quarta-feira, 9 de maio de 2018

O Gemidão do Whatsapp e a Gringa

Existem aqueles que desconhecem o poder que um vídeo recebido antes do meio dia pode proporcionar para a veia criativa de um escritor. Principalmente quando ele possui uma estória que se relaciona com o vídeo, acompanhado é claro de uma poluição mental digna de roteiristas de quinta categoria. Pois bem, a manhã intercalava momentos de agitação com calmaria e eis que o celular dá sinal. Recebia naquele momento, enviado por um primo e amigo insuspeito um vídeo parodiando uma situação tensa de assalto. 

O atendente da loja de conveniência tenta o subterfúgio de deslizar sua mão sob o tampo da mesa para poder acionar o alarme antifurto. O meliante rápido e espero manda que ele erga novamente as mãos. A única saída de nosso herói é receber o estímulo visual de uma bela mulher, também feita de refém, para acionar o alarme de furto. Ela percebe e começa a flertar e enviar vários sinais que proporcionam que o alarme seja acionado. Pasmem amiguinhos a sacada do vídeo não é essa. O peculiar detalhe é que o áudio é baixo, obrigando o incauto observador a elevar o volume do smartphone para acompanhar a resenha que se desenvolve e aí, nesse exato momento é que a ingenuidade do espectador é testada. O que se houve ao final é o gemidão do whatsapp. 

Vamos abrir um parêntese para explicar aos não iniciados ou para aqueles que lerem esta crônica daqui dez, trinta, cem anos, o que vem a ser gemidão do Whatsapp. O melhor é ir por partes como diria um canibal faminto. Primeiro o Whatsapp é um aplicativo de troca de mensagens instantâneas. É bisneto do ICQ, neto do Aol e filho do MSN. Nestes nossos anos, é largamente utilizado para troca de mensagens escritas, além de gifs de gosto duvidoso, vídeos sem sentido e áudios longos, trocados entre contatos e em grupos de família que se desejam bom dia todas as manhãs. O gemidão nada mais é que exatamente isso, um gemido espalhafatoso que simula o atingimento do clímax sexual por parte de uma representante do belo sexo de Vênus. Creia, se você que viveu no início do século XXI ainda não o recebeu, é questão de dias até ter esta honraria. Ah e não pense que ele surge apenas em vídeos de apelo sexual, não! Até em mensagens sacras ele já veio escondido. 

Ok, todos devidamente apresentados e reconhecidos, passamos para o próximo pedaço, quer dizer, próximo fato. Afirmei no inicio que possuo entre infinitas qualidades a minha poluição mental. Aquele grito intenso do vídeo me lembrou um fato que aconteceu na minha juventude perdida, porém cheia de responsabilidades. Era feriado de carnaval e a família foi viajar. Porém estava escalado para ficar de plantão no trabalho e obviamente meus festejos de Momo foram na capital. Não que isso tivesse sido um castigo, muito pelo contrário. Sempre fui avesso a esta festa pagã e preferia ficar no sossego da capital, uma vez que todos se dirigiam para o litoral. 

Então no auge de meus vinte anos, solitário em casa e com a mente ociosa resolvi convidar uma vizinha para jantar em minha humilde residência. Conversa vem, conversa vai, conversa retorna e chega com os dois pés no peito não poderia ser diferente. Jovens com hormônios em ebulição, inspirados na atmosfera carnavalesca, se entregaram aos prazeres mundanos da carne. Nessa idade, o elemento pode ter quebrado uma pedreira que possui fôlego de sobra para encarar uma maratona de quatro horas de peripécias sexuais. E juro pelos deuses do Olimpo que foi exatamente isso que aconteceu. Quatro horas de uma maratona de sexo, luxúria e devassidão. 

Porém, e sempre há um porém, o capeta se esconde nos detalhes. Noite de Fevereiro, verão, um calor nababesco, as janelas ficaram abertas. E quem em são consciência se importa com janelas abertas em um terceiro andar quando suas atenções estão voltadas para quem esta sobre sua cama? Ninguém! A moça era descendente de italianos e dona de um tom de voz suave, capaz de acordar um cemitério com seu entusiasmado bom dia. Imagine então as notas que ela foi capaz de atingir quando começou a narrar tudo o que desejava, usando palavras que poderiam corar a mais luxuriosa dama que troca favores sexuais por dinheiro. Foi uma gritaria digna de filme da boca de lixo paulistana e eu ali, seguindo as ordens da diretora de cena. Uma beleza! 

Terminado o embate, ela diz que precisa dormir em casa para que os pais não desconfiem de nada. Até hoje não entendo direito sobre o que eles poderiam desconfiar. Eram duas da manhã e ela não repousava seu invólucro carnal na caminha de sua residência. Talvez ela tivesse comentado que ia para um culto religioso que terminaria com a benção do Pastor sete léguas ou tenha explicado que faria distribuição de sopa para os desvalidos nos cafundós do Judas, enfim, tudo, menos que manteve intercurso carnal com o vizinho, já que, pelos gritos até o pessoal da praia deve ter escutado. 

Vida que segue. Acordei na manhã seguinte e mantive a rotina diária; café, barba, banho e serviço. Passei o dia fora ganhando o suado dinheiro para manter meu vício da época: ir ao Olímpico ver o Tricolor jogar. Quando cheguei a noite, a vizinha do térreo, uma senhorinha muito simpática e que prestava a atenção em tudo que acontecia no prédio me chamou para conversar na janela. Perguntou como estavam os meus pais e outro monte de perguntas sem sentido e perigo, até que a indagação fatídica surgiu. 

“Meu filho, tu não escutou uma gritaria essa madrugada? Era uma hora da manhã e eu só ouvia os gritos de uma mulher discutindo. Foi um horror! Pior que ninguém soube identificar de onde era”. 

Sabíamos a verdade. Ela me fitava com ansiedade, aguardando um piscar de olhos mais arisco, uma gota extra de suor escorrendo pela testa, um gaguejar suave nas palavras. Para infelicidade dela sempre tive o pensamento rápido e sob pressão me torno um bloco de gelo. Respondi apenas a verdade. 

“A senhora sabe que eu tenho chegado em casa tarde e sozinho e como dono do castelo, o rei usurpador do trono, tenho aproveitado o tempo que me é disponível para assistir filmes e como aprecio escutar todos os sons com intensidade uso fone para não atrapalhar ninguém. Não ouvi absolutamente nada, mas se o tivesse feito, teria ido atrás destes animais que não sabem viver em comunidade. Onde se viu, uma da madrugada ficar batendo boca, por favor!” 

Ela concordou em um misto de decepção e inconformismo, sei que esperava alguma confissão ou indiscrição. A conversa se desenrolou por mais alguns minutos, nos despedimos e o assunto morreu ali. Fico imaginando o que essa senhorinha faria ou pensaria se recebesse hoje esses gemidos no recôndito de seu lar. Depois daquela noite, a gritona nunca mais despi em casa e às vezes penso se ela não foi a inspiração para este moderno sinal de aprovação sexual e que o gemidão do whatsapp é apenas um sussurrar se comparado a goela daquela gringa.

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