segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Meus 40 anos

Aniversariar, um verbo que guarda em si, um número de significados incontáveis, que variam conforme a pessoa que o conjuga. Para uns, é festa pronta, momento de alegria, outros é a tristeza das ausências indesejadas e das distâncias intransponíveis. Para mim, foi um verbo de pouco significado, apenas uma convenção social que denota o tempo que falta para tirar a carteira de motorista, para entrar nas festas sem a preocupação de faixa etária e com os papeis da aposentadoria.

Particularmente, este ano, é contagem cheia, a abertura de uma nova década e eu, nunca imaginei que conseguiria chegar aos 40 anos. Sempre disse isso para minhas ex-esposas, para a atual, para parentes mais próximos, se bem que, ao analisar a letra fria da tinta repousada em minha certidão de nascimento, ainda não inaugurei a quarta década terrena. Nasci no sacro-santo ano da graça de 1976, precisamente as 09h20min da manhã do dia 27 de Dezembro. Portanto, agora, ainda faltam 06 horas para oficialmente aniversariar.

Posso afirmar que nasci causando confusão e trazendo preocupação, características que, portanto me acompanham desde o berçário. Realmente não soube nascer, afinal, ninguém te prepara para este momento. Você está lá, quieto em sua piscina particular quando, sem mais nem menos ela começa a esvaziar. Pânico, alarme e correria se instalam na placenta e num instinto, aspirei a chamada água do parto.  Caso alguém desconheça as conseqüências e deseje se aprimorar no assunto, sugiro uma visita rápida ao Dr. Google, que ele esclarecerá tudo o que poderia ter dado errado. Enfim, foram algumas dezenas de minutos lutando contra a morte, onde anjos anônimos de quem desconheço o nome se esmeraram para que eu tivesse a chance de escrever estas linhas

É interessante afirmar isto, lutar contra a morte. Nada mais natural em nossas vidas que ela, afinal, no instante da primeira aspirada de ar, passamos oficialmente a morrer um pouco por dia. Logicamente aparecerá um otimista que afirmará convictamente que se vive um dia a mais a cada despertar, mas tudo bem, que tipo de anfitrião seria eu se não permitisse tal discordância? Esta primeira batalha foi vencida com estrelinhas, nada de grave, nenhuma seqüela oficial, embora algum gaiato venha a creditar este meu jeito meio amalucado de ver a vida, a esta primeira experiência. Quem pode garantir?

A verdade verdadeira, aquela que não pode ser contestada nem por um júri formado pelas mais santas criaturas terrestres, é que sempre acreditei em partir desta para outra dimensão com a juventude estampada no rosto.  Não há uma explicação lógica e tão pouca ilógica. Nunca fui a ciganas que lessem minhas mãos ou a jogadoras de tarô, tão pouco fui a busca de respostas nos búzios e na astrologia. Apenas sentia. Espíritas, esta é o momento, uni-vos e digam que esta pode ser um lembrança latente de uma vida pregressa, talvez uma percepção enraizada pela morte de meu avô materno nesta idade ou ainda o fato de achar, quando fedelho, que alguém com 40 anos estava velho.

Impressionante como nossa régua da velhice vai aumentando com o passar dos anos. Quando temos nossos dez anos, alguém com quarenta 60 anos já está prestes a abotoar o famoso paletó de madeira, a medida que o detentor da certidão se aproxima de tal idade, a régua aumenta. Hoje já tenho esta percepção aos irmãos de 80 anos.

Provavelmente se deitar-me no divã de algum psiquiatra, encontre a chave que abrirá o baú onde a resposta desta terrível indagação está providencialmente escondida, mas sinceramente? Isso não me importa mais. Envelhecer desta forma tem algumas vantagens, a principal é que você pode chamar de experiência as tropeçadas do caminho. É muito bom! Experimente! Imagine a cena, poder dizer para alguém que determinada ação dará errado se fizer assim ou assado. Uma pretensão do tamanho do universo, como se viver fosse uma receita de bolo que sempre dará certo independente da ordem que os ingredientes são depositados na tigela.

Independente disso tudo, nunca curti muito aniversariar. Nascer no período das férias escolares não é muito bacana para a criançada, principalmente se a data estiver incrustada entre dois feriados de grande significado na sociedade ocidental, onde invariavelmente os amigos, colegas e parentes estavam na praia. Caso você seja muito novinho e não saiba ou imagine, ser classe média na década 80 do século XX no Brasil era um esforço hercúleo de sobrevivência. Final do regime de exceção, desemprego, o País acordava do sonho chamado milagre econômico com uma inflação galopante. Então desde cedo, apesar das festinhas elaboradas com esmero por meus pais, esta data passou a ser somente mais um número no conjunto de 365 dias do ano.

E nesta coleção de amanhecer e adormecer, fui crescendo, ganhando como escrevi antes, experiência e também uma dose significativa de malandragem. Tinha lá, meus quatro anos quando descobri que o ser humano pode ser extremamente desumano. Sofri uma tentativa de seqüestro na escola, motivada pela busca do vil metal de uma herança e se não fosse por um anjo de nome Dionéia, hoje não estaria aqui ou estaria muito diferente do que sou. Essa é uma passagem que sempre deixei na sombra, primeiro porque quando você suspeita, mas não tem certeza, é uma leviandade apontar o dedo e acusar, segundo porque acredito que o céu e o inferno são aqui, então, vida que segue.

O reflexo disso é que o mundo jamais foi o mesmo, jamais mesmo. Você fica calejado apesar da pouca idade, cria um distanciamento natural das pessoas. Porque arriscar? As pessoas são exatamente assim como você as percebe e não há choro e vela que te faça mudar de idéia. É aquela velha estória da primeira impressão que permanece e, esqueça da rosa que não te machucará independente dos espinhos. Apesar disto tudo, não percorri os anos de minha vida como um frustrado ou recalcado, sempre tive a percepção exata de onde era meu lugar e o que me convinha. Tão simples quando somar dois e dois.

Agora, se formos entrar na seara dos arrependimentos, ah, estes são alguns que mereceriam um capitulo a parte, mas para que? Penso que arrependimentos servem unicamente para nos lembrar que as decisões tomadas por impulso, sem a devida reflexão, ecoarão em um futuro de médio ao longo prazo.

Caso me fosse permitido voltar no tempo para dar aquele acabamento fino na história, diria para o molóide de 17 anos servir a Pátria e posteriormente seguir a carreira militar, e se ele não escutasse, adiantaria a viagem em alguns meses e falaria para o miolo mole não começar a trabalhar antes de entrar na faculdade de jornalismo, que por sinal, nunca cursei. Sacudiria o tolo jovem idealista e mandaria pegar o primeiro American Airlines para NJ. Diria para o detentor de toda a razão mundial estudar mais e mais. Faria isso e mais algumas mudanças pontuais.

Sim, eu sei que primeiramente isto é impossível e igual ao filme “Efeito Borboleta”, cada mudança de rumo causaria um efeito imensurável. Não teria conhecido tanta gente bacana e outros que ganharam uma importância incomparável nesta caminhada mundana; não teria visto lugares e experimentado sabores, não teria lido os livros que consumi avidamente, tão pouco teria conquistado o que possuo talvez a percepção de ser rico frente a outros que nada tem, nem existisse em mim.  Não estaria onde exatamente estou e muito provavelmente não estivesse aproveitando o melhor presente que meu irmão poderia me proporcionar.

O ano era 2014, depois de quase 20 anos em uma zona confortável recebi o convite para entrar em um acordo com a empresa que garantia minha subsistência, eles entraram com o pé e eu com o traseiro, de um 7 a 1 estrondoso no Mineirão frente a uma humilde nação Germânica e algumas preocupações familiares, eis que recebi a notícia que a Família iria aumentar.

Lembro perfeitamente da primeira vez que falamos sobre a data do nascimento do meu sobrinho, o prognóstico do médico é que ele nasceria na primeira quinzena de Setembro. Quando cravei, do nada, que ele estava errado e a data certa seria 28 de Agosto, o mundo veio abaixo, o mais brando comentário que escutei é que estava desejando que ele fosse prematura. Logicamente alguns de vocês não sabem, mas a bolsa estourou na manhã de 29 de Agosto e por volta das 20 horas o Arthur chegou.

O mais impressionante é que dois dias antes sonhei que estava em um centro cirúrgico com várias pessoas e o Arthur na idade adulta dizia, não agüento mais esta espera, se é pra nascer que seja de uma vez, eu estou pronto! Acordei e ainda comentei com minha esposa – vai ser nestes dias, pode te preparar, ele está chegando.

O danado resolveu, como um típico Cerva, contrariar e nascer um dia depois do que esperava, mas mudou totalmente a forma que enxergo o passar desta convenção terrena chamada existência. Ele foi a primeira criança recém-nascida que não chorava quando me aproximava, que consegue rir das palhaçadas sem jeito que faço, que puxa uma conversa intercalada de silabas ainda indecifráveis e principalmente descobriu uma parte de mim que desconhecia.


Mostrou a mim, com a inocência tão particular das crianças, que valeu a pena chegar até aqui, independente do jeito que foi, com tropeços, caminhadas e correrias, preocupações, festas e amores, com pouco cabelo e uma barriga que conta a história da Humanidade, que tudo serviu para me preparar a ser quem hoje escreve estas linhas e se ainda não sou como gostaria ou percebo como deveria perceber, que sempre é tempo de renegociar o contrato terreno, e o meu o fiz ficar por pelo menos mais uns 20 anos, porque nada há de mais belo que a capacidade de se reinventar.

domingo, 27 de novembro de 2016

Um Poema para Helena

"Sou puta
Quando uso a boca vermelha
Meu salto agulha
E meu vestido preto.
Sou puta
Mordo no final do beijo
Não fico reprimindo desejo
E nem me escondo na aparência de menina.
Sou uma puta de primeira
Acordo às 6:30
Pego ônibus debaixo de chuva
Não dependo de salário de macho
E compro a pílula no final do mês.
Sou uma puta com P maiúsculo
Dispenso o compromisso
Opto pela independência
Não morro de amor
Acordo sozinha
Cresço sozinha
Vivo na minha
Bebo em um bar de esquina
Vomito no chão da cozinha.
Sou uma putinha
Passo a noite em seus braços
Mas não me prendo no laço
Que você quer me prender.
Sou puta
Você tem o meu corpo
Porque eu quis te dar
E quando essa noite acabar
Eu não vou te pertencer
E se de mim você falar
Eu não vou me importar
Porque um homem que não me faz gozar
Nunca terá meu endereço.
E não é gozo de boceta
É gozo de alma
É gozo de vida
É me fazer sentir amada
Valorizada
E merecida
E se de puta você me chamar
Eu vou agradecer.
Porque a puta aqui foi criada
Por uma puta brasileira
Que ralava pra sustentar os filhos
E sofria de racismo na feira
Foi espancada e desmerecida
E mesmo sofrida
Sorria o dia inteiro
Uma puta mulher ela foi
E puta também eu quero ser.
Porque ser mulher independente
Resolvida
Segura
Divertida
Colorida
E verdadeira
Assusta os homens
E os machos
Faz acontecer um alvoroço.
Onde já se viu mulher com voz?
Tem que ser prendada e educada
E se por acaso for "amada"
Tem direito de ser morta pelo parceiro
Cachorra adestrada pelo povo brasileiro
Sai pelada na revista
Excita
Dança
Bate uma
Cai de boca
Mama ele e os amigos
E depois vai ser encontrada num bueiro
Num beco
Estuprada
Porque tava de batom vermelho
Tava pedindo
Foi merecido
E se foi crime "passional"
Pobre do rapaz
Apaixonado estragou a própria vida.
Por isso que eu sou puta
Porque sou forte
Sou guerreira
Não sou reprimida
Nem calada
Sou feminista
Sou revoltada
Indignada
E sou rotulada assim
Como PUTA!
Então que eu seja puta
E não menos do que isso."

-Helena Ferreira.

Imagem: Apollonia Saintclair.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Chatos Digitais


Tenho que concordar parcialmente com o escritor italiano Umberto Eco que declarou certa vez que as redes sociais deram voz aos idiotas. Não só as redes sociais, mas os aplicativos de comunicação instantânea, permitiram que os chatos ganhassem vez e voz, criando um mundo paralelo em que somos escravos de sua falta de bom senso e impertinência.

Como dimensionar quem é o chato da vez, de que forma dizer que estamos incomodados com esta tentativa de impor sua presença digital sem ampliar os melindres e os mimimis? É certo que em algum momento também nos vestimos com a capa da chatice, este é um drama em que estamos dos dois lados.

Você e eu, somos os chatos políticos, históricos, religiosos, piadistas e os tarados do bom dia e da boa noite. Não compreendemos o silêncio respeitoso que surge do outro lado da tela, a forma educada de dizer que desagradáveis. É difícil compreender que não receber uma mensagem de volta, também é uma mensagem.

Agora, as facilidades digitais nos torturam, são alem destes, as ligações e mensagens de telemarketing, cobranças, oferecimento de empréstimos, enfim, já começo a pensar seriamente em aprender a milenar arte dos sinais de fumaça, talvez assim seja menos chato e suscetível a eles ou talvez só demonstre que a medida que os anos passam, minha tolerância diminui proporcionalmente.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Não mereço o céu

Existem coisas que só acontecem com a pessoa. Alguns possuem o dom de atrair chatos, bêbados, impertinentes, por uma força inexplicável da natureza, atraio loucos e carentes. É fato, existe cinquenta pessoas em uma sala, mas o escolhido para aguentá-los, serei eu.
Hoje me deparei com uma situação destas, em que foi decidida para que canto minha alma será encaminhada quando chegar o momento derradeiro da viagem. Pensei que isso já havia sido determinado em um show do Nenhum de Nós quando privei uma mocinha histérica de pegar a baqueta do Sadi, mas isso é outra história. Esta que conto agora foi crucial para que Pedrão (São Pedro para os de fora) quebrasse a cadeira que reservava a sua direita para mim e a jogasse do Paraíso.
Fomos encontrar alguns amigos e no local havia um cidadão que narrava apavorado as noites insones, porque a caixa de descarga é acionada automaticamente sem ninguém usar o banheiro, que ele escuta a noite inteira um cachorro chorar no apartamento ao lado e que não nenhum destes seres lá, que já mudou de quarto porque há alguém que lhe puxa as cobertas, que ao redor da cama surgiu um pó preto, que chove no apartamento e outros enredos fantasmagóricos.
Minha paciência anda mais curta que as mini-saias das mocinhas que fazem favores sexuais em troca de dinheiro e aquela ladainha interminável, precipitou o inevitável. Uma força invisível foi movendo cada neurônio, estes acionaram os músculos da fala e o torpedo foi lançado com força e direção certas
Meu amigo - perguntei - que tipo de químico tens usado antes de deitar? Frente a negativa, emendei um - já pensou seriamente em chamar um exorcista pra resolver essa situação? Nesse momento os olhos do incauto ser atacado pelo invisível se avolumaram. Prossegui - só pode ser essa a explicação, um poltergeist está desesperadamente entrar em contato ou o prédio foi construído sobre um antigo cemitério indígena.
Ele ficou mais alguns minutos com um semblante de quem acusa o recebimento do golpe, deve ter buscado na memória os catecismos de outrora, pensar se havia alguma vela para oferecer a alma penada que não o deixa em paz.
Por fim ainda escutei de alguém presente - ao invés de acalmar o sujeito, tu faz exatamente o contrário!!! Nesse momento foi São Pedro me puxando a orelha, talvez o peteleco do além, tenho certeza, ou não!

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Muito Direito

Devia ter feito direito,
Ter me dedicado direito,
Ter estudado direito,
Cultivar as amizades direito,
Amado também direito.

Entre tantos direitos que
deixei atirados pelo caminho,
não existe nenhum mais dolorido,
que o de não ter sonhado direito.

Faça tudo o que for da lei,seja direito,
Não deixe para depois, utilize de seu direito
Porque a vida, não te dá esse direito!

sábado, 24 de setembro de 2016

Fragmentos XII

Lembrei da força que o Universo exerce sobre cada célula viva neste Planeta. O ímpeto de desejar mais do que se pode ter não é uma característica rara, todo Ser que possua capacidade de concatenar duas idéias, sempre tenderá a almejar o que não é totalmente seu por direito. Qualquer objeção não passará de simples Habeas Corpus.

Fragmentos XI

A primeira vez em nada difere da mais recente ou da última, porque todas trazem como essência a esperança da repetição e satisfação efêmera!

Pequeno Fragmento de Luz

O mais difícil em escrever qualquer linha sobre alguém que não está mais em tua vida, é a necessidade urgente de tornar a lembrança o mais impessoal possível.

Admiro, sincera e profundamente os poetas e escritores que mandam às favas tais convenções sociais e o cuidado de preservar o anonimato e gritam em profusão o nome de suas inspirações, dos amores agora impossíveis, mas sobre os quais teimosamente desejam escrever.

Não se preocupam com o desconforto da explicação, a dor de cabeça com indagações e aquela indignação semelhante a declaração da terceira, quarta, quinta ou quiçá sexta guerra. Desconhecem o ensinamento que todo amor, se não vivido, deve morrer sufocado entre lençóis.

Sogras

Existirá neste planeta azul, ser mais controverso da criação que este? Dizem que o homem mais feliz do mundo foi Adão que não teve sogra, embora alguns afirmem que a serpente do Jardim do Éden fosse a abençoada e adorada mamãe de Eva. Tudo é possível na imaginação humana, tudo, creiam!

Neste meu caminhar, baseado nas experiências que a vida proporcionou e a permissão de belas e interessantes companheiras, decidi que se algum dia  for baixado decreto para que se deseje algo pela última vez desejarei que se  erga no centro da principal praça de cada cidade, um monumento de loas a este frasco de sensibilidade e dureza.

Tive sogras que destilaram o veneno mortal das víboras e se pudessem teriam me feito morder uma maça, não da árvore do conhecimento, mas banhada no fel dos castigos eternos. Eram bestas que não entendiam seu papel no quebra-cabeças que uma relação se parece, feras que mordiam a mão que se aproximava de seu tesouro. Terrível experiência!

Outras, trouxeram de forma tão indelével dentro de sua alma o sentimento que une as pessoas, eram agregadoras, pacificadoras em sua missão de mostrar, orientar o caminho da serenidade. Ah, estas ficaram guardas em meu coração como a mais preciosa e rara joia da coroa, mesmo depois que a relação se tornou lenda, não por acaso, por que não creio nele, uma possui o mesmo nome que minha mãe. Destino? Quem explica! 

Deveria haver alguma lei que permitisse, em caso de encontrar uma Sogra rara destas, que ela permanecesse eternamente na vida do genro ou da nora, uma espécie de patrimônio existencial, um membro eterno da Família, sempre ali, aqui, em todo lugar, mostrando que há amor em todo Ser, mas não há, ou há?



Fragmentos X

Há muita dificuldade pra escrever a beleza da vida?
Depende - sempre dirá o polêmico,
O otimista afirmará positivamente,
O pessimista cravará um estrondoso sim,
Porém há um outro tipo esquecido,
Chamam-no de realista com informação,
uma evolução, Ser aprimorado da Teoria Darwiana,
não titubeante defenderá que todos se emudeçam
A beleza desta existência está gravada,
em apenas um diminuto grão de areia.

Fragmentos IX

Perdoe frustrar tuas expectativas, 
mas nem tudo que escrevo deve ser post litteram, 
já presenciei tantas transformações, 
tolos tornarem-se doutores e
o inverso ocorrer com frequencia, 
que a temeridade destes atos é
tão doce, tal bala de alcaçus.

Fragmentos VIII

Duas faces da mesma moeda,
não possuem o mesmo valor,
crê por acaso que palavras,
gritos sufocados podem 
alterar o curso de um rio?

Fragmentos VII

Te amo e odeio com a mesma intensidade,
Por que há em mim essa dualidade,
dois caminhos que não tomam tempo,
apenas as esperanças destroçadas,
de não possuir mais teu afeto

O “encantamento” de Domingos Montaigner - Roberto Malvezzi (Gogó)

Várias pessoas me pediram uma palavra sobre a tragédia com Domingos Montaiger. Como moro há quinhentos km do lugar, não tenho detalhes do fato. Mesmo assim, decidi fazer esse texto a partir do que sei do rio e do fato. Minha mulher é beradeira do São Francisco, assim como nossos filhos e filhas. Ela sempre dizia aos meninos: “água não tem cabelo”. 

Ela mesma foi salva quando criança ao cair de um barco por uma pessoa que pulou na água quando viu apenas seus cabelos passando à flor da água. Foi salva pela cabeleira. Eu conheci Domingos pessoalmente na oficina sobre o rio São Francisco que fiz para atores, diretores e produção no Rio de Janeiro. No intervalo da oficina conversamos bastante, junto com Letícia Sabatella – ia fazer o papel de Camila Pitanga – e Lucy Alves. Pessoa muito simples e muito cidadã. 

Eu passava sempre por Canindé do São Francisco, indo ao baixo São Francisco. Há uma ponte que liga Alagoas (Piranhas) e Sergipe (Canindé). Quando se acaba de atravessar a ponte, está a referida prainha. Sempre muito quente, a vontade que dá é mesmo pular na água. Foi o que ele e Camila Pitanga fizeram. Acontece que a referida prainha está apenas há uns 300 metros abaixo da barragem de Xingó. Era o final antigo do Cânion – hoje represado-, logo abaixo, em Piranhas, o rio voltava a ser navegável. Hoje, com a barragem, a dinâmica das águas ficou modificada. O rio está raso, há muita pedra e muita correnteza, com poços profundos. 

Quando eles decidiram ir mais para o meio do rio, não imaginavam o risco que corriam. Pelo relato de Camila, a força da água aumentou e, pior, havia um “remanso”, isto é, redemoinho na água que puxa para o fundo. Além do mais, ele tentou nadar contra a corrente, quando o normal seria descer com a correnteza, tentando se aproximar de outra pedra ou procurar a margem do rio. 

A tragédia teria sido pior se ela tivesse pulado na água para salvá-lo. Estamos acostumados a ver o afogamento de duas ou três pessoas aqui no Velho Chico, quando um tenta salvar o outro, mas sem saber nadar direito ou sem técnica de salvamento. Esses dias dois irmãos morreram abraçados aqui na Ilha do Fogo, entre Juazeiro e Petrolina. 

As lendas do São Francisco falam nos “encantados”, aqueles que estão ali presentes, mas são invisíveis aos nossos olhos. Assim são as pessoas, assim é o “vapor encantado”. A novela trabalha com essas lendas. Impossível não ficar perplexos com essa situação. Só pude mandar um abraço aos atores e atrizes que conheci nesse contexto. Mesmo sem conhecer, aqui em casa pensamos muito na família real. Foi isso também que Letícia Sabatella me disse. 

Domingos tornou-se mais um encantado do Velho Chico, um rio sofrido e cheio de mistérios.

Farfalla

Minha capacidade de armazenamento de dados tem diminuído drasticamente nos últimos anos, este é o maior reflexo do acúmulo de aniversários e preocupações. Recordo perfeitamente datas Históricas, fatos da economia e da política mundial, dos malfadados boletos bancários e dos impostos e taxas governamentais a serem recolhidas, mas a trilha onde as datas pessoais estão gravadas parece, começar a ficar inacessível.

Tentei muito relembrar a data exata em que a conheci, como se fosse fato imperioso ou a responsável pela paz mundial, não consigo! Lembro perfeitamente que já passou de uma década, muito provavelmente tenha sido em uma noite de quarta-feira, final de outono, inicio do inverno, quem sabe afirmar? Talvez ela, se não estiver vivendo a mesma experiência que eu.

Incrível, mas recordo a primeira vez que a toquei, no joelho, de leve, enquanto líamos a passagem de um livro, ou ainda daquela vez que no auge dos vinte e poucos afirmei que muitos homens encaram as mulheres como um pedaço de carne exposto no açougue, pronto para ser comprado e preparado no churrasco de domingo, da galhofa de um amigo, do sorriso que ela deu e a defesa de fez de minha tese.

Lembro ainda de muita coisa, do beijo quase concretizado no meio de uma avenida, do primeiro encontro de nossas bocas, do aconchego do sono depois da primeira noite de prazer, do despertar, do brique da Redenção aos domingos e de uma quantidade de bagagem, das descobertas, da mudança, de Bryam Adams cantando (Everything I do) I do it for you em nossa primeira noite de casados, guardo o perfume dos incensos, da casa arrumada e da tintura que cobria seus cachos.

Viagem dourada e perfeita? Claro que não, altos e baixos, brigas, discussões, atritos também fazem parte do amadurecimento de jovens donos do mundo. Não há expedição ao desconhecido que não proporcione algum tipo de desconforto e aborrecimento, é um caminho que irremediavelmente leva a um destino, parecido com dramalhão mexicano ou romance americano, é necessário encerrar um capítulo e começar uma nova estória.

Arrependimento?Ela foi exatamente quem eu precisava ter ao lado naquele momento, dura e amorosa, cinéfila, prenda e doida, professora e aluna, intensa, ciumenta e principalmente enfermeira. Ela demonstrou toda a verdade escancarada no dito popular, se cura as feridas de um amor com um novo amor.  Eu fui o que ela precisava? Algumas vezes penso que sim, em outras não tenho certeza, e em inúmeras afirmo que não.

Desejei mal ou que fosse infeliz em algum momento? Como poderia desejar isso para alguém que confiou a mim seu sono? Alguém que deitou ao meu lado e vi dormir serenamente, com quem descobri o melhor e o pior de mim? Acaso mantenho algum tipo de contato? Sim, o faço depois de tanto tempo, ainda mantemos uma ligação mental, que já foi mais forte, mas que se mantém viva.

Vibrei com suas conquistas, a graduação, a casa própria, por continuar dona de seu nariz, por não desistir de viver mesmo com todas as pancadas que já levou nessa existência e fico particularmente feliz por saber que tudo foi possível por seu próprio esforço e dedicação. Ela metamorfoseou-se, crisálida que libertou uma borboleta que não pousa onde não deseja.


Recordo disso tudo com uma precisão extraordinária, mas veja, não das datas estas marcações do calendário, convenções sociais e de tempo, insistentes em nos ludibriar, afirmando serem mais importantes do que os fatos que aconteceram nelas. 

domingo, 18 de setembro de 2016

Sobre estas Partidas

A perda de uma vida é geralmente traumática, uns encaram de uma forma natural, outros como uma afronta do destino por chegar tão cedo, mesmo que este cedo seja aos 90 e poucos.  É uma ilusão, um acalento mostrar-se durão e afirmar estar preparado para o momento. Nada passa de formosa convenção social, tentar negar o inegável, fugir da única e infindável certeza da vida, chegará um dia em que partiremos. A forma que conduzimos nossas ações e vivemos nossa relação com este plano, nos conduzirá a adentrar o mundo de Hades ou os Campos Elísios.


O Brasil perdeu neste setembro um dos seus maiores talentos dramatúrgicos, Domingos Montagner, no auge de sua capacidade produtiva, 54 anos, jovem (ainda mais comparado a quem está com quarenta anos) e repleto de planos, protagonista da novela do horário nobre, que narra à estória dos desmandos dos coronéis, ocorrida nas margens do velho Chico, teve sua vida ceifada pelas águas do rio que empresta nome a trama.

Assista, se você já o fez, assista novamente a entrevista que a atriz Camila Pitanga, atriz com quem o ator fazia par romântico, concedeu ao programa Fantástico. Ela foi testemunha dos últimos momentos de energia vital de Domingos. Terminavam naquele final de semana, as gravações externas da novela na região e para se despedir do rio, os atores planejaram um último mergulho em suas águas.

Não aprecio o trabalho da artista e tão pouco comungo das mesmas convicções políticas da pessoa Camila, mas isto não impede que seja empático e compreenda sua dor, que creiam, será eterna.  Testemunhar o momento da partida de uma pessoa causa em todo ser humano um impacto gigantesco, cria uma marca insolúvel, principalmente quando ela é trágica. Ela presenciou o último olhar de um ser humano, tentou por duas vezes tirá-lo da água, conduzir o amigo a uma região mais tranqüila do rio, ficou em dúvida, tentar um terceiro resgate, pensou em sua própria sobrevivência, ficar ou ir, uma série de decisões em segundos.

O momento do desenlace, geralmente não carrega consigo dignidade. Morrer não é o sonho de ninguém, é assunto postergado, jogado para baixo do tapete, esquecido nos corredores da alma e do pensamento. Presenciar o adeus a este mundo de uma alma é um privilégio, é uma prova da enorme confiança que aquele que parte tem no que fica. É revelado de forma escancarada que nada sabemos acerca dos mistérios da existência.
Lembro do momento da partida de minha tia, após longo e corajoso período de luta contra um câncer que lhe consumiu o corpo. Ela já estava totalmente sedada, talvez, não sentindo tanta dor, esperando o derradeiro bilhete de embarque para sua última viagem, mas estava de olhos abertos quando entrei no quarto.

Passados quase nove anos recordo a roupa que vestia, o trecho de um livro espírita que li antes de sair do trabalho – deixe que os mortos cuidem de seus mortos, o elevador que não chegava, os cinco andares percorridos com correria, a hora que entrei no quarto (12:50), seu último suspiro e a última lágrima que escorreu em seu rosto.

 É inegável, Camila terá como companheiras eternas uma quantidade de dúvidas, poderia ter feito algo diferente? E se tivessem ido a outra parte do rio? E se não tivessem combinado o banho? Serão infindáveis “ses”, mas uma única certeza, na indignidade da morte, Domingos a honrou como sua fiel companheira de partida.

Imagens retiradas da Internet



terça-feira, 13 de setembro de 2016

Sobre Cucas, Casamentos e Afins

Gosto de participar do que convencionei chamar de provocação literária, que consiste exatamente em criar estórias através de um tema qualquer. Aprecio ainda mais quando ela surge em dias chuvosos que lembram o inverno Londrino e o que foi proposto obriga aqueles dois neurônios remanescentes a se encontrarem e entrarem em comum acordo sobre que caminho trilhar e principalmente como escrever.

Indiretamente quem me provocou foi a Adriana, minha amiga e ex-colega dos tempos da  Universidade que foi tentar a vida no Velho Mundo, mais precisamente em Vitória Gasteiz, no País Basco e que para quem não sabe está incrustado no antigo Império Espanhol.  Ela é uma guria espetacular, alto astral e de uma generosidade sem igual, compartilhamos a profissão e o gosto pelo consumo às vezes sem moderação de literatura e cultura. Sabedora dessa minha compulsão me prometeu um exemplar de Dom Quixote em Espanhol, vejam só!

O melhor de conhecer alguém que vive do outro lado do Atlântico e que, principalmente, se disponha a dividir sua nova cidade através das modernas tecnologias de comunicação é conhecer locais belíssimos, que se quer imaginava existir e principalmente, a possibilidade de deparar-se com os pormenores de uma civilização totalmente diversa. As fotos dos cafés, das ruas e praças, livrarias e pratos que ela gentilmente compartilha, poderiam perfeitamente originar um livro de arte fotográfica tamanho o colorido e arquitetura.

Hoje ela encaminhou essa foto com as belíssimas e quiçá saborosas cucas. Para quem não está habituado ao nosso linguajar, cucas não são cabeças soltas que rolam por ai, elas são bolos recheados ou não e cobertos com uma farofa fantástica, que ao meu paladar é o ponto alto da iguaria. Haja como contentar gordos e magros, gregos e troianos, brasileiros e brasileiras!

Comentei que ela estava se tornando cada vez mais prendada, expert no domínio da secular arte culinária e esta é uma das gloriosas experiências que o matrimônio recém adquirido proporciona. Logicamente que para toda ação, há sempre uma reação oposta de igual intensidade – se Newton não disse isso, esta frase passa a ser minha – e ela contra-argumentou que nós homens, possuímos uma relação ímpar e incomparável com a comida. Esta talvez seja a maior injustiça impetrada contra nós, homens de boa fé e índole. A relação que nutrimos pela comida é a mesma que nutrimos por qualquer outra que nos proporcione prazer. Simples assim!

O importante, o fio desencapado, o ômega, o xis oculto da questão é que o matrimônio te apresenta a inúmeras possibilidades de aprendizado e crescimento e sobre o tema posso falar com certo conhecimento de causa.  Talvez por seguir os passos de meu avô que casou três vezes e teve alguns romances pelo trajeto percorrido do berço ao túmulo, já o alcancei no número de matrimônios e alguns primos também honram ou não a saga do Vecchio nono!

Casar queridos amiguinhos é presenciar a diminuição da freqüência do intercurso carnal com o passar dos anos, talvez porque os arroubos da paixão cederam espaço para a maturidade do amor, pela disponibilidade diária do corpo e da alma ao seu lado de forma prática, rápida e indolor ou ainda há outra possibilidade, os pombinhos passaram a valorizar a qualidade e deixaram de lado a quantidade de vezes que aquela troca de fluídos ocorre. Um amigo costuma dizer que você sabe se os casais ainda se procuram pela forma que o marido apresenta a esposa, se ele disser fulano, esta é a minha “senhoura”, deu, ou melhor, não deu mais.

Dividir o lar é descobrir pêlos e cabelos que não são seus grudados no sabonete, na toalha de banho, nas grossas roupas de inverno, no travesseiro surrupiado e abraçado durante sua ausência consentida no leito de núpcias, além disso, é juntar as escovas naquele deprimente copinho sobre a pia do lavatório, é encontrar pentelhos juntos e misturados em constante harmonia no ralo do Box, é querer amaldiçoar trezentas gerações do parceiro por tentar de forma dissimulada colocar uma cortina de peixes coloridos e psicodélicos no banheiro.

Coabitar é ter o estresse do sapato no meio da sala, a roupa jogada sobre a ergométrica – o mais caro cabide da história – é toalha molhada e amarrotada sobre a cama, cobertas no chão, tapar e se destapar igual um processo industrial em noites mal dormidas, receber aquela reprimenda clássica – dá pra parar de se mexer, estou tentando dormir?

Estar amigado é justamente tudo isso e mais! É água bebida direto da garrafa com a geladeira aberta, pão dormido, provar o molho na panela, discordar da quantidade de temperos utilizados no prato, é dobrar a receita sabendo que não vai dar certo e escutar aquele sonoro “eu avisei”. Recentes estudos de uma conceituada universidade afirmam que essa simples e quase inofensiva expressão já resultou em mais conflitos que a briga por terra, se há verdade ou não, que se arrisca a comprovar? Eu não!

Morar junto não é tarefa das mais difíceis e tão pouco flerta com a facilidade de resolver uma equação composta de matemática. Complicado mesmo é entrar em acordo sobre os móveis, sobre a disposição de cada um nos cômodos do espaçoso sala, dois quartos e cozinha conjugada.  Não existe uma fórmula pronta igual à cuca hispano-tupiniquim da Adriana, cada qual com o seu qual e, por favor, não venha querer mudar a minha receita!

O credo popular já diz, o casamento é uma relação a dois em que a esposa está sempre certa. Talvez o casamento seja a relação em que você deseja ardentemente e de forma repetida, trucidar o outro, mas não o faz porque lembra que esse outro te ajuda a pagar as contas no fim do mês, porque sem esse outro, você jamais encontrará o controle remoto perdido sobre o sofá, não terá mais aquele despertar com bafinho, olheira e cara amarrada, a cobrança pesada tal qual um paquiderme sobre a bagunça da casa e a exigência para participar mais no cuidado com as crianças (embora não seja obrigatório que existam rebentos para um casal ser feliz e completo).


Ah, desculpe, esqueci de perguntar se você achou tudo isso escatológico demais? Pois é, viver é assim mesmo, com pequenas variações, o que foge desse quadro de caos é conto de fadas, estória fantástica e lenda urbana. Aventurar-se neste novo e desconhecido mundo não é obrigatório, mas é uma viagem inigualável de experiências e sensações iguais as que a Adriana está explorando entre um bolo e um café, um camarão na moranga e uma paella, entre fatias da mesma cuca, mas o importante é não deixar que elas embatumem! 







Imagens de Vitoria Gasteiz, retiradas da Internet sem autoria

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Perdão, preciso Ser Tolo

O Brasil é um País fantástico, uma fábrica capaz de criar e gerir polêmicas com uma velocidade espantosa; se a pessoa não prestar atenção, fica totalmente desatualizada sobre o que não possui relevância social. A mais recente polêmica é a publicação de uma coluna de um escritor e humorista, intitulada “Desculpe o transtorno, preciso falar de Clarice”, que versa sobre momentos da relação dele com a ex-mulher. 


Todo ser humano já escreveu alguma linha sobre seu relacionamento. Talvez seja o tema mais fácil de ser desenvolvido, uma vez que, este é um dos principais combustíveis de nossa vida, motivo mor para a existência do gênero humano na Terra.

Isso fez com que me lembrasse de um de um poema escrito por um dos Poetas de minha Família, o Mestre Fernando Pessoa, sob o heterônimo de Álvaro de Campos. 

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)


O poema e o texto publicado para Clarice, fizeram-me recordar do tempo em que me debruçava sobre o papel, empunhando bravamente a caneta para escrever tolas cartas de amor. Existiu este período em minha existência e elas tornaram-se uma obsessão, no mínimo a cada 30 dias uma carta nascia e era direcionada ao primeiro grande amor de minha vida e com o passar do tempo, qualquer motivo, por mais banal que fosse justificava a missiva.

Sim, você leu corretamente, meu primeiro amor foi vivido em uma época pré-histórica em que não existiam emails, sms, redes sociais e aplicativos de comunicação e pasmem a comunicação entre as pessoas era exercida através da conversa olho no olho, ligação telefônica, muitas vezes através de telefones públicos e cartas. As gerações atuais e futuras jamais saberão o que significava encarar a fila dos Correios para encaminhar uma carta social ao simbólico custo de hum centavo de Real e ficar imaginando a reação de quem a recebeu. Jamais, creiam!

Os anos foram passando, e aquele amor de outrora foi eterno enquanto durou, seguindo precisamente as recomendações literárias. Chegou o momento em que ele precisou ser enterrado apesar de ainda estar vivo, respirando talvez com a ajuda de aparelhos, querendo se agarrar a qualquer sopro que lhe devolvesse as forças. Veio o curto luto e enfim, milagres acontecem e outros amores nasceram e com ele o coração vadio foi ficando cada vez mais calejado.

Apesar de serem amores intensos, quentes e inesquecíveis, as cartas foram rareando até desaparecerem em um horizonte não tão distante. Estas relações não mereciam tolas e inconseqüentes cartas de amor? Sim, mereciam, porém elas tornaram-se obsoletas, perdidas e deslocadas em um mundo de constante mutação em que é preciso escolher entre o devaneio e a cruel realidade.

Tornei-me um cético e sério homem? Não! Continuo a ser tolo em menor escala, passei a escrever poemas de duvidosa qualidade e péssima métrica, sem estilo e repletos de sinceridade e palavras simples e de duplo sentido. Através deles presto minha singela contribuição a este mundo canalha que teima em extinguir o que realmente aquece nossos corações e alma, o sentimento que não deve adormecer jamais, aquilo que nos torna tolos, o amor!

terça-feira, 30 de agosto de 2016

O retorno

Assim como existem músicas para dançar e outras para escutar,
também entram neste grupo os pensamentos que não devem crescer,
sentimentos a serem sufocados, soterrados por toneladas de interrogações.
A espera pelo depois independe da boa vontade imersa no ser,
deixa esperar pelos momentos espalhados nas esquinas
o esquecimento daquelas estórias longas e sem profundidade.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Ignorar a merda não vai fazê-la sumir



Que belíssima reflexão!!!


Ignorar a merda não vai fazê-la sumir
Reconhecê-la pode torná-la menos incômoda em nossas vidas



Gostaria de falar da merda.

Nós precisamos falar da merda. Porque ela existe.

Ninguém gosta de estar na merda. As pessoas não gostam nem de falar sobre a merda. Na maioria das vezes, é melhor ficar de bico fechado sobre a merda. A gente finge que a merda não existe. Só que ao querer torná-la invisível só estamos admitindo o quanto ela nos incomoda e o quanto não sabemos lidar com ela.

Nobody loves you when you’re down and out/Nobody sees you when you’re on cloud nine (“Ninguém lhe ama quando você está para baixo e pobre/Ninguém lhe percebe quando você está extremamente feliz”, na canção de John Lennon.)

A gente foge das coisas que nos botam medo. Colamos em quem trilha o caminho de sucesso eternamente ensolarado (e falso) que desejamos para nós. E isolamos quem está triste. E nos afastamos de quem descarrilou, e nos desinteressamos de quem escolheu outro caminho.

Hoje, como diria uma amiga, “o mundo é flores”. Ela brinca com a concordância para discordar dessa ideia de que tudo são sorrisos, de que só há gente feliz e realizada para todo lado que você olha. Nas redes sociais isso é mais claro do que em qualquer outro lugar. Quase todo mundo ali é belo, radiante, colorido.
Não há espaço para o cinza. E o cinza não é um inimigo da cor. Às vezes é um respiro no gradiente que permite às demais cores serem ainda mais intensas. (O cinza também é uma cor.) Não há espaço para momentos de introspecção, para momentos de dúvida ou de cansaço ou mesmo de tristeza. No mundo da aprovação instantânea, vivemos a ditadura da euforia. Você está proibido de parar de mostrar os dentes.

Não estou aqui para celebrar a merda. Não estou aqui para glorificar a merda. Eu sei bem como é a merda. Sei bem como é estar na merda. E lhe digo: a merda é uma merda. Não sou fã nem amigo da merda.

Mas também não acho que essa mentira coletiva faça algum sentido. Alegria é uma coisa boa, mas não é humano esperar que ela preencha 100% dos espaços em nossas vidas. E nós precisamos ser mais humanos, nos admitir humanos. Nada é mais triste do que um alegria falsa, do que um clima de festa forçado.

O belíssimo filme “Divertida Mente”, Inside Out, da Pixar, trouxe para a luz a importância do entendimento de cada emoção e sentimento. Perceber o papel da tristeza em nossas vidas, compreender que a alegria infundada e alucinada não resolve tudo, de forma tão poética, bem humorada e divertida talvez tenha sido uma das maiores colaborações recentes da arte para a vida concreta das pessoas. Se você não viu, veja. Se você já viu, veja outras vezes. Os sentimentos precisam ser reconhecidos e respeitados. Todos eles nos formam e nos ajudam e devem ter seu lugar e sua vez dentro de nós.


O mundo superficial das redes sociais expressa a nossa dificuldade em lidar com isso. Aqui embaixo, na vida real, física, de carne e osso, a coisa pega ainda mais.

Falemos do mundo corporativo, onde boa parte de nós desenvolve suas carreiras. O ambiente executivo tem pavor da merda. Não há espaço para dor. Não há espaço para os altos e baixos da existência. Depressão é vista como um crime hediondo, uma palavra que você não ousa pronunciar e que a maioria das pessoas afoga em comprimidos de variadas cores e efeitos.

Todo mundo tem seus dias sem cor e seus desvãos da alma. Isso é humano. Mas ninguém fala sobre isso. Por vergonha. É preciso estar sempre pra cima. É preciso estar sempre animado. Não importa o terremoto, o tsunami ou a bomba atômica que estourem sobre a sua cabeça, ou que existam dentro de você.
A dor psíquica é proibida. Algumas emoções são vistas como fraqueza, como bobagem, como um elemento a ser banido. Como se não falar sobre a coisa – que existe dentro de todos nós – fosse fazer a coisa desaparecer.

Você é convidado, no mundo das empresas, a ser um super-homem e uma supermulher. Esse é o mito que nos move na vida profissional: cavaleiros solitários que passam incólumes por tudo, gente durona que não sente as coisas, que trata apenas de resolvê-las. As relações de trabalho não devem lhe afetar pessoalmente. E você não pode contaminar o ambiente como uma fruta podre. Mantenha as aparências. Mantenha o espírito exultante. O escritório dever ser como numa colônia de férias excitada por G.O.s (lembra dos “gentis organizadores”?).

Eis a vida adulta como ela se apresenta para nós. A gente tem contas pra pagar. A gente tem responsabilidades. Não podemos levar “nossos problemas de casa” para o trabalho. Como se a gente não fosse a “casa” dos nossos problemas…

Para algumas pessoas é tranquilo fingir, esconder, sublimar, criar uma personagem e atuar a partir daquela persona, cujas falas às vezes divergem completamente daquilo que estamos sentindo e pensando de fato. Para outra, é impossível manter todas as aparências por todo o tempo. (Graças a Deus!)

Quem se deixa entrever por trás da marca acaba sofrendo. O sistema não lida bem com verdades que destoem do coro geral. Como nos tempos de escolas, nas turmas de amigos, a tendência é quase sempre deixar para trás o que é triste – afinal, ninguém está a fim de “bad vibes” (se estou represando as minhas, por que esse cara não dá um jeito nas suas também?).
Há um jeito melhor de conviver com a merda?

Penso que ajuda admitirmos que ela existe. E que fazer de conta que ela não está ali só a torna mais poderosa.

Depois, nos admitirmos humanos vivendo entre humanos. Não somos perfeitos – então devemos tratar a imperfeição alheia com humildade e compaixão. Só a empatia – outro sentimento exclusivamente humano – pode ajudar. Tentar entender, se colocar no lugar do outro, ouvir – como é importante saber ouvir! –, admitir o outro, sem julgamentos, reaprender a vê-lo. Tudo isso pode diminuir a pressão. Não apenas sobre o outro, mas também sobre si mesmo – sim, você também pode ter um dia ruim, amigo. E eu não lhe abandonar por causa disso. Acolher é melhor do que excluir. Acolher o outro significa também ser acolhido. Excluir o outro é se excluir também.
Ao longo da minha carreira, vi muita gente ser excluída. O sistema expele de modo sumário e cruel peças que deixam de performar bem. Só que nós não somos peças. E o sistema não é algo externo – nós somos a engrenagem. Não somos apenas vítimas dela. Somos também seus pilotos. Então podemos influir no jeito com ela vai funcionar. Se as coisas estão tortas, temos participação nisso. E podemos ajudar a melhorar.

Lembro de um amigo, atravessando um momento ruim, com a vida encrencada em casa e com um problema de coluna que lhe causava dores crônicas, ser ejetado do mundo corporativo. Pouco tempo depois, eu mesmo, afundado na depressão que me trazia dores emocionais e físicas, também fui convidado a me retirar.

Naquele momento, a exclusão me fez muito mal. Mas, hoje, olhando para trás, acredito que, no fim das contas, me fez bem. Não ser aceito, vivendo o que eu vivia e sendo quem eu era naquele momento, só potencializava tudo o que podia haver de pior. Continuar ali, daquele jeito, não era nada bom. Sair abriu um novo caminho, uma nova perspectiva.

A experiência de cair e de levantar me ajudou a entender melhor o sistema. Me ajudou a fortalecer dentro de mim meus valores em relação ao mundo, ao trabalho, às pessoas, a mim mesmo. A gente aprende. Inclusive, e principalmente, com a dor. (Outra razão para admitirmos, sem noias, que ela é parte integrante em nossa vida e que cumpre uma função.) Hoje compreendo melhor meus desejos, minhas crenças, minhas particularidades.

A exclusão me fez trilhar um caminho diferente. Encontrei a oportunidade de aprender a usar o amor para lidar com dores muito maiores do que as minhas, me abrindo a outras pessoas, de forma positiva e otimista. Tal como meu trabalho com crianças com câncer e suas famílias, desenvolvido no Beaba, ONG da qual eu orgulhosamente faço parte. (Entra o merchan: colabore com a nossa cartilha “Beaba do Câncer”, clicando e doando aqui.)

Falei desse assunto pela primeira vez numa carta para mim mesmo, 10 anos atrás, num projeto do site Hypeness, publicada em março de 2014. Algumas pessoas me criticaram. Acharam que eu estava me expondo demais. Na era apenas um desabafo. Era a tentativa de capturar, entender e explicar a realidade que eu estava vivendo naquele momento. Justamente por isso, eu não poderia mentir para mim mesmo, ali, falando comigo mesmo. E compartilhar a sua verdade com os outros não poder ser algo ruim. Nem para você nem para os demais.

A depressão é uma doença. É importante dizer que ela não é uma tristeza banal, uma melancolia qualquer ou uma coisa apenas emocional. É um baita desequilíbrio no organismo, de aspectos químicos e energéticos. Não consigo entender exatamente o que me levou a ela, mas tenho a compreensão de diversos fatores, desde uma tendência familiar – um histórico que vem do bisavô – ao fato de a vida ter me colocado num caminho no qual fiz escolhas que não deram muita chance de olhar para mim mesmo, jogando muita sujeira para debaixo de um imenso tapete. Uma hora, a coisa acumula tanto e só aí a gente vê o estrago que isso faz.
Enquanto estive na merda, houve gente que passou pelo meu caminho e me aqueceu o coração. Gente que estendeu a mão. Ou apenas perguntava, todos os dias, como eu estava. Posso dizer que essas pessoas me salvaram.

Eu lutava para vencer a barreira que colocava para quem queria chegar perto. Quando eu digo “todos os dias” não é figura de linguagem. Há gente no mundo que já percebeu a importância de ser gente – antes de ser qualquer outra coisa. Elas têm minha gratidão. E elas me inspiram a perguntar, hoje, para outras pessoas, “todos os dias”, literalmente, “como você está?” Quem recebe, como eu recebi, tem a obrigação de oferecer também. Não tenho o direito de questionar quem não percebeu ou o tanto de gente que nem soube como chegar perto. Poucas coisas são tão difíceis na vida como lidar com o sofrimento do outro. Mas eu peço: insista. Com delicadeza, mas insista. Ninguém consegue sozinho. Eu não consegui.

A merda existe. Outros dias escuros e frios virão. Cada dia é único e deve ser vivido com toda a intensidade e paixão que ele merece – os bons e os não tão bons. O único tempo que existe é o presente. Ela é parte da vida. E a vida é real, é única, é fantástica com tudo de bom e de ruim que ela traz – inclusive a merda.

Reconhecer seu valor – da vida, não da merda – é o que pode ajudar a ultrapassar as piores fases de nossas vidas. Perder essa capacidade é morrer. E, na boa, eu não estou a fim disso.

*Jean Boëchat (42), o Jampa - é, jobiniamente falando, “um pobre amador apaixonado”. É também escritor, compositor e diretor de estratégia digital da agência Talent. É também voluntário do Beaba, ONG que busca desmistificar o câncer infantil de forma leve e otimista.

Artigo publicado originalmente no Draft e gentilmente cedido ao Administradores.com pelo site e o autor.

Estes longos dias



Como são corridos estes dias,
Sinto falta daquele moroso passar,
do ponteiro do relógio que cadenciava a infância...
éramos felizes e não sabíamos!
Agora adultos que somos,
precisamos fingir que o tempo que nos abala
é somente aquele percebido no reflexo do espelho.