domingo, 22 de abril de 2018

Uma história de amor que o Jornal não contou!



Para os recém iniciados nas coisas do mundo, a derradeira década do século XX foi o último bastião do sopro de vida antes da chegada do corretamente político. Antes de prosseguir no meu relato, é estranho que estas duas palavras andem juntas, corretamente e político parece ser um caso claro de antônimos, mas vá lá. 

Voltando ao que interessa, naqueles idos o bullying era conhecido como pegação de pé, arriação de mão dupla. Desempenhava minhas atividades profissionais no maior jornal de circulação do Estado, convivendo com uma infinidade de malucos do bem por metro quadrado. Costumávamos dizer que se alguém tivesse a idéia de cercar o prédio ele seria um hospício, se cobrissem com uma lona se tornaria um circo. O que você imaginar aconteceu naquele prédio. Era uma verdadeira fábrica, ao mesmo tempo em que levava informação para seus leitores, proporcionava uma infinidade de estórias que o jornal não contava. 

Não me recordo bem como tudo começou, porém está vivo em mim como se desenrolou e terminou uma bela história de amor entre colegas. O ano devia ser 1999 ou no máximo os dois mil. Nosso departamento era composto por um seleto grupo de quatro pessoas, um quatrilho ou se pensar bem uma “quadrilha” e entre nós, havia um prodigiosos imitador de vozes femininas. Era batata, o cara pegava o telefone, deixava incorporar aquela Maria e realmente enrolava os incautos. Acreditem, era lindo de se ver! 

Pois eis que este nosso encantador dublador ligou para um colega de outra área e passou a conversa nele, afirmava que estava apaixonado pelos seus dotes físicos, pela maneira romântica que beijava as mãos das colegas. Ali nascia Luana! Claro que para uma história dessas dar certo houve a participação de dezenas de colegas que acobertavam e informavam cada passo do mais novo Don Juan do jornal. 

É importante salientar que nosso Don Juan nunca dava importância para suas vestimentas que eram surradas e remendadas, além de apresentar sempre a barba para fazer e os cabelos desgrenhados. Possuía uma baixíssima auto-estima, não raro se magoava com alguma cobrança mais dura que lhe faziam. Porém vida nova, tudo mudou com a chegada de Luana em sua vida! Passou a andar asseado, investiu em panos novos e mudou sua postura, ao ponto de um dia ao lhe cobrar uma falha, receber como resposta um dedo na cara e uma sentença – não fala assim comigo! Criáramos um monstro! 

Os dias se passavam desta forma, o colega chegava, fazia sua ligação para o Don Juan. Dizia que havia sonhado com ele as situações mais sacanas, que não podia esperar pelo dia em que seria sua. Aquele papo que excita adolescente, ruboriza virgem e faz gargalhar os mais devassos. Porém a galera começou a evoluir o romance. Uma rede de informações foi criada, capaz de causar inveja ao M-8, CIA, ABIN, KGB, etc. Don Juan saia de sua sala e a Luana aparecia pare deixar uma carta escrita com suas fantasias, fotos com dedicatórias, uma calcinha ordinária comprada no 1,99 empapada em um perfume ainda mais ordinário. Ele ficando louco para conhecê-la pessoalmente e a menina sempre com uma desculpa esfarrapada para escapar do encontro de corpos. 

Nossa sorte e azar de Don Juan é que ele elegeu como confidente a única mulher de nossa equipe, portanto, estávamos sempre um passo a frente do infortunado apaixonado. Aquele homem que sonhava com o dia que tiraria Luana dos braços do agressivo e machista marido. Sim, havia este detalhe. Luana era casada com um major que não lhe tinha mais amor, porém permaneciam juntos por causa da filha. Quando Don Juan lia as dificuldades de sua amada, a fisionomia se alterava e ele afirmava que desejava “dar um pau” naquele sujeito. Sério, era enternecedor. 

Porém a noticia deste romance chegou até a Direção que aconselhou que o romance chegasse ao fim. Todo mundo sabe desde o principio do mundo que desejo da Direção é ordem e ordem então é um dogma incontestável. O amor de Don Juan e Luana estava com os dias contados. Acontece que o mundo não é um professor estável. Ele ama pregar peças em seus alunos. 

Era uma manhã quente de primavera e Dom Juan entra em nossa sala, livrinho de ramais na mão e sentencia para minha colega. Descobrira quem era Luana e iria se declarar. Não havia mais motivos para que esse encontro fosse transferido. Estava decidido! Percebam agora o drama, Luana era o nome de uma secretária da Presidência da Empresa. Quando ele disse aquilo, gelei. Minha reação foi olhar em desespero para a colega, que leu meus pensamentos e começou a demovê-lo da idéia. 

Neste meio tempo telefonei para Luana, quer dizer, para o colega transformista, quer dizer, o dublador e proferi uma das mais fantásticas frases de minha existência – “cara, vem já pra cá. O doido quer ir se declarar para a Luana, ela vai colocar ele a correr da Presidência e isso vai se tornar a comédia do ano ou a tragédia do século”. 

Mentes criativas iguais as nossas, produzem maravilhas sob pressão e durante o horário de meio dia Luana faria sua despedida teatral. Enquanto isso, nossa colega fazia o papel de pajem de Don Juan. Decidimos que Luana se mudaria para João Pessoa na Paraíba. Foi a carta de despedida mais bela que escrevi – me arrependo de não ter ficado com uma cópia dela – ali Luana expressava todo seu amor e explicava que não havia ido trabalhar naquele dia porque estava tratando da mudança da família, mas que o guardaria para sempre como o grande amor de sua vida. 

Atentem ao detalhe que deixaria Maquiavel orgulhoso. O colega que dava vida a Luana tinha um compadre morando em João Pessoa, então para não romper os laços de forma abrupta, escrevíamos as cartas, colocávamos em um envelope direcionado para o Don Juan e este envelope dentro de outro que enviávamos para o compadre de João Pessoa. Este abria o dito cujo e despachava a carta finalmente para Porto Alegre. Uma logística capaz de orgulhar as lideres do segmento. 

Esta linda história de amor e paixão durou de seis meses a um ano, deixou como legado um Don Juan mais apanhado e confiante, a certeza que para a sacanagem, seja ela sadia ou não os verdadeiros parceiros são leais e que o amor, esse bandido travestido de herói surge da forma menos esperada e principalmente, nem tudo o que parece é!

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