terça-feira, 29 de março de 2011

Escreva cartas ridículas

Hoje não estou me importando com nada, mesmo com as primeiras noites de outono solapando minha paz, portanto irei furtar as emoções de outrem, para fazer de palavras tão bem elaboradas as minhas.

O Poeta luso, que nada possuía de bobo, Fernando Pessoa já disse que ”toda carta de amor é ridícula e não seriam cartas de amor se não fossem ridículas. Também escrevi em meu tempo cartas de amor – prossegue – como as outras, ridículas. As cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas. Mas, afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas... A verdade é que hoje as minhas memórias dessas cartas de amor é que são ridículas”.

Tantas manhãs, tardes e noites em que fui ridículo! Entreguei meu coração para moradia independente do tempo que pretendiam nele residir. Fui ridículo na medida certa, nem mais e nem menos. Apenas o fui, sem temores, sem porquês. Em mim sempre residiu esse tenebroso vírus chamado paixão, que desencadeia uma doença sem cura, devastadora chamada Amor. Nunca fiz questão de buscar tratamento que aliviasse os sintomas, melhor viver a intensidade de uma tempestade do que a mesmice de uma garoa incessante! Certo que não tive todas as mulheres que amei, mas todas que me amaram verdadeiramente, estas me tiveram, me desvendaram e traduziram, souberam lapidar e tirar o que havia de melhor.

Assim, igual a Vinicius de Moraes – “eu amei, eu amei, ai de mim, muito mais do que devia amar, e chorei ao sentir que iria sofrer e me desesperar. Foi então que da minha infinita tristeza, aconteceu você. Encontrei em você a razão de viver, e de amar em paz e não sofrer mais, nunca mais, porque o amor é a coisa mais triste quando se desfaz”.

Em uma noite de outono semelhante a esta, em que arrumava a moradia há pouco tempo abandonada, ela apareceu e tal acontecera com Vinicius, encontrei novamente o caminho a ser trilhado e jurei não esquecer um instante sequer o sorriso das onze horas noturnas, e decidi, depois de tanto refletir, voltar a ser ridículo. Declarar sem medo de interpretações o amor que nascia! E percebi, mesmo a contragosto que apesar de infectado há tanto tempo, por espécies diferentes de vírus, nada entendia daquele amor que se apresentava.

Foi assim, que nas andanças solitárias nas ruas desta Capital, tentando encontrar em meu intimo algo que esclarecesse, escutei uma canção capaz de ampliar minha percepção. A melodia acompanhada daqueles acordes dizia “essa não é mais uma carta de amor, são pensamentos soltos, traduzidos em palavras, pra que você possa entender, o que eu também não entendo. Amar não é ter que ter sempre certeza, é aceitar que ninguém é perfeito pra ninguém, é poder ser você mesmo e não precisar fingir, é tentar esquecer e não conseguir fugir... sei que nunca fui perfeito, mas por você eu posso ser até eu mesmo que você vai entender... se isso não é amor, o que mais pode ser, to aprendendo também”.

Meu íntimo já sabia a resposta, era necessário saltar sem pára-quedas. Arejar minha moradia, buscar a pena e as folhas, voltar a escrever ridículas cartas de amor, ligar ao amanhecer, receber ligações na madrugada, beijar e sonhar, amar e acordar e naquele momento, naquela exata fração de segundo lembrei Jobim & Moraes

“Eu sei que vou te amar, por toda a minha vida eu vou te amar, a cada despedida eu vou te amar, desesperadamente eu sei que vou te amar e cada verso meu será pra te dizer, que eu sei que vou te amar por toda a minha vida. Eu sei que vou chorar, a cada ausência tua eu vou chorar, mas cada volta tua há de apagar o que essa tua ausência me causou. Eu sei que vou sofrer a eterna desventura de viver à espera de viver ao lado teu por toda a minha vida”.

Assim é o amor, uma doce doença sem fim, da qual, infectado por ti, não busco e nem cogito me livrar.

Meu Inesquecível Luar, Eu Necessito Amar-te

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