segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Meus 40 anos

Aniversariar, um verbo que guarda em si, um número de significados incontáveis, que variam conforme a pessoa que o conjuga. Para uns, é festa pronta, momento de alegria, outros é a tristeza das ausências indesejadas e das distâncias intransponíveis. Para mim, foi um verbo de pouco significado, apenas uma convenção social que denota o tempo que falta para tirar a carteira de motorista, para entrar nas festas sem a preocupação de faixa etária e com os papeis da aposentadoria.

Particularmente, este ano, é contagem cheia, a abertura de uma nova década e eu, nunca imaginei que conseguiria chegar aos 40 anos. Sempre disse isso para minhas ex-esposas, para a atual, para parentes mais próximos, se bem que, ao analisar a letra fria da tinta repousada em minha certidão de nascimento, ainda não inaugurei a quarta década terrena. Nasci no sacro-santo ano da graça de 1976, precisamente as 09h20min da manhã do dia 27 de Dezembro. Portanto, agora, ainda faltam 06 horas para oficialmente aniversariar.

Posso afirmar que nasci causando confusão e trazendo preocupação, características que, portanto me acompanham desde o berçário. Realmente não soube nascer, afinal, ninguém te prepara para este momento. Você está lá, quieto em sua piscina particular quando, sem mais nem menos ela começa a esvaziar. Pânico, alarme e correria se instalam na placenta e num instinto, aspirei a chamada água do parto.  Caso alguém desconheça as conseqüências e deseje se aprimorar no assunto, sugiro uma visita rápida ao Dr. Google, que ele esclarecerá tudo o que poderia ter dado errado. Enfim, foram algumas dezenas de minutos lutando contra a morte, onde anjos anônimos de quem desconheço o nome se esmeraram para que eu tivesse a chance de escrever estas linhas

É interessante afirmar isto, lutar contra a morte. Nada mais natural em nossas vidas que ela, afinal, no instante da primeira aspirada de ar, passamos oficialmente a morrer um pouco por dia. Logicamente aparecerá um otimista que afirmará convictamente que se vive um dia a mais a cada despertar, mas tudo bem, que tipo de anfitrião seria eu se não permitisse tal discordância? Esta primeira batalha foi vencida com estrelinhas, nada de grave, nenhuma seqüela oficial, embora algum gaiato venha a creditar este meu jeito meio amalucado de ver a vida, a esta primeira experiência. Quem pode garantir?

A verdade verdadeira, aquela que não pode ser contestada nem por um júri formado pelas mais santas criaturas terrestres, é que sempre acreditei em partir desta para outra dimensão com a juventude estampada no rosto.  Não há uma explicação lógica e tão pouca ilógica. Nunca fui a ciganas que lessem minhas mãos ou a jogadoras de tarô, tão pouco fui a busca de respostas nos búzios e na astrologia. Apenas sentia. Espíritas, esta é o momento, uni-vos e digam que esta pode ser um lembrança latente de uma vida pregressa, talvez uma percepção enraizada pela morte de meu avô materno nesta idade ou ainda o fato de achar, quando fedelho, que alguém com 40 anos estava velho.

Impressionante como nossa régua da velhice vai aumentando com o passar dos anos. Quando temos nossos dez anos, alguém com quarenta 60 anos já está prestes a abotoar o famoso paletó de madeira, a medida que o detentor da certidão se aproxima de tal idade, a régua aumenta. Hoje já tenho esta percepção aos irmãos de 80 anos.

Provavelmente se deitar-me no divã de algum psiquiatra, encontre a chave que abrirá o baú onde a resposta desta terrível indagação está providencialmente escondida, mas sinceramente? Isso não me importa mais. Envelhecer desta forma tem algumas vantagens, a principal é que você pode chamar de experiência as tropeçadas do caminho. É muito bom! Experimente! Imagine a cena, poder dizer para alguém que determinada ação dará errado se fizer assim ou assado. Uma pretensão do tamanho do universo, como se viver fosse uma receita de bolo que sempre dará certo independente da ordem que os ingredientes são depositados na tigela.

Independente disso tudo, nunca curti muito aniversariar. Nascer no período das férias escolares não é muito bacana para a criançada, principalmente se a data estiver incrustada entre dois feriados de grande significado na sociedade ocidental, onde invariavelmente os amigos, colegas e parentes estavam na praia. Caso você seja muito novinho e não saiba ou imagine, ser classe média na década 80 do século XX no Brasil era um esforço hercúleo de sobrevivência. Final do regime de exceção, desemprego, o País acordava do sonho chamado milagre econômico com uma inflação galopante. Então desde cedo, apesar das festinhas elaboradas com esmero por meus pais, esta data passou a ser somente mais um número no conjunto de 365 dias do ano.

E nesta coleção de amanhecer e adormecer, fui crescendo, ganhando como escrevi antes, experiência e também uma dose significativa de malandragem. Tinha lá, meus quatro anos quando descobri que o ser humano pode ser extremamente desumano. Sofri uma tentativa de seqüestro na escola, motivada pela busca do vil metal de uma herança e se não fosse por um anjo de nome Dionéia, hoje não estaria aqui ou estaria muito diferente do que sou. Essa é uma passagem que sempre deixei na sombra, primeiro porque quando você suspeita, mas não tem certeza, é uma leviandade apontar o dedo e acusar, segundo porque acredito que o céu e o inferno são aqui, então, vida que segue.

O reflexo disso é que o mundo jamais foi o mesmo, jamais mesmo. Você fica calejado apesar da pouca idade, cria um distanciamento natural das pessoas. Porque arriscar? As pessoas são exatamente assim como você as percebe e não há choro e vela que te faça mudar de idéia. É aquela velha estória da primeira impressão que permanece e, esqueça da rosa que não te machucará independente dos espinhos. Apesar disto tudo, não percorri os anos de minha vida como um frustrado ou recalcado, sempre tive a percepção exata de onde era meu lugar e o que me convinha. Tão simples quando somar dois e dois.

Agora, se formos entrar na seara dos arrependimentos, ah, estes são alguns que mereceriam um capitulo a parte, mas para que? Penso que arrependimentos servem unicamente para nos lembrar que as decisões tomadas por impulso, sem a devida reflexão, ecoarão em um futuro de médio ao longo prazo.

Caso me fosse permitido voltar no tempo para dar aquele acabamento fino na história, diria para o molóide de 17 anos servir a Pátria e posteriormente seguir a carreira militar, e se ele não escutasse, adiantaria a viagem em alguns meses e falaria para o miolo mole não começar a trabalhar antes de entrar na faculdade de jornalismo, que por sinal, nunca cursei. Sacudiria o tolo jovem idealista e mandaria pegar o primeiro American Airlines para NJ. Diria para o detentor de toda a razão mundial estudar mais e mais. Faria isso e mais algumas mudanças pontuais.

Sim, eu sei que primeiramente isto é impossível e igual ao filme “Efeito Borboleta”, cada mudança de rumo causaria um efeito imensurável. Não teria conhecido tanta gente bacana e outros que ganharam uma importância incomparável nesta caminhada mundana; não teria visto lugares e experimentado sabores, não teria lido os livros que consumi avidamente, tão pouco teria conquistado o que possuo talvez a percepção de ser rico frente a outros que nada tem, nem existisse em mim.  Não estaria onde exatamente estou e muito provavelmente não estivesse aproveitando o melhor presente que meu irmão poderia me proporcionar.

O ano era 2014, depois de quase 20 anos em uma zona confortável recebi o convite para entrar em um acordo com a empresa que garantia minha subsistência, eles entraram com o pé e eu com o traseiro, de um 7 a 1 estrondoso no Mineirão frente a uma humilde nação Germânica e algumas preocupações familiares, eis que recebi a notícia que a Família iria aumentar.

Lembro perfeitamente da primeira vez que falamos sobre a data do nascimento do meu sobrinho, o prognóstico do médico é que ele nasceria na primeira quinzena de Setembro. Quando cravei, do nada, que ele estava errado e a data certa seria 28 de Agosto, o mundo veio abaixo, o mais brando comentário que escutei é que estava desejando que ele fosse prematura. Logicamente alguns de vocês não sabem, mas a bolsa estourou na manhã de 29 de Agosto e por volta das 20 horas o Arthur chegou.

O mais impressionante é que dois dias antes sonhei que estava em um centro cirúrgico com várias pessoas e o Arthur na idade adulta dizia, não agüento mais esta espera, se é pra nascer que seja de uma vez, eu estou pronto! Acordei e ainda comentei com minha esposa – vai ser nestes dias, pode te preparar, ele está chegando.

O danado resolveu, como um típico Cerva, contrariar e nascer um dia depois do que esperava, mas mudou totalmente a forma que enxergo o passar desta convenção terrena chamada existência. Ele foi a primeira criança recém-nascida que não chorava quando me aproximava, que consegue rir das palhaçadas sem jeito que faço, que puxa uma conversa intercalada de silabas ainda indecifráveis e principalmente descobriu uma parte de mim que desconhecia.


Mostrou a mim, com a inocência tão particular das crianças, que valeu a pena chegar até aqui, independente do jeito que foi, com tropeços, caminhadas e correrias, preocupações, festas e amores, com pouco cabelo e uma barriga que conta a história da Humanidade, que tudo serviu para me preparar a ser quem hoje escreve estas linhas e se ainda não sou como gostaria ou percebo como deveria perceber, que sempre é tempo de renegociar o contrato terreno, e o meu o fiz ficar por pelo menos mais uns 20 anos, porque nada há de mais belo que a capacidade de se reinventar.

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