domingo, 18 de setembro de 2016

Sobre estas Partidas

A perda de uma vida é geralmente traumática, uns encaram de uma forma natural, outros como uma afronta do destino por chegar tão cedo, mesmo que este cedo seja aos 90 e poucos.  É uma ilusão, um acalento mostrar-se durão e afirmar estar preparado para o momento. Nada passa de formosa convenção social, tentar negar o inegável, fugir da única e infindável certeza da vida, chegará um dia em que partiremos. A forma que conduzimos nossas ações e vivemos nossa relação com este plano, nos conduzirá a adentrar o mundo de Hades ou os Campos Elísios.


O Brasil perdeu neste setembro um dos seus maiores talentos dramatúrgicos, Domingos Montagner, no auge de sua capacidade produtiva, 54 anos, jovem (ainda mais comparado a quem está com quarenta anos) e repleto de planos, protagonista da novela do horário nobre, que narra à estória dos desmandos dos coronéis, ocorrida nas margens do velho Chico, teve sua vida ceifada pelas águas do rio que empresta nome a trama.

Assista, se você já o fez, assista novamente a entrevista que a atriz Camila Pitanga, atriz com quem o ator fazia par romântico, concedeu ao programa Fantástico. Ela foi testemunha dos últimos momentos de energia vital de Domingos. Terminavam naquele final de semana, as gravações externas da novela na região e para se despedir do rio, os atores planejaram um último mergulho em suas águas.

Não aprecio o trabalho da artista e tão pouco comungo das mesmas convicções políticas da pessoa Camila, mas isto não impede que seja empático e compreenda sua dor, que creiam, será eterna.  Testemunhar o momento da partida de uma pessoa causa em todo ser humano um impacto gigantesco, cria uma marca insolúvel, principalmente quando ela é trágica. Ela presenciou o último olhar de um ser humano, tentou por duas vezes tirá-lo da água, conduzir o amigo a uma região mais tranqüila do rio, ficou em dúvida, tentar um terceiro resgate, pensou em sua própria sobrevivência, ficar ou ir, uma série de decisões em segundos.

O momento do desenlace, geralmente não carrega consigo dignidade. Morrer não é o sonho de ninguém, é assunto postergado, jogado para baixo do tapete, esquecido nos corredores da alma e do pensamento. Presenciar o adeus a este mundo de uma alma é um privilégio, é uma prova da enorme confiança que aquele que parte tem no que fica. É revelado de forma escancarada que nada sabemos acerca dos mistérios da existência.
Lembro do momento da partida de minha tia, após longo e corajoso período de luta contra um câncer que lhe consumiu o corpo. Ela já estava totalmente sedada, talvez, não sentindo tanta dor, esperando o derradeiro bilhete de embarque para sua última viagem, mas estava de olhos abertos quando entrei no quarto.

Passados quase nove anos recordo a roupa que vestia, o trecho de um livro espírita que li antes de sair do trabalho – deixe que os mortos cuidem de seus mortos, o elevador que não chegava, os cinco andares percorridos com correria, a hora que entrei no quarto (12:50), seu último suspiro e a última lágrima que escorreu em seu rosto.

 É inegável, Camila terá como companheiras eternas uma quantidade de dúvidas, poderia ter feito algo diferente? E se tivessem ido a outra parte do rio? E se não tivessem combinado o banho? Serão infindáveis “ses”, mas uma única certeza, na indignidade da morte, Domingos a honrou como sua fiel companheira de partida.

Imagens retiradas da Internet



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