Minha capacidade de armazenamento
de dados tem diminuído drasticamente nos últimos anos, este é o maior reflexo
do acúmulo de aniversários e preocupações. Recordo perfeitamente datas
Históricas, fatos da economia e da política mundial, dos malfadados boletos
bancários e dos impostos e taxas governamentais a serem recolhidas, mas a
trilha onde as datas pessoais estão gravadas parece, começar a ficar
inacessível.
Tentei muito relembrar a data
exata em que a conheci, como se fosse fato imperioso ou a responsável pela paz
mundial, não consigo! Lembro perfeitamente que já passou de uma década, muito provavelmente
tenha sido em uma noite de quarta-feira, final de outono, inicio do inverno,
quem sabe afirmar? Talvez ela, se não estiver vivendo a mesma experiência que
eu.
Incrível, mas recordo a primeira
vez que a toquei, no joelho, de leve, enquanto líamos a passagem de um livro, ou
ainda daquela vez que no auge dos vinte e poucos afirmei que muitos homens encaram
as mulheres como um pedaço de carne exposto no açougue, pronto para ser
comprado e preparado no churrasco de domingo, da galhofa de um amigo, do
sorriso que ela deu e a defesa de fez de minha tese.
Lembro ainda de muita coisa, do
beijo quase concretizado no meio de uma avenida, do primeiro encontro de nossas
bocas, do aconchego do sono depois da primeira noite de prazer, do despertar,
do brique da Redenção aos domingos e de uma quantidade de bagagem, das
descobertas, da mudança, de Bryam Adams cantando (Everything I do) I do it for
you em nossa primeira noite de casados, guardo o perfume dos incensos, da casa
arrumada e da tintura que cobria seus cachos.
Viagem dourada e perfeita? Claro
que não, altos e baixos, brigas, discussões, atritos também fazem parte do
amadurecimento de jovens donos do mundo. Não há expedição ao desconhecido que
não proporcione algum tipo de desconforto e aborrecimento, é um caminho que
irremediavelmente leva a um destino, parecido com dramalhão mexicano ou romance
americano, é necessário encerrar um capítulo e começar uma nova estória.
Arrependimento?Ela foi exatamente
quem eu precisava ter ao lado naquele momento, dura e amorosa, cinéfila, prenda
e doida, professora e aluna, intensa, ciumenta e principalmente enfermeira. Ela
demonstrou toda a verdade escancarada no dito popular, se cura as feridas de um
amor com um novo amor. Eu fui o que ela
precisava? Algumas vezes penso que sim, em outras não tenho certeza, e em
inúmeras afirmo que não.
Desejei mal ou que fosse infeliz
em algum momento? Como poderia desejar isso para alguém que confiou a mim seu
sono? Alguém que deitou ao meu lado e vi dormir serenamente, com quem descobri
o melhor e o pior de mim? Acaso mantenho algum tipo de contato? Sim, o faço
depois de tanto tempo, ainda mantemos uma ligação mental, que já foi mais
forte, mas que se mantém viva.
Vibrei com suas conquistas, a
graduação, a casa própria, por continuar dona de seu nariz, por não desistir de
viver mesmo com todas as pancadas que já levou nessa existência e fico
particularmente feliz por saber que tudo foi possível por seu próprio esforço e
dedicação. Ela metamorfoseou-se, crisálida que libertou uma borboleta que não
pousa onde não deseja.
Recordo disso tudo com uma
precisão extraordinária, mas veja, não das datas estas marcações do calendário,
convenções sociais e de tempo, insistentes em nos ludibriar, afirmando serem
mais importantes do que os fatos que aconteceram nelas.
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