadeira febre nacional entre as crianças e adolescentes. Os times eram encontrados em qualquer loja de departamentos ou em bazares espalhados pela cidade, e para as disputas ocorrerem, qualquer lugar servia como campo de jogo; dos tampos de fórmica da mesa de jantar, passando pelo piso  das salas e os corredores dos prédios, bastava os dois treinadores definirem as dimensões e as marcas das áreas, para a disputa começar.

A Brinquedos Estrela, empresa brasileira fundada em 1937, comercializou entre os anos de 1948 e 1979 os times “panelinhas” e para oferecer a experiência completa pelo jogo, passou a fabricar e disponibilizar, entre os ano de 1972 e 1985, um dos campos de futebol de botão mais icônicos e famosos de todos os tempos. O Estrelão! Era simplesmente o sonho de consumo de todo garoto daquela época.

Depois de jogar muitos anos sobre uma velha tábua, meus pais me presentearam com um Estrelão. Nele eu jogava Grenais que invariavelmente culminavam com a vitória Tricolor, ele testemunhou o surgimento do ponta-direito insinuante Zico Cuiabense, excelente cobrador de faltas e escanteios, que anotou nele boa parte dos mil gols, inspiração para os atacantes que surgiriam quase trinta anos depois, Zico Cuiabano e Zico Cuiabá. O campo era o local em que os campeonatos da rua pacata no bairro Santana e os jogos contra meu irmão eram disputados.

Frase batida, mas por uma dessas circunstâncias inexplicáveis da vida, o Estrelão quebrou. Foi o fim de uma era! Naqueles anos de inflação galopante, investir novamente em um campo daquele valor era impensável. Ganhamos uma versão mais popular, o Xalingão, que tinha uma cor diferente do verde folha. Tantas outras partidas foram disputadas nele, até o momento em que os botões foram para o fundo da gaveta e lá ficaram guardados.

Quando resgatei a paixão adormecida pelo botonismo, uma das primeiras recordações que afloraram foi a do Estrelão e o desejo de ser dono, novamente, daquele campo mítico que marcara uma geração inteira de pequenos treinadores brasileiros. Porém existiam dois pequenos entraves, o primeiro era o tempo em que ele deixou de ser fabricado o que o tornava raro e o segundo e não menos importante, quem tem um exemplar desses em casa, não o comercializa por um valor irrisório.

Foram alguns anos pesquisando anúncios na internet sem sucesso, perguntando aqui e ali se alguém sabia de um campo disponível. O retorno era sempre negativo, até o último sábado de Outubro, do ano da graça de 2021. Quando saía da visita de uma das sedes de futebol de mesa em Porto Alegre, ao conversar com um confrade, sobre a nostalgia dos anos iniciais de botonismo, ele me chama a atenção – “olha ali, tem até um Estrelão naquele brick”. A frase foi um gatilho de incredulidade. “Será mesmo? – respondi a mim mesmo, completando – Vou ali olhar”.

Atravessei a rua e cheguei ao Brick da Gabi e não acreditei no que vi. Sim, era

um Estrelão, final dos anos 70 extremamente bem conservado. O antigo dono não sabia o que tinha em mãos, usou aquele sobrevivente de uma era dourada como um quadro em que foram coladas diversas fotos de surf. Perguntei quanto custava e fiquei surpreso pela resposta. Apenas R$ 15,00! Um valor irrisório para a concretização de um sonho! Passei a mão nele, segurando o Troféu desejado por tantos anos enquanto a outra mão alcançava o dinheiro.

Nossa existência é uma sucessão de aparentes coincidências, o enredo escrito pelo destino, possibilitou que encontrasse, aos pés do Morro da Polícia, no bairro da Glória, local que se encontra a inspiração que batiza o meu atual Estádio da Vila Poneza, o Estrelão perdido, testemunha de uma Era, de jogadores memoráveis e disputadas épicas, que agora repousa em uma das paredes de casa, exposto como uma obra de arte imensurável.

sábado, 20 de fevereiro de 2021

Confissões de um Botonista

 Hoje é o dia do moleque que tem a escalação do time do coração de cor e salteada gravada na memória, que consegue desafiar o time glorioso de Pelé, com o Imortal Tricolor de 83. Que faz o magnífico Milan de Van Basten e Cia, perderem para o Tuna Luso do Pará.

14 de Fevereiro é o dia de todo aquele rapazote que deslizava botões pelas mesas improvisadas na infância, narrava jogos com craques imaginários, disputava quem era o melhor da rua, do bairro, da escola.

Todo botonista é um jogador de futebol frustrado, um treinador injustiçado, um guardião do bom combate. 

Ser botonista é viver um mundo paralelo, com investimentos, negociações, torcidas, compra de estádio e craques a preços de invejar os clubes europeus. É disputar treino como jogo e jogo como eliminatórias.

Congregar outros dessa estirpe é criar laços que atravessam a vil contagem de tempo, percorre gerações, mantém viva a semente do botonismo em cada treinador. É saber as manhas, as formas de chutar, fechar uma jogada, reproduzir o esporte bretão nas mesas de madeira de lei.

Praticar esse esporte, sem idade, é o exemplo máximo de manter-se jovem pelo maior tempo de vida possível.

Quem conhece, sabe do que falo, então, prepara, porque vai a gol!!!

Parabéns aos botonistas de todas as Regras, principalmente aos da Gaúcha, onde começo a trilhar meu caminho!

quinta-feira, 30 de julho de 2020

A casa vermelha e o homem azul - David Coimbra

Esta crônica foi escrita pelo jornalista David Coimbra e publicada na página 43 da Zero Hora no dia 25/07/2008. O dono da Casa Vermelha, descrita com a licença poética permitida a todo escritor, é meu tio-avô Iodolino José Machado, colorado roxo, dono de cadeira no já desaparecido Estádio dos Eucaliptos e no Beira-Rio.

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Na Aparício Borges, mais ou menos à altura do número 1.200, havia uma casa vermelha.

Toda vermelha.

Vermelhas eram as janelas e as portas, vermelhas eram as paredes e as telhas do telhado, vermelhas eram as cortinas que vedavam a luz, o soalho onde se pisava e o teto sobre as cabeças. A casa era vermelha por dentro e por fora.

Era a casa de um colorado.

No jardim da casa vermelha, o proprietário colorado mandou plantar um imponente mastro, e neste mastro, todos os dias, ele hasteava a rubra bandeira do Inter. Quando saía, o colorado ia lá e arriava a bandeira, a bandeira servia como referência para quem o conhecia e pretendia visitá-lo. A pessoa chegava e olhava para o mastro. Se houvesse bandeira, o colorado estava em casa; se não houvesse, ele tinha saído. Hoje em dia o mastro serviria como aviso para arrombadores e ladrões, mas estamos falando dos anos 60, década dos Beatles, do DKW, das Calças Topeka e das cidades seguras.

A casa vermelha era famosa na capital de todos os gaúchos.

Só que um dia tornou-se verde.

O proprietário, ele mesmo, tomou um galão de tinta, vários galões de tinta, e foi lá e pintou as paredes, o telhado, os quartos, tudo, de verde.

Por quê? Por causa do Foguinho.

É que Foguinho, o Oswaldo Rolla, havia sido contratado pelo Inter. Foi um abalo para as duas torcidas do Rio Grande. Os gremistas, chocados: Foguinho no Inter??? Não podia, Foguinho era como se fosse o próprio Grêmio. Entrou no clube nos anos 20. Vestia a camisa listrada número 10, e o fazia por amor: jamais aceitou receber um vintém, um cruzeiro, nada.

— Não jogo no Grêmio por dinheiro — dizia, o queixo de John Wayne erguido bem alto.

Mesmo assim, trabalhava como um profissional. Ao contrário dos outros jogadores da época, Foguinho treinava todos os dias. Como precisava exercer a profissão de alfaiate para se sustentar, treinava à noite, às vezes sozinho, às vezes com seu velho amigo Eurico Lara, o goleiro que Lupicínio Rodrigues incrustou na letra do Hino do Grêmio. A fim de permitir que Foguinho treinasse, o Grêmio instalou no Fortim da Baixada uma novidade: um conjunto de refletores. Assim, a Baixada foi o primeiro estádio do Rio Grande do Sul com sistema de iluminação. Graças a Foguinho.

Foguinho jogou a vida inteira no Grêmio e foi herói de um dos mais importantes Gre-Nais da história, o Gre-Nal Farroupilha, em comemoração ao centenário da Revolução Farrapa, em 1935. Era um homem de lealdades eternas. Uma manhã, enquanto o entrevistava em seu apartamento na Senhor dos Passos, ele puxou de um armário algumas caixas de papelão. Estavam cheias até a boca de fotos e recortes de jornal. Uma das fotos era do ex-deputado e ex-presidente do Cruzeiro, Antônio Pinheiro Machado, pai dos meus amigos Ivan e José Antônio. Foguinho segurou a pequena foto com a mão direita e, sem tirar os olhos dela, sentenciou:

— Este foi o maior homem que já conheci.

Silenciei, em respeito. Foguinho havia conhecido muitos grandes homens, em sua longa vida.

Outro dia, ele pescou das mesmas caixas de papelão uma foto de Luiz Carvalho, ex-presidente do Grêmio e centroavante do time em que Foguinho brilhava na meia-esquerda.

— Luiz Carvalho foi um grande amigo meu — disse. E concluiu, num suspiro:

— Todos os dias eu penso no Luiz Carvalho.

Foguinho estava entranhado no Grêmio, fazia parte das vísceras do Grêmio. Nos anos 50, consagrou-se como o maior técnico da história do clube e, mais, como o fundador da escola gaúcha de jogar futebol. Com ele, o Grêmio só ganhava. O ciclo de vitórias só foi interrompido quando Foguinho brigou com um dirigente e acabou saindo do clube para treinar, justamente, o time do seu grande amigo Pinheiro Machado, o Cruzeiro. Isso se deu em 1961. Quando o Cruzeiro derrotou o Grêmio, permitindo ao Inter a retomada da hegemonia, Foguinho, sentado no banco do adversário do time do seu coração, chorou.

Foi esse homem que o Inter contratou em 1968. Donde, compreende-se a revolta do colorado da Aparício Borges. A curta passagem de Foguinho pelo Inter encerrou-se, claro, num Gre-Nal. O Grêmio goleou por 4 a 0, com atuações de luxo de Alcindo e Volmir. No dia seguinte, os jornais publicaram uma foto desoladora de Foguinho: ele sentado só no banco de reservas, o olhar perdido dos vencidos, o chão coberto de laranjas que lhe tinham sido atiradas pelos colorados.

É óbvio que Tite não tem com o Grêmio a mesma identificação que tinha Foguinho. Mas sua contratação pelo Inter foi polêmica exatamente porque muitos colorados, inclusive alguns dirigentes, o consideram gremista. É este o grande obstáculo a ser superado por Tite no Inter: a desconfiança da torcida. Ter um Gre-Nal já na sua terceira partida pelo clube é uma espada e lhe pende sobre a cabeça. Mas, ora, também pode ser sua redenção. Ou dos que o criticam. Aliás, o colorado da Aparício, depois que Foguinho saiu do Inter, voltou a pintar a casa de vermelho.


* Texto publicado hoje na página 43 de Zero Hora.

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Croniqueta do Mercado III

Escolhia os pêssegos mais maduros quando foi interrompido com um puxão no braço, seguido da ordem de parar tudo e prestar a atenção no que acontecia ao seu redor.

"Euclides, olha aqueles melões!" - determinou Clarice, a esposa a quem nada escapava.

"Melões, que melões? Onde?" - perguntou enquanto girava a cabeça de um lado para o outro na tentativa de localizar a fruta amarela - "Está louca Clarice? Não há melões a venda no mercado".

"Ah pois bem Euclides, vai me dizer que não repaste nos peitos daquelazinha ali!"

O santo procurou no horizonte o motivo de indignação da esposa e descobriu uma jovem, não mais de 25 anos, blusa curta de alça estreita e uma barriga desenhada pelo capeta em pleno dia de inspiração Divina, conduzindo orgulhosamente um par de seios siliconados, semelhantes as obras de Michelangelo .

"Olha o desfrute dela, um afronte vir ao mercado com os peitos saindo da blusa. Me diz Euclides, pra que tudo aquilo? E ainda mais, não está usando sutiã. Não se dão mais o respeito, esperam que os homens não fiquem olhando? Que absurdo! Tu não fala nada?"

Euclides estava acompanhando a moça se esgueirar por entre as mesas das frutas e leguminosas, o jeito que escolhia os tomates como se fosse a mais pura e delicada tarefa. Enquanto as palavras da mulher ecoavam em sua caixa craniana, seus olhos focaram no decote generoso e apenas respondeu - "mas qual o problema?"

"Qual o problema? Eu te digo qual é o problema. Aqui é um ambiente familiar,  as crianças vendo essa pouca vergonha, as mães sendo afrontadas com esses peitos siliconados. Não gosto, decididamente de silicone.Tu sabe disso Euclides".

"Então é simples, não coloca silicone".

"Ah claro, agora está insinuando o que? Que sou uma recalcada? Sério isso? Tu perdeu a noção do perigo, né?"

"Não, só estou dizendo que se não gosta de silicone em ti, deixa em paz quem tem".

"Euclides, não tenta encontrar desculpa para justificar o injustificável"

"Clarice, justificar o que? Deixa a menina em paz. É jovem e bonita. Não está fazendo nada além de desfilar a sua juventude!"

Irritada, a esposa se deu por vencida e foi buscar abobrinhas para combinar com seu discurso. A jovem já tinha pego os tomates e agora separava pimentões enquanto Euclides ainda admirava um pouco mais aquela exuberância e fartura, quando sentiu escorrer por entre os dedos um liquido de cheiro adocicado.

Acabara de esmagar o pêssego que tanto escolhera.

Croniqueta do Mercado II

Escolhia as carnes para o churrasco, iniciara com as tradicionais e já estava nas alternativas, não que desejasse fazer algo fora dos padrões gaudérios, o que levava a essa pesquisa e escolhas mais detalhadas era o preço do quilo do boi ou seria da vaca?

Alaor, representante da tradicional família brasileira, tinha um plano para aquela tarde. Fazer as compras em ritmo frenético, gastando o mínimo possível e de lambuja não estressar Matilde.

Matilde era a síntese perfeita da mulher injustamente casada. Reclamava primeiro para perguntar depois, mandava ao invés de pedir, criticava cada escolha do pobre Alaor. O que fazia os dias do coitado serem suportáveis era a filha do casal, loirinha, cabelos encaracolados, viva que só ela, a companheira ideal para as fugas da realidade.

Continuava Alaor debruçado sobre os freezers dos cortes quando escutou seu nome sendo cantado de forma espaçada.

"A-L-A-O-R eu não acredito!" - exclamava a morena de top e calça mais justa que a justiça divina - "tu continua o mesmo dos tempos de faculdade!"

Ele sorriu sem graça. Sabia que seu pitbull ciumento surgiria a qualquer momento. Ela conseguia identificar a aproximação de outra mulher em seus domínios a quilômetros de distância. Um dom, a pequena tortura que aplicava em Alaor. Nem tivera tempo de responder para a ex-colegam quando sentiu suas pernas abraçadas. 

A filhota que no arrombo infantil perguntou - "quem é papai?" o que foi completado com um - "sim, quem é papai?" Matilde não se furtava de ser contundente quando desejava.

Alaor arranhou apenas a resposta padrão "É uma ex-colega da faculdade".

"E por acaso a colega não tem nome?"

A morena percebeu o terreno instável, se agachou para falar com a menina, que tímida enterrou o rosto no pai.

"Você é muito lindinha, sabia? É tão tímida quanto lembro que era seu pai. Tu deve estar realizado, não é?" Perguntou ao enrascado Alaor, que suava em bicas, apesar de estar quase dentro da refrigeração.

"É sim" - limitou-se a responder.

"Lembro que falávamos sobre filhos na faculdade, louco isso né?"

"Muito" - atravessou Matilde.

"Até falei para a mãe quando vi o Alaor de longe que ele continuava o mesmo de antes".

"O mesmo como?" - quis saber a enciumada.

"O homem lindo que nos fazia suspirar quando entrava na sala de aula".

Matilde pareceu se transformar no capeta, o rosto ficou vermelho, os braços se fecharam, o cenho embruteceu e de seus olhos saíam labaredas! A morena se despediu, afirmando que tinha sido fantástico, um sinal do universo aquele reencontro e que seus contatos não haviam mudado.

"Me liga Alaor" - disse antes dos três beijinhos, o afago na cabeça da pequena e o tradicional "um prazer te conhecer Matilde".

E lá se foi a linda morena de top e calça justa, mostrando com o seu "um pra mim, um pra ti", como há injustiça no açougue da vida, enquanto um tapa forte no braço o chamava a realidade, o preço das carnes está nas alturas!

* escrito antes da Pandemia que deixou o mundo de cabeça pra baixo

Croniqueta do Mercado I

O ambiente do mercado, não o de trabalho, é uma fonte de gostos, estresse e logicamente inspiração para mentes atentas. Não é necessário cometer nenhuma indiscrição para escutar o argumento do próximo para sua bucólica experiência consumista. Algumas comunicações são cifradas, permitindo interpretações mil nos corredores do Brasil. "Não esqueça de pegar aquele negócio que usa na sopa"; "pegou o líquido do banheiro"; "o corredor do perfuminho das roupas é onde?". Há também umas mais explícitas do tipo "quantos limpa trilhos vamos levar?"

Neste final de semana, no corredor das guloseimas, presenciei um trecho de conversa que permite muito para a imaginação. Vinha o rapaz conduzindo seu bólido prateado no melhor estilo pimpão quando sentencia para a morena flor ao seu lado.

"A gente que é do interior sempre ouve falar de lá, que é um ambiente de descontração, mas muito caro. Te confesso, fiquei curioso e fui lá, mas não fiz nada não. Pode acreditar" - exclamava com veemência presenciada apenas em juris populares, para completar em tom descendente "ai eu só comprei uma camisa lá".

Minha mente criada e treinada nos mais mundanos momentos, levou-me a crer que o singelo rapaz interiorano falava de alguma famosa casa de tolerância ou sauna, em que as meninas aproveitam para trocar favores sexuais por algumas onças de papel. Ao afirmar categoricamente que não fizera nada, o nobre incauto praticamente assinava a confissão para ser elevado a um outro patamar da existência, juntar-se a imensa legião de homens e mulheres que não se  interessam em elogios sinceros por sua performance de alcova.

Não, ele guardou o balde de gelo para o final - "eu só comprei uma camisa lá".  Qual, me digam amigos meus, qual lugar sofisticadamente luxurioso vende camisas? Alguém já viu alguma com a estampa "lembrança das gurias"; "estive na tia e lembrei de você" ou "aqui se faz, ali tu paga".

E assim foram ao longe, me deixando a curiosidade como companheira enquanto decidia se comprava um pacote de balas de caramelo ou fruta, permitindo imaginar que mundo é este em que os corredores do mercado nos oferecem mais que produtos de consumo, um bilhete para divagar sem pressa e exatidão.


* escrito antes da Pandemia que deixou o mundo de cabeça pra baixo

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Flor de algum jardim

Inegável, em algum momento da evolução deixamos de prestar a atenção nos detalhes importantes da criação humana. Sim, houve essa ruptura em um ponto da curva em que jogamos a percepção pela janela e ficamos atrelados a uma valorização rasa, criada principalmente nas definições geradas através das lentes enfumaçadas que ornam a visão.

Sendo assim, querendo sair do lugar comum ou como martelam alguns administradores, da zona de conforto. Ela me pede impositiva, do jeito que apenas uma canceriana seria capaz de fazer, entre um olhar furtivo e outro – “pega esta caneta e estas folhas e me descreve, diz o que vê o que tu acha de mim, agora, em forma de poesia!”.

Falar, ou melhor, descrever alguém é sempre uma tarefa delicada. Pense bem, as percepções que você tem ou o pré-julgamento idealizado, necessariamente não é a essência da pessoa analisada. As verdades que cada um carrega ou a intensidade das experiências vividas durante um processo de amadurecimento e crescimento gravam marcas indeléveis no HD individual e ao contrário do que acontece na informática, o acesso nem sempre é autorizado.

Criar uma poesia é sempre uma doação. É o momento em que o pequeno deus que reside dentro de cada um, é capaz de expandir seu pensamento e descrever de forma plena o que a razão e o sentimento produziram em dueto, e um deus não conhece limites. O problema, é que em mim, residem vários deuses imortais, que acordam da hibernação conforme a conveniência do momento.

O primeiro que surgiu a meu chamamento foi Luxurius e carregava pronto seu veredicto, carregado de palavras do desejo primitivo e animalesco, o mesmo que implora por nudes no meio da noite e imagina as curvas do corpo sendo descobertas a cada peça de roupa subtraída, o convite a devassidão desmedida na nudez sob um fino lençol de seda. Sabe combinar a lingerie quando esta mal intencionada ou que usa uma peça bege de algodão. Mulher tatuada é miragem, poema que desfila no balanço de seu quadril, convidando e avisando - não se aproxime se não quiser se queimar!

Entreguei a folha. Leu, enrubesceu e sorriu – Amei, estou lisonjeada, curti bastante, mas – estendendo a folha – não é isso que esperava. Eu queria que tu descrevesses a minha alma e não meu corpo, não com esse forte sentimento de “te desejo”. Tu me entendes?

Agora era o meu momento de sentir uma frustração crescente, não era aquilo que desejava ouvir o admirador secular. Ela queria ser desnudada, mas não a carne e sim a alma. Não estava interessada em saber que o All Star vermelho seria jogado para baixo da cama e outro pé seria perdido entre a blusa preta do Ramones e o jeans surrado. Isso não lhe interessava, ela queria que lesse a alma desperta, despida, entregue e liberta.

Encarei nova folha virgem enquanto esperava a manifestação de mais um deus que habita em mim. Veritas se aproximou e passou a ditar de forma atabalhoada que ali não se encontrava uma mulher madura, mas sim uma alma que jamais envelhecerá, uma moleca que não se importa com convenções, que anda de pés descalços e abraça a Terra. Igual a toda representante feminina de alta estirpe, é mãe, filha, parceira, companheira, doce e picante. Uma pimenta que deve ser apreciada com moderação, pois queima e refresca com a mesma intensidade. Nada é pela metade e somente lhe cabem inteiros.

Ela é capaz de carregar em sem íntimo, a intensidade e força dos furacões e tempestades tropicais ao mesmo tempo em que é brisa calma embalada por Camomila. Ela explode quando seus limites são testados, mas se reconstrói e sendo descendente da Fênix, não faz drama e tão pouco se martiriza, já possui sabedoria suficiente para saber que tudo acontece no momento certo, seguindo o cronograma do Tempo. Mesmo assim, é rebelde! Não deixa nada para depois, pois sabe que esse depois, dependendo do humor de Cronos, pode não ocorrer e assim aproveita cada segundo como fosse o último do relógio com uma velocidade, ferocidade e fome invejáveis. Arrependimentos são fardos desnecessários para acompanhar nessa viagem da existência.

Novo movimento de entrega e a receptividade é melhor, embora sentencie – ainda falta alguma coisa, sabe ler a alma feminina tão bem, porque não está conseguindo fazer isso comigo?

Agora Eros se manifestaria com toda sua sapiência nas questões mais sentimentais. Explanaria que para ela o amor é assunto sério, aquele que se negocia olho no olho, com entrega total, mãos entrelaçadas, encaixe de corpos no sofá enquanto assiste filme, série ou simplesmente olha para o infinito. Ela não espera um príncipe romantizado, ela quer um parceiro que não lhe corte as asas, lhe permita voar e voltar por vontade e não obrigação. Ela entrega colo, abraço, ombros e ouvidos quando solicitada e nada pede em troca, só espera atenção, carinho e amor.

Lê e repete – me descreve, diz o que vê em mim! Finalmente nesse momento a ficha caiu. Percebi que não estava sendo convidado a descrevê-la por simples curiosidade, pois realmente não se importa com o que as pessoas pensam dela e posso jurar por tudo o que é mais profano. Era algo mais sublime, o convite para zingar o mar revolto de sua essência que deseja apenas paz e encarar o outro sem as amarras de convenções. Quem mergulha nela, tem como recompensa um baú, que contrariando a pieguice, não guarda moedas de ouro, jóias ou a chave do coração da mocinha, que nessa história, se salva sozinha.

Guardado nele está sua alma, aguardando ser conquistada por alguém de verdade e não por estes aventureiros desavisados e inconsequentes que se encontram em todas as esquinas e acordes. Ela deseja mais que um pedaço de chocolate, buques de rosas e cafés da manhã. Deseja ser descoberta, conquistada, entendida e compreendida com todas as suas imperfeições e contradições, gritando, berrando e se entregando à vida, de uma forma que até mesmo os anjos e demônios do céu teriam inveja.

Uma vez mais sentencia – vamos lá, agora é a hora de ver se é bom mesmo, diz o que vê em mim! E por mais uma vez, encaro a vastidão de seu olhar, os lábios que amaria beijar e enquanto suspiro fundo e me desarmo, aceito o desafio e antes que o silêncio roube as palavras, impedindo que descreva exatamente o que és – êxtase – te respondo audaciosamente. Não! Agora é a tua vez!

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Recado do Além

Sonhei com meu avô e neste sonho ele trazia uma mensagem de incentivo, um recado enviado por um antigo amigo.

_ Sabe meu filho, encontrei o Mário e ele 
pediu para te dizer que esses que estão atravancando teu caminho, eles passarão e tu...

_ Eu passarinho! Emendei , concluindo o célebre poema de Quintana.

_ Não, caspita! Mania de atalhar o que se vai dizer! Tu vai mandá-los às favas, cazzo!

_ Mas assim vô? Sem mais e nem menos?

_ Pois olha sangue do meu sangue, podes também mandar flores ou um cartão em papel bonito. Ainda existe a possibilidade de ser, como dizem? Politicamente correto e explicar que o problema não é.o saca a que tenta levar vantagem em tudo ou ainda a infantil criatura que se julga mais importante que o mundo e está sempre sem tempo ou atarefada. Ah e não esqueça, em nossa família temos tendência a desenvolver diabetes, portanto, não aceite orifício corrugado inferior glicosado.

Rimos bastante enquanto ele baforava um cigarro atrás do outro e eu tentava escapar da fumaça sufocante do pito. No fim, ele olhou para o horizonte como se contemplasse pela última vez o sol ou estivesse se conectando a espíritos evoluídos de luz, tirou o cigarro dos lábios, franziu o cenho e proferiu.

_ Filho, já sabe, esses que estão atravancando teu caminho eles passarão e - ficamos em silêncio por poucos segundos até que completou - descobrirão que caganeira não dá uma vez só na vida do homem.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Curiosa

Doravante baixarei a guarda
Esperarei com garbo e galhardia teu sinal,
Se ele não surgir no azul do firmamento,
Deixarei escondidas no meio do caminho
Estas ou aquelas palavras rimadas e cifradas

Quando encontrá-las escritas entre folhas de bordô
Ungidas pelo sumo sagrado de lágrimas
Estará em conexão com uma alma liberta.

Vibrando com a sintonia novamente estabelecida,
Ouvirá ao longe os versos da canção
Cantarolada de forma brejeira e desafinada
Em que o mais importante será a mensagem

Mesmo que a razão contrarie a emoção
Eu sempre lembrarei de nós daquele jeito,

Trazendo as nuvens para perto,
Imaginando cavalos alados, flores brancas,
Rostos iluminados e corpos jogados na grama
Onde o tempo, este verdugo inclemente
Unindo norte e sul, luz e escuridão

Ostenta sem cerimônia, crueldade e regras

Sua marca milenar de cicatrizes cinzas
Explicitando que a luta não se encerra
Unicamente pelo gosto doce do beijo!

Assim, quando as palavras calarem
Me prometa, na próxima vida não demorar e
Onde estiver vai me encontrar novamente,
Rápida, santa e pecadora para um café!

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

A Casa de Noel

Entre todas as datas comemorativas, existentes no calendário ocidental, nenhuma é mais apreciada por mim que o Natal. Muito além que a comemoração cristã que reverencia a data como a do nascimento de Cristo, ela é uma data mística. O período em que as pessoas, de um modo geral, se tornam mais receptivas às boas vibrações que emanam por todos os cantos, acabam sendo ungidas pelo espírito de renovação e do amor desinteressado ao próximo. 

O aniversariante do dia é altruísta e permitiu que uma figura ocupasse mais espaço nas comemorações, e esta posição ficou cada vez mais marcante a partir da ação de uma grande corporação de bebidas gasosas, que lançou a imagem do Papai Noel, criado pelo artista Fred Miren em 1930 em seus reclames. A figura do bom velhinho bonachão começou a invadir o imaginário coletivo de todas as crianças ao redor do mundo, geração após geração, mantendo firme e viva essa tradição. Era fato, na noite de Natal ele visitaria a casa das crianças comportadas e bem educadas. 

Recordo como eram alegres e tomadas de ansiedade as noites em que esperava a chegada do Bom Velhinho, trazendo os presentes pedidos. Incrível como ele conseguia entregar as encomendas e visitar todas as casas, sem fazer confusão alguma. Ele sempre trazia os mimos que foram pedidos através das cartas escritas com a letra infantil, alicerçada pela inocência própria da idade. Realizando uma rápida e imparcial retrospectiva, chego à conclusão que fui uma criança comportada, um privilegiado garoto de classe média brasileira dos anos 80. 

Sinceramente, desconheço a data ou circunstância que me fez descobrir que a história possuía duas versões. Isso nunca me importou, pois sempre acreditei que existem, convivendo harmoniosamente em nosso íntimo, deuses, demônios, seres místicos, o passado, presente, futuro e lógico o Papai Noel. 

Versões afirmam que o personagem em questão foi inspirado em São Nicolau, santo da igreja católica que viveu por volta de 300 d.C. Filho de pais nobres e ricos acabou doando sua grande herança para os pobres, sendo reconhecido pelas gerações futuras como a personificação do homem bondoso. Extra oficialmente preciso confessar a vocês, a identidade secreta de Noel é outra. Não se espante, afinal, no dia a dia, todo heróis se preserva de alguma maneira. Batman era Bruce Wayne, Superman era Clark Kent. O Papai Noel que conheci, atendia pelo singelo nome de “seu” Orlando. Pasmem, ele pisou neste solo sagrado de Porto Alegre por muitos anos! 

Simples assim! “Seu” Orlando levava uma vida discreta fora da época natalina. Encontrava-o toda manhã quando saia para meu lavoro, estava ele se colocando em forma, passeando na rua do condomínio em que éramos vizinhos, conversando com os vizinhos, mantendo insuspeita sua identidade secreta. Os distraídos não conseguiam perceber o quanto de magia, ilusão e encantamento ele distribuía ao vestir seu uniforme rubro! Os bons, sempre fazem diferença no mundo e a vida continuou assim, até um dia em que Noel alçou novos mundos, sendo visto, agora, com os olhos da alma. 

Passaram alguns anos e numa noite próxima do Natal de um ano esquecido, falava com uma amiga que é Belly Dancer no Oriente Médio sobre a importância e influência dos avós na infância. Comentei que não saberia dimensionar esta herança, pois não tive a oportunidade de conviver com os meus, falecidos anos antes de meus nascimento. Após dizer isto, ela comentou que era uma garota de muita sorte, grata por ter dito um avô fabuloso e que ele era ninguém mais, ninguém menos que o Papai Noel. O Noel, o bondoso “seu” Orlando de Porto Alegre! Acreditem, esse mundo é pequeno, e como sentenciou Stephen Hawking, o universo cabe em uma casca de noz. 

Percebi naquele exato momento a importância do exemplo deixado, a inspiração indireta que ecoa mesmo depois de findar a contagem de tempo terrena. Hoje, “seu” Orlando continua levando alegria na época de Natal para milhares de crianças que vivem em um céu azul de nuvens feitas de algodão doce, agradecendo com palmas, abraços e beijos os presentes recebidos, enquanto sua chama vive no coração e alma da neta, impulsionando-a seguir em frente, servindo de combustível para que ela nos encante com sua arte milenar tão bem executada, algo que somente os descendentes da casa de Noel são capazes de fazer.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Moça bonita

Ela é moça bonita
Daquelas que se encontram
Se procurar bem e sem preguiça
Somente nos sonhos pesados,
Do tipo que surgem na madrugada

Ela é moça bonita
E de tão bela percebe,
Se parecer com o mar revolto,
Que a onda quebra na areia
A beijar seus pés inteiros

Ela é moça bonita
Que não faz a mínima ideia,
Do meu (en)canto e admiração
Daquele desejo e da vontade
De escrever e cantar em versos...

Ela é moça bonita
Aquela que não beijarei,
Tão pouco pegarei na mão,
Pois atrasado cheguei,
Enquanto ela partia do sonho meu.

Sonho meu

Inegavelmente ela era o que os bagaceiros de plantão chamariam de “falsa magra”. Era a atenção de olhos treinados que a miravam enquanto mexia os quadris indo de um lado para o outro na repartição. O velho olhou aquele monumento e o corpo desenhado lhe fez estremecer, se havia algo que ele tinha certeza é que havia muito a descobrir por baixo daqueles tecidos e assim começou a esboçar seu plano pecaminoso. 

A todo instante passava por sua mesa e pedia mirabolantes e estapafúrdias tarefas. Tudo para marcar sua presença, se tornar presente e se fazer lembrar. Cada pedido vinha acompanhado de um galanteio canalha e convite para o happy hour com a turma. 

O único inconveniente é que ela parecia um atacante atrevido escapando da marcação dos zagueiros toscos do interior. Escapava sempre pela tangente, largava uma desculpa aqui e outra ali. Sempre aparecia um compromisso inadiável, uma reunião extra ou qualquer outra ação que exigia sua atenção. Apesar de todos estes sinais, ele ainda se mantinha esperançoso. Afinal, era brasileiro e não desistia jamais! 

Sempre a mesma rotina, até a manhã de uma quinta-feira qualquer, quando ela lhe chamou para perto com um aceno de mão. Aceitaria, após o milésimo convite, sair com a turma. Combinaram de se encontrarem perto do bar. Canalha que era não perderia a oportunidade de chegar junto com aquele troféu e causar inveja aos outros mequetrefes da repartição. 

Exatamente no horário combinado ela surgiu linda e sexy como sempre. A blusa justa deixava à mostra a barriga chapada e acentuava o contorno dos seios, a calça preta de cintura alta e fechecler frontal, tudo prometia sem nada entregar, além da perfeição das nádegas voluptuosas. Ele babou, saiu do ar por segundos, a quis em seus braços naquele exato momento. Transportá-la para onde pudesse jogar aquelas roupas em um canto qualquer e descobrir cada sinal seu. Massageá-la com óleo de amêndoas, beijar muito e amar ainda mais. Porém era paciente, não queimaria nenhuma etapa naquela noite. 

A turma recebeu a nova participante muito bem, afinal, sempre era gentil e graciosa e não havia quem não apreciasse sua companhia. Conquistava rapidamente a atenção de todos com sua desenvoltura, sempre participando com coerência das conversas nascidas na mesa. 

Porém, passada as dez badaladas noturnas, seu comportamento se alterou. Começou a ficar agressiva igual às tormentas tropicais. Uma fera selvagem! Cada frase que o velho dizia, ela contrariava; uma palavra mal colocada era contestada e corrigida sem nenhuma cerimônia. O clima ficou pesado e havia apenas uma solução aparente, um único expediente a ser tomado. 

Pessoal, estamos indo embora. Nossa amiga está ficando cansada. Obrigado pela excelente noite! Não se preocupem a deixarei em casa. Largou a decisão e o convite indireto, acreditando que ela não aceitaria, mas para sua surpresa, aceitou. 

Entraram no carro dele e sem rodeios, perguntou o que tinha acontecido para ela mudar da água para o vinho. Não houve resposta. Ela olhava fixamente dentro de seus olhos, conseguindo lhe deixar desconfortável. Pensou rápido e conclui que aquele era o momento de mandar a paciência da noite se danar. 

Puxou-a para perto dele, escorregou a mão pela barriga lisa, abriu o fechecler e deslizou para dentro dela, não encontrando no tato nada que o detivesse ou raspasse os dedos. Ela continuava com o olhar desafiador. O pobre velho não aguentou mais, cerrou os olhos e buscou aquela boca desenhada, a língua a invadiu pela primeira vez, porém encontrou aspereza e imobilidade. Abriu os olhos e não acreditou, ainda estava deitado em seu quarto, enroscado e beijando babados travesseiros de sua cama.

Apenas palavras

Não entenda mal, em alguns casos as palavras simplesmente nascem atravessadas, um sinal que foram paridas com uma velocidade absurda, sem terem passado pelo crivo ou orientação da razão. 

Palavras soltas desta maneira possuem uma forte possibilidade de criar uma atmosfera única de prazer e constrangimento, amor e rancor, admiração e frustração. Trazem em sua gestação espontânea um misticismo inexplicável, principalmente quando são analisadas à luz dos sinais corpóreos. 

São o fogo escondido dos Deuses, a filosofia dos comuns, uma espécie de senha que conduz do nada para o lugar nenhum. Uma blusa vermelha jogada no canto do quarto, sapatos esquecidos na sala e largados despretensiosamente em perfeita harmonia com a lingerie no corredor. 

Palavras refletidas, pensadas com exaustão são o combustível necessário para viagens mais intensas e profundas. Conduzem os desavisados aos confins do paraíso, com as bênçãos dos antigos que caminharam entre nós. Podem ser o amontoado de pensamentos ágeis ou lerdos, fazer sentido igual às antigas escrituras ou nada dizer, tal estas linhas.

Reflexão

Ontem a tarde, despretensiosamente me deparei com um pensamento simples e de tão simplório se tornou incrivelmente necessário - nunca desista de algo que você não consegue passar um dia sem pensar. Pergunto ingenuamente, em quantos deverei me dividir para conquistar tantas almas espalhadas?

Lembrança

"Tua presença se tornou lembrança
um foto jogada no fundo da gaveta,
amarelada pelo inclemente tempo e
manchada com o sal de lágrimas
que brotam dos olhos meus".

Solo

"Pisei no solo sagrado de teus sonhos e mudei.
Transformei aquela ilusão infantil
em certeza inconstante,
talvez por ter descoberto,
a quintessência do que são feitas
as nuvens de teu céu".

Reclame

Reclame e reclame um pouco mais,
nada alegra tanto o ser humano médio,
que perceber o quanto existe
de números piores que ele.

Pobre rima

Não sei rimar,
desaprendi na escola,
como banhar-me no mar,
e nela, nas provas, colar.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Nem tudo é o que parece ser.

Reencontrei a velha paixão. E paixão meus caros amigos é um fogo que arde de maneira intempestiva, animalesca e intuitiva. Fazia por minhas contas esparsas, uns treze anos, talvez um pouco mais ou menos, que não nos encontrávamos. 

Foi instantâneo, todas as aventuras, decepções de juventude e conquistas de causar inveja aos garotos da rua, voltaram, igual um cruzado no queixo. Me vi arrebatado. Aquela antiga paixão, de dias longos, vividos despreocupadamente em cada encontro estava de volta. 


Não tive, fraco que sou, como resistir. Passei sobre meus princípios e a meia idade que insistem em colocar freios aos instintos mais primitivos e voltei a ser um destemido apaixonado.

A primeira vez depois de tantos anos foi um fiasco total. Minhas mãos tremiam, não conseguia imprimir o ritmo certo, errava a intensidade das penetrações e a força empregada no ato. Foi realmente um fracasso, vergonha alheia e mesmo sem pedir, me deu novas chances.

Entendeu que longos anos de ausência e a falta de prática, deixam marcas no homem. Ela continuava martelando, provocando e me fez insistir e como consequência, não esmoreci mais. Foquei no que era importante, voltei a ler os sinais deixados sobre a mesa e compreendi que aquilo tudo estava adormecido, escondido em uma prateleira de armário. Eu sabia exatamente o que fazer e como executar os movimentos perfeitos.

Por ela, esta paixão louca e até desenfreada, igual a cantada por Cazuza, encontrei confrades que também a viviam. Compartilhavam do mesmo sentimento, de entrega sem pudor e vergonha àqueles prazeres momentâneos de puro êxtase e satisfação. Ela seduziu a todos, sem se importar, um minuto com a idade, experiência e aparências.

Assim como toda a paixão que se preza, me fez gastar os minguados trocados não consumidos pela inflação. Nosso encontro era quinzenal, depois passou a ser semanal e por fim, quase diário. Sempre regado com uma novidade de cor e tamanho satisfatório.

E sim, é verdade aquilo que diz o senso comum, homens não conseguem viver uma paixão sem serem descobertos. Minha mulher me descobriu em flagrante delito.

Para minha surpresa não fez escândalo, não gritou e tão pouco esperneou. Deixou de lado as perguntas clichês. Olhou com ternura e entendimento, da forma que somente seres evoluídos são capazes. Foi compreensiva ao afirmar - quem sou eu para te impor algo. Ela chegou antes de mim. Vai viver estes momentos e volta para casa!

E assim, dessa forma tempestuosa, com mil lembranças explodindo na memória e no peito, que repouso, por vez, sobre a mesa, dez objetos, distintos com o brasão e minhas cores.

Naquele momento conectam o presente com a adolescência já distante e afloram em mim o personagem escondido, o professor, o estrategista, o cérebro por trás da ficha, o comandante do esquadrão e torna-se inegável ainda mais a paixão pelo futebol de mesa, onde a camaradagem sobrevive apesar das peleias detalhadamente estudadas e disputadas.

sábado, 26 de janeiro de 2019

Sobre Aniversários


Sou um sujeito que prefere delegar a um segundo plano a própria contagem de tempo. Deixei de me importar com esta convenção social, principalmente depois que rompi a barreira dos trinta anos. Tudo muito simples e prático. Talvez por isso esqueça aniversários com uma facilidade insuperável. Sério. Preciso fazer ligações entre pessoas e suas datas comemorativas, sejam de chegada ou partida. Meu cérebro realiza um esforço hercúleo para me lembrar de enviar uma mensagem, telefonar ou comprar um presente. 

Juro que tentei vários recursos para não parecer um frio e insensível ser humano, afinal, as demais pessoas que convivem comigo, necessariamente não comungam do mesmo pensamento e deficiência. Anotei as datas em agendas repousadas e perdidas em gavetas mil. Inseri os dados na agenda eletrônica, mas não a consultava e quando a buscava, estava sem bateria. Uma rede social parecia ser a solução, mas se tornou tão cansativa que pouco a utilizo. E assim vamos indo, um pouco a cada dia. 

Pode parecer incrível, mas me interesso tanto pelo assunto que fui pesquisar na rede mundial de computadores a origem etimológica de aniversário e descobri que surge da expressão latina anniversarius, formada a partir da junção de annus, que significa “ano” e versus ou vertere, traduzida por “voltar”, “regressar” e quer dizer “o que volta anualmente”. Alguns etimologistas defendem outra versão, em que a verdadeira origem estaria no latim anno conversus, que também expressa “o que volta todo ano”. E mesmo assim, com essa repetição esqueço. 

Durante o sagrado ano de 2018 ao felicitar uma das raras pessoas que não precisei inserir no intrincado sistema de recordação “aniversarial”, questionei como ela se sentia abrindo a contagem para a chegada de uma idade cheia, inauguração de nova década. Ficou surpresa por eu saber exatamente a idade que faria, afirmando que nem o próprio pai sabia com exatidão sua idade. Simples e elementar meu caro Watson, sem delongas e rodeios. 

Naquele mesmo dia acessei uma memória arquivada há muito tempo, em que escutei, de uma jovem em busca da iluminação espiritual, que o ano inicial de cada década serve como uma tela em branco em que você vai planejando os passos que serão executados nos próximos nove anos. Penso ser um projeto ambicioso demais, porém alguns conseguem com precisão cirúrgica. 

Pois então, essa criatura que felicitei é uma delas e iniciará um novo caminho com mais sabedoria do que quando a conheci, capaz de se reinventar inúmeras vezes, queimar e renascer como a Fênix, planejar os próximos passos com esmero, ser atenta aos detalhes de seu mundo mesmo estando ausente dele, tocar almas, liderar pelo exemplo, ser companhia distante, ensinar e aprender com o mesmo entusiasmo e ainda trazer o melhor e o pior de si, ser brisa e tempestade, vidraça e pedra, assim como todos nós, imperfeitos deuses. Sendo assim, só me resta pedir que Hator sempre lhe acompanhe, Cronos seja generoso, Bragi lhe ilumine e Frey não lhe abandone. Que seja assim, como era no principio, agora e para toda a eternidade.


Estrelinhas na praia

A vida é roleta, roda gigante e montanha russa. 
Muda, gira, transpira e pira, 
de forma consciente ou inconsciente, 
a vida é piração.
Pira quem fica parado, 
não transforma vinho em água, 
aquele que não suspira pela alma 
e nem toma café pela manhã.
A vida é transformar, virar de ponta cabeça 
a forma de enxergar o sol a beijar as ondas do mar. 
É fazer traquinagem, molecagem as onze pra qualquer hora, 
é conectar os fios da memória 
e traçar o caminho seguro para qualquer lugar

Pequenos desejos

Te observo assim, sem nenhum pudor, pois quem deseja, deve lhe dispensar.

E sem nada a temer, pego no teu pé, pequeno e magro, olhando para a unha cortada, quadrada e cuidada do dedo maior.

Abraçam-lhe minhas mãos que percorrem sua extensão, chegando ao calcanhar hidratado.

Beijo a parte baixa de tua perna, enquanto sem pudor mas com devassidão, encaro teus olhos entregues ao mesmo desejo.

As mãos sobem, passam pelo joelho, meio caminho do paraíso e percorrem um pouco mais a maratona que percorre tua coxa, desenhada, macia, desejada, amada.

Chega - diz sem convicção, puxando a mão para descobrir teus climas e temperaturas. Fica aí, mais rápido, menos pressão, saia e entre, nesse ritmo de noite enluarada.

Mão teimosa, não para quieta, sem merecer castigo, transpassa hemisférios, trópicos e afins, repousa na maciez destas nádegas tão minhas, tão suas, tão nossas.

Me prendo, não solto. Se largo não retorno, se retorno me estanco e há muito a que desbravar.

A boca beija a barriga, lambe o umbigo e chega aos seios que se apresentam, como a fonte do mel, do néctar da perdição e origem dos suspiros mais lânguidos do quarto.

Beijo a boca, mergulho nela como se o fundo não pudesse ser atingido, línguas que se tocam, corpos que já se misturam e se fundem, sem pressa e nem tempo.

Melhor parar de ler Vinícius, o poetinha da paixão, que me faz querer escrever de tudo e mais um pouco, para que leia depois do adormecer.

O amor é chama

O amor é chama,
Contentamento descontente,
E tantas outras definições,
Ditas por inúmeros enamorados,
Desiludidos ou iludidos,
Estes que vieram antes de ti e de mim,
Que transgrediram e arriscaram,
Respiraram e consumiram,
O amor da noite, sacro e pago,
Amor em essência, falta.
Amor em profusão é quimera,
E pior do que ter amado,
Sem receber de volta,
É nunca ter amado e ter sido amado,
Amor, quatro letras,
Duas vogais e duas consoantes,
Intercaladas e agrupadas,
Para definir aquele vazio do peito,
E a ausência da alma.

Forma Poética

O que seria uma forma poética? 
Diria eu, que a poesia vive em tudo, 
basta termos olhos de enxergar! 
O bom dia dado com interesse,é poesia. 
Uma foto nua, tem poesia. 
Mandar uma mensagem deitada na cama 
é repleta de poesia,
banhar-se usando uma fruta 
é poesia, poema e prosa. 
Viver é poesia e és um poema inteiro 
que chega até mim, todo o glorioso e santo dia!

domingo, 30 de dezembro de 2018

Observação Poética

E como observo, assim são os escritores, 
caçadores e desocupados.
Observam sem a pressa dos comuns 
ou com a fidalguia dos lordes. 
Apenas observam e percorrem cada marca do corpo,
sinal, cicatriz, entrada, monte e curva, 
assim como fazem os incautos nas aulas de geografia. 
Seja mapa, 2d, 3d ou braile, mas permita ser descoberta!

Poesia II

Essa capetinha já tem o seu lugar,
Diz que lhe encanto,
Mas desconhece,
Que já sou prisioneiro
Seja da sua presença
Ou da beleza tímida
Que esconde pelos cantos,
Mal sabe que do poder
Que emana de uma calça preta
E de uma blusa branca,
Que diria do que conquistaria,
Se tudo usasse ou dispensasse tudo,
Teria enfim um escravo sem fim!

Menina-cereja

Menina-cereja, cheirosa que só,
Confessa baixinho,
Responde rápido com esmero,
Que boca é essa que tens?
Bocas assim iguais a tua,
Foram desenhadas com esmero pela mão da natureza,
Obra de arte viva e pulsante,
Feitas para se observar,
Criadas para receber veneração,
Quando pintadas de vermelho, lilás, rosa ou nuas,
Autorizam que lábios mortais,
Singelos como pólen Encostem nos seus,
Para impor no fim,
Um desejo desenfreado,
Descobrir se o beijo dela,
Também possui o gosto doce,
Próprio da cerejeira que exala,
Quando desejo estar perto assim.

Esmero

Bocas assim, desenhadas com esmero 
pela mão da natureza, não são feitas para observar. 
Elas estão ali para receber veneração, 
para autorizar que outros lábios encostem nos seus 
e principalmente para que nós desejemos experimenta-las..

Colo

Preciso de colo, assim ela disse em uma noite de primavera. Fechei os olhos e a vi aninhada, com os braços em volta de meu pescoço. Meus lábios encostaram em sua testa, enquanto escutava sua respiração e sentia seu queixo procurar espaço em meu peito.

Minha mão esquerda encontrou a nuca e depois os cabelos macios, que foram acariciados por cinco dedos. A mão direita, atrevida e safada, repousou em sua coxa, a puxou para cima e a deitou melhor. Queria ficar assim, resistente ao tempo e as dores físicas e mentais. 

Aninhados, abraçados, entrelaçados, em estado puro de imaginação, que conforta, ameniza, envolve e liberta, mesmo quando tudo não passa de um sonho que se tem acordado.

Chuvas de Março

Chove muito! Vejo pela janela a névoa densa que se forma com a água que insistentemente se joga sobre os prédios, ruas e praças.


Penso, e assim o faço com a liberdade que ninguém me concedeu, que sair a rua agora é o que melhor poderia acontecer.

Misturar a chuva com lágrimas, molhar o sorriso, enquanto se gira igual pião nesse tabuleiro de vidas tristes e secas.

Guardaria emoções e pensamentos de tal forma que você não encontraria, por mais que desejasse. Não por despreparo.

Pode ser que seja egoísmo meu, e o é. Agir assim faz com que esses pensamentos e sentimentos sejam únicos e exclusivos.

Dizem muito e ouvem pouco. Calam e gritam, fazem birra e se amotinam. Guerra e paz, desejos e tormentos.

Enquanto a noite se alonga e a chuva continua a bater na janela, penso por onde estará.

E assim, guardo para mim, as sensações e pensamentos que nascem quando imagino tua presença.  por assim dizer

Altas Horas

Olhei no relógio, era duas da manhã. Todos dormiam e a cidade em suas sombras descansava. Recuperava sua sanidade em meio as luzes altas dos prédios e os primeiros acordes canoros. Por vez escutava ao longe algum carro mais barulhento ou moto chamativa, a rasgar o silêncio da madrugada, sem pedir autorização alguma.

Pensei exatamente, naquele momento em escrever algo inteligente, que fosse capaz de te chamar a atenção para estes meandros do mundo, na igualdade tão desigual que fermenta no peito e cria uma indignação intangível. Pensei, busquei o PC, abri o e-mail, rabisquei meia dúzia de linhas e desisti. 

Desisti, não por um motivo especial ou algo do gênero, apenas desisti ao tomar ciência de algo inapelável. Você estaria dormindo.

E de que forma, me diga, eu poderia perturbar a santidade de teu sono? Por onde estaria tua alma liberta? Acaso em algum templo ou floresta? Estaria apenas descansando sem nenhuma viagem espiritual? Não quis mandar. Desisti. Me revi nesse movimento e aí percebi.

Aquela verdade inapelável, escancarada a minha frente. Você estaria dormindo, talvez de pijama, talvez não. Usando apenas uma gota de perfume, talvez mais! Estaria entre essa atmosfera do sonho e da realidade, exposta, tal a mais bela estátua majestosa, mármore em forma de carne. Perfeita em sua imperfeição e mesmo assim, desisti de escrever.

Desejaria que fosse o primeiro e-mail a ser lido, aquele que deseja bom dia ou que perturba logo cedo, marcante, surpreendente e apenas e tão apenas para me fazer presente. Porém, como me repeti, eu desisti.

E ao fazê-lo, continuei pensando de uma forma única em ti. Destas formas que não se deve destacar e tão pouco confessar, que levam a interpretações e caminhos infinitos igual a paixão dos poetas e dos amantes. Este caminho tortuoso e cheio de paradouros, de estações de embarque e desembarque. Pensei sim, confesso. Imaginei, pensei, sonhei, fantasiei e materializei. Assim, dessa exata maneira e ao perceber que as palavras seriam inúteis, desisti de escrever.






Levei meu corpo e alma para o quarto, se estavas dormindo e visitando o mundo de Morfeu, que outro lugar desejaria estar se não lá, para encontrar com aquela que, assim despretensiosamente, fez moradia na imaginação tardia de um velho escrevinhador?

Poesia I

Viajei por uma estrada
Assim de forma despretensiosa
Numa tentativa de esquecer
Enquanto caiam lágrimas,
Salgadas e frias,
Surgidas da alma
Algumas tristezas guardadas

Poesia

Menina, garota, Mulher
Assim dessa forma,
Misturada e separada,
Deixa solto no ar,
Para quem desejar,
A certeza que vale bem lhe querer



Breve devaneio

Acordou decidida, não passaria daquela manhã. Ainda deitada, vestindo o mínimo possível, sentia o toque do lençol em todo o corpo, os radares ligados, percepções a mil.

Olhou para o lado, duas garrafas de cerveja no criado mudo, que por sorte na falava nada do que escutava naquela casa. Havia mais uma garrafa jogada no chão, próxima do sutiã e da blusa. 

Ergueu de leve, a cabeça doída, o show tinha sido espetacular, gostou das músicas, dos acordes e da companhia.

Dizia que ele a fazia bem. Talvez o fizesse mesmo. Ela contava e ele acreditava, queria escrever canções, poemas e preencher outdoors. Existia algo diferente, se completavam desinteressadamente. Incrível, diferente, raro.

Levantou finalmente, os cheiros se confundiram no ar. A cerveja choca, o suor nos cabelos e o azedo no pescoço. Decidiu, ia estrear o presente que ganhara.

Buscou na gaveta o sabonete novo e cheiroso. Cereja. Odor suave, leve e ao mesmo tempo marcante. Se perfumaria de fruta, ficaria mais doce, provocaria as imaginações férteis.

Entrou no box, tirou a última peça do corpo, branca, tamanho apropriado para seu corpo, ficará livre, bela, natural.

Abriu o registro, a água quente começou a jorrar e a experimentou com a ponta do pé. Perfeita! A temperatura e ela. Entrou sem medo e deixou que a água escorresse por todo o corpo.

Suspirou, a cerejeira se mudou para o quarto de banho. Começou a fazer raiz nela, enquanto do outro lado da cidade o despertador acordava os incautos...



Nossa Morte

Quando morremos, não partimos de súbito,
ao contrário do que se pode pensar.
Não somos aqueles balões impulsionados ao céu
que deixam o ar que lhes preenche escapar.

Partimos demoradamente, com intensidade variada
e vamos sumindo dessa existência,
de forma irreversível quando aqueles
que nos conheceram nos acompanham
nessa viagem ao desconhecido.

E assim, quando a última vez nosso nome,
feito mantra evocado nos agradecimentos
e orações for citado por estes lábios conhecidos,
finalmente encontraremos o descanso eterno.

Teimosia

Eu tinha algumas coisas para falar no início dessa tarde,
mas simplesmente, palavras se tornam desnecessárias,
praticamente dispensáveis quando se tenta
explicar uma sensação ou sentimento
que teima em guardar moradia onde não se deve demorar...

Que lugar é este?

Existe um lugar, daqueles que você só enxerga em sonhos em que se poderia escrever as mais belas páginas, sejam com estórias fantásticas ou somente com pensamentos esparsos, soltos como brisa no campo.

Gostaria de encontrar tal destino, poder trilhar um caminho belo e se não o fosse, que ao menos se tornasse suave, para lá escrever dos amores que não tive, das bocas que desejei e não beijei e das paixões platônicas que morreram em segredo. 

Lugares assim foram feitos para que se de vazão a imaginação, sem preocupações extras, em que se pode ser tudo ao mesmo tempo. Deus e demônio, corajoso e covarde, criador e criatura, mocinho e bandido. Tudo isso sem haver pressa de acabar e se ainda, não bastasse, apenas me contentaria em morrer no quarto...