A perda de uma vida é geralmente
traumática, uns encaram de uma forma natural, outros como uma afronta do destino
por chegar tão cedo, mesmo que este cedo seja aos 90 e poucos. É uma ilusão, um acalento mostrar-se durão e
afirmar estar preparado para o momento. Nada passa de formosa convenção social,
tentar negar o inegável, fugir da única e infindável certeza da vida, chegará
um dia em que partiremos. A forma que conduzimos nossas ações e vivemos nossa
relação com este plano, nos conduzirá a adentrar o mundo de Hades ou os Campos
Elísios.
O Brasil perdeu neste setembro um
dos seus maiores talentos dramatúrgicos, Domingos Montagner, no auge de sua
capacidade produtiva, 54 anos, jovem (ainda mais comparado a quem está com
quarenta anos) e repleto de planos, protagonista da novela do horário nobre, que
narra à estória dos desmandos dos coronéis, ocorrida nas margens do velho
Chico, teve sua vida ceifada pelas águas do rio que empresta nome a trama.
Assista, se você já o fez,
assista novamente a entrevista que a atriz Camila Pitanga, atriz com quem o
ator fazia par romântico, concedeu ao programa Fantástico. Ela foi testemunha
dos últimos momentos de energia vital de Domingos. Terminavam naquele final de
semana, as gravações externas da novela na região e para se despedir do rio, os
atores planejaram um último mergulho em suas águas.
Não aprecio o trabalho da artista
e tão pouco comungo das mesmas convicções políticas da pessoa Camila, mas isto
não impede que seja empático e compreenda sua dor, que creiam, será eterna. Testemunhar o momento da partida de uma
pessoa causa em todo ser humano um impacto gigantesco, cria uma marca
insolúvel, principalmente quando ela é trágica. Ela presenciou o último olhar
de um ser humano, tentou por duas vezes tirá-lo da água, conduzir o amigo a uma
região mais tranqüila do rio, ficou em dúvida, tentar um terceiro resgate,
pensou em sua própria sobrevivência, ficar ou ir, uma série de decisões em
segundos.
O momento do desenlace,
geralmente não carrega consigo dignidade. Morrer não é o sonho de ninguém, é
assunto postergado, jogado para baixo do tapete, esquecido nos corredores da
alma e do pensamento. Presenciar o adeus a este mundo de uma alma é um
privilégio, é uma prova da enorme confiança que aquele que parte tem no que
fica. É revelado de forma escancarada que nada sabemos acerca dos mistérios da
existência.
Lembro do momento da partida de
minha tia, após longo e corajoso período de luta contra um câncer que lhe
consumiu o corpo. Ela já estava totalmente sedada, talvez, não sentindo tanta
dor, esperando o derradeiro bilhete de embarque para sua última viagem, mas
estava de olhos abertos quando entrei no quarto.
Passados quase nove anos recordo a
roupa que vestia, o trecho de um livro espírita que li antes de sair do
trabalho – deixe que os mortos cuidem de seus mortos, o elevador que não
chegava, os cinco andares percorridos com correria, a hora que entrei no quarto
(12:50), seu último suspiro e a última lágrima que escorreu em seu rosto.
É inegável, Camila terá como companheiras
eternas uma quantidade de dúvidas, poderia ter feito algo diferente? E se tivessem
ido a outra parte do rio? E se não tivessem combinado o banho? Serão
infindáveis “ses”, mas uma única certeza, na indignidade da morte, Domingos a
honrou como sua fiel companheira de partida.
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| Imagens retiradas da Internet |


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