O ambiente do mercado, não o de trabalho, é uma fonte de gostos, estresse e logicamente inspiração para mentes atentas. Não é necessário cometer nenhuma indiscrição para escutar o argumento do próximo para sua bucólica experiência consumista. Algumas comunicações são cifradas, permitindo interpretações mil nos corredores do Brasil. "Não esqueça de pegar aquele negócio que usa na sopa"; "pegou o líquido do banheiro"; "o corredor do perfuminho das roupas é onde?". Há também umas mais explícitas do tipo "quantos limpa trilhos vamos levar?"
Neste final de semana, no corredor das guloseimas, presenciei um trecho de conversa que permite muito para a imaginação. Vinha o rapaz conduzindo seu bólido prateado no melhor estilo pimpão quando sentencia para a morena flor ao seu lado.
"A gente que é do interior sempre ouve falar de lá, que é um ambiente de descontração, mas muito caro. Te confesso, fiquei curioso e fui lá, mas não fiz nada não. Pode acreditar" - exclamava com veemência presenciada apenas em juris populares, para completar em tom descendente "ai eu só comprei uma camisa lá".
Minha mente criada e treinada nos mais mundanos momentos, levou-me a crer que o singelo rapaz interiorano falava de alguma famosa casa de tolerância ou sauna, em que as meninas aproveitam para trocar favores sexuais por algumas onças de papel. Ao afirmar categoricamente que não fizera nada, o nobre incauto praticamente assinava a confissão para ser elevado a um outro patamar da existência, juntar-se a imensa legião de homens e mulheres que não se interessam em elogios sinceros por sua performance de alcova.
Não, ele guardou o balde de gelo para o final - "eu só comprei uma camisa lá". Qual, me digam amigos meus, qual lugar sofisticadamente luxurioso vende camisas? Alguém já viu alguma com a estampa "lembrança das gurias"; "estive na tia e lembrei de você" ou "aqui se faz, ali tu paga".
E assim foram ao longe, me deixando a curiosidade como companheira enquanto decidia se comprava um pacote de balas de caramelo ou fruta, permitindo imaginar que mundo é este em que os corredores do mercado nos oferecem mais que produtos de consumo, um bilhete para divagar sem pressa e exatidão.
* escrito antes da Pandemia que deixou o mundo de cabeça pra baixo
Nenhum comentário:
Postar um comentário