quarta-feira, 29 de julho de 2020

Croniqueta do Mercado II

Escolhia as carnes para o churrasco, iniciara com as tradicionais e já estava nas alternativas, não que desejasse fazer algo fora dos padrões gaudérios, o que levava a essa pesquisa e escolhas mais detalhadas era o preço do quilo do boi ou seria da vaca?

Alaor, representante da tradicional família brasileira, tinha um plano para aquela tarde. Fazer as compras em ritmo frenético, gastando o mínimo possível e de lambuja não estressar Matilde.

Matilde era a síntese perfeita da mulher injustamente casada. Reclamava primeiro para perguntar depois, mandava ao invés de pedir, criticava cada escolha do pobre Alaor. O que fazia os dias do coitado serem suportáveis era a filha do casal, loirinha, cabelos encaracolados, viva que só ela, a companheira ideal para as fugas da realidade.

Continuava Alaor debruçado sobre os freezers dos cortes quando escutou seu nome sendo cantado de forma espaçada.

"A-L-A-O-R eu não acredito!" - exclamava a morena de top e calça mais justa que a justiça divina - "tu continua o mesmo dos tempos de faculdade!"

Ele sorriu sem graça. Sabia que seu pitbull ciumento surgiria a qualquer momento. Ela conseguia identificar a aproximação de outra mulher em seus domínios a quilômetros de distância. Um dom, a pequena tortura que aplicava em Alaor. Nem tivera tempo de responder para a ex-colegam quando sentiu suas pernas abraçadas. 

A filhota que no arrombo infantil perguntou - "quem é papai?" o que foi completado com um - "sim, quem é papai?" Matilde não se furtava de ser contundente quando desejava.

Alaor arranhou apenas a resposta padrão "É uma ex-colega da faculdade".

"E por acaso a colega não tem nome?"

A morena percebeu o terreno instável, se agachou para falar com a menina, que tímida enterrou o rosto no pai.

"Você é muito lindinha, sabia? É tão tímida quanto lembro que era seu pai. Tu deve estar realizado, não é?" Perguntou ao enrascado Alaor, que suava em bicas, apesar de estar quase dentro da refrigeração.

"É sim" - limitou-se a responder.

"Lembro que falávamos sobre filhos na faculdade, louco isso né?"

"Muito" - atravessou Matilde.

"Até falei para a mãe quando vi o Alaor de longe que ele continuava o mesmo de antes".

"O mesmo como?" - quis saber a enciumada.

"O homem lindo que nos fazia suspirar quando entrava na sala de aula".

Matilde pareceu se transformar no capeta, o rosto ficou vermelho, os braços se fecharam, o cenho embruteceu e de seus olhos saíam labaredas! A morena se despediu, afirmando que tinha sido fantástico, um sinal do universo aquele reencontro e que seus contatos não haviam mudado.

"Me liga Alaor" - disse antes dos três beijinhos, o afago na cabeça da pequena e o tradicional "um prazer te conhecer Matilde".

E lá se foi a linda morena de top e calça justa, mostrando com o seu "um pra mim, um pra ti", como há injustiça no açougue da vida, enquanto um tapa forte no braço o chamava a realidade, o preço das carnes está nas alturas!

* escrito antes da Pandemia que deixou o mundo de cabeça pra baixo

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