quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Meus Amores

Um pseudo-escritor possui o mesmo desejo secreto ou às vezes escancarado de escrever uma obra que se torne eterna. Aquela que passará de geração em geração, ou que fará sucesso entre seus contemporâneos. Isso é inegável. Todos querem e almejam pelo reconhecimento de suas capacidades. 

Sendo assim, com aquela megalomania tão própria dos insanos, aventei a hipótese de escrever sobre os amores que tive; dos palpáveis e realizados aos que resistiram apenas no mundo inacessível dos desejos. Confesso que iniciei o rabiscar de histórias repletas de momentos únicos em uma espécie de autobiografia fadada ao insucesso. 

Insucesso por que no meio do processo me curei daquele estado "mega", analisei os prós e os contras, mensurei na balança da seriedade e responsabilidade. Resolvi me manter no anonimato histórico, mantendo meus fiéis, críticos e insubstituíveis leitores e então aquele projeto que parecia tão inovador ficou relegado ao esquecimento.

Pense bem, o que adianta escrever sobre o que passou, os momentos de profunda realização se nomes deveria ser trocados? Como escrever sobre a tarde que viajei para o interior e conheci uma natureza que não imaginava existir nestes pagos ou sobre o beijo furtado dentro de um carro no Menino Deus, da tensão surgida em algum estacionamento no centro da cidade. 

Escrever sobre os juramentos que viveram somente em promessas, dos colchões desbravados, do Jardim Botânico, do sonho de descobrir outro continente, dominar a língua de Shakespeare, percorrer um bairro inteiro a pé, afirmar que mulheres não são pedaços de carne ou do cheiro de amônia do cabelo recém colorido em uma noite infindável de luxúria, sem citar o nome verdadeiro das protagonistas?

Seria de uma irresponsabilidade sem precedentes, revelar suas identidades de forma tão rasteira e dividir com outros aquilo que foi tão importante somente para duas pessoas. Principalmente pelo fato que a vida de todos seguiu os caminhos normais da vida, houve a constituição de famílias, novos serzinhos nasceram daquelas relações, enfim, como cantou o eterno Maluco Beleza 

Porque quando eu jurei meu amor
Eu traí a mim mesmo, hoje eu sei
Que ninguém nesse mundo
É feliz tendo amado uma vez… 

Poderia recorrer ao subterfúgio de trocar seus nomes, manter o enredo, as falas tão presentes, as sensações tão vivas. Porém senti que igual a um Deus, concederia vida a uma outra pessoa, permitiria que se adonasse daqueles instantes vividos comigo. Seria uma estranha revisitando lugares, relendo cartas, revendo filmes, tudo aquilo que nunca havia lhe pertencido.

Logicamente, todo escritor possui uma forma de permitir a vazão de suas idéias, o surgimento de personagens com complexidades psíquicas, físicas, emocionais, mas como gosto de lembrar, sou um "pseudo", aquele que não se prende a métricas, rimas, formas eruditas da escrita. Apenas permite que as idéias fluam do intelecto, percorram o braço e através da caneta se instalem no papel. Simples assim. 

Quando você escreve um conto, pode aumentar um ponto, inserir estórias mágicas, pode ser o que e principalmente quem quiser, possuindo o poder mágico de ser o dono dele. Só existe uma versão correta, que é aquela contada pelo tempo, pintada geralmente com cores mais vivas e intensas. A verdade é que existem amores que nascem para durar uma curta estação, uns que nublam o horizonte, permitindo que surja o sol novamente, outros se revestem de brisa leve, mas também há os que se transformam em tempestades tropicais. 

Cada uma está devidamente estabelecida dentro de minha história, até hoje, passado tanto anos mantenho um contato respeitoso com cada uma e posso afirmar, Raul estava certo, ninguém nesse mundo é feliz tendo amado uma vez apenas...

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