domingo, 6 de maio de 2018

Tui e Tutucho



Acredito ser de conhecimento geral e irrestrito, a importância dos portugueses na História, uma vez que, foram os primeiros europeus a se lançar no mar durante o período das grandes navegações ocorridas entre os séculos XV e XVI. Porém muito mais que descobrir vastas extensões de terra, dividir o planeta com a Espanha e registrar seus nomes nos anais históricos, os lusos foram prodigiosos em criar ditados. Um entre tantos, afirma que “a quem Deus não deu filhos, o diabo dá sobrinhos”. 

Durante muitos anos esse pensamento acompanhou-me. Um mantra repetido em diversos momentos e que me atormentava. Sim, apesar de minha capacidade intelectual me classificar em uma faixa em que não sou considerado uma sumidade e tão pouco um desprovido de inteligência, não consegui atingir o nirvana e ter a iluminação necessária para compreender o que essa frase tomada de senso familiar e religioso realmente significa. 

Quase toda história que se preza começa com um copo de cerveja ou um “era uma vez”, mas esta é diferente meu rapaz e minha moça. Ela inicia com um nunca. Sério! Nunca considerei de forma séria a idéia da paternidade, e a culpa? A culpa é de meu bom pai. Ele foi tão fantasticamente perfeito em seu sacerdócio paternal, o exemplo a ser seguido que, analisando friamente todos os sacrifícios e abnegações que ele fez para nos criar, percebi que não teria a hombridade de fazer o mesmo. Portanto, em minha lógica disforme, não seria justo oferecer a uma vida indefesa, menos do que recebi. 

Logicamente que este meu posicionamento sempre causou estranheza na maioria das pessoas. Parece que o matrimonio trás como ônus puro e simples a procriação. Em pleno século XXI, o crescei e multiplicai-vos, parecem ser uma obrigação a ser seguida pelos casais. A conseqüência é que durante boa parte dos meus casamentos sempre escutei a leve cobrança – e aí, quando vem o bebê? Confesso que no inicio ainda encontrava alguma paciência para explicar meu ponto de vista, depois de certo tempo passei a bronca de perpetuação no nome da família para meu irmão e por fim, aos insistentes, sugeria que procurassem suas genitoras em zonas não muito recomendáveis da cidade. 

Então há dois anos meu irmão e cunhada resolveram; estava na hora de aumentar a Família. Soube da notícia em uma manhã de um dia qualquer em que não consigo precisar a hora. Seria tio e assim descobriria finalmente se o dito português fazia sentido ou não. 

Porém antes dessa iluminação percorreria os nove meses de gestação e os primeiros sinais começaram a se manifestar. Todos sabem que o mundo está dividido em vários grupos dependendo do parâmetro utilizado para a classificação, para os iniciados dos mistérios Espirituais há explicação para tudo, aos os céticos sobram apenas coincidências. O certo é que a minha ligação com o pequeno é ímpar desde o início. 

Lembro perfeitamente um almoço de domingo na casa de meus pais em que começamos a falar sobre a data prevista de nascimento do pequeno. Meu irmão e cunhada nos informavam, conforme cálculo do médico – o parto deveria ocorrer ao fim da primeira quinzena de Setembro. Nesse momento o invisível se manifestou. 

Escutei – “eles estão errados, será dia 29 de Agosto”. O problema é que sempre fui muito teimoso e genioso, repeti o que tinha escutado, diminuindo em um dia, para coincidir com a data que faleceu o Bispo de Hipona, o maior filósofo da crença católica, mais conhecido como Santo Agostinho. A reação deles, baseada nas informações médicas não poderia ser outra: espanto e até mesmo indignação! Estaria eu desejando que ele nascesse prematuro, sofrendo todas as conseqüências e riscos de saúde pertinentes a situação. Calei-me para não causar mais nenhuma celeuma, porém no fundo eu acreditava, sabia, tinha certeza! 

Os meses foram passando até que despertei no dia 26 de Agosto, com a impressão e lembrança clara que havia me encontrado com o Arthur em um ambiente hospitalar, ele adulto, de costas, cabelos castanhos claros, me dizendo – “estou ansioso demais, não agüento mais esperar por esta volta, que seja de uma vez”. Permaneci deitado, olhar fixo no teto e recebi o questionamento da esposa se não me levantaria para o trabalho. Só consegui responder que ele estava chegando – não passa de sábado, sentenciei. 

O pequeno resolveu mostrar quem estava certo, e na noite de um sábado, dia 29 de Agosto, durante a formatura de um primo, recebi a mensagem esperada, ele havia estreado na vida! A distância entre a Faculdade e o Hospital é de aproximadamente oito quilômetros, que foram percorridos, apesar das paradas em sinaleiras em apenas sete minutos. Pela primeira vez vi o medo nos olhos de minha esposa enquanto dirigia, transformei o auto alemão em um bólido italiano de fórmula um. Recordei de uma declaração de Senna e fui tomado de sensação ímpar, olhava a rua e ela me parecia larga, as ultrapassagens ocorriam com precisão cirúrgica, nunca a direção, transmissão, acelerador e freios trabalharam em tamanha harmonia. Parecia que éramos um só, homem e máquina. 

Chegamos ao Hospital no momento em que o ele começava a ser preparado para ir ao quarto. Presenciei uma das primeiras agressões que o mundo lhe proporcionou, duas vacinas em suas pequeninas pernas e um choro de quem é apresentado a um ambiente diferente, fora da segurança da placenta e do líquido que o envolvia. Foi uma noite intensa e no domingo pela manhã voltei ao Hospital, casualmente fazia vinte dias que o Grêmio, dentro da Arena sapecou um sonoro 5 x 0 no adversário e em nossa primeira foto, eu vestindo o terceiro uniforme tricolor daquele ano e ele espalmou a mão espalmada mostrando os cinco dedinhos. Coincidência? Ah essas coincidências! 

E assim com o passar dos meses, fomos percebendo que a genética é realmente fantástica, reconheci nele um pouco de mim, a mania de andar com as mãos para trás, do mesmo jeito que meu avô, pai, irmão e eu, as caras e bocas que faz, a teimosia e a independência cedo demonstrada, culpa dos 25% dos genes que compartilhamos e a certeza que de alguma maneira esta carga genética se perpetuará. 

Por volta de março deste santo ano de 2017 da graça e glória de Odim, recebi mais uma alcunha para a minha extensa lista. Ele me viu chegar ao prédio e veio correndo dizendo “Tutucho”. Foi um dos momentos mais intensos, porque até aquele momento, logicamente era reconhecido como alguém próximo, mas ali, naquele momento eu fui batizado, é como se tivesse renascido em um plano diferente, com um nome que eu não poderia renegar e nem deixar de ter orgulho, eu era um dos seus primeiros humanos a ter nome próprio! Sei que cedo ou tarde passarei a ser o titio, depois tio e quiçá o “véio Anderson”, mas o “Tutucho” será para sempre! 

É muito legal a troca que existe, porque com o “Tui” aprendi que o seu Lobato tem uma fazenda e que nela vivem vários animais; que a Barata diz que tem sete saias de filó, o que é uma mentira, pois ela tem uma só; que o motorista tem que ter atenção porque o poste não é de borracha; reaprendi como é bom “passear” com um cachorro de brinquedo; que a gente pode falar a linguagem do amor e do coração sem parecer bobo; que brincar de bi-bi é legal paca, que é fantástico comer pizza integral ou de mussarela; que vem te ajudar a levantar do chão com uma inocência cativante e principalmente, que existe alguém que confia em ti porque simplesmente confia! Ele me ensina que nos olhos de cada criança reside a esperança de mudar a realidade que nos cerca e consequentemente o nosso interior. 

Ah, sim! Ainda não compreendi o ditado luso, mas se o diabo nos dá sobrinhos, no fundo, bem lá no fundo, ao contrário que o catecismo prega, que camaradinha legal ele é!


Escrito originalmente em Julho de 2017 e publicado em Abril de 2018 na Coletânea de Crônicas Dezmiolados - Volume 2 - Publicação da Farol 3 Editores.


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