Neste constante flertar no mundo das palavras, andei de mãos entrelaçadas com os mais diversos sentimentos, da desilusão ao sonho, do desamor ao amor e tantas vezes falei de paixão e das coisas da alma, mas percebi o quão relapso fui por ter deixado de tecer loas ao mais puro Estado de Espírito. Poderia então começar a falar da minha relação com o futebol e obviamente com o Grêmio, mas falar dela, sem citar uma pessoa, seria o mesmo que escrever uma tese de doutorado sem possuir conhecimento do tema.
Nasci no final de 1976, às portas do novo ano. A torcida gremista vivia um período de tristeza e insucessos que parecia não ter fim, o segundo Rolo Compressor colorado havia esmagado a auto-estima Tricolor e aplicara sem nenhuma resistência uma série de conquistas Estaduais até hoje não alcançada, um octacampeonato além de dois Campeonatos Nacionais. Era sofrimento demais para os corações gremistas. O Presidente do Grêmio na época decretou que chegara o momento do troco e montou uma equipe fantástica, com jogadores como Cassia, Oberdã, Yura, Tarcisio, Éder, André Catimba sob o comando de Telê Santana. Aquele 1977 prometia, esta era a esperança de cada gremista espalhado pelo Estado, era nisso que acreditavam até o momento que na final do Campeonato Estadual, Tarcisio perdeu um pênalti contra os vermelhos. Um filme de sofrimento ressurgiu na mente de cada gremista, um sofrimento que perdurou até o gol de pé trocado de André Catimba e sua antológica tentativa de dar um salto mortal que resultou em uma queda mais espetacular, ricamente registrada em fotos e textos da época. O final todos conhecem, quebra da hegemonia vermelha no Estado.
Ao organizar as lembranças de infância encontrei uma foto em que estava no colo de meu “avô”, deveria ter pouco mais de seis meses de vida e já estava vestindo um manto do Grêmio; uma camisa branca com detalhes azuis nas mangas e na gola. Consegue-se perceber um indisfarçável sorriso de contentamento daquele velhinho com seu neto no colo. Em verdade, ele era meu tio, mas a forma com que me tratava não era esta, era exatamente da forma que um avô se relaciona com seu neto, e apesar de não o ter sido de sangue ele o foi de coração. Bento Peixoto Castilhos este é o personagem a quem rendo homenagem! Ele foi casado com tia Jalva, irmã mais velha de minha mãe por incontáveis anos, em uma época em que as palavras proferidas pelos padres eram levadas ao pé da letra: “até que a morte os separe”.
Vô Bento era um gremista da melhor estirpe. Recordo de chegar várias vezes em sua casa e encontrá-lo, quando não estava jogando canastra, com o ouvido colado no radinho de pilha, sentado próximo a janela da sala escutando o jogo do Grêmio. Essa ligação com o Grêmio vinha de longa data, tanto tempo que descobri uma foto já amarelada em que ele estava todo realizado no que creio era a inauguração do Olímpico em um dos registros mais importantes e antigos desta relação. Talvez por isto, que, pai de três filhas influenciou duas a seguirem a mesma paixão. Maria das Graças minha madrinha de batismo e Maria de Lourdes minha madrinha de casamento, a ovelha vermelha foi Maria do Carmo, o que se pode fazer neste caso, é compreender e não descriminar uma pessoa neste estado.
A influência de Vô Bento e de Gracinha foram enormes, caso contrário como explicar que o primogênito de um casal de colorados fosse gremista? Resultado dos anos que se seguiram ao meu nascimento, em que o Grêmio conquistou aos poucos a hegemonia no Estado, alçou vôos mais longos no país, continente e repousou em Tóquio pintando o mundo de azul. Vacinados, meus pais fizeram um trabalho mais intenso de convencimento com meu irmão que debandou para o lado deles.
Fui conduzido pela primeira vez ao Olímpico pelas mãos de minha madrinha, que na época fazia parte de uma das mais apaixonadas torcidas organizadas, a Super Raça Gremista. O jogo acabou empatado em um gol e o adversário foi o Juventude de Caxias do Sul, isto lá pelo distante ano de 1985. Experiência única para um piá de pouco mais de oito anos, mas era inegável que a partir daquele momento estava cada vez mais sacramentado o destino traçado! São tantas lembranças que causam uma nostalgia regada de orgulho!
Hoje passados quase 35 anos da foto com Vô Bento, tenho uma coleção de quase 50 camisas do Grêmio, destas, duas tem especial significado; a de 1989 que ganhei de meus pais e que porta autógrafo do imortal Mazaropi e a que usava naquela tarde de 1977.
Infelizmente Vô Bento nos deixou um enorme vazio quando resolveu partir numa madrugada quente do ano de 1994. Creio que desejava ver os jogos do Tricolor num outro plano, onde seria possível rever antigos craques da bola, colegas de jornada, mas antes de mais nada, ele partiu sabendo que a semente da paixão Tricolor havia florescido na alma de seu neto mais velho!
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