Sou um sujeito que prefere delegar a um segundo plano a própria contagem de tempo. Deixei de me importar com esta convenção social, principalmente depois que rompi a barreira dos trinta anos. Tudo muito simples e prático. Talvez por isso esqueça aniversários com uma facilidade insuperável. Sério. Preciso fazer ligações entre pessoas e suas datas comemorativas, sejam de chegada ou partida. Meu cérebro realiza um esforço hercúleo para me lembrar de enviar uma mensagem, telefonar ou comprar um presente.
Juro que tentei vários recursos para não parecer um frio e insensível ser humano, afinal, as demais pessoas que convivem comigo, necessariamente não comungam do mesmo pensamento e deficiência. Anotei as datas em agendas repousadas e perdidas em gavetas mil. Inseri os dados na agenda eletrônica, mas não a consultava e quando a buscava, estava sem bateria. Uma rede social parecia ser a solução, mas se tornou tão cansativa que pouco a utilizo. E assim vamos indo, um pouco a cada dia.
Pode parecer incrível, mas me interesso tanto pelo assunto que fui pesquisar na rede mundial de computadores a origem etimológica de aniversário e descobri que surge da expressão latina anniversarius, formada a partir da junção de annus, que significa “ano” e versus ou vertere, traduzida por “voltar”, “regressar” e quer dizer “o que volta anualmente”. Alguns etimologistas defendem outra versão, em que a verdadeira origem estaria no latim anno conversus, que também expressa “o que volta todo ano”. E mesmo assim, com essa repetição esqueço.
Durante o sagrado ano de 2018 ao felicitar uma das raras pessoas que não precisei inserir no intrincado sistema de recordação “aniversarial”, questionei como ela se sentia abrindo a contagem para a chegada de uma idade cheia, inauguração de nova década. Ficou surpresa por eu saber exatamente a idade que faria, afirmando que nem o próprio pai sabia com exatidão sua idade. Simples e elementar meu caro Watson, sem delongas e rodeios.
Naquele mesmo dia acessei uma memória arquivada há muito tempo, em que escutei, de uma jovem em busca da iluminação espiritual, que o ano inicial de cada década serve como uma tela em branco em que você vai planejando os passos que serão executados nos próximos nove anos. Penso ser um projeto ambicioso demais, porém alguns conseguem com precisão cirúrgica.
Pois então, essa criatura que felicitei é uma delas e iniciará um novo caminho com mais sabedoria do que quando a conheci, capaz de se reinventar inúmeras vezes, queimar e renascer como a Fênix, planejar os próximos passos com esmero, ser atenta aos detalhes de seu mundo mesmo estando ausente dele, tocar almas, liderar pelo exemplo, ser companhia distante, ensinar e aprender com o mesmo entusiasmo e ainda trazer o melhor e o pior de si, ser brisa e tempestade, vidraça e pedra, assim como todos nós, imperfeitos deuses. Sendo assim, só me resta pedir que Hator sempre lhe acompanhe, Cronos seja generoso, Bragi lhe ilumine e Frey não lhe abandone. Que seja assim, como era no principio, agora e para toda a eternidade.
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