segunda-feira, 16 de maio de 2011

O e-mail de Henry

Havia apenas uma coisa que irritava Henry mais do andar no trem. Era fazê-lo em dias chuvosos. A impressão era de que todas as pessoas sofriam uma metamorfose absurda, tornavam-se irritadiças, se acotovelavam em demasia e principalmente, secavam seus guarda-chuvas e sombrinhas nas calças e barras dos grossos casacos de inverno. Nestes instantes tinha a certeza de que Paris já fora mais civilizada, as pessoas um pouco mais tolerantes e observadoras. Pesquisar os canais de clima e descobrir que a manhã lhe reservava uma torrente de chuva o desanimava. Procurava sair com mais tempo de casa, esperava de forma monástica o trem com menor lotação e embarcava em sua viagem de seis estações.

Em uma destas manhãs em que avizinhava o inicio de seu tormento, Henry observou pela janela de seu apartamento o movimento das ruas, os carros que já avolumavam as ruas calçadas com pedra, a chuva caindo sobre as pessoas apressadas e isso o lembrou de Monique. Suspirou profundo, olhou para a caneca e desejava ter certeza se ela estava meio cheia ou meio vazia, detalhe que não mudaria nada do que sentia naquele momento.

Teve vontade de sentar frente ao seu HP, abrir seu email e digitar. Controlou-se o máximo que pode, mas o desejo foi maior, a força que impulsionava seus dedos e mente o venceram.

“Escrevo-te por plena e total impossibilidade de estar frente a frente e olhar dentro de teus olhos azuis que me fitaram de diversas formais, em locais indizíveis e dias incontáveis. A vida tem sido diferente, não é o que esperava. Culpo nossas vontades birrentas que nunca encontravam guarida no outro, com os desígnios que a vida nos sugere e que a rotina impõe. Esta não é mais uma carta de amor, e tão pouco tem a pretensão de ser, talvez soe mais como um bilhete, um recado, uma notícia ou comunicado, daqueles que são ditos algumas vezes. Quando fostes embora, levastes uma considerável parte minha hoje sinto um enorme vazio, uma perda de sentido, nunca pensei que seria capaz de te afirmar isso, mas me faz falta!”

Henry olhou impassível para a tela, sabia o que fazer. Respirou fundo outra vez, e mais uma e outra vez. O peso havia sido retirado de seus ombros, apertou back space e as letras uma após outra foram sendo apagadas. Estava chovendo e ele não queria se atrasar!

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