Depois de jogar muitos anos sobre uma velha tábua, meus pais me presentearam com um Estrelão. Nele eu jogava Grenais que invariavelmente culminavam com a vitória Tricolor, ele testemunhou o surgimento do ponta-direito insinuante Zico Cuiabense, excelente cobrador de faltas e escanteios, que anotou nele boa parte dos mil gols, inspiração para os atacantes que surgiriam quase trinta anos depois, Zico Cuiabano e Zico Cuiabá. O campo era o local em que os campeonatos da rua pacata no bairro Santana e os jogos contra meu irmão eram disputados.
Frase batida, mas por uma dessas circunstâncias inexplicáveis da vida, o Estrelão quebrou. Foi o fim de uma era! Naqueles anos de inflação galopante, investir novamente em um campo daquele valor era impensável. Ganhamos uma versão mais popular, o Xalingão, que tinha uma cor diferente do verde folha. Tantas outras partidas foram disputadas nele, até o momento em que os botões foram para o fundo da gaveta e lá ficaram guardados.
Quando resgatei a paixão adormecida pelo botonismo, uma das primeiras recordações que afloraram foi a do Estrelão e o desejo de ser dono, novamente, daquele campo mítico que marcara uma geração inteira de pequenos treinadores brasileiros. Porém existiam dois pequenos entraves, o primeiro era o tempo em que ele deixou de ser fabricado o que o tornava raro e o segundo e não menos importante, quem tem um exemplar desses em casa, não o comercializa por um valor irrisório.
Foram alguns anos pesquisando anúncios na internet sem sucesso, perguntando aqui e ali se alguém sabia de um campo disponível. O retorno era sempre negativo, até o último sábado de Outubro, do ano da graça de 2021. Quando saía da visita de uma das sedes de futebol de mesa em Porto Alegre, ao conversar com um confrade, sobre a nostalgia dos anos iniciais de botonismo, ele me chama a atenção – “olha ali, tem até um Estrelão naquele brick”. A frase foi um gatilho de incredulidade. “Será mesmo? – respondi a mim mesmo, completando – Vou ali olhar”.
Atravessei a rua e cheguei ao Brick
da Gabi e não acreditei no que vi. Sim, era
um Estrelão, final dos anos 70 extremamente
bem conservado. O antigo dono não sabia o que tinha em mãos, usou aquele
sobrevivente de uma era dourada como um quadro em que foram coladas diversas
fotos de surf. Perguntei quanto custava e fiquei surpreso pela resposta. Apenas
R$ 15,00! Um valor irrisório para a concretização de um sonho! Passei a mão
nele, segurando o Troféu desejado por tantos anos enquanto a outra mão
alcançava o dinheiro.
Nossa existência é uma sucessão de aparentes coincidências, o enredo escrito pelo destino, possibilitou que encontrasse, aos pés do Morro da Polícia, no bairro da Glória, local que se encontra a inspiração que batiza o meu atual Estádio da Vila Poneza, o Estrelão perdido, testemunha de uma Era, de jogadores memoráveis e disputadas épicas, que agora repousa em uma das paredes de casa, exposto como uma obra de arte imensurável.
