segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Perdão, preciso Ser Tolo

O Brasil é um País fantástico, uma fábrica capaz de criar e gerir polêmicas com uma velocidade espantosa; se a pessoa não prestar atenção, fica totalmente desatualizada sobre o que não possui relevância social. A mais recente polêmica é a publicação de uma coluna de um escritor e humorista, intitulada “Desculpe o transtorno, preciso falar de Clarice”, que versa sobre momentos da relação dele com a ex-mulher. 


Todo ser humano já escreveu alguma linha sobre seu relacionamento. Talvez seja o tema mais fácil de ser desenvolvido, uma vez que, este é um dos principais combustíveis de nossa vida, motivo mor para a existência do gênero humano na Terra.

Isso fez com que me lembrasse de um de um poema escrito por um dos Poetas de minha Família, o Mestre Fernando Pessoa, sob o heterônimo de Álvaro de Campos. 

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)


O poema e o texto publicado para Clarice, fizeram-me recordar do tempo em que me debruçava sobre o papel, empunhando bravamente a caneta para escrever tolas cartas de amor. Existiu este período em minha existência e elas tornaram-se uma obsessão, no mínimo a cada 30 dias uma carta nascia e era direcionada ao primeiro grande amor de minha vida e com o passar do tempo, qualquer motivo, por mais banal que fosse justificava a missiva.

Sim, você leu corretamente, meu primeiro amor foi vivido em uma época pré-histórica em que não existiam emails, sms, redes sociais e aplicativos de comunicação e pasmem a comunicação entre as pessoas era exercida através da conversa olho no olho, ligação telefônica, muitas vezes através de telefones públicos e cartas. As gerações atuais e futuras jamais saberão o que significava encarar a fila dos Correios para encaminhar uma carta social ao simbólico custo de hum centavo de Real e ficar imaginando a reação de quem a recebeu. Jamais, creiam!

Os anos foram passando, e aquele amor de outrora foi eterno enquanto durou, seguindo precisamente as recomendações literárias. Chegou o momento em que ele precisou ser enterrado apesar de ainda estar vivo, respirando talvez com a ajuda de aparelhos, querendo se agarrar a qualquer sopro que lhe devolvesse as forças. Veio o curto luto e enfim, milagres acontecem e outros amores nasceram e com ele o coração vadio foi ficando cada vez mais calejado.

Apesar de serem amores intensos, quentes e inesquecíveis, as cartas foram rareando até desaparecerem em um horizonte não tão distante. Estas relações não mereciam tolas e inconseqüentes cartas de amor? Sim, mereciam, porém elas tornaram-se obsoletas, perdidas e deslocadas em um mundo de constante mutação em que é preciso escolher entre o devaneio e a cruel realidade.

Tornei-me um cético e sério homem? Não! Continuo a ser tolo em menor escala, passei a escrever poemas de duvidosa qualidade e péssima métrica, sem estilo e repletos de sinceridade e palavras simples e de duplo sentido. Através deles presto minha singela contribuição a este mundo canalha que teima em extinguir o que realmente aquece nossos corações e alma, o sentimento que não deve adormecer jamais, aquilo que nos torna tolos, o amor!

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