Uma das grandes surpresas que tive após aceitar o convite dos Editores da Farol 3 para participar do volume dois dos Dezmiolados foi que, além de dividir as páginas da publicação com o meu Mestre e amigo de décadas Paulo Motta e com o competente jornalista Milton Gerson a quem atendia na impressão do Fala Bom Fim, jornal do bairro que o batizava, teria a companhia de uma plêiade de competentes jornalistas, agitadores culturais e professores, uma equipe pronta para disputar o Nobel de Literatura como podem conferir na nominata que segue, Emilio Pacheco, Gilnei Lima, João Carlos Machado Filho, Luciano Riquez, Marne Rodrigues, Pedro Marcon Neto e Ricardo Azeredo, além dos já citados.
O livro é um apanhado de boas crônicas, quarenta para ser mais exato e está com a tiragem praticamente esgotada. Quem tem um exemplar deve guardá-lo como mais precioso tesouro! Durante o processo de impressão adquiri uns exemplares extras que presenteei pessoas importantes e únicas em minha caminhada. Desta forma tive acesso aos trabalhos de meus colegas antes do grande público. Diverti-me com as estórias e causos eternizados naquelas páginas, porém nenhuma, com exceção das minhas, me causou tanta surpresa e emoção quanto uma escrita pelo destacado e reconhecido jornalista Ricardo Azeredo.
Cabe aqui o aviso de spoiler, a crônica do Ricardo, intitulada “O neófito e o oráculo”, conta a história de dois importantes ícones da literatura gaúcha e brasileira. O primeiro, um aspirante no mundo da literatura juntou um de seus trabalhos e criou coragem para pedir a opinião do vizinho de bairro e famoso escritor. O veterano recebeu as laudas datilografadas do aspirante e pediu para que ele voltasse em alguns dias e teria o que lhe dizer sobre a obra.
Passados aqueles dias de ansiedade, retornou a casa do veterano mestre das letras e teve o que hoje os administradores modernos propagam entre os quatro cantos empresariais, um feedback positivo. O estreante deveria investir na carreira de escritor, porque nele havia talento.
Ao se despedirem o novato agradeceu.
“Muito obrigado seu Veríssimo, agradeço muito a sua avaliação e as suas palavras!”
“Veríssimo não, meu caro. Erico. Erico está bom”.
E se foi o novato para casa, decidido em encarar aquela oportunidade que se descortinava e já imaginava com que nome publicaria seus trabalhos, ao que conclui que o Sr. Veríssimo não aprovaria de outra forma, seria o nome completo – Moacyr Scliar.
Essa crônica foi tão especial por um simples motivo e você entenderá perfeitamente, logicamente guardadas as devidas proporções comparativas. Trabalhava no Zero Hora e escrevia constantemente, porém não publicava meus trabalhos. Tinha como pensamento que eles não eram interessantes ao ponto das pessoas desejarem parar alguns instantes para ler pensamentos transformados em textos e poesias. Porém numa tarde eu chegava para o expediente e descia as escadarias do prédio o já Imortal Scliar. Pedi licença, me apresentei, disse que era um fã de sua obra e que aguardava com interesse suas crônicas publicadas no jornal e que igualmente escrevia, mas não tinha certeza se havia qualidade neles. Perguntei se poderia lhe encaminhar alguns trabalhos. Ele concordou.
Diferente do que aconteceu com ele, não entreguei laudas datilografadas pessoalmente, mas os textos digitados em um arquivo de Word encaminhados para seu email. Passaram alguns dias e recebi sua resposta. Agora, passado tantos anos, compreendi através da crônica do Azeredo o que aquele momento significa. Quantas vezes os Imortais Veríssimo e Scliar receberam o convite para apreciar o trabalho de algum iniciante e com uma frase simples abasteceram aquelas almas sedentas de aprovação com o combustível necessário para converter pensamentos e sentimentos em literatura.
Dizem que entre o fato verídico e o mito criado para descrevê-lo, sempre se deve preferir o último por ele ser mais atraente e heróico. Posso romancear o fato, porém sem esconder a verdade e imaginar que enquanto ele lia um de meus textos, se lembrou da vez que esteve em minha posição, aguardando o parecer de um premiado escritor. Naquele instante tirou o óculos e o repousou sobre a escrivaninha ao lado do notebook, se reclinou na cadeira, pensamento viajando no tempo, um sorriso de quem percebe que a vida se repete eternamente. Resgatou o óculos, mirou o teclado e proferiu a sentença que mudaria mais uma vida.
“Rapaz, você realmente possui talento. Parabéns. Invista nele”.
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