Atualmente artigo raro de ser encontrado é a educação. O chamado traquejo social, a utilização e o emprego correto de substantivos, verbos e principalmente de pronomes de tratamento ensinados em um passado remoto, dependendo da idade do ser em questão. Inegavelmente, Rosário Macieira era um destes exemplares raros, utilizava-os com uma maestria e desenvoltura que causavam admiração profunda, um impacto de crescente espanto ainda mais quando se tomava conhecimento de sua tenra idade. Fazia pouco tempo que jurara à Bandeira e ganhara o mundo com ânsia poucas vezes vista, mas sem esquecer principalmente dos famigerados pronomes de tratamento aprendidos na terceira série primária!
Lenda ou não, alguns afirmavam ter feito uma estatística e a cada cinco palavras de Rosário Macieira, duas eram um Senhor, Senhora, Seu, Senhorita, Dona Sinhô, Sinhá. Os desavisados teriam certeza de tratar-se de um lorde escocês em terras tupiniquins, sobre isto não havia dúvidas. Incapaz de proferir uma palavra de baixo calão sem corar, lavava a boca com sabão e se penitenciava quando isto ocorria. Gritava aos quatro cantos que aquela não era a sua educação, que aprendera a respeitar os outros e pedia milhões de desculpas.
Tudo se encaminhava na mais pura normalidade dos fatos; envolto por monitores, teclados, hd's e demais periféricos, Rosário não percebeu quando aquela morena fantástica parou em frente a seu balcão.
_ Oi - disse com voz lânguida - vou trabalhar na loja ao lado e queria me apresentar, sabe como é, política da boa vizinhança!
Rosário olhou por sobre seus óculos. Não podia acreditar no que via seus olhos o estavam traindo. Uma morena de 1,70 cm farto colo, lábios carnudos, semblante bonito e expressivo, dona de cintura fina e um largo quadril, era uma pintura! E estava ali, parada em sua frente, precisava ser rápido e inteligente, não podia fazer feio e balbuciou:
_ Ah... Rosário Macieira, seu eterno criado... Dona?
Dona? Ele falou Dona? Ela não acreditava naquilo! Ela devia ser no máximo cinco anos mais velha do que aquele rapaz e ele tinha o disparate de lhe chamar de Dona, com misto de surpresa e admiração completou a frase.
_ Tatiana
_ Dona Tatiana. Bem vinda!
_ Só Tatiana, por favor,
_ Ah, perdão Dona Tatiana, mas fui educado assim.
_ Tudo bem, mas é Tatiana.
_ Certo Dona Tatiana.
Sabendo que a conversa não iria desenrolar-se sem que perdesse a compostura, ela se despediu e se quedou a fumar frente à loja de Rosário. Ele já havia esquecido do computador e a observava da cabeça aos pés e dos pés à cabeça. Aquela tarde mudaria profundamente sua vida. Desde então, toda manhã, antes de abrir a loja ele passava em frente da vitrine do trabalho de Tatiana, batia no vidro, acenava e dizia a pleno pulmões:
_ Bom dia Dona Tatiana!
Ela respondia com um meio sorriso e isso o deixava louco! Começou a imaginar se ela aceitaria sair para assistir alguma película, comer um "dogão” e quem sabe esticar a noite em sua casa. Planejara mentalmente todo o encontro, a levaria para seu quarto emoldurado por pôsteres de rock e filmes de animação e pediria com a súplica própria de quem deseja um prato de comida:
_ Dona Tatiana, posso tirar-lhe o sapato?
_ Sim.
_ Dona Tatiana, permita-me abrir-lhe a blusa?
_ Sim. Sim.
_ Dona Tatiana, seria atrevimento retirar-lhe a saia?
_ Não. Não. Não. Anda logo com isso!
Tomou coragem. Levantou da cadeira estofada e adentrou a loja da vizinha. A tensão estava no ar! O momento do sim ou não! Estufou o peito e rapidamente despejou:
_Dona Tatiana, muito refleti e ansiosamente esperei pelo momento mais oportuno e não posso mais furtar-me de lhe convidar para um alegre encontro, se possível nesta semana.
_ Que meigo que fofo! Um amor, mas eu não posso aceitar querido. Sou tão imperfeita, arroto, encho a cara de bebida, falo alto, gargalho até chorar que iria ficar longe de suprir tuas expectativas, mas saiba que se não fosse por isso gracinha, quem sabe, né?
Rosário baixou a cabeça. Havia sido derrotado, esmagado em suas mais profundas ansiedades e só havia uma pessoa a culpar, olhou o horizonte e com uma raiva poucas vezes vista pensou:
_ Maldita Professora Mariquita!
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