quarta-feira, 29 de julho de 2020

Croniqueta do Mercado III

Escolhia os pêssegos mais maduros quando foi interrompido com um puxão no braço, seguido da ordem de parar tudo e prestar a atenção no que acontecia ao seu redor.

"Euclides, olha aqueles melões!" - determinou Clarice, a esposa a quem nada escapava.

"Melões, que melões? Onde?" - perguntou enquanto girava a cabeça de um lado para o outro na tentativa de localizar a fruta amarela - "Está louca Clarice? Não há melões a venda no mercado".

"Ah pois bem Euclides, vai me dizer que não repaste nos peitos daquelazinha ali!"

O santo procurou no horizonte o motivo de indignação da esposa e descobriu uma jovem, não mais de 25 anos, blusa curta de alça estreita e uma barriga desenhada pelo capeta em pleno dia de inspiração Divina, conduzindo orgulhosamente um par de seios siliconados, semelhantes as obras de Michelangelo .

"Olha o desfrute dela, um afronte vir ao mercado com os peitos saindo da blusa. Me diz Euclides, pra que tudo aquilo? E ainda mais, não está usando sutiã. Não se dão mais o respeito, esperam que os homens não fiquem olhando? Que absurdo! Tu não fala nada?"

Euclides estava acompanhando a moça se esgueirar por entre as mesas das frutas e leguminosas, o jeito que escolhia os tomates como se fosse a mais pura e delicada tarefa. Enquanto as palavras da mulher ecoavam em sua caixa craniana, seus olhos focaram no decote generoso e apenas respondeu - "mas qual o problema?"

"Qual o problema? Eu te digo qual é o problema. Aqui é um ambiente familiar,  as crianças vendo essa pouca vergonha, as mães sendo afrontadas com esses peitos siliconados. Não gosto, decididamente de silicone.Tu sabe disso Euclides".

"Então é simples, não coloca silicone".

"Ah claro, agora está insinuando o que? Que sou uma recalcada? Sério isso? Tu perdeu a noção do perigo, né?"

"Não, só estou dizendo que se não gosta de silicone em ti, deixa em paz quem tem".

"Euclides, não tenta encontrar desculpa para justificar o injustificável"

"Clarice, justificar o que? Deixa a menina em paz. É jovem e bonita. Não está fazendo nada além de desfilar a sua juventude!"

Irritada, a esposa se deu por vencida e foi buscar abobrinhas para combinar com seu discurso. A jovem já tinha pego os tomates e agora separava pimentões enquanto Euclides ainda admirava um pouco mais aquela exuberância e fartura, quando sentiu escorrer por entre os dedos um liquido de cheiro adocicado.

Acabara de esmagar o pêssego que tanto escolhera.

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