domingo, 6 de maio de 2018

O que aprendi sendo goleiro



Dia desses recebi um vídeo com modernas técnicas de treinamento de goleiros. Para aqueles que pouco sabem de mim, lá pelos anos 80 e 90 do século XX disputava as tradicionais peladas nesta posição. Era o arqueiro do time do bairro, do colégio durante a educação física e recreio e até mesmo na escolinha de futsal que o colégio mantinha nos sábados pela manhã. 

Jogar como goleiro não foi uma escolha minha, ela simplesmente surgiu por imposição da minha inexistente técnica e intimidade com a gorduchinha nos pés. Era um terror, invariavelmente o último a ser escolhido para a montagem das equipes e logicamente, o gol era meu destino. Lembro que deixei a meta depois que surgiu um colega com técnica apurada sob as traves e naquele período fui deslocado para a defesa. Era o zagueiro típico do interior, tosco e que levava a sério a máxima de passar a bola ou o atacante, nunca os dois juntos. 

Durante nossas estripulias infanto-juvenis nos intervalos das aulas, que naquela época chamavam-se recreios, fomos proibidos de jogar bola. Lógico que os endiabrados encontraram uma forma de burlar a ordem regente naquele rígido colégio de padres. Engana-se quem pensa que trocávamos chutes com uma bola de meia ou plástico. Elegemos como nossa gorduchinha uma bola de tênis. Exato! Uma bola de tênis, da mesma família daquela que era encaminhada para a quadra adversária em Wimbledon. 

A mídia divulgou em 2014, que o goleiro Keylor Navas da seleção da Costa Rica e na época, recém contratado pelo fantástico Real Madrid realizava seus treinamentos com bolas de tênis, a fim de aprimorar seu reflexo. Pobre rapaz, com anos de atraso havia descoberto o que um bando de aborrecentes já praticava em Porto Alegre. 

Voltando a minha vida de goleiro, posso afirmar que os anos trouxeram aprimoramento da técnica e comecei a gostar da missão de evitar a alegria dos outros. Observava a forma como o gigante Mazaropi se comportava no gol do Grêmio e tentava repetir em campo e me tornei um pegador de pênaltis com a ajuda de uma técnica suicida. Como canhoto, tinha facilidade de soltar para o meu lado direito com boa impulsão, já o lado esquerdo era um fiasco. Sendo assim, quando havia um pênalti, fechava o lado esquerdo do gol e o incauto batedor escolhia o direito. Barbada! 

Recordando esses tempos e impulsionado pelo vídeo que comentei no inicio, busquei na internet outras publicações com grandes defesas e a pesquisa foi conduzindo de um vídeo a outro até que cheguei a um que mostrava grandes “frangos”. Aqueles gols oriundos de chutes e cabeçadas defensáveis que não são impedidos pelos arqueiros. Essa pesquisa fez me lembrar de um jogo que mudou minha percepção de vida. 

Era uma tarde quente e estávamos enfrentando a equipe de outra turma e o primeiro chute despretensioso dos adversários não foi defendido por mim. A verdade é que me atrapalhei e coloquei a bola para dentro do gol. O segundo chute de média distância foi no canto, porém quicou em campo e passou sobre mim. Dois chutes, dois gols. Logicamente que aconteceu o esperado. Fiquei inseguro para realizar outras defesas e o time adversário passou a chutar de qualquer distância, afinal, era chutar que o arqueiro aceitava. 

Os cretinos e bastardos do time adversário passaram a bombardear, sem dó e piedade, sabia que só havia uma coisa a ser feita. Uma grande defesa, capaz de devolver a segurança para mim e o respeito para eles. Ela não demorou a aparecer. O atacante adversário, um baixinho rápido igual vento veio avançando pelo lado esquerdo de ataque, cortou o lateral para dentro de campo a fim de posicionar a perna direita para desferir o chute e quando o fez, soltou-o forte. Assim como um gato, expressão eternizada por um apresentador de TV para classificar defesas difíceis, salvei o gol com a ponta dos dedos da mão esquerda. Senti ali que a sorte começava a flertar comigo e a segurança retornava. 

O próximo lance foi definitivo. Tanto para que retomasse a frieza no gol e para virarmos o resultado adverso. O time foi para o ataque e nesse momento eu me antecipava para a risca da grande área e ficava controlando o avanço adversário. Em um destes ataques, tivemos a bola roubada e o jogador adversário ao perceber que estava fora de posição, chutou na esperança de fazer o gol que Pelé não fez. Não podia levar aquele gol. Estava decidido quanto a isso. Comecei a observar a trajetória da pelota enquanto retornava de costas para o gol. Lembrei do ensinamento de um treinador que tive e que lances antes tinha se mostrado verdadeiro – jamais deixe a bola quicar na tua frente, porque ela vai te enganar! 

Quando a bola já havia descido a uma altura considerável, joguei-me de costas, braço direito esticado, mão espalmada, braço esquerdo procurando no ar uma posição adequada para me apoiar no pouso. Fechei os olhos e senti a bola encontrar minha mão e o grito de “booooooaaaaaaaaaaaa Cerva” e a redonda repousando na linha de fundo. Naquele jogo não levei mais nenhum gol, o time adversário se tornou mais cauteloso ao ponto de perder a partida. 

E foi por essa defesa que minha percepção mudou. Todos os dias encaramos alguma situação que põe a prova nossa capacidade de superação e vitória. Independente do momento que você se encontra na vida, seja no colégio ou trabalho, sempre acontecerá algo que possa te trazer insegurança, só é preciso saber o que fazer para que esse sentimento seja passageiro e as rédeas de sua vida retornem para as mãos certas. As suas! E assim tento agir desde aquele longínquo dia, com a frieza de um goleiro para encarar o pênalti decisivo ao final da partida, sem desespero, por saber que aquilo que é teu ou que deve acontecer, sempre encontrará uma forma de chegar a ti.

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