sábado, 24 de setembro de 2016

Farfalla

Minha capacidade de armazenamento de dados tem diminuído drasticamente nos últimos anos, este é o maior reflexo do acúmulo de aniversários e preocupações. Recordo perfeitamente datas Históricas, fatos da economia e da política mundial, dos malfadados boletos bancários e dos impostos e taxas governamentais a serem recolhidas, mas a trilha onde as datas pessoais estão gravadas parece, começar a ficar inacessível.

Tentei muito relembrar a data exata em que a conheci, como se fosse fato imperioso ou a responsável pela paz mundial, não consigo! Lembro perfeitamente que já passou de uma década, muito provavelmente tenha sido em uma noite de quarta-feira, final de outono, inicio do inverno, quem sabe afirmar? Talvez ela, se não estiver vivendo a mesma experiência que eu.

Incrível, mas recordo a primeira vez que a toquei, no joelho, de leve, enquanto líamos a passagem de um livro, ou ainda daquela vez que no auge dos vinte e poucos afirmei que muitos homens encaram as mulheres como um pedaço de carne exposto no açougue, pronto para ser comprado e preparado no churrasco de domingo, da galhofa de um amigo, do sorriso que ela deu e a defesa de fez de minha tese.

Lembro ainda de muita coisa, do beijo quase concretizado no meio de uma avenida, do primeiro encontro de nossas bocas, do aconchego do sono depois da primeira noite de prazer, do despertar, do brique da Redenção aos domingos e de uma quantidade de bagagem, das descobertas, da mudança, de Bryam Adams cantando (Everything I do) I do it for you em nossa primeira noite de casados, guardo o perfume dos incensos, da casa arrumada e da tintura que cobria seus cachos.

Viagem dourada e perfeita? Claro que não, altos e baixos, brigas, discussões, atritos também fazem parte do amadurecimento de jovens donos do mundo. Não há expedição ao desconhecido que não proporcione algum tipo de desconforto e aborrecimento, é um caminho que irremediavelmente leva a um destino, parecido com dramalhão mexicano ou romance americano, é necessário encerrar um capítulo e começar uma nova estória.

Arrependimento?Ela foi exatamente quem eu precisava ter ao lado naquele momento, dura e amorosa, cinéfila, prenda e doida, professora e aluna, intensa, ciumenta e principalmente enfermeira. Ela demonstrou toda a verdade escancarada no dito popular, se cura as feridas de um amor com um novo amor.  Eu fui o que ela precisava? Algumas vezes penso que sim, em outras não tenho certeza, e em inúmeras afirmo que não.

Desejei mal ou que fosse infeliz em algum momento? Como poderia desejar isso para alguém que confiou a mim seu sono? Alguém que deitou ao meu lado e vi dormir serenamente, com quem descobri o melhor e o pior de mim? Acaso mantenho algum tipo de contato? Sim, o faço depois de tanto tempo, ainda mantemos uma ligação mental, que já foi mais forte, mas que se mantém viva.

Vibrei com suas conquistas, a graduação, a casa própria, por continuar dona de seu nariz, por não desistir de viver mesmo com todas as pancadas que já levou nessa existência e fico particularmente feliz por saber que tudo foi possível por seu próprio esforço e dedicação. Ela metamorfoseou-se, crisálida que libertou uma borboleta que não pousa onde não deseja.


Recordo disso tudo com uma precisão extraordinária, mas veja, não das datas estas marcações do calendário, convenções sociais e de tempo, insistentes em nos ludibriar, afirmando serem mais importantes do que os fatos que aconteceram nelas. 

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