sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

O Corvo

O Corvo (The Raven) é um poema escrito por Edgar Allan Poe e publicado pela primeira vez no New York Evening Mirror no dia 29 de Janeiro de 1845. A versão abaixo é a tradução de Machado de Assis, realizada em 1883.


Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho
E disse estas palavras tais:
"É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais." 

Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora,
E que ninguém chamará jamais.

E o rumor triste, vago, brando,
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto e: "Com efeito
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais."

Minha alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: "Imploro de vós - ou senhor ou senhora -
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo prestemente,
Certificar-me que aí estais."
Disse: a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.

Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta:
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.

Entro co'a alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais tarde; eu, voltando-me a ela:
"Seguramente, há na janela
Alguma coisa que sussurra. Abramos.
Ela, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso.
Obra do vento e nada mais."

Abro a janela e, de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre Corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto
Movendo no ar as suas negras alas.
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo - o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: "Ó tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais:
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?"
E o Corvo disse: "Nunca mais."

Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Coisa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta,
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é o seu nome: "Nunca mais."

No entanto, o Corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: "Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora."
E o Corvo disse: "Nunca mais."

Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
"Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: "Nunca mais."

Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao Corvo magro e rudo;
E mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
Achar procuro a lúgubre quimera.
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: "Nunca mais."

Assim, posto, devaneando,
Meditando, conjecturando,
Não lhe falava mais; mas se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava,
Conjecturando fui, tranqüilo, a gosto,
Com a cabeça no macio encosto,
Onde os raios da lâmpada caiam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
E agora não se esparzem mais.

Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso.
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível;
E eu exclamei então: "Um Deus sensível
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora."
E o Corvo disse: "Nunca mais."

"Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: "Existe acaso um bálsamo no mundo?"
E o Corvo disse: "Nunca mais."

"Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No Éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais.
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!"
E o Corvo disse: "Nunca mais."

"Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa!, clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fica no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua,
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua."
E o Corvo disse: "Nunca mais."

E o Corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!


quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Fechaduras

Ontem constatei que minha relação com fechaduras anda extremamente desgastada. É sério! Nada conseguirá explicar de forma plausível os fatos que ocorreram. Chego a acreditar em minha mania de conspiração universal que as chaves e fechaduras desenvolveram um plano diabólico para atacar-me.

Foi a chave do carro que enredou-se em uma costura do bolso da calça arrebentando a corrente do chaveiro, sequencialmente, o porta malas que recusou-se a abrir, fosse com o acionamento elétrico ou com a chave.

Breve visita ao Chaveiro de confiança, problema constatado, parecer emitido, momentaneamente resolvido e gasto futuro no horizonte. O ponto positivo foi a não cobrança do serviço. Pensei que a sorte voltava a me visitar, desejei que ela fizesse uma demorada estadia, porém, não esqueçam, existe o complô das fechaduras!

Cheguei em casa após enfrentar uma tarde do calor escaldante de Porto Alegre, desejando apenas duas coisas - ducha e água, ambas geladas. E o que aconteceu? Exatamente isso, a chave não entrou de maneira alguma na fechadura. Tentei um rápido exorcismo na porta sem obter sucesso, depois verifiquei que havia necessidade de água beatificada e eu só possuía o suor oriundo de glândulas sudoríficas. 

Resultado, depois de desabafar e xingar dez gerações da fechadura, liguei para o Chaveiro que havia resolvido o problema do carro horas antes. É fantástico observar a facilidade como o profissional consegue destrancar uma porta que estava chaveada em questão de pouco mais de dois minutos. Inseri uma chave fina, depois uma mais grossa, volta pra fina, outra fina e está lá, mais uma porta aberta!

Trabalho rápido que custou a minha carteira mais de meia dúzia de Reais. Alguém pode pensar que o valor é exorbitante. Poderia até ser pelo tempo do trabalho executado, mas extremamente barato pela simples fato dele saber de forma cirúrgica como realizá-lo. Independente, não entrarei no mérito da relação valor do serviço versus tempo de execução. Para minhas necessidades daquele momento o valor foi uma bagatela.

Fiquei pensando naqueles devaneios que surgem somente em dias quentes - imaginem se fosse o responsável pelas chaves do Paraíso e as fechaduras celestiais inventassem de travar. Aquela longa fila de seres angelicais desejando pisar nas nuvens de algodão e encontrar os amigos de infância, ficando cada vez mais impaciente com a incapacidade de escancarar os portões divinos. Talvez ocorresse uma nova revolução angelical, mais anjos caídos, uma super população invadindo os domínios de Hades por blasfemar contra a manutenção dispensada a entrada do Jardim do Éden. 

Analisando friamente, cheguei a rir, petulância a minha achar que minha alma ao final de sua jornada terrena vai ao Paraíso, pegará o Trans-Infernal direto para locais mais frescos que Porto Alegre no verão, onde encontrei quase a totalidade de meus amigos. Não porque sejamos maus, mas porque somos simplesmente humanos perfeitamente imperfeitos que são expostos as mais diversas provações, igual a mim, no terrível plano das fechaduras. 

Let Her Go - Passenger


Bem, você só precisa da luz quando está escurecendo
Só sente falta do sol quando começa a nevar
Só sabe que a ama quando a deixa ir
Só sabe que estava bem quando se sente mal
Só odeia a estrada quando sente saudade de casa
Só sabe que a ama quando a deixa ir
E você a deixou ir

Olhando para o fundo do seu copo
Esperando que um dia você faça um sonho durar
Porque sonhos chegam devagar e se vão muito rápido
Você a vê quando fecha seus olhos
Talvez um dia você entenda o porquê
De que tudo o que você toca certamente, morre

Mas, você só precisa da luz quando está escurecendo
Só sente falta do sol quando começa a nevar
Só sabe que a ama quando a deixa ir
Só sabe que estava bem quando se sente mal
Só odeia a estrada quando sente saudade de casa
Só sabe que a ama quando a deixa ir

Olhando para o teto no escuro
O mesmo velho sentimento de vazio em seu coração
Porque o amor vem devagar e se vai muito rápido
Bem, você a vê quando adormece
Mas para nunca tocar e nunca manter
Porque você a amava muito
E você mergulhou fundo demais

Bem, você só precisa da luz quando está escurecendo
Só sente falta do sol quando começa a nevar
Só sabe que a ama quando a deixa ir
Só sabe que estava bem quando se sente mal
Só odeia a estrada quando sente saudade de casa
Só sabe que a ama quando a deixa ir
E você a deixou ir

Oh, oh, oh, oh
E você a deixou ir
Oh, oh, oh, oh
Bem, você a deixou ir

Pois você só precisa da luz quando está escurecendo
Só sente falta do sol quando começa a nevar
Só sabe que a ama quando a deixa ir
Só sabe que estava bem quando se sente mal
Só odeia a estrada quando sente saudade de casa
Só sabe que a ama quando a deixa ir

Pois você só precisa da luz quando está escurecendo
Só sente falta do sol quando começa a nevar
Só sabe que a ama quando a deixa ir
Só sabe que estava bem quando se sente mal
Só odeia a estrada quando sente saudade de casa
Só sabe que a ama quando a deixa ir

E você a deixou ir

Meus Amores

Um pseudo-escritor possui o mesmo desejo secreto ou às vezes escancarado de escrever uma obra que se torne eterna. Aquela que passará de geração em geração, ou que fará sucesso entre seus contemporâneos. Isso é inegável. Todos querem e almejam pelo reconhecimento de suas capacidades. 

Sendo assim, com aquela megalomania tão própria dos insanos, aventei a hipótese de escrever sobre os amores que tive; dos palpáveis e realizados aos que resistiram apenas no mundo inacessível dos desejos. Confesso que iniciei o rabiscar de histórias repletas de momentos únicos em uma espécie de autobiografia fadada ao insucesso. 

Insucesso por que no meio do processo me curei daquele estado "mega", analisei os prós e os contras, mensurei na balança da seriedade e responsabilidade. Resolvi me manter no anonimato histórico, mantendo meus fiéis, críticos e insubstituíveis leitores e então aquele projeto que parecia tão inovador ficou relegado ao esquecimento.

Pense bem, o que adianta escrever sobre o que passou, os momentos de profunda realização se nomes deveria ser trocados? Como escrever sobre a tarde que viajei para o interior e conheci uma natureza que não imaginava existir nestes pagos ou sobre o beijo furtado dentro de um carro no Menino Deus, da tensão surgida em algum estacionamento no centro da cidade. 

Escrever sobre os juramentos que viveram somente em promessas, dos colchões desbravados, do Jardim Botânico, do sonho de descobrir outro continente, dominar a língua de Shakespeare, percorrer um bairro inteiro a pé, afirmar que mulheres não são pedaços de carne ou do cheiro de amônia do cabelo recém colorido em uma noite infindável de luxúria, sem citar o nome verdadeiro das protagonistas?

Seria de uma irresponsabilidade sem precedentes, revelar suas identidades de forma tão rasteira e dividir com outros aquilo que foi tão importante somente para duas pessoas. Principalmente pelo fato que a vida de todos seguiu os caminhos normais da vida, houve a constituição de famílias, novos serzinhos nasceram daquelas relações, enfim, como cantou o eterno Maluco Beleza 

Porque quando eu jurei meu amor
Eu traí a mim mesmo, hoje eu sei
Que ninguém nesse mundo
É feliz tendo amado uma vez… 

Poderia recorrer ao subterfúgio de trocar seus nomes, manter o enredo, as falas tão presentes, as sensações tão vivas. Porém senti que igual a um Deus, concederia vida a uma outra pessoa, permitiria que se adonasse daqueles instantes vividos comigo. Seria uma estranha revisitando lugares, relendo cartas, revendo filmes, tudo aquilo que nunca havia lhe pertencido.

Logicamente, todo escritor possui uma forma de permitir a vazão de suas idéias, o surgimento de personagens com complexidades psíquicas, físicas, emocionais, mas como gosto de lembrar, sou um "pseudo", aquele que não se prende a métricas, rimas, formas eruditas da escrita. Apenas permite que as idéias fluam do intelecto, percorram o braço e através da caneta se instalem no papel. Simples assim. 

Quando você escreve um conto, pode aumentar um ponto, inserir estórias mágicas, pode ser o que e principalmente quem quiser, possuindo o poder mágico de ser o dono dele. Só existe uma versão correta, que é aquela contada pelo tempo, pintada geralmente com cores mais vivas e intensas. A verdade é que existem amores que nascem para durar uma curta estação, uns que nublam o horizonte, permitindo que surja o sol novamente, outros se revestem de brisa leve, mas também há os que se transformam em tempestades tropicais. 

Cada uma está devidamente estabelecida dentro de minha história, até hoje, passado tanto anos mantenho um contato respeitoso com cada uma e posso afirmar, Raul estava certo, ninguém nesse mundo é feliz tendo amado uma vez apenas...

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Sempre Fotos

Já escrevi sobre fotos. Talvez duas ou três vezes, mas não me recordo o exato número de vezes. Essa é uma das vantagens de ir envelhecendo, você tem a desculpa exata para estes lapsos repentinos de memória. 

Que posso fazer se após organizar de forma mais ou menos adequada e transpô-las para o papel para ganharem asas e vida, não me recordo de uma única estrofe? Praticamente renego aquele momento em que as idéias surgiram, foram mensuradas. amadurecidas e partiram para deixar de ser uma propriedade privada para perderem-se nas estradas da vida?

Bem, mas a grande verdade e o que interessa aqui é o fato de ser um apaixonado por fotos. Tenho apreço especial em ficar minutos encarando o que está registrado, captado em um átimo de tempo e que se torna eterno. Fazer o que se esta é a melhor forma de curtir a nostalgia que insiste em acompanhar-me durante estes anos?

Não me sinto seguro a confiar as imagens que me emocionaram, os locais que visitei, a arte que convidou-me a viajar por eras distintas ou as bocas que beijei, guardadas em meu HD encefálico. Preciso olhar, forçar a memória para relembrar aqueles momentos. Sentir uma lufada de vida percorrer os poros, alojar-se no coração e virar combustível da alma.

Pensando bem, talvez seja exatamente isto, fotos, lembranças, esquecimentos, gostos e sabores, tudo junto e muito bem misturado que dê sabor a vida.

Linda Serra

Em ti, 
a poesia que reside solta no mundo, 
faz moradia... 
se fosse possível, 
de forma palpável, 
transforma-la em carne, 
para que assim, 
a cada dia de verão, 
amanhecer da primavera, 
tarde de outono ou 
noite de inverno, 
lembrar-nos 
que a beleza se encontra 
em olhos famintos por amor

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

My Second Gift


Canções já foram escritas,
estrofes que remontam aos extremos,
da esperança desmedida 
ao desespero sem fim.

Existe uma, registrada e relembrada,
"Quando tudo está perdido, 
Sempre existe uma saída..."
dizem os versos da canção pop.

Verdade incontestável,
a esperança tal qual semente,
renasce, revigora-se constantemente,
tal é a lei, a ordem e o princípio.

Dizer que te adoro parece piegas,
inatural vindo de um ser duro,
que é forte porque é preciso,
carapaça de poucos risos.

Sim, haverá de saber,
hoje, amanhã e sempre,
Te adoro sem ao menos te ver,
Sem conhecer a cor de teus olhos.

Sonhos são refeitos, 
quando a esperança volta a visitar,
nada promete, não põe ou tira vírgula,
apenas surge ao horizonte, tempestade!

Ah que digam os tolos, 
condenem com as provas que apresento,
Quero te pegar no colo, fazer carinho,
Dizer está tudo bem, estarei sempre aqui.

Assim, hoje, a esperança é renovada,
Acompanha-me em cada despertar,
Junto dela me invade uma ansiedade,
somente pelo momento do reencontro.

Sabes, não preciso dizer,
Chegue forte e inesquecível,
Sem medo e nem temor,
Nada de batidas surdas e fracas na porta.

Apareça com a intensidade dos deuses,
porque ninguém mais terá tantos nas mãos,
como aquele ser que chega para definitivamente,
Unir irmãos com apenas um propósito.

Celebre junto a vida, o recomeço,
cante com força somente a parte alegre do refrão,
Aqui te espero, na estação do inverno,
que aquecerá novamente meu coração.



Bailarinas

E ao longe, 
contemplam as bailarinas, 
a castanha espanhola e 
a cálida morena, 
Se esbaldam em seu bailar, 
enebriando, 
enfeitiçando 
os pobres espectadores, 
enquanto exorcizam 
seus demônios interiores, 
mandando-os de volta 
para a caixa escondida 
sob a cama de carvalho....

Nosso Pires

A profundeza das idéias trocadas não pode ser dimensionada pela quantidade de caracteres ou termos trocados pela fria ou as vezes quente tela do computador.... ela é dimensionada pela capacidade intelectiva em se perceber o que o outro está sentindo mesmo a km de distancia...isso sim, transforma nossas conversas em crateras, que chegam ao âmago da alma e retornam repletas de vibrações a serem partilhadas entre os quatro cantos do cosmos...

Carteiro Ninja


Coisa mais boa os serviços prestados pela União aos seus componentes, nós, pobres mortais que dependemos da bondade e boa vontade dela e consequentemente da excelente qualidade de suas empresas.

Abri a caixa de correspondência com aquela expectativa tola e sem sentido de quem espera encontrar uma carta avisando que uma parente de cagagésimo grau te deixou uma herança vasta. E o que encontrei?

Uma revista do ramo automobilístico, com as últimas novidades, lançamentos fantásticos, enfim, tudo aquilo a que estamos distantes. O nome do destinatário diferente do meu, mas igual ao da ex-vizinha do andar de cima. Pensei, foi apenas uma pequena distração no momento da colocação da correspondência.

Certo? Errado! Pasmem meus amigos, o número do prédio e do apartamento estão corretos, porém, o nome da Avenida que aparece na etiqueta de emissão é Barão do Amazonas. Os correios conseguiram a façanha de encaminhar para uma Avenida do Santo Antônio uma correspondência do Jardim Botânico.

Olha, se não podemos mais confiar candidamente que nossas correspondências pousem nas caixas corretas, o que esperar dos todo? Diferentemente de minha amiga Luciana, ainda guardo a confiança no Papai Noel como o último baluarte desta tola esperança nas coisas e pessoas.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Observações

Faço parte de um grupo de pessoas que gosta, sente prazer em escrever, contar estórias para quem desejar e tiver tempo de debruçar-se sobre elas.

Para tanto, é necessário observar as pessoas, os locais, estar atendo ou como dizem, com antenas a postos! Isso faz com que você se defronte com situações maravilhosas, tristes e inusitadas.

Foi com uma desta última que fui presenteado. A menina desolada pelo fato de uma blusa que fica perfeita na Isis Valverde, não lhe ter vestido bem. Talvez o fato de a peça não ser da mesma qualidade da atriz e a separação de peso de mais de dois dígitos entre elas representarem fatores determinantes para tal fracasso.

Olhei com um misto de surpresa e empatia. Sim, empatia. Seria o mesmo que eu quisesse entrar dentro do terno que o George Clooney e desejasse que ele o traje ficasse com o mesmo caimento.

O caso da menina e o meu, não se resolve, no mínimo antes de duas reencarnações!!!

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Clique

A cada clique, 
se descortina a menina 
e surge a mulher, 
mescla daquela e desta, 
encanta e traduz 
em admiração, 
a beleza que guarda em si

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

domingo, 11 de janeiro de 2015

A magia dos 40 anos

Ah o romântico Casemiro de Abreu,
magistralmente nos presenteou com seus versos
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!...

E vão se os anos, passam os dias, correm os ponteiros,
Olhamos ao espelho e não reconhecemos de imediato,
os traços, as rugas que rasgam a pele,
aqueles teimosos cabelos alvos ou sua ausência proibida,

as limitações do corpo que contradizem com as asas do pensar.
Perguntamos incessantemente, onde fomos parar?


Negar o fato é impossível - crescemos, evoluímos,
nos adulteramos, viramos adultos, adúlteros e puros.
Guardamos os sonhos infantis, as aventuras juvenis
e o temor da vida real.
Travamos os desejos, refletimos ansiedades,
deitamos em diversas camas e suspiramos.

Queremos resgatar aquela criança,
revisar os planos, traçar novos caminhos,
arrependimentos surgem, certezas se reafirmam,
e até mesmo poemas sem métricas surgem.
Boas e más histórias surgem para registro,
outras se perdem no fundo do baú do tempo.

E assim, as décadas vão se alternando,
dez anos - brincadeira de crianças;
vinte anos - jovens brincadeiras;
trinta anos - brincadeira de adultos
quarenta anos - é a brincadeira de adultos-jovens.
A inauguração de novo ciclo!

Vamos buscar inspiração em Casemiro,
e blasfemicamente recriar parte de sua obra
Oh! Que alegria que tenho
Deste tempo de vida,
Da minha maturidade querida
Que não troco por tempo algum!





O Comício - Túnel do Tempo

Realizando outra sessão desapego, onde revisito alguns guardados, reciclo, volto a arquivar e deixo armazenadas lembranças fortes, encontrei esta pérola, escrita quando contava com 12 anos. 

Somente uma criança conseguiria colocar em um "poema" o termo clorofluorcarbono e por favor não perguntem como e nem o por que. Devia estar bem estimulado para escreve-lo que até um desenho para servir de capa fiz. Sorte não depender de meus dotes artísticos para sobreviver, caso contrário, seria eu, mais um pedinte na multidão. 

Não recordo se já o publiquei aqui, mas pelo sim pelo não...


O Comício

Passei por uma rua onde havia um pequeno piquete de ecologistas,
e deles recebi um grande ramalhete com um folheto,
dizendo que haveria um comício para matar,
a curiosidade dos correspondentes da América Latina.

Foram convidadas várias personalidades importantes,
os repórteres de várias emissoras de rádio e televisão,
um famoso cavaleiro, além do juiz Jocelino,
que convidou outros juízes também.

Com uma grande perturbação,
a matilha correu assustada e os pássaros saíram em revoada.
Os fregueses das lojas saíram à frente para ver que barulho era aquele,
Enquanto vilões, vilãos e vilães roubavam pires e limões
que depois foram vendidos aos bobocas sacristões.

O organizador do comício pediu a um repórter
que lesse os últimos dados do recenseamento. Depois disso ele falou:
A flora, como tudo vivo neste mundo,
está sendo destruída pelo gás clorofluorcarbono,
mas não só por ele, mas por outros gases também.

E muito papo foi rolando,
até uma indagação surgir entre as várias pessoas
_ Será que existe mesmo a mula sem cabeça?
Uma dúvida que existe também dentro de mim;
enquanto vivo no bonito mundo de fantasias.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Resposta ao Facebook




Gosto de ti Facebook, simplesmente por ser um perguntador sempre disposto a descobrir no que pensamos. Haverá no mundo algum sinal de maior interesse que este? Não tenho uma opinião plenamente formada, equalizada e enraizada a este respeito que permita-me responder com certeza cirúrgica. 

Também creio que este teu jeito nos permitiria ser o mais transparentes o possível, mas o problema é que você não guarda tudo para si. Não, ao contrário, espalha para cada canto deste Planeta em que haja um computador ligado a rede mundial de computadores o que os demais amigos te contaram. 

Enfim, com isso, percebi que nos últimos dias muitos amigos teus, meus e nossos, manifestaram-se pelo ocorrido na cidade Luz. Não é para menos, afinal 12 pessoas foram sumariamente assassinadas no primeiro dia de ataque e outras tantas no decorrer de mais dois ou três dias de pura selvageria. Reflexo da intolerância, do desrespeito e do mais profundo desconhecimento da crença alheia.

Sempre prezei pela livre manifestação de idéias. As pessoas devem ser capazes de dizer o que pensam, mas sempre respeitando aquela máxima que o meu direito termina no exato ponto em que começa o direito do próximo. Iniciar uma queda de braço para buscar um caminho diferente a este é no mínimo uma perda de tempo e energia. 



Reciprocidade é um principio primordial, que deveria ser ensinado com veemência nos bancos escolares e no seio familiar. Não adianta eu pedir respeito e reconhecimento de um grupo social se não faço o mesmo em relação a ele. Tudo seria infinitamente mais fácil se as pessoas se lembrassem disso e conseguissem, sinceramente, serem empáticas.

Vivemos em um planeta que por tua influência Facebook e por outras tecnologias, transformou-se em um pequeno povoado medieval. A uma velocidade assombrosa, tudo é descortinado em questão de uma dúzia de minutos. O que ocorre no oriente causa reflexos no ocidente; a queda da bolsa no hemisfério norte, determina um inicio de incidentes econômicos no sul e por ai vai.

Por isso tudo, fico preocupado quando escuto ou leio que este ou aquele grupo religioso é culpado pelas mazelas da Humanidade. Não há nada de mais errado do que este tipo de afirmação. A História nos mostra isto repetidamente, foi assim com as ditas religiões heréticas, com o cristianismo, com o judaísmo e mais recentemente com o islamismo. 

Amigo Facebook, não façamos julgamentos dos nossos semelhantes pela crença que professam. Todas as religiões mostram a necessidade do respeito, da busca pela melhora espiritual, enfim, determinam um caminho para tornar o "ser" mais humano. Saiba que neste meu viver, já encontrei exemplos negativos em inúmeras religiões, que me fizeram descrer parcialmente delas e nos seus representantes, mas não me tiraram a certeza que podemos coexistir independente disto.

É somente nisto que estou pensando caro amigo...



sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Escrevo o que Não Sou... de Rubem Alves

Há uma pergunta que, quando feita a um poeta ou escritor, dói mais que picada de escorpião. A mim, pessoalmente, nunca fizeram. Mas fizeram a amigos meus: "Ele é do jeito mesmo como ele escreve?". É uma pergunta nascida do amor: acharam bonitas as coisas que escrevi e agora estão curiosos para saber se me pareço com o que escrevo. Como disse, nunca me fizeram a pergunta, diretamente. Mas eu respondo. "Não, eu não sou igual ao que escrevo". Sou um fingidor.

Quem disse isso, que o poeta é um fingidor, foi Fernando Pessoa:

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

Fingir é uma palavra feia. Sugere uma mentira, com o intuito de enganar. No mundo de Fernando Pessoa ela tem um outro sentido. Fingimento é aquilo que faz o ator no teatro: para representar, ele tem de "fingir" sentimentos que não são dele. E finge tão completamente que sente, realmente, uma dor que não é dele, mas de um personagem fictício, ausente. Assim é o poeta. Como pessoa comum, ele sofre. Essa pessoa sofredora não sabe escrever poemas. Ela só sabe sofrer. Mas nessa pessoa que sofre mora um outro, o poeta, o duplo, heterônimo. Esse poeta olha para si mesmo, sofredor e "finge", deixa-se possuir por aquela dor que é dele como se fosse de um outro: "chega a fingir que é dor que deveras sente".

Sou um fingidor. O que escrevo é melhor que eu. Finjo ser um outro. O texto é mais bonito que o escritor. Fernando Pessoa se espantava com isso. Tinha clara consciência de que era muito pequeno quando comparado com a sua obra. Num dos seus poemas ele diz o seguinte: "Depois de escrever, leio... Por que escrevi isto? Onde fui buscar isto? De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu..."

Vinha-lhe então a suspeita de que aquilo que ele escrevia não era obra dele, mas de um outro: "Seremos nós neste mundo apenas cantas com tinta com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?"

Contaram-me que ele, Fernando Pessoa, certa vez, aceitou encontrar-se com Cecília Meireles, e marcaram lugar, data e hora para o dito encontro. Cecília compareceu e esperou. Pessoa não foi e mandou, no seu lugar, um menino com uma desculpa esfarrapada. Esse incidente sempre me intrigou. Será que Pessoa era um grosseiro indelicado? Depois, lendo o Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, encontrei uma curta afirmação que esclareceu tudo: "Nunca pude admirar um poeta que me foi possível ver". Ao marcar o encontro com Cecília, movido pela delicadeza ou entusiasmo, ele se esqueceu disso. Foi só na hora que lembrou. Cecília amava os seus poemas. Na ausência, certamente, fizera aquilo que todos fazem: imaginou que o poeta se parecia com os seus poemas. Agora, em algum hotel de Lisboa, ela se preparava para se encontrar com a beleza dos poemas na sua forma viva, verbo feito carne. A decepção seria muito grande. "Nunca pude admirar um poeta que me foi possível ver". Assim, para poupar Cecília da decepção, ele preferiu não aparecer.

Àqueles que fazem essa pergunta a meu respeito, que imaginam que eu possa ser parecido com o que escrevo, aconselho: "Não compareçam ao encontro. Fiquem com o texto".

Não é mentira, não é falsidade: a poesia é sempre assim. A poesia não é uma expressão do ser poeta. A poesia é uma expressão do não-ser do poeta. O que escrevo não é o que tenho; é o que me falta. Escrevo porque tenho sede e não tenho água. Sou pote. A poesia é água. O pote é um pedaço de não-ser cercado de argila por todos os lados, menos um. O pote é útil porque ele é um vazio que se pode carregar. Nesse vazio que não mata a sede de ninguém pode-se colher, na fonte, a água que mata a sede. Poeta é pote. Poesia é água. Pote não se parece com água. Poeta não se parece com poesia. O pote contém água. No corpo do poeta estão as nascentes da poesia.

Escher, o desenhista mágico holandês, tem um desenho chamado Poça de Lama: numa estrada encharcada pela chuva, um caminhão deixou as marcas dos seus pneus, onde a água barrenta se empoçou. Coisas feias e sujas, as marcas dos pneus de um caminhão, cheias de água barrenta: nenhum turista seria tolo de fotografar uma delas, quando há tantas coisas coloridas para serem fotografadas. Pois Escher desenhou uma delas. E o que ele viu é motivo de espanto: na superfície de lama suja, refletidas, as copas dos pinheiros contra o céu azul.

Pensei que a poesia é isso: poça de lama onde se reflete algo que ela mesma não contém. A copa dos pinheiros contra o céu azul não está dentro da lama, não é parte do ser da lama. Apenas reflexo: mora no seu não-ser.

Pensei que assim é o poeta: poça de lama onde o céus se reflete. 

Nietzsche, escrevendo sobre a poesia de Ésquilo, diz que ela "é apenas uma imagem luminosa de nuvens e céu refletida no lago negro da tristeza". E Fernando Pessoa, no poema daquele verso que todo mundo canta - "Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena" - diz o seguinte: "Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que se espelhou o céu".

É nessa contradição: o céu se fazendo visível, refletido, na poça de lama, no lago negro da tristeza, no perigo e no abismo do mar.

Não. Não escrevo o que sou. Escrevo o que não sou. Sou pedra. Escrevo pássaro. Sou tristeza. Escrevo alegria. A poesia é sempre o reverso das coisas. Não se trata de mentira. É que nós somos corpos dilacerados - "Oh! Pedaço arrancado de mim!". O corpo é o lugar onde moram as coisas amadas que nos foram tomadas, presença de ausências, daí a saudade, que é quando o corpo não está onde está... O poeta escreve para invocar essa coisa ausente. Toda poesia é um ato de feitiçaria cujo objetivo é tornar presente e real aquilo que está ausente e não tem realidade.

Enquanto pensava sobre essa crônica, ouvi, por acaso, aquela balada que diz: "like a bridge over troubled waters" - "como uma ponte sobre águas revoltas..." Letra e música sempre me comoveram. Na liturgia do casamento do meu filho, liturgia que preparei, pedi ao Décio, cirurgião pianista, que tocasse essa canção: pois isso é o máximo que alguém pode ser para a pessoa amada: ponte sobre águas revoltas. Pensei, então, que eu sou "águas revoltas" (onde eu mesmo quase me afogo). O que escrevo é uma ponte de palavras que tento construir para atravessar o rio.

Assim, considero respondida a pergunta: não sou igual ao que escrevo. Guardemo conselho de Fernando Pessoa. É mais seguro não comparecer ao encontro.