terça-feira, 13 de setembro de 2016

Sobre Cucas, Casamentos e Afins

Gosto de participar do que convencionei chamar de provocação literária, que consiste exatamente em criar estórias através de um tema qualquer. Aprecio ainda mais quando ela surge em dias chuvosos que lembram o inverno Londrino e o que foi proposto obriga aqueles dois neurônios remanescentes a se encontrarem e entrarem em comum acordo sobre que caminho trilhar e principalmente como escrever.

Indiretamente quem me provocou foi a Adriana, minha amiga e ex-colega dos tempos da  Universidade que foi tentar a vida no Velho Mundo, mais precisamente em Vitória Gasteiz, no País Basco e que para quem não sabe está incrustado no antigo Império Espanhol.  Ela é uma guria espetacular, alto astral e de uma generosidade sem igual, compartilhamos a profissão e o gosto pelo consumo às vezes sem moderação de literatura e cultura. Sabedora dessa minha compulsão me prometeu um exemplar de Dom Quixote em Espanhol, vejam só!

O melhor de conhecer alguém que vive do outro lado do Atlântico e que, principalmente, se disponha a dividir sua nova cidade através das modernas tecnologias de comunicação é conhecer locais belíssimos, que se quer imaginava existir e principalmente, a possibilidade de deparar-se com os pormenores de uma civilização totalmente diversa. As fotos dos cafés, das ruas e praças, livrarias e pratos que ela gentilmente compartilha, poderiam perfeitamente originar um livro de arte fotográfica tamanho o colorido e arquitetura.

Hoje ela encaminhou essa foto com as belíssimas e quiçá saborosas cucas. Para quem não está habituado ao nosso linguajar, cucas não são cabeças soltas que rolam por ai, elas são bolos recheados ou não e cobertos com uma farofa fantástica, que ao meu paladar é o ponto alto da iguaria. Haja como contentar gordos e magros, gregos e troianos, brasileiros e brasileiras!

Comentei que ela estava se tornando cada vez mais prendada, expert no domínio da secular arte culinária e esta é uma das gloriosas experiências que o matrimônio recém adquirido proporciona. Logicamente que para toda ação, há sempre uma reação oposta de igual intensidade – se Newton não disse isso, esta frase passa a ser minha – e ela contra-argumentou que nós homens, possuímos uma relação ímpar e incomparável com a comida. Esta talvez seja a maior injustiça impetrada contra nós, homens de boa fé e índole. A relação que nutrimos pela comida é a mesma que nutrimos por qualquer outra que nos proporcione prazer. Simples assim!

O importante, o fio desencapado, o ômega, o xis oculto da questão é que o matrimônio te apresenta a inúmeras possibilidades de aprendizado e crescimento e sobre o tema posso falar com certo conhecimento de causa.  Talvez por seguir os passos de meu avô que casou três vezes e teve alguns romances pelo trajeto percorrido do berço ao túmulo, já o alcancei no número de matrimônios e alguns primos também honram ou não a saga do Vecchio nono!

Casar queridos amiguinhos é presenciar a diminuição da freqüência do intercurso carnal com o passar dos anos, talvez porque os arroubos da paixão cederam espaço para a maturidade do amor, pela disponibilidade diária do corpo e da alma ao seu lado de forma prática, rápida e indolor ou ainda há outra possibilidade, os pombinhos passaram a valorizar a qualidade e deixaram de lado a quantidade de vezes que aquela troca de fluídos ocorre. Um amigo costuma dizer que você sabe se os casais ainda se procuram pela forma que o marido apresenta a esposa, se ele disser fulano, esta é a minha “senhoura”, deu, ou melhor, não deu mais.

Dividir o lar é descobrir pêlos e cabelos que não são seus grudados no sabonete, na toalha de banho, nas grossas roupas de inverno, no travesseiro surrupiado e abraçado durante sua ausência consentida no leito de núpcias, além disso, é juntar as escovas naquele deprimente copinho sobre a pia do lavatório, é encontrar pentelhos juntos e misturados em constante harmonia no ralo do Box, é querer amaldiçoar trezentas gerações do parceiro por tentar de forma dissimulada colocar uma cortina de peixes coloridos e psicodélicos no banheiro.

Coabitar é ter o estresse do sapato no meio da sala, a roupa jogada sobre a ergométrica – o mais caro cabide da história – é toalha molhada e amarrotada sobre a cama, cobertas no chão, tapar e se destapar igual um processo industrial em noites mal dormidas, receber aquela reprimenda clássica – dá pra parar de se mexer, estou tentando dormir?

Estar amigado é justamente tudo isso e mais! É água bebida direto da garrafa com a geladeira aberta, pão dormido, provar o molho na panela, discordar da quantidade de temperos utilizados no prato, é dobrar a receita sabendo que não vai dar certo e escutar aquele sonoro “eu avisei”. Recentes estudos de uma conceituada universidade afirmam que essa simples e quase inofensiva expressão já resultou em mais conflitos que a briga por terra, se há verdade ou não, que se arrisca a comprovar? Eu não!

Morar junto não é tarefa das mais difíceis e tão pouco flerta com a facilidade de resolver uma equação composta de matemática. Complicado mesmo é entrar em acordo sobre os móveis, sobre a disposição de cada um nos cômodos do espaçoso sala, dois quartos e cozinha conjugada.  Não existe uma fórmula pronta igual à cuca hispano-tupiniquim da Adriana, cada qual com o seu qual e, por favor, não venha querer mudar a minha receita!

O credo popular já diz, o casamento é uma relação a dois em que a esposa está sempre certa. Talvez o casamento seja a relação em que você deseja ardentemente e de forma repetida, trucidar o outro, mas não o faz porque lembra que esse outro te ajuda a pagar as contas no fim do mês, porque sem esse outro, você jamais encontrará o controle remoto perdido sobre o sofá, não terá mais aquele despertar com bafinho, olheira e cara amarrada, a cobrança pesada tal qual um paquiderme sobre a bagunça da casa e a exigência para participar mais no cuidado com as crianças (embora não seja obrigatório que existam rebentos para um casal ser feliz e completo).


Ah, desculpe, esqueci de perguntar se você achou tudo isso escatológico demais? Pois é, viver é assim mesmo, com pequenas variações, o que foge desse quadro de caos é conto de fadas, estória fantástica e lenda urbana. Aventurar-se neste novo e desconhecido mundo não é obrigatório, mas é uma viagem inigualável de experiências e sensações iguais as que a Adriana está explorando entre um bolo e um café, um camarão na moranga e uma paella, entre fatias da mesma cuca, mas o importante é não deixar que elas embatumem! 







Imagens de Vitoria Gasteiz, retiradas da Internet sem autoria

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