sábado, 26 de maio de 2018

"Desejei escrever o mais belo poema,
usando teu corpo de inspiração,
e minhas mãos como tinta finita".

Descobertas II

Encontrei no fundo da gaveta de minhas recordações, um recorte mental em que emoldurava assim, como quem nada deseja, o teu olhar.

Um semblante que nada prometia, porém tudo dizia ou afirmava conhecer, estabelecendo uma ligação tão forte que o tempo e a distância não puderam estremecer.

GPS

Quero viajar usando teu corpo de mapa,
sem pressa alguma em terminar,
aproveitando cada instante,
igual ao sopro da vida,
que inunda e perimite
essa mudança constante de rumo!

Réu Confesso

Confesso sim, irmãos de desventura,
Sou réu confesso, não fugirei dessa sina,
vim para este mundo colorido,
trazendo em meu peito, o rubro da paixão,
que não se furta do ensejo de amar,
com chama quente e forte
uma mulher por ano.
Diferente do que dizem,
o coração não é vagabundo,
somente guarda um espaço enorme
para cada bem querer!

Escrever

Peguei a caneta por insistência do pensamento. Nele já estava estruturados textos divididos em centenas de grupos, cada qual com sua dezena de parágrafos, centenas de frases e milhares de palavras.

Tudo acontecendo conforme o script elaborado por um estagiário afoito e dispersivo que não se atenta aos detalhes importantes e essenciais para que seja criada uma boa estória.

Idéias a profusão e a lentidão tomando conta da mão já cansada de empunhar a pena por tantos anos, porém sem exitar na tarefa eterna de conduzir o curioso de um canto para o outro do mundo.

Um Piano

O sol iluminava a sala sóbria da casa de meus avós. Naqueles metros quadrados não foram poucas as vezes que nos encontramos para escutar as teclas do piano serem dedilhadas por Cecília.

Dona de seus encantos e de pele bronzeada na exata medida entre a santidade e a luxúria, movia os dedos com maestria infinita, permitindo nascer em cada ser, a reação pertinente aos estados de espírito.

Invariavelmente fechava meus olhos enquanto balançava o cálice com Malbec e imaginava Fernanda, com seus cabelos negros e desalinhados, dançando com a jovialidade de quem apenas se preocupa com a marcação da música, acompanhada de olhar faminto de vida que trás em seu rosto.

Sinais II


Quero tirar cada peça de tua roupa,
Como se estivesse descobrindo
Um tesouro há muito desejado,
Devagar, sem pressa alguma,
Não quero que termine,
A sensação de tocar,
Tua pele macia, sardenta e lisa,
Do arrepio percorrendo a espinha
E o cor que sobe pelas pernas,
Testemunhar as pupilas dilatadas,
O surgimento da água na boca,
Enquanto recebo a maciez dos lábios
Perdendo a velocidade própria,
De uma língua arredia,
Que se nega a confessar
Aquilo que o corpo grita!

Não me busque

"Dentro da primeira gaveta,
guardada na agenda velha,
existe uma foto minha.
Não a busque por qualquer motivo tolo,
Nem a profane por vil capricho,
somente o faça
se sentir saudade,
Não qualquer uma,
Mas aquela de apertar o peito.
Lembre que quando estava disponível,
vigilante cão de guarda,
de mim se apartava.
A presença à mão,
a idolatria tola
me fez invisível aos olhos teus,
mesmo por apenas um minuto,
talvez dezenas de segundos,
um bom dia,
um como vai você,
talvez até mesmo
um não me perturbe.
E no firmamento, as estrelas brilham
e eu não estou mais aí,
Agora é tarde para mentir,
tocar uma guitarra
ou sorrir das piadas sem graça.
Tarde demais
para dizer mais do mesmo,
está bem assim,
Uma caneca de café, biscoitos sobre a mesa
E Phill Collins na vitrola".

Morena

Tenho pensado,
Existe em meu mundo
Uma morena a quem adoro,
Ela sabe um tanto de mim,
Eu um pouco dela,
Assim passo os dias,
Imaginando, criando, fantasiando e adorando,
Tudo isso em gerúndio infinito.
Imagino dizer coisas belas,
E se não forem belas, que sejam ao menos sensatas.
Criando poemas simples,
Sem rima e métrica,
Expondo aquilo que
A coragem e o bom senso negam.
Fantasiando a forma com o ela dorme,
escova os cabelos e dentes,
Passa o batom, esmalte nas unhas
E o perfume solto no ar,
Por fim, adoro o fato,
Inegável e profundo
De lhe adorar!
Ela me trás alegria,
Esperança de ser ainda melhor,
Mesmo com esse aperto no peito,
O temor de seu sumiço,
A ausência imposta.
Ela me diz - bobo e sorri!
Um sorriso enigmático,
Lindo e sutil tal o de Monalisa.

Indicações

Uma indicação de nome sonoro assim, pode ser aprazível aos sensíveis ouvidos, tão acostumados a escutar e não a ouvir. 

Porém, se engana aquele desavisado que julga conhecer um livro somente por uma capa ou uma pessoa por um olhar. 

Descobrir alguém é um ato que requer calma e paciência, é uma arte infinitamente mais clássica e nobre do que simplesmente tirar as vestes de algodão e apreciar um corpo nu atirado numa cama. 

Desnudar a alma começa pelos olhos e da forma como você a encara e percebe sua presença onde esteja. Sou adepto a buscar esses sinais que ficam escancarados em frases e movimentos e que alguns consideram meros detalhes. 

Ah esses tolos jovens que pensam que as mulheres ainda se sujeitam as suas vontades e caprichos. Tenho pena desses rapazes e da estrada que devem percorrer. Porém que cada um tenha a sua sorte. 

Ser escolhido por uma mulher destas é uma dádiva, o convite para viver no paraíso a cada amanhecer, ser beijado por aquela boca é um banquete de amor e a certeza que nos pequenos frascos sempre se encontram as melhores essências e que esta me faz um bem sem comparação!

O Ninho de Alícia

"Deitado  escuto a sinfonia das cigarras
e o ruído enlouquecedor dos mosquitos, 
deixo a imaginação correr solta.
Igual puro sangue indomável, 
imagino como ela dorme. 
O fará deitada para o lado direito do corpo? 
Colocará suas mãos sob o travesseiro 
ou as deixará guardadas sob o lençol?
Que traje escolhe para seu repousar, 
blusa de alça fina que valoriza seus seios 
e uma calcinha de algodão 
ou simplesmente deixa seu corpo nu 
sentir o frescor da coberta fina?
Ficará a ponta de seu pé para fora da cama, 
como se estivesse aguardando 
uma massagem furtiva 
ou tentando baixar a temperatura do corpo?
Cabelos presos ou soltos? 
Se revira muito enquanto viaja no mundo dos sonhos
ou permanece imóvel tal Vênus de Milo?
Fantasias, ilusões que seguem a rondar, 
enquanto a sinfonia dos animais alados 
se intensifica ao meu lado".

O Sonho

Marcamos de nos encontrar naquele café que nunca frequentamos, na rua calma e serena desconhecida, mas que sabíamos como chegar.

Você ligou, disse que já estava lá, sentada no mesmo lugar em que havia pego em sua mão. O ambiente continuava o mesmo, nada mudara, os mesmos seis atendentes para as trinta mesas.

Cheguei e nada de ti. Pedi o chocolate frio e um pedaço de pizza de pão. Enquanto aprontavam, circulei pelo salão. Algumas mesas ocupadas por famílias de crianças ruidosas, outras tinham senhorinhas tomando o chá de camomila ou menta.

Vejo uma porta ao fundo do café. Estilo clássica, de um marrom vivo, a maçaneta prateada recebe o abraço de minha mão. Abro e se descortina um infinito de corredores e livros.

Estupefado, não percebo que você chega. Trás o sorriso lindo de sempre no rosto e com um toque de timidez fala - então, estou aqui, eu te disse que... Não deixo a frase acabar.

Rápido, aproveitando o sonho misturado com a realidade, te junto ao meu corpo, mão direita encaixa em tua nuca, os fios de cabelo pretos escapam por entre os dedos e te beijo.

Aquele beijo esperado, desejado que só em sonhos acontece. Uma oposição de sensações, leve e intenso, vagaroso mas rápido, interminável porém finito.

Digo para sairmos dali. Quero apenas olhar para teu rosto sem nenhum tipo de distração. Pergunta sobre nosso pedido no café que a esta hora já deve estar pronto. Que o preparem para viagem.

Proponho que façamos uma pequena viagem até a Serra. Existe aquele parque das flores prateadas que só florescem quando por elas as pessoas passam. É lindo! Procuro tua mão e ela está fria, diz que é normal ao sentir nervosismo.

Vamos para o carro e alarme desperta. Acordo indesejadamente com vontade de voltar aos domínios de Morfeu onde te deixei escutando Bee Gees no momento exato que iria confirmar. O que? Eu não sei!

sexta-feira, 25 de maio de 2018

A Grande Parada

Tenho acompanhado as manifestações pró e contra a greve encabeçada pela categoria que realmente consegue parar o Pais. Nesta minha limitada capacidade de reflexão, percebo que estamos reféns de uma acirrada disputa de forças.

No canto direito do ringue, de calção marrom está um governo sem apoio popular, do lado esquerdo de calção verde  com detalhes em amarelo, a categoria dos caminhoneiros. Independente de quem ganhe, existe realmente, apenas um grupo de perdedores. Você, a sua tia, vizinho, cliente, fornecedor e eu.

Sim, enquanto eles se estapeiam, todos os bens e produtos transportados pelos possantes ficam guardadinhos na beira das estradas, nos portos e transportadoras, acarretando atraso e perda dos perecíveis.

Essa greve escancara fatos que de tão óbvios, parecem mentira. Primeiro, todo o trabalhador merece e necessita receber o suficiente para seu sustento e bem estar. Dizer que a crise dos combustíveis surgiu ontem nessa terra Brazilis, é brincar com a pouca inteligência do brasileiro médio. Claro que nenhuma desgraça vem sozinha, junto ao cenário interno, há essa crise no mercado internacional. Capisce? É bingo!

A diferença da manifestação dos caminhoneiros para a bateção de panelas ou caminhadas empunhando bandeiras rubras, é que eles realmente possuem o poder de mudar um quadro econômico desfavorável, independente de puxar a régua para cima ou para baixo.

Acredito que os Pedros Primeiro e Segundo jamais imaginaram que confusão aconteceria nesse País continental quando em seus reinados sufocaram com mãos de ferro as revoltas republicanas, criando esse elefante branco, que em sacanagem tudo dá!

Porém o verdadeiro prêmio deve ser concedido a todos os governos federais antes deste que nunca incentivaram o transporte hidroviário e férreo. Depender de um único modal logístico para transportar os produtos e riquezas de um País igual ao nosso, é assinar um atestado.

Administradores e Economistas aprendem uma lei bem bacana na Graduação. Ela se chama lei da demanda e da oferta. A lógica é que, quanto maior a procura, maior é o preço. Entendeu amiguinho? Com as cargas paradas, haverá desabastecimento, falta de produtos e isso afetará o valor da mercadoria. Elevando-o, surge aquele velho dragãozinho da inflação e o povo que hoje apoia, amanhã pode vaiar, enfim... 

O importante é que em menos de vinte dias, estaremos todos com o Tite, não confunda com otite, aquela inflamação no ouvido. Teremos Copa do Mundo e o povo nem lembrará desses dias tensos ou vai...

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Cair da Noite

"A noite cai,
E com seu pincel,
Pinta de negro o céu
Outrora azul.
É chegado o momento,
Nos ponteiros do relógio,
A senha da despedida,
E te deixo escrito
Num pedaço de papel,
Aquele beijo sonhado,
Já que não o é lícito,
Não realizo o desejo,
De percorrer teu corpo,
Beijando do pé a testa,
No último tango da noite".

Andar Perdido

Agora estou andando entre os corredores da livraria,
tentando encontrar inspiração para escrever algo inteligente
que desperte em ti, cedo ou tarde, o interesse de saber um pouco mais
do que pensei, de como foi o dia, das coisas que planejo para o futuro,
se chove ou faz frio, apenas somos jovens, ainda o somos
e esta dor no peito irá passar, ah ela vai passar!!!!

Constatações

"Queria te escrever coisas belas,
Mas escutei a boca pequena,
Entre os corredores do mercado,
O desejo das mulheres de agora
É encontrar um homem com pegada,
Aquele bruto que a trata como objeto,
Que lhe impõe beijo lascivo e poucas palavras.
Talvez eu ande destreinado,
Pois quando a vejo em minha frente,
As palavras corretas somem,
Trava-se a língua e o cérebro,
Instaurando em mim a necessidade de concentração,
Tentar falar algo inteligente e sutil,
Se assim não procedesse,
Em instantes buscaria seus lábios".

O Gemidão do Whatsapp e a Gringa

Existem aqueles que desconhecem o poder que um vídeo recebido antes do meio dia pode proporcionar para a veia criativa de um escritor. Principalmente quando ele possui uma estória que se relaciona com o vídeo, acompanhado é claro de uma poluição mental digna de roteiristas de quinta categoria. Pois bem, a manhã intercalava momentos de agitação com calmaria e eis que o celular dá sinal. Recebia naquele momento, enviado por um primo e amigo insuspeito um vídeo parodiando uma situação tensa de assalto. 

O atendente da loja de conveniência tenta o subterfúgio de deslizar sua mão sob o tampo da mesa para poder acionar o alarme antifurto. O meliante rápido e espero manda que ele erga novamente as mãos. A única saída de nosso herói é receber o estímulo visual de uma bela mulher, também feita de refém, para acionar o alarme de furto. Ela percebe e começa a flertar e enviar vários sinais que proporcionam que o alarme seja acionado. Pasmem amiguinhos a sacada do vídeo não é essa. O peculiar detalhe é que o áudio é baixo, obrigando o incauto observador a elevar o volume do smartphone para acompanhar a resenha que se desenvolve e aí, nesse exato momento é que a ingenuidade do espectador é testada. O que se houve ao final é o gemidão do whatsapp. 

Vamos abrir um parêntese para explicar aos não iniciados ou para aqueles que lerem esta crônica daqui dez, trinta, cem anos, o que vem a ser gemidão do Whatsapp. O melhor é ir por partes como diria um canibal faminto. Primeiro o Whatsapp é um aplicativo de troca de mensagens instantâneas. É bisneto do ICQ, neto do Aol e filho do MSN. Nestes nossos anos, é largamente utilizado para troca de mensagens escritas, além de gifs de gosto duvidoso, vídeos sem sentido e áudios longos, trocados entre contatos e em grupos de família que se desejam bom dia todas as manhãs. O gemidão nada mais é que exatamente isso, um gemido espalhafatoso que simula o atingimento do clímax sexual por parte de uma representante do belo sexo de Vênus. Creia, se você que viveu no início do século XXI ainda não o recebeu, é questão de dias até ter esta honraria. Ah e não pense que ele surge apenas em vídeos de apelo sexual, não! Até em mensagens sacras ele já veio escondido. 

Ok, todos devidamente apresentados e reconhecidos, passamos para o próximo pedaço, quer dizer, próximo fato. Afirmei no inicio que possuo entre infinitas qualidades a minha poluição mental. Aquele grito intenso do vídeo me lembrou um fato que aconteceu na minha juventude perdida, porém cheia de responsabilidades. Era feriado de carnaval e a família foi viajar. Porém estava escalado para ficar de plantão no trabalho e obviamente meus festejos de Momo foram na capital. Não que isso tivesse sido um castigo, muito pelo contrário. Sempre fui avesso a esta festa pagã e preferia ficar no sossego da capital, uma vez que todos se dirigiam para o litoral. 

Então no auge de meus vinte anos, solitário em casa e com a mente ociosa resolvi convidar uma vizinha para jantar em minha humilde residência. Conversa vem, conversa vai, conversa retorna e chega com os dois pés no peito não poderia ser diferente. Jovens com hormônios em ebulição, inspirados na atmosfera carnavalesca, se entregaram aos prazeres mundanos da carne. Nessa idade, o elemento pode ter quebrado uma pedreira que possui fôlego de sobra para encarar uma maratona de quatro horas de peripécias sexuais. E juro pelos deuses do Olimpo que foi exatamente isso que aconteceu. Quatro horas de uma maratona de sexo, luxúria e devassidão. 

Porém, e sempre há um porém, o capeta se esconde nos detalhes. Noite de Fevereiro, verão, um calor nababesco, as janelas ficaram abertas. E quem em são consciência se importa com janelas abertas em um terceiro andar quando suas atenções estão voltadas para quem esta sobre sua cama? Ninguém! A moça era descendente de italianos e dona de um tom de voz suave, capaz de acordar um cemitério com seu entusiasmado bom dia. Imagine então as notas que ela foi capaz de atingir quando começou a narrar tudo o que desejava, usando palavras que poderiam corar a mais luxuriosa dama que troca favores sexuais por dinheiro. Foi uma gritaria digna de filme da boca de lixo paulistana e eu ali, seguindo as ordens da diretora de cena. Uma beleza! 

Terminado o embate, ela diz que precisa dormir em casa para que os pais não desconfiem de nada. Até hoje não entendo direito sobre o que eles poderiam desconfiar. Eram duas da manhã e ela não repousava seu invólucro carnal na caminha de sua residência. Talvez ela tivesse comentado que ia para um culto religioso que terminaria com a benção do Pastor sete léguas ou tenha explicado que faria distribuição de sopa para os desvalidos nos cafundós do Judas, enfim, tudo, menos que manteve intercurso carnal com o vizinho, já que, pelos gritos até o pessoal da praia deve ter escutado. 

Vida que segue. Acordei na manhã seguinte e mantive a rotina diária; café, barba, banho e serviço. Passei o dia fora ganhando o suado dinheiro para manter meu vício da época: ir ao Olímpico ver o Tricolor jogar. Quando cheguei a noite, a vizinha do térreo, uma senhorinha muito simpática e que prestava a atenção em tudo que acontecia no prédio me chamou para conversar na janela. Perguntou como estavam os meus pais e outro monte de perguntas sem sentido e perigo, até que a indagação fatídica surgiu. 

“Meu filho, tu não escutou uma gritaria essa madrugada? Era uma hora da manhã e eu só ouvia os gritos de uma mulher discutindo. Foi um horror! Pior que ninguém soube identificar de onde era”. 

Sabíamos a verdade. Ela me fitava com ansiedade, aguardando um piscar de olhos mais arisco, uma gota extra de suor escorrendo pela testa, um gaguejar suave nas palavras. Para infelicidade dela sempre tive o pensamento rápido e sob pressão me torno um bloco de gelo. Respondi apenas a verdade. 

“A senhora sabe que eu tenho chegado em casa tarde e sozinho e como dono do castelo, o rei usurpador do trono, tenho aproveitado o tempo que me é disponível para assistir filmes e como aprecio escutar todos os sons com intensidade uso fone para não atrapalhar ninguém. Não ouvi absolutamente nada, mas se o tivesse feito, teria ido atrás destes animais que não sabem viver em comunidade. Onde se viu, uma da madrugada ficar batendo boca, por favor!” 

Ela concordou em um misto de decepção e inconformismo, sei que esperava alguma confissão ou indiscrição. A conversa se desenrolou por mais alguns minutos, nos despedimos e o assunto morreu ali. Fico imaginando o que essa senhorinha faria ou pensaria se recebesse hoje esses gemidos no recôndito de seu lar. Depois daquela noite, a gritona nunca mais despi em casa e às vezes penso se ela não foi a inspiração para este moderno sinal de aprovação sexual e que o gemidão do whatsapp é apenas um sussurrar se comparado a goela daquela gringa.

terça-feira, 8 de maio de 2018

Jogo de Botão por Léo Iolovitch

Aguardava para ser chamado na sala do laboratório onde teria meu sangue sugado e lia as bárbaras crônicas do amigo Léo Iolovitch, publicadas no livro Descendo da Nuvem, quando me deparei com esse fantástico convite para viajar ao período da infância e juventude, onde meu time, o "Lucca Ischia" era o temido adversário a ser batido nos campeonatos da rua. 

O tempo foi passando e meus atletas foram se aposentando, assim como o treinador deles. Hoje vivem bem condicionados em uma maleta, onde seguidamente recebem a visita do "professor" e lembram dos tempos de sucesso, glamour e conquistas, na esperança de um dia retornarem aos campos de batalha e mostrarem que, como diz o Léo em sua crônica - "nada é ou será mais intrinsecamente luxuoso e sofisticado do que a simplicidade".

Abaixo segue a crônica que me proporcionou esse resgate "histórico". Ah e passa lá no site, tenho certeza que haverá muitos textos que proporcionarão igual sensação. www.olivronanuvem.com.br

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Abri a caixinha, fui tirando e colocando sobre a mesa. Ah! o velho time de botão, saído de algum lugar perdido na prateleira da garagem, tinha voltado. Os personagens da infância estavam ali, coloridos e estáticos para os outros, animados e com vida para nós, que os comprávamos na fábrica de puxadores da rua Paulino Teixeira, onde ficavam expostos naquele balcão exíguo como objeto de desejo. Meu time era quase todo de puxadores, dois eram da gaveta de costura da minha mãe e mais um feito da tampa de um vidro.

Eles tinham nome e faziam parte do nosso patrimônio afetivo e imaginário, numa época em que nem ligávamos para patrimônio e o que era imaginário. O campo, igual ao de futebol, era feito de chapa de compensado; ali os botões viravam protagonistas, quando apertávamos a ficha sobre eles, para baterem naquele botãozinho menor, que era a bola, para encobrir o goleiro, em geral uma caixa de fósforos. A imagem daqueles objetos redondos espalhados na mesa, pode não fazer sentido para os outros, mas para nós está carregada de fantástico significado.

A ideia de jogar botão com um amigo de infância foi ótima, o jogo nem tanto. Na ausência de campo usamos a mesa de jantar, mas ficou sem a mesma graça, assim como os dedos não conservaram a destreza das mãos miúdas, que manipulavam os botões fazendo gols incríveis e propiciando momentos de grande alegria. Se a partida não teve o encanto de outrora, o reencontro foi legal.

Depois que ele foi embora, fiquei olhando os velhos botões coloridos na mesa improvisada; pareciam deslocados, fora do seu ambiente primitivo. Então veio a lembrança daquelas tardes distantes em que nos reuníamos para jogar botão, curtindo emoções infantis. As partidas só terminavam quando alguém surgia com uma bola e íamos até o campinho do terreno baldio, jogar futebol de verdade.

A escolha dos times era feita no par-ou-ímpar e disputávamos cada jogo como se fosse final de campeonato. Não havia juiz, nem relógio e acabavam ao anoitecer, quando as mães, nas janelas, chamavam os filhos para o banho e o jantar.

Sem camisa, pés descalços e bola sem marca, a simplicidade estava presente em tudo de forma natural. Naquelas partidas a bola era o mundo e, talvez inconscientemente, conquistando a bola pensávamos estar conquistando o mundo.

Era tudo tão diferente de hoje, em que os valores artificialmente criados, como luxo e riqueza, estimulam a competição. Lembrando aquele tempo e comparando com a atual disputa insaciável pelo que for mais sofisticado, chego à conclusão que é um esforço em vão, pois é muito difícil alcançar. A suprema sofisticação não se pode comprar e só a conquista quem conseguir sentir e vivê-la de forma autêntica. Afinal, nada é ou será mais intrinsecamente luxuoso e sofisticado do que a simplicidade.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Presença

Há o trecho de uma musica que diz mais ou menos assim - um dia frio, um bom lugar pra ler um livro, e o pensamento lá em você, eu sem você não vivo. Ah estas declarações escancaradas em letras musicais. Invejo quem consegue traduzir sentimento em palavras e estás em música. Invadem a vida das pessoas e as mudam de forma incontestável.

Porém, sou apenas um escritor ainda não descoberto pelas grandes editoras que publicam livros em centenas de idiomas. Chegará por certo minha vez, mas enquanto não, vou criando e reproduzindo meu mundo.

Retrato minhas personagens na esperança de chegar o dia fatídico e inadiável em que passarão a me indagar quem são elas. Serão pessoas de verdade? Alguma invenção estilo Frankstein? 

Poderei responder de forma solene que aquele conto ou poema retratava uma paixão platônica, uma colega de banco escolar, um colega chato, um vizinho barulhento, uma companheira, algum parente pernóstico, uma amante inesquecível.

Ainda sonho com o dia que ao passar os olhos sobre as linhas mal traçadas, o jornalista conceituado que me entrevista pergunte de forma direta - e está aqui que aparece tantas vezes, qual a identidade dela?

Serão dois ou três segundos de pausa, o que para a tv ou rádio são uma eternidade até que eu limpe a garganta e diga...

"É interessante você perguntar justamente por ela. Uma amiga inspiradora, dizia que não sabia escrever direito mas derrubou com um agradecimento singelo, um belo soco de direita, sabe? Eu sempre suspeitei que naquela alma havia uma alma profundamente poética. Ela tinha uma presença forte, incomparável!"

Prosseguiria eu no rasgar de elogios e lembranças - "houve certa vez em que ela apareceu em minha frente, um vestido cinza de malha que salientava a perfeição do corpo bem proporcional. Fiquei embasbacado, sem saber o que dizer para não parecer mais tolo e tão pouco ficar mirando seu olhos amendoados repousados no rosto belo e pueril, só me restou pegar na mão enquanto ela sorria. Três beijos foram suficientes para ter a vontade de lhe transportar para uma ilha deserta. Me apresentou a amiga que não guardei o nome e tão pouco a fisionomia! Ah, aquela pequena era encantadora. Depois partiu com seu balançar, me deixando no peito uma vontade enorme de lhe acompanhar na noite da capital".

Fecho os olhos, me transporto para o banco de dados central. Resgato aquelas lembranças boas de ti, coisas que só eu tenho e me são caras. Sorrio, sem motivo claro, suspiro e fico feliz de você existir aqui, por esse encantamento que jogou, por ser inspiração e dentro dela se guarda tanto! E se um dia tivesse que definir em um única palavra o que representa, eu diria PRESENÇA!

Perdoa

Perdoa meu bem,
Por não ter sido e nem ser,
Releva por ainda pensar,
Por desejar e acreditar
Que no futuro há tempo para nós

Combinação

Combinamos em uma sexta pela manhã,
Não me peça mais desculpas,
Se o fizer, três dias de silêncio,
Daquele dia em diante,
Por todos os demais da existência,
Jamais deixamos de nos falar

Miniaturas

Ah se eu pudesse convencer esses adultos miniaturas
conhecidos como crianças, a não terem pressa para crescer. 
Quero de volta o tempo que estava aprendendo a emparelhar as letras, 
que minha consciência reconhecia apenas que Jerry era mais esperto que o Tom, 
que o Pica-Pau era o maior esperto da paróquia. 
Depois a gente cresce, se apaixona sem a outra parte saber 
e se perde completamente a partir do primeiro beijo. 
E tudo só piora com a chegada dos boletos e da conta do plano médico...

Minha maldade

Sr. Face, penso que ontem fui uma pessoa má. Sim, em uma loja de departamentos aqui na capital da Província de São Pedro. 

Estava pesquisando as ilhas de DVDs para tentar encontrar algo que me chamasse a atenção, quando chegaram duas mulheres, na casa dos trinta e poucos com uma demanda clara. Encontrar A Múmia de Tom Cruise.

Veja bem, o filme, não a múmia do ator. Começaram a busca na primeira ilha. Não encontraram, mas os comentários eram fantásticos.

Uma dizia que provavelmente todos os filmes haviam sido vendidos e não havia reposição. A outra afirmava que elas deviam ter comprado no lançamento e por aí foram. Está já indicava outros títulos para a primeira, mas todos eram rechaçados.

Neste meio tempo, eu dedilhava os filmes da outra ilha quando me deparo com que? A Múmia do pigmeu Tom Cruise!

Pensei, se eu entregar nas mãos das intrepidas mocinhas, dirão que estava prestando atenção nelas. Nestes tempos bicudos em que tudo é assédio, qualquer cuidado extra é pouco. Então fiz o que todo ser humano empatico faria. Coloquei o filme na primeira posição de uma das colunas da 
ilha.

Me afastei e fiquei observando discretamente a descoberta delas. Pois pasmem amigos e amigas, elas passaram pelo filme e não o viram! Sim! Encostaram a mão no maldito dvd que tanto desejavam possuir e não o perceberam.

Poderia ainda ter tentado salvar a noite de sábado delas e ter dito: minhas queridas apaixonadas pelo top gun, o filme que vocês querem está aqui, oh! Poderia, mas não o fiz.

Pelo simples e doentio motivo, se você está buscando ardentemente algo, sua atenção deve estar redobrada, seu foco triplicado e se você entra de corpo e mente moles, você não o merece.

Ainda atônito e quieto, presenciei as mocinhas combinando de irem ao centro da cidade buscar em outra filial da rede, o tesouro de Tutancâmon.

domingo, 6 de maio de 2018

Tui e Tutucho



Acredito ser de conhecimento geral e irrestrito, a importância dos portugueses na História, uma vez que, foram os primeiros europeus a se lançar no mar durante o período das grandes navegações ocorridas entre os séculos XV e XVI. Porém muito mais que descobrir vastas extensões de terra, dividir o planeta com a Espanha e registrar seus nomes nos anais históricos, os lusos foram prodigiosos em criar ditados. Um entre tantos, afirma que “a quem Deus não deu filhos, o diabo dá sobrinhos”. 

Durante muitos anos esse pensamento acompanhou-me. Um mantra repetido em diversos momentos e que me atormentava. Sim, apesar de minha capacidade intelectual me classificar em uma faixa em que não sou considerado uma sumidade e tão pouco um desprovido de inteligência, não consegui atingir o nirvana e ter a iluminação necessária para compreender o que essa frase tomada de senso familiar e religioso realmente significa. 

Quase toda história que se preza começa com um copo de cerveja ou um “era uma vez”, mas esta é diferente meu rapaz e minha moça. Ela inicia com um nunca. Sério! Nunca considerei de forma séria a idéia da paternidade, e a culpa? A culpa é de meu bom pai. Ele foi tão fantasticamente perfeito em seu sacerdócio paternal, o exemplo a ser seguido que, analisando friamente todos os sacrifícios e abnegações que ele fez para nos criar, percebi que não teria a hombridade de fazer o mesmo. Portanto, em minha lógica disforme, não seria justo oferecer a uma vida indefesa, menos do que recebi. 

Logicamente que este meu posicionamento sempre causou estranheza na maioria das pessoas. Parece que o matrimonio trás como ônus puro e simples a procriação. Em pleno século XXI, o crescei e multiplicai-vos, parecem ser uma obrigação a ser seguida pelos casais. A conseqüência é que durante boa parte dos meus casamentos sempre escutei a leve cobrança – e aí, quando vem o bebê? Confesso que no inicio ainda encontrava alguma paciência para explicar meu ponto de vista, depois de certo tempo passei a bronca de perpetuação no nome da família para meu irmão e por fim, aos insistentes, sugeria que procurassem suas genitoras em zonas não muito recomendáveis da cidade. 

Então há dois anos meu irmão e cunhada resolveram; estava na hora de aumentar a Família. Soube da notícia em uma manhã de um dia qualquer em que não consigo precisar a hora. Seria tio e assim descobriria finalmente se o dito português fazia sentido ou não. 

Porém antes dessa iluminação percorreria os nove meses de gestação e os primeiros sinais começaram a se manifestar. Todos sabem que o mundo está dividido em vários grupos dependendo do parâmetro utilizado para a classificação, para os iniciados dos mistérios Espirituais há explicação para tudo, aos os céticos sobram apenas coincidências. O certo é que a minha ligação com o pequeno é ímpar desde o início. 

Lembro perfeitamente um almoço de domingo na casa de meus pais em que começamos a falar sobre a data prevista de nascimento do pequeno. Meu irmão e cunhada nos informavam, conforme cálculo do médico – o parto deveria ocorrer ao fim da primeira quinzena de Setembro. Nesse momento o invisível se manifestou. 

Escutei – “eles estão errados, será dia 29 de Agosto”. O problema é que sempre fui muito teimoso e genioso, repeti o que tinha escutado, diminuindo em um dia, para coincidir com a data que faleceu o Bispo de Hipona, o maior filósofo da crença católica, mais conhecido como Santo Agostinho. A reação deles, baseada nas informações médicas não poderia ser outra: espanto e até mesmo indignação! Estaria eu desejando que ele nascesse prematuro, sofrendo todas as conseqüências e riscos de saúde pertinentes a situação. Calei-me para não causar mais nenhuma celeuma, porém no fundo eu acreditava, sabia, tinha certeza! 

Os meses foram passando até que despertei no dia 26 de Agosto, com a impressão e lembrança clara que havia me encontrado com o Arthur em um ambiente hospitalar, ele adulto, de costas, cabelos castanhos claros, me dizendo – “estou ansioso demais, não agüento mais esperar por esta volta, que seja de uma vez”. Permaneci deitado, olhar fixo no teto e recebi o questionamento da esposa se não me levantaria para o trabalho. Só consegui responder que ele estava chegando – não passa de sábado, sentenciei. 

O pequeno resolveu mostrar quem estava certo, e na noite de um sábado, dia 29 de Agosto, durante a formatura de um primo, recebi a mensagem esperada, ele havia estreado na vida! A distância entre a Faculdade e o Hospital é de aproximadamente oito quilômetros, que foram percorridos, apesar das paradas em sinaleiras em apenas sete minutos. Pela primeira vez vi o medo nos olhos de minha esposa enquanto dirigia, transformei o auto alemão em um bólido italiano de fórmula um. Recordei de uma declaração de Senna e fui tomado de sensação ímpar, olhava a rua e ela me parecia larga, as ultrapassagens ocorriam com precisão cirúrgica, nunca a direção, transmissão, acelerador e freios trabalharam em tamanha harmonia. Parecia que éramos um só, homem e máquina. 

Chegamos ao Hospital no momento em que o ele começava a ser preparado para ir ao quarto. Presenciei uma das primeiras agressões que o mundo lhe proporcionou, duas vacinas em suas pequeninas pernas e um choro de quem é apresentado a um ambiente diferente, fora da segurança da placenta e do líquido que o envolvia. Foi uma noite intensa e no domingo pela manhã voltei ao Hospital, casualmente fazia vinte dias que o Grêmio, dentro da Arena sapecou um sonoro 5 x 0 no adversário e em nossa primeira foto, eu vestindo o terceiro uniforme tricolor daquele ano e ele espalmou a mão espalmada mostrando os cinco dedinhos. Coincidência? Ah essas coincidências! 

E assim com o passar dos meses, fomos percebendo que a genética é realmente fantástica, reconheci nele um pouco de mim, a mania de andar com as mãos para trás, do mesmo jeito que meu avô, pai, irmão e eu, as caras e bocas que faz, a teimosia e a independência cedo demonstrada, culpa dos 25% dos genes que compartilhamos e a certeza que de alguma maneira esta carga genética se perpetuará. 

Por volta de março deste santo ano de 2017 da graça e glória de Odim, recebi mais uma alcunha para a minha extensa lista. Ele me viu chegar ao prédio e veio correndo dizendo “Tutucho”. Foi um dos momentos mais intensos, porque até aquele momento, logicamente era reconhecido como alguém próximo, mas ali, naquele momento eu fui batizado, é como se tivesse renascido em um plano diferente, com um nome que eu não poderia renegar e nem deixar de ter orgulho, eu era um dos seus primeiros humanos a ter nome próprio! Sei que cedo ou tarde passarei a ser o titio, depois tio e quiçá o “véio Anderson”, mas o “Tutucho” será para sempre! 

É muito legal a troca que existe, porque com o “Tui” aprendi que o seu Lobato tem uma fazenda e que nela vivem vários animais; que a Barata diz que tem sete saias de filó, o que é uma mentira, pois ela tem uma só; que o motorista tem que ter atenção porque o poste não é de borracha; reaprendi como é bom “passear” com um cachorro de brinquedo; que a gente pode falar a linguagem do amor e do coração sem parecer bobo; que brincar de bi-bi é legal paca, que é fantástico comer pizza integral ou de mussarela; que vem te ajudar a levantar do chão com uma inocência cativante e principalmente, que existe alguém que confia em ti porque simplesmente confia! Ele me ensina que nos olhos de cada criança reside a esperança de mudar a realidade que nos cerca e consequentemente o nosso interior. 

Ah, sim! Ainda não compreendi o ditado luso, mas se o diabo nos dá sobrinhos, no fundo, bem lá no fundo, ao contrário que o catecismo prega, que camaradinha legal ele é!


Escrito originalmente em Julho de 2017 e publicado em Abril de 2018 na Coletânea de Crônicas Dezmiolados - Volume 2 - Publicação da Farol 3 Editores.


O que aprendi sendo goleiro



Dia desses recebi um vídeo com modernas técnicas de treinamento de goleiros. Para aqueles que pouco sabem de mim, lá pelos anos 80 e 90 do século XX disputava as tradicionais peladas nesta posição. Era o arqueiro do time do bairro, do colégio durante a educação física e recreio e até mesmo na escolinha de futsal que o colégio mantinha nos sábados pela manhã. 

Jogar como goleiro não foi uma escolha minha, ela simplesmente surgiu por imposição da minha inexistente técnica e intimidade com a gorduchinha nos pés. Era um terror, invariavelmente o último a ser escolhido para a montagem das equipes e logicamente, o gol era meu destino. Lembro que deixei a meta depois que surgiu um colega com técnica apurada sob as traves e naquele período fui deslocado para a defesa. Era o zagueiro típico do interior, tosco e que levava a sério a máxima de passar a bola ou o atacante, nunca os dois juntos. 

Durante nossas estripulias infanto-juvenis nos intervalos das aulas, que naquela época chamavam-se recreios, fomos proibidos de jogar bola. Lógico que os endiabrados encontraram uma forma de burlar a ordem regente naquele rígido colégio de padres. Engana-se quem pensa que trocávamos chutes com uma bola de meia ou plástico. Elegemos como nossa gorduchinha uma bola de tênis. Exato! Uma bola de tênis, da mesma família daquela que era encaminhada para a quadra adversária em Wimbledon. 

A mídia divulgou em 2014, que o goleiro Keylor Navas da seleção da Costa Rica e na época, recém contratado pelo fantástico Real Madrid realizava seus treinamentos com bolas de tênis, a fim de aprimorar seu reflexo. Pobre rapaz, com anos de atraso havia descoberto o que um bando de aborrecentes já praticava em Porto Alegre. 

Voltando a minha vida de goleiro, posso afirmar que os anos trouxeram aprimoramento da técnica e comecei a gostar da missão de evitar a alegria dos outros. Observava a forma como o gigante Mazaropi se comportava no gol do Grêmio e tentava repetir em campo e me tornei um pegador de pênaltis com a ajuda de uma técnica suicida. Como canhoto, tinha facilidade de soltar para o meu lado direito com boa impulsão, já o lado esquerdo era um fiasco. Sendo assim, quando havia um pênalti, fechava o lado esquerdo do gol e o incauto batedor escolhia o direito. Barbada! 

Recordando esses tempos e impulsionado pelo vídeo que comentei no inicio, busquei na internet outras publicações com grandes defesas e a pesquisa foi conduzindo de um vídeo a outro até que cheguei a um que mostrava grandes “frangos”. Aqueles gols oriundos de chutes e cabeçadas defensáveis que não são impedidos pelos arqueiros. Essa pesquisa fez me lembrar de um jogo que mudou minha percepção de vida. 

Era uma tarde quente e estávamos enfrentando a equipe de outra turma e o primeiro chute despretensioso dos adversários não foi defendido por mim. A verdade é que me atrapalhei e coloquei a bola para dentro do gol. O segundo chute de média distância foi no canto, porém quicou em campo e passou sobre mim. Dois chutes, dois gols. Logicamente que aconteceu o esperado. Fiquei inseguro para realizar outras defesas e o time adversário passou a chutar de qualquer distância, afinal, era chutar que o arqueiro aceitava. 

Os cretinos e bastardos do time adversário passaram a bombardear, sem dó e piedade, sabia que só havia uma coisa a ser feita. Uma grande defesa, capaz de devolver a segurança para mim e o respeito para eles. Ela não demorou a aparecer. O atacante adversário, um baixinho rápido igual vento veio avançando pelo lado esquerdo de ataque, cortou o lateral para dentro de campo a fim de posicionar a perna direita para desferir o chute e quando o fez, soltou-o forte. Assim como um gato, expressão eternizada por um apresentador de TV para classificar defesas difíceis, salvei o gol com a ponta dos dedos da mão esquerda. Senti ali que a sorte começava a flertar comigo e a segurança retornava. 

O próximo lance foi definitivo. Tanto para que retomasse a frieza no gol e para virarmos o resultado adverso. O time foi para o ataque e nesse momento eu me antecipava para a risca da grande área e ficava controlando o avanço adversário. Em um destes ataques, tivemos a bola roubada e o jogador adversário ao perceber que estava fora de posição, chutou na esperança de fazer o gol que Pelé não fez. Não podia levar aquele gol. Estava decidido quanto a isso. Comecei a observar a trajetória da pelota enquanto retornava de costas para o gol. Lembrei do ensinamento de um treinador que tive e que lances antes tinha se mostrado verdadeiro – jamais deixe a bola quicar na tua frente, porque ela vai te enganar! 

Quando a bola já havia descido a uma altura considerável, joguei-me de costas, braço direito esticado, mão espalmada, braço esquerdo procurando no ar uma posição adequada para me apoiar no pouso. Fechei os olhos e senti a bola encontrar minha mão e o grito de “booooooaaaaaaaaaaaa Cerva” e a redonda repousando na linha de fundo. Naquele jogo não levei mais nenhum gol, o time adversário se tornou mais cauteloso ao ponto de perder a partida. 

E foi por essa defesa que minha percepção mudou. Todos os dias encaramos alguma situação que põe a prova nossa capacidade de superação e vitória. Independente do momento que você se encontra na vida, seja no colégio ou trabalho, sempre acontecerá algo que possa te trazer insegurança, só é preciso saber o que fazer para que esse sentimento seja passageiro e as rédeas de sua vida retornem para as mãos certas. As suas! E assim tento agir desde aquele longínquo dia, com a frieza de um goleiro para encarar o pênalti decisivo ao final da partida, sem desespero, por saber que aquilo que é teu ou que deve acontecer, sempre encontrará uma forma de chegar a ti.

Verissimo, Scliar e Cerva


Uma das grandes surpresas que tive após aceitar o convite dos Editores da Farol 3 para participar do volume dois dos Dezmiolados foi que, além de dividir as páginas da publicação com o meu Mestre e amigo de décadas Paulo Motta e com o competente jornalista Milton Gerson a quem atendia na impressão do Fala Bom Fim, jornal do bairro que o batizava, teria a companhia de uma plêiade de competentes jornalistas, agitadores culturais e professores, uma equipe pronta para disputar o Nobel de Literatura como podem conferir na nominata que segue, Emilio Pacheco, Gilnei Lima, João Carlos Machado Filho, Luciano Riquez, Marne Rodrigues, Pedro Marcon Neto e Ricardo Azeredo, além dos já citados. 

O livro é um apanhado de boas crônicas, quarenta para ser mais exato e está com a tiragem praticamente esgotada. Quem tem um exemplar deve guardá-lo como mais precioso tesouro! Durante o processo de impressão adquiri uns exemplares extras que presenteei pessoas importantes e únicas em minha caminhada. Desta forma tive acesso aos trabalhos de meus colegas antes do grande público. Diverti-me com as estórias e causos eternizados naquelas páginas, porém nenhuma, com exceção das minhas, me causou tanta surpresa e emoção quanto uma escrita pelo destacado e reconhecido jornalista Ricardo Azeredo. 

Cabe aqui o aviso de spoiler, a crônica do Ricardo, intitulada “O neófito e o oráculo”, conta a história de dois importantes ícones da literatura gaúcha e brasileira. O primeiro, um aspirante no mundo da literatura juntou um de seus trabalhos e criou coragem para pedir a opinião do vizinho de bairro e famoso escritor. O veterano recebeu as laudas datilografadas do aspirante e pediu para que ele voltasse em alguns dias e teria o que lhe dizer sobre a obra. 

Passados aqueles dias de ansiedade, retornou a casa do veterano mestre das letras e teve o que hoje os administradores modernos propagam entre os quatro cantos empresariais, um feedback positivo. O estreante deveria investir na carreira de escritor, porque nele havia talento. 

Ao se despedirem o novato agradeceu. 

“Muito obrigado seu Veríssimo, agradeço muito a sua avaliação e as suas palavras!” 

“Veríssimo não, meu caro. Erico. Erico está bom”. 

E se foi o novato para casa, decidido em encarar aquela oportunidade que se descortinava e já imaginava com que nome publicaria seus trabalhos, ao que conclui que o Sr. Veríssimo não aprovaria de outra forma, seria o nome completo – Moacyr Scliar. 

Essa crônica foi tão especial por um simples motivo e você entenderá perfeitamente, logicamente guardadas as devidas proporções comparativas. Trabalhava no Zero Hora e escrevia constantemente, porém não publicava meus trabalhos. Tinha como pensamento que eles não eram interessantes ao ponto das pessoas desejarem parar alguns instantes para ler pensamentos transformados em textos e poesias. Porém numa tarde eu chegava para o expediente e descia as escadarias do prédio o já Imortal Scliar. Pedi licença, me apresentei, disse que era um fã de sua obra e que aguardava com interesse suas crônicas publicadas no jornal e que igualmente escrevia, mas não tinha certeza se havia qualidade neles. Perguntei se poderia lhe encaminhar alguns trabalhos. Ele concordou. 

Diferente do que aconteceu com ele, não entreguei laudas datilografadas pessoalmente, mas os textos digitados em um arquivo de Word encaminhados para seu email. Passaram alguns dias e recebi sua resposta. Agora, passado tantos anos, compreendi através da crônica do Azeredo o que aquele momento significa. Quantas vezes os Imortais Veríssimo e Scliar receberam o convite para apreciar o trabalho de algum iniciante e com uma frase simples abasteceram aquelas almas sedentas de aprovação com o combustível necessário para converter pensamentos e sentimentos em literatura. 

Dizem que entre o fato verídico e o mito criado para descrevê-lo, sempre se deve preferir o último por ele ser mais atraente e heróico. Posso romancear o fato, porém sem esconder a verdade e imaginar que enquanto ele lia um de meus textos, se lembrou da vez que esteve em minha posição, aguardando o parecer de um premiado escritor. Naquele instante tirou o óculos e o repousou sobre a escrivaninha ao lado do notebook, se reclinou na cadeira, pensamento viajando no tempo, um sorriso de quem percebe que a vida se repete eternamente. Resgatou o óculos, mirou o teclado e proferiu a sentença que mudaria mais uma vida. 

“Rapaz, você realmente possui talento. Parabéns. Invista nele”.