terça-feira, 22 de setembro de 2015

Equilibrio Distante

Tenho certeza, não sei me expressar oralmente,
As palavras quando não saem ásperas,
Surgem totalmente desprovidas de emoção.
Ações, pensamentos e sentimentos nem sempre andam juntos,
Prefiro escrever, deixar repousar no papel o que a alma diz,
Clarear os pensamentos ordená-los de uma forma ímpar,
Pensar no que poderia existir se ao invés de não, houvesse dito sim,
Estaria melhor, talvez pior, junto, afastado, perto, longe,
Indagações, dúvidas e certezas que giram infinitamente.

E a beleza neste exercício de análise existencial, são as conclusões,
Amores sinceros, afetos verdadeiros, quem não os deseja?
São tesouros, dádivas, presentes da vida quando os encontra,
Segure firme, não deixe solto, permaneça próximo,
Não acredite em segunda chance, não se apegue a isso,
Intensidade, permissividade, cumplicidade, tanto em tão pouco,
Esqueça o tempo, o relógio, a areia da existência e se atire,
Não somos anjos, somos pessoas comuns que amam de verdade,
Frase cantada aos quatro cantos do mundo.

Deite a noite e pense, viaje, repouse em seus lábios macios,
Percorra seu corpo, invada a alma, instale moradia no coração,
Deixe-a apenas de brincos na cama, desnuda, entregue,
Não seja tolo, morra em seus olhos, guarde vivo o perfume da pele,
Decore os sinais, pequenas manchas, imperfeições perfeitas,
Registre tudo, tatue na íris o menor dos detalhes.
Creia, eles serão importantes nos dias nostálgicos,
Lembre e relembre quantas vezes forem necessárias,
Não há contra-indicação, apenas bem aventurança.

Leia os antigos poemas escondidos nos livros ou
Adormecidos no baú do tempo, aqueles deixados de lado,
Resgate-os, sorva demoradamente, exprima cada doce palavra,
Preste atenção na letra das canções e voe sem destino,
Alimente a alma a cada novo amanhecer, queira bem!
Torça por seu sucesso, por suas conquistas, mesmo não estando lá,
Verdadeiramente ame, não a perca nem que seja em lembrança,
Não há e nem deve desejar que exista possibilidade de esquecer,
Daquela que mansamente se aproximou em um dia qualquer,
Nada prometeu e em uma estrada de fazer o sonho acontecer,
Despretensiosamente tudo proporcionou, eterna, única e minha...

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Poema - Julio Cortázar

POEMA

Te amo por sobrancelha, por cabelo, te debato em corredores branquíssimos
onde se jogam as fontes de luz,
te discuto em cada nome, te arranco com delicadeza de cicatriz,
vou pondo em teu cabelo cinzas de relâmpago e fitas que
dormiam na chuva.
Não quero que tenhas uma forma, que sejas precisamente o que
vem atrás da tua mão,
porque a água, considera a água, e os leões quando se dissolvem
no açúcar da fábula,
e os gestos, essa arquitetura do nada,
acendendo suas lâmpadas no meio do encontro.
Todo amanhã é o quadro onde te invento e te desenho,
disposto a te apagar, assim não és, muito menos com esse cabelo liso,
esse sorriso.
Busco tua soma, a borda da taça onde o vinho é também a lua e o espelho,
busco essa linha que faz o homem tremer
numa galeria de museu.

Além do mais te amo, e faz tempo e frio.

Até logo Tia...


Hoje perdeu-se mais uma referência em minha Família materna. Depois de uma missão comprida e brilhantemente cumprida, tia Alba nos deixou. Foi viver na morada que, conforme ela nos disse, Jesus preparava para recebê-la.

Não é frase pronta, minha tia foi em vida um exemplo de dedicação ao marido, seus filhos, netos e bisnetos, irmãs e sobrinhos. Uma mulher de baixa estatura física, porém de uma moral e senso familiar gigantescos!

Quando meus pais viajavam e no alto de meus 18 anos e uma preguiça estrondosa de cozinhar, era na casa dela que seguia para almoçar e se havia o famoso doce de abóbora, então o dia estava ganho. Sempre foi assim, fazia de tudo para deixar todos à vontade em casa, até quando o sobrinho pequeno colocava todas as panelas e tampas pra fora dos armários ela dizia: "deixa Jussarinha, na casa da tia Alba pode fazer isso".

São lembranças e exemplos que guardaremos sempre com carinho, com aquela admiração que ela fez por merecer. Assim ficaremos com elas, diminuindo a saudade e esperando o dia que nos reencontraremos e prometo tia, já velho e calejado, não tirar nenhuma panela dos armários, mas sentaremos para tomar café como nas nossas tardes de férias.


Escrito em 29 de Julho de 2015

Ponto e virgula...

Li em um destes textos sobre as características femininas de cada um dos signos zodiacais e me chamou a atenção a frase final que encerrava a descrição de Câncer - o que há de mais belo em uma mulher de câncer, o corpo perfeito ou a alma de deusa. Este é um questionamento que se enquadra para todas as mulheres, independente de signo, idade, cor ou orientação sexual e eu, devotado admirador fico sempre com a alma em flor.

Fragmentos VI

Sempre é complicado quando nos sentimos sozinhos, 
o mundo todo girando e você ali, 
com aquela sensação extremada de solidão,
 onde nada te conforta e aplaca 
esse estranho estado de contemplação

Fragmentos V

Penso assim, pessoas são iguais a estradas,
algumas sinuosas outras retas,
esburacadas ou tapetes, convites para correr,
outras intimam a percorrê-las em baixa velocidade
Existe ainda aquelas com largos acostamentos
em que permanecemos por indeterminado tempo,
aproveitando a companhia, sonhando, observando e
São as que se tornam inesquecíveis.

Fragmentos IV

As palavras simplesmente fogem,
somem num estalar de dedos
e por mais que deseje,
nenhuma consegue explicar,
definir com exatidão cirúrgica
o que surge aqui.
Talvez na ingênua e pueril esperança,
que o mesmo fenômeno aconteça ai,
ela é aquela que me mantém acordado,
vivo, ligado e disposto.

Para sempre Alícia

Hoje escrevo, não para falar de coisas sem sentido
ou que precisem de longo período de interpretação.
Escrevo desse sentimento que reside em mim,
Já o expulsei, concedi prazo para partida,
Ah, mas o danado é resistente e persistente.

Essa paixão teimosa vive em uma simbiose,
Perfeita com meus pensamentos.
Andam todos de mãos dadas, 
Fazendo algazarra e gritedos, 
Acelerando o coração já cansado.

Sim, é isso que reside em mim - paixão.
Não correspondida e nem declarada,
Remetendo-me a um deserto de dúvidas
Fustigado pelo sol da incerteza.

Paixão é grito ensurdecedor da alma,
Parceira constante dos seres que 
Precisam da intensidade e é exatamente
O que deixastes em mim.

Detalhes de Agosto

Menina, deixe os problemas pra lá, os "ses" da vida, 
Não acredite no que te põe pra baixo,
Escolha a melhor roupa que te deixa irresistível,
A lingerie que se encaixa melhor neste dia,
O sapato adequado e vem pra rua,
Porque há um belo dia a ser conquistado por ti!

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Fragmentos III

"Corri muito e não consegui te alcançar, não fui tão ágil com as pernas a ponto de superar a velocidade que tuas asas imprimiam.

Sigo assim, toda a noite é uma repetição deste sonho; meus lábio selados sem murmurar palavra alguma, minhas cordas vocais sem dizer que te quero, meus olhos a seguir esperançosos, eternamente tua imagem.

O pior, se é possível existir algum castigo maior que esse, é não ter coragem de dizer o que o coração insiste em gritar...

Venha, te quero aqui, nem que seja desta forma, acordado em mim".

Fragmentos II

Agora, nada mais real existe
que aquilo tudo que tempestuosamente,
tenta encontrar espaço e lugar em mim.

Fingimento

Acordei estranho, se é possível um despertar destes.
Tomado pela indecisão ou com pensamentos desencontrados,
que desejam muito mais do que preciso, com aquela
eterna sensação de descontentamento.

Talvez seja necessário retirar a máscara,
deixas os subterfúgios de lado,
dizer realmente o que se pensa e deseja.

Falas que as amizades são profícuas,
mas que muitas vezes se quer mais que isto.
Dizer que a cada dia se sufoca no peito,
soterrado pelos pensamentos o "se".

Agora, digo que desejo repousar,
meus lábios em outras bocas, o que seria eu?
Um calhorda incorrigível ou um safado justificável,
que quer sentir a paixão e a aventura em vida?

Acordar, dormir, dormitar, reacordar, lembrar,
que daqui nada levarei, apenas as experiências
desta honra deslavada e vadia, em que aquelas
palavras de Pessoa fazem sentido,

O poeta finge tanto, 
que finge ser verdadeira,
a dor que finge ter.

Mulher Gremista

Que bela é a mulher Gremista,
Se veste com as cores de seu clube,
Blusas tricolores, azuis ou pretas, tanto faz.
Justas ou soltas; elas vibram, gritam,
se esbaldam em devaneios,
com as bolas que acertam as traves,
que adormecem no fundo das goleiras,
emaranhadas as redes ou apenas repousadas,
tudo emoldurado pelos gritos ensurdecedores de gol.
Embora isso seja suficiente, 
a mulher gremista me apaixona, me conquista,
Porque divide comigo o mesmo amor
que trago no peito, em uma perfeita simbiose de
paixão, felicidade e torcida ilimitada.

domingo, 9 de agosto de 2015

Fragmentos


"Sabe, hoje pensei em ti, nem ao certo porque, olhei uma borboleta e rapidamente tracei um paralelo, a transformação, a metamorfose cruel e dolorosa que a lagarta enfrenta para mostrar toda a sua beleza e esplendor.

Lembra de leve o momento que enfrentas, a necessidade de entrar no casulo, transpor essa tristeza e certa infelicidade, para surgir mais bela e intensa.

Pense nisto, porque eu já pensei e te vi linda, desnuda de tudo que te impede de ser feliz, com uma beleza comparável somente a nudez do corpo feminino".

Serrana

Teus olhos, safiras preciosas,
Emanam forte feitiço.
Verdes, castanhos, escuros e claros,
Camaleoa, exala perfume,
Seduz e conduz.
Prende atenção, vira sonho,
Desejo, musa, razão e tesão.
Se despede de pudores,
travas e amarras,
Ama, vive, chora, ri e clama,
Afirma ser mulher, 
mas deseja ser cuidada,
Nega ser criança, 
mas ama ser paparicada,
É menina, mulher, 
feiticeira de primeira grandeza.
E por fim, instiga a todos,
o desejo de morrer em teus lábios.

Menina-Mulher II

E a menina mulher,
Esconde um sorriso
Uma beleza descomunal,
Pensa ser inferior,
Mas que inferioridade reside
Naquele corpo proporcional,
Que baila nas pistas,
Se embala com BonJovi,
Grita, pula, lança braços,
Prende abraços, olhares.

Quem não consegue ser feliz:
Apaixona, instiga, torna sonho,
Inspira e convida.
É assim que a vejo, percebo e imagino
Que um dia ela diga,
Acho que estou mudando,
Por influência tua.
E assim tornar verdadeira
A máxima que afirma
Ninguém passa na vida do outro sem sentido,
Deixa muito de ti 
Em troca do muito que leva de mim.

domingo, 14 de junho de 2015

Fidelidade ou Lealdade?


Desejei escrever sobre as diferenças existentes entre a lealdade e a fidelidade. Creio que uma parte considerável das pessoas realize uma pequena confusão entre elas, mas não precisei me esmerar, encontrei um texto que descreve muito bem o que imagino.

Fidelidade ou lealdade? foi escrito por Ivan Martins e publicado na Revista Época no dia 16/07/2014



Fidelidade ou lealdade?
A gente se preocupa demais com uma e esquece da outra, que talvez seja mais importante


Nos últimos dias, ando apaixonado pela palavra “lealdade”. Deve ser por causa de um livro que estou terminando, um romance sobre antigos amigos e amantes que voltam a se encontrar e precisavam acertar suas diferenças. Eles já não se gostam, mas confiam um no outro. Eles deixaram de se amar, mas ainda se protegem mutuamente. Isso é lealdade, em uma de suas formas mais bonitas. Lealdade ao que fomos e sentimos.

Ao ler o romance, me ocorreu que amar é fácil. Tão fácil que pode ser inevitável. A gente ama quem não merece, ama quem não quer nosso amor, ama a despeito de nós mesmos. Tem a ver com hormônios, aparência e sensações que não somos capazes de controlar. A lealdade não. Ela não é espontânea e nem barata. Resulta de uma decisão consciente e pode custar caro. Ela é uma forma de nobreza e tem a ver com sacrifício. Não é uma obrigação, é uma escolha que mistura, necessariamente, ideias e sentimentos. Na lealdade talvez se manifeste o melhor de nós.

Antes que se crie a confusão, diferenciemos: lealdade não é o mesmo que fidelidade, embora às vezes elas se confundam. Ser fiel significa, basicamente não enganar sexual ou emocionalmente o seu parceiro. É um preceito, uma regra que se cumpre ou não se cumpre, uma espécie de obrigação. O custo da fidelidade é relativamente baixo: você perde oportunidades românticas e sexuais. Não tem a ver, necessariamente, com sentimentos. Você pode desprezar uma pessoa e ser fiel a ela por medo, coerência, falta de jeito ou de oportunidade. Assim como pode amar alguém perdidamente e ser infiel. Acontece todos os dias.

Lealdade é outra coisa. Ela vai mais fundo que a mera fidelidade. Supõe compromisso, conexão, cuidado. Implica entender o outro e respeitá-lo no que é essencial para ele - e pode não ser o sexo. Às vezes o outro precisa de cumplicidade intelectual, apoio prático, simples carinho. Outras vezes, a lealdade requer sacrifícios maiores.

A primeira vez que deparei com a lealdade no cinema foi num filme popular de 1974, Terremoto. No final do drama-catástrofe, o personagem principal – um cinquentão rico, heroico e boa pinta – tem de escolher entre tentar salvar a mulher com quem vivia desde a juventude, com risco da sua própria vida, ou safar-se do desastre com a jovem amante. Ele escolhe salvar a velha companheira e morre com ela. Parece apenas um dramalhão exagerado, mas desde Shakespeare o drama ocidental está repleto de escolhas desse tipo. É assim que nos metem conceitos elevados na cabeça. Vi esse filme com 16 e 17 anos e nunca mais deixei de pensar na lealdade em termos drásticos.

A lealdade está amparada em valores, não apenas em sentimentos. É fácil cuidar de alguém quando se está apaixonado. Mais fácil que respirar, na verdade. Mas o que se faz quando os sentimentos desaparecem – somem com eles todas as responsabilidades em relação ao outro? Sim, ao menos que as pessoas sejam movidas por algo mais que a mera atração. Se não partilham nada além do desejo, nada resta depois do romance. Mas, se houver cumplicidades maiores, então se manifesta a lealdade. Ela dura mais do que os sentimentos eróticos porque se estende além deles.

O romantismo, embora a gente não o veja sempre assim, é uma forma exacerbada de egoísmo. Meu amor, minha paixão, minha vida. Minha família, inclusive. Tem a ver com desejo, posse e exclusividade, que tornam a infidelidade insuportável, a perda intolerável. As pessoas matam por isso todos os dias. Porque amam. É um sentimento que não exige elevação moral e pode colocar à mostra o pior de nós mesmos, embora pareça apenas lindo.

Minha impressão é que o mundo anda precisado de lealdade. Estamos obcecados pela ideia da fidelidade porque a infidelidade nos machuca. Sofremos exacerbadamente porque o mundo, o nosso mundo, não contém nada além de nós mesmos, com nossos sentimentos e necessidades. Quando algo falha em nossa intimidade, desabamos.

Talvez devêssemos pensar de forma mais generosa. Talvez precisemos nos apaixonar por ideias, nos ligar por compromissos, cultivar sonhos e aspirações que estejam além dos nossos interesses pessoais. Correr riscos maiores que o de ser traído ou demitido. O idealismo, que tem sido uma força de mudança na conduta humana, precisa ser resgatado. Não apenas para salvar o planeta e a sociedade, mas para nos dar, pessoalmente, alguma forma de esperança. A fidelidade nos leva até a esquina. A lealdade talvez nos conduza mais longe, bem mais longe.



Ivan Martins escreve às quartas-feiras.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Redescobertas

Façamos um exercício de imaginação, não é difícil, basta fechar os olhos, permitir que a alma fique leve e viaje no tempo, especificamente para a região nordeste da atual Itália, durante o final do século XIX. Encontraremos uma sociedade sob forte crise econômica, com pouco emprego e muita fome, onde reinava a desesperança e incerteza.

Um cidadão italiano qualquer, ao ser questionado pelo Ministro de Estado de seus pais sobre as razões que ditavam a emigração em massa respondeu conscientemente – “Que coisa entendeis por uma nação Senhor Ministro? É a massa dos infelizes? Plantamos e ceifamos o trigo, mas nunca provamos pão branco. Cultivamos a videira, mas não bebemos o vinho. Criamos animais, mas não comemos a carne. Apesar disso, vós nos aconselhais a não abandonarmos a nossa pátria? Mas é uma pátria a terra em que não se consegue viver do próprio trabalho"?

Esse quadro social foi o responsável por toda uma onda migratória da Europa para a América do Sul, especialmente ao Brasil, o eldorado, onde havia terra e oportunidade a quem desejasse trabalhar. Provavelmente esse foi o motivo principal para que um casal de italianinhos do Vêneto, ele de Vicenza, ela de Sarcedo, optassem por atravessar o Atlântico com o filho primogênito e começar uma vida nova em terras tropicais.

Toda saga, obrigatoriamente entrelaça histórias carregadas de drama, de superação, heroísmo, vitórias e derrotas, de chegadas e partidas. Não seria diferente com a que eles estavam escrevendo no livro de sua história. Imagine perder, em alto mar a vida do primeiro dos doze tesouros que eles teriam em vida, separarem-se dele no Oceano, presenciar inertes o último suspiro, a partida lenta na imensidão das águas. Teriam tomado a decisão correta? Quais os questionamentos que nasciam e retumbavam em seus seres?

Longos dias possuem cem anos, já dizia meu avô e os dias atuais são tão diferentes daqueles do século XIX, novas tecnologias em todas as áreas de atuação humana, situações que seriam inverossímeis, hoje são corriqueiras que tornarem-se imperceptíveis, se antes tudo engatinhava, agora possuem brevê.

Daquele primeiro casal, o marco zero de um trabalhador manual e de uma dona de casa, nasceram artesãos na primeira geração, construindo sim um novo Brasil. Os filhos nascidos em solo brasileiro, em sua maioria seguiram os passos do pai. E se estes, não transmitiram para seus filhos os ensinamentos profissionais, perpetuaram os valores morais que impulsionam ainda hoje o sentimento de orgulho que a força de um sobrenome carrega. Quando olhamos as fotos da primeira geração, temos uma convicção, não há necessidade de nenhum teste de familiaridade, todos os filhos possuem o mesmo olhar marcante, mesmo formato de rosto, testa, nariz adunco, grandes orelhas, mascas d’água, assinaturas genéticas incontestáveis.

A semente de desbravar novas terras também foi transmitida, afinal, não é por acaso que encontramos nosso DNA nos Estados Unidos, tios e primos se estabeleceram nas terras do Tio Sam para mostrar o que os Cervas possuem de melhor. Creiam, não é somente a capacidade de se indignar, de ser estourado, de possuir uma personalidade forte que quando se manifesta pode ser classificada como “ataque de cervite” como define uma prima. Somos muito mais do que descendentes de um casal italiano, que formam um grupo ao mesmo tempo hetero e homogêneo, situação que só comprovamos ao tirar os óculos da imprudência e observarmos as pessoas e suas histórias com o apurado sentido de historiadores.

Contrariando o senso comum, aquilo que fomos levados a crer, somos muitos! Somos capítulos de uma história que está em permanente desenvolvimento, páginas raras da História, estudantes, trabalhadores, donas de casa, aposentados, professores, artistas, contadores, advogados, administradores, mestres e doutores, enfim, contar e precisar o número de pessoas que nasceram a partir daquele casal leva tempo, já passamos pela segunda, terceira, quarta, quinta e talvez estejamos próximos da sexta geração que se aproxima em alta velocidade.

Buscamos com interesse e afinco nossa origem, compreender de onde surgiu a coragem que levou um jovem casal, a atravessar o Oceano em busca de novas oportunidades em um mundo totalmente inóspito, em que o conhecimento não era encontrado em toda a esquina. Buscamos sim, recompor, unir os laços, reforçar os nós ainda existentes, reunir aqueles que se distanciaram, reescrever a história que ficou esquecida no fundo das gavetas do tempo. Claro, ser Cerva é repetir que o sobrenome é escrito com “c”, escutar a piada se é cerva de cerveja, mas sobretudo é ter orgulho por não possuir um sobrenome comum, é ter consciência que não faltou coragem aos desbravadores que aqui chegaram ao apagar das luzes do século XIX.

Independente da crença que norteia nossas vidas, se acreditamos ou não em determinados preceitos espirituais ou espiritualistas, faço um esforço literário e vejo na frente da casa de madeira, com as ripas colocadas verticalmente, indicando que lá vive um casal italiano, o nonno e a nonna conversando. Ele com um copo de pinga na mão direita, se embalando na cadeira de balanço de rangido característico, olhar ao longe como quem admira uma tela e ela absorta no tricô, produzindo mais um casaquinho para um bambino que está prestes a chegar. O nonno com aquele sotaque do norte italiano, pigarreia e diz realizado:

“Mia vecchia, lo sai che siamo contenti perchè abbiamo una grande famiglia com le persone giuste, che sanno essere vero che abbiamo fato tutto per loro di vivere bene”. *


* “Minha velha, você sabe que somos felizes, porque temos uma grande família, com pessoas justas, que sabem ser verdade que fizemos tudo para que eles vivessem bem”.

sábado, 11 de abril de 2015

A MULHER DA CALCINHA DE ALGODÃO, por André Debevc

Ela anda pela casa com o jeito mais despreocupado do mundo. Cabelo castanho quase ondulado na manhã de uma lembrança. Pegando a torrada besuntada de geléia diet com a pontinha dos dedos, acha que está mais gorda do que queria estar, como toda mulher. É linda em sua imperfeição. O camisão gigantesco é secular e faz questão de não esconder nenhum furinho feito pelo tempo. 

Desbotado, é provavelmente uma das coisas que mais guarda o seu cheiro matinal totalmente viciante. O beijo morto, dado ainda nos lençóis, vem entre um sussurro ainda ininteligível de que a preguiça era maior que ela e os cabelos desgrenhados pela noite. Nenhuma mulher acorda parecendo que está num anúncio de margarina, mas qualquer propaganda perderia em naturalidade para seus miados. Ela tem manias e defeitos como todo ser vivo e adora me tascar um beijo mesmo antes de escovar os dentes. 

É uma dessas mulheres mágicas em sua simplicidade. À luz da manhã de um domingo qualquer, lendo seu jornalzinho, pergunta algo que sabe que não sei só para poder fazer graça de mim. Fica feliz quando me ensina uma palavra nova, cantarola uma música que nunca tocou no radio, mas que só ela sabe de cor. Tem calcinhas chiques para ocasiões especiais, cheias de rendas como troféus para quem a despe. Ela sabe onde comprar aquela cinta liga alucinante que faz qualquer homem babar, e certamente tem, pelo menos, uma guardada da forma mais despreocupada possível na gaveta que você nunca abre. 

Reclama da minha barba mal feita que, às vezes, roça em sua nuca ou em suas coxas. Adora quando falo do seu umbigo ou quando peço para ela parar de me morder porque marca. Vive falando mal da celulite que imagina estar invadindo seu corpo. É lasciva o suficiente para conseguir tudo que quer com uma chantagenzinha emocional barata. Me chama por um apelido que só ela usa e fala sarcasticamente mal de qualquer coisa que eu escreva só pra depois pular no meu colo dizendo que era brincadeira. 

Deixa a gola quase esgarçada do camisão para me mostrar o ombro e, quando salta pra pegar mais café, me diz cinicamente que é para parar de olhar pra sua bunda. A mulher da calcinha de algodão branco. Como tantas outras calcinhas que contam histórias secando nas torneiras do chuveiro. As calcinhas comuns, sem ocasiões especiais, sem desculpas por não serem sempre novas e lindas. A mulher que reclama quando como algo que ela odeia, a mulher que aperta meu pneuzinho perguntando de quem são aquelas carnes. Existem poucas cenas mais completas do que assistir ao sono dela em sua calcinha branca de algodão. 

Acho que a calcinha me fascina justamente pela sua idéia de cumplicidade. De sempre estar ali. Pendurada no banheiro, dobradinha em cima da cama esperando sumir numa interminável gaveta ou andando pela casa antes de se esconder dentro de uma calça numa terça-feira. Essa mulher é a que no elevador me puxa com o olhar mais tarado do mundo e, segundos antes da porta abrir, me pergunta como está o decote. A mulher da calcinha de algodão anda por aí, todos os dias, desapercebida em sua simplicidade, fingindo uma timidez educada que esconde seu senso de humor debochado e sua vontade eterna em me ver bebendo vinho nas curvas de suas costas enquanto compromissos esperam. 

Ela é uma mulher, como tantas outras, incomparável. Mesmo quando a gravidade inevitavelmente ganha suas batalhas e o tempo a lembre nas aulas de ginástica que ela não tem mais 17 anos. E daí se as pernas forem mais finas do que ela sempre quis que fossem? E daí se seu pé não apareceria em outdoors de sandálias? Sei que ela sempre vai elogiar as magrelas que trabalham como cabides ambulantes para os grandes nomes da moda.

Sei que ela sempre vai dizer que eu preferiria ver a Gisele Bündchen de biquíni numa revista do que tê-la ao meu lado. E essa é uma das coisas boas dela. Eu sei de um monte de coisas e ainda não me cansei disso. A mulher da calcinha de algodão sempre vai ter algo inteligente ou debochado para dizer, sempre vai reclamar que eu deveria dirigir com mais calma e fazer pouco das outras mulheres que foram menos que ela na minha vida. Esta mulher fica menstruada e reclama disso, sempre fala que fica inchada e se acha um barangão quando está de mau humor. 

Esta mulher é falível e real. Além de ser apaixonada por mim deve andar por aí olhando discretamente pra outros homens (sem nunca fazer nada), pode certamente comentar de meus defeitinhos para suas amigas ou ainda sonhar em ir a uma praia sem areia, que se amontoa dentro do seu velho biquíni. Ela vive, toma decisões erradas e ostenta outros milhões de defeitos. Todos eles apaixonantes, porque vêm de alguém real e não de uma boneca de cera sem personalidade que muito homem queria ter para mostrar pros amigos.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Spagnola

Próxima a você,
minha mente tão contundente 
e cheia de pequenos corredores misteriosos, 
torna-se campo aberto 
pronta a receber tuas enebriantes vibrações mentais, 
que desfraldam um pouco mais tua alma cristalina, 
recoberta de aura de mistério, 
sedenta a ser entendida, compreendida e aceita 
em um mundo de contradições 
que insistem em travar uma batalha desigual 
evocando os princípios básicos da existência humana...

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Um pouco de História

Tenho um amigo de quase três décadas que praticamente ganhou na loteria sem ter jogado. Graças ao trabalho ferrenho dele e da esposa, o Toninho desfruta dos louros deste seu esforço e todo ano parte em viagem junto com sua amada Janier para desbravar novos locais, absorvendo cultura e História em todos os cantos do mundo. Agora eles estão em uma temporada européia, conhecendo entre outros locais a Escandinávia e a Polônia e nesta última, mais especificamente Varsóvia.

Para os não iniciados em História e Geografia, ela é a capital polonesa. Centro político, industrial e maior cidade do País, contava em 2012 com mais de 1,8 milhão de habitantes, número grandioso para uma cidade que no inicio de 1939 contava com 1,3 milhão de pessoas e ao final de 1945 com apenas 422 mil pessoas.

Estes números representam os efeitos destrutivos sofridos por um dos países mais atacados e dilacerados pela Alemanha Nazista de Hitler. É sabido o terror imposto aos judeus poloneses e a desumanidade afligida a eles. São de domínio público e históricos fatos ocorridos no famigerado Gueto de Varsóvia, em que durante os quase três anos de existência, a fome, as más condições de higiene e saúde, além das constantes deportações aos campos de concentração, principalmente ao de Treblinka. Para que se possa ter idéia da crueldade imposta, a população de 380 mil habitantes que foram enviados a ele, representava 30% da população de Varsóvia e ficaram enclausurados em uma área estimada a 2,4% do território da cidade.


Graças ao advento das redes sociais, o Toninho e a Janier, vão presenteando seus amigos com as imagens de uma cidade viva. Observá-las me instiga a tecer um paralelo com a forma que tratamos a nossa História. Os poloneses mantiveram intactos algumas construções de Auschwitz, entre elas o famoso portão em que se lê – “o trabalho liberta”, não como forma de permanente tortura mental, mas sim como lembrança escancarada da falta de limites para a imbecilidade humana. Em Varsóvia existem estátuas que registram em pedra os momentos de puro terrorismo a que indiscriminadamente toda a população foi submetida, mas também serve como indicação que apesar das situações adversas, eles resistiram, é como se as feridas e cicatrizes embora cicatrizadas ainda doam, e elas não são escondidas, ficam sempre à mostra, com um orgulho de terem vencido o mal.

Aqui em nosso Paraíso Tropical, essa belíssima República das Bananas, Terra abençoada de Vera Cruz, este país Tupiniquim bonito por natureza, onde não falta água, comida, moradia, saúde e segurança, os políticos brasileiros, mais especificamente os vereadores da capital gaúcha, votaram e aprovaram uma lei que altera o nome de todos os logradouros da cidade que façam referência a qualquer um dos autores do período ditatorial militar. Este mesmo movimento ocorre em outras cidades brasileiras, com projetos de lei e até mesmo alteração do nome de ruas, praças, escolas, ginásios entre outros. Parece-me que os legisladores brasileiros acreditam que extirpar o nome de obras, vá simplesmente suprimir um período Histórico. Essa não é uma discussão sobre a necessidade de reconhecer os acertos e erros do sistema de exceção que durou de 1964 até 1985.

O problema maior é varrer para baixo do tapete o que existiu, por mais que se tente, é impossível reescrever a História. É possível reescrever estórias, dessas que se escreve com um enredo bem definido, com começo, meio e fim e se possível com a mocinha sendo salva no final. Agora, se existe este movimento de exorcismo, não compreendo porque Getúlio Vargas não entra nesta leva de limpeza moral e ética da sociedade brasileira. Antes de ser o pai dos pobres e o velhinho simpático que ceifou a própria vida com um tiro, dentro das dependências do Catete, o caudilho de São Borja, foi um ditador implacável, comandou o golpe civil de 1930, fechou o congresso, rasgou a Constituição, perseguiu seus detratores e conduziu com mãos de ferro o destino nacional por 15 anos.

Sim, antes de tomar uma enquadrada de Roosevelt, e da ameaça do Pentágono em invadir o Nordeste brasileiro para instalação de bases militares para proteger o Atlântico Sul dos alemães que já estavam na África, Getúlio Vargas nutria apreço pelos ditadores europeus Hitler, Mussolini, Salazar, Franco e seus sistemas ditatoriais da primeira metade do século XX

O Ministro do Trabalho do Governo João Goulart, Almino Afonso, declarou em 2014 para a Agência Brasil que o período ditatorial deixou lembranças dolorosas e marcou a era de Vargas. “Podemos dizer que isso era uma projeção do que se passava no mundo. Basta lembrar Hitler, Franco e Mussolini, mas não justifica algo que foi um período doloroso”.

Fazendo uma pequena pesquisa, descobre-se que o Brasil possuía fortes relações comerciais com as forças européias do Eixo, inclusive firmando em 1936 acordo com a Itália para aquisição de submarinos que seriam pagos com algodão e outros produtos nacionais, além da importação de armamentos da Alemanha Nazista. A colaboração ou aproximação mais estreita com os Nazi se deu no caso da deportação de Olga Benário, esposa do líder comunista Luis Carlos Prestes.

A ignorância é uma benção, embora somente o conhecimento possa libertar. Um povo que conhece sua História e não se envergonha dela, ao contrário, reconhece seus exageros e percebe claramente os caminhos percorridos por seus antepassados, é detentor do combustível primordial – o saber - que domina de forma única, as nuances e fatos que lhe impulsionam a seguir em frente. A Nação que sabe, compreende, entende e lida bem com o que lhe ocorreu, possui chances menores de cometer os mesmos erros, torna-se livre e jamais se curvará a tiranos.


Crédito das fotos - Imagens retiradas da Internet, com exceção das fotos de Varsóvia, registros do casal Toninho e Janier.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Alicia, sempre, Alicia

Um amigo me chamou uma tarde dessas para contar o que lhe havia acontecido. Começou seu relato de forma simples:

“Não imagina o que me aconteceu há uns dois meses. Subi para pegar o carro, já devia ser umas 20 horas e dividi o elevador com uma colega. Percebi que ela não estava muito bem e comecei a puxar conversa na expectativa que ela dissesse o que lhe estava incomodando. Ela me contou suas razões e ao final fiquei com desejo de abraçar, beijá-la. Nada fiz e nos despedimos, cada um foi pra sua casa. Cara, desde então nunca mais parei de pensar nela, no que deixei de fazer, sempre tive uma queda por ela. Poderia ter dado um beijo daqueles ou simplesmente ter convidado pra sair. Poderia ter conquistado uma linda mulher ou ter levado um fora de cinema. Talvez nada seja como penso ou queira, ela só está sendo bacana e não me dando mole, ou será que não? Essa dúvida me mata!”

Pensei que tortura vive esse amigo. A constante dúvida entre a certeza do não ou a dúvida do sim. Que lhe vale mais, um sonho desfeito ou castelos de ilusão? Poderia viver mais feliz ou em constante sobressalto, mas como disse Blaise Pascal, filósofo Frances falecido em 1662, o coração tem razões que a própria razão desconhece.

Gostar gostando

Como é gostoso gostar de alguém, o gostar sinônimo do amor. 

Uma transferência de carinho, a idealização de uma metade perfeita, adaptável a toda imperfeição que nossa carcaça condoída apresenta.  

Ah esse gostar romântico que assola os corações desavisados, as mentes devoradoras de revistas com romances baratos.

Fico afeiçoado realmente a estes incautos sabedores de quase nada e de quase tudo

Sério. Aprecio suas presenças e teorias arcaicas. 

Não há necessidade de inteligência fora de medida para perceber friamente que teoria e pratica são opostos que não se completam. 

V - 2015

Geralmente as indefinições, incertezas ou respostas sem questionamentos surgem em instantes de desleixo mental. 
São os chamados da natureza para que se permaneça em constante estado de atenção.

Cálculos descomplicados

O bom de ser um contador de estórias é exatamente isso, 
contar, sem a preocupação de prova real. 
Transformar o invisível em palpável, 
plantar a semente da dúvida e do
sonho sobre a veracidade dos atores e fatos. 
É residir em quem nos lê, 
sem a pretensão de fazer longa moradia 
e sem nada cobrar. 
Escrever é perpetuar sua alma!

Minha verdade escondida

Existe uma frase que gosto de repetir igual a mantra 
– na vida, tudo pode ser dito, feito e realizado; 
é apenas uma questão de como, quando e onde. - 
Entre as minhas incertas certezas, 
não sei se a criei em algum período de ócio criativo,
se a li em alguma publicação e a incorporei como minha.
Façamos um trato, isso não importa nem um pouco, 
o significativo aqui é a essência guardada nela, 
afinal, para que servem grandes debates 
acerca de pequenos detalhes?

Sabedoria diária

Sempre gostei de versar sobre as dualidades que encontramos na vida. Tudo apresenta dois lados para escolha e bastaria estender as mãos ao lado mais conveniente para que a palavra da salvação se faça presente em nossa coleção de sucessos. Tão simples quanto encontrar um diamante no centro de São Paulo.

Você sempre é responsável por suas escolhas, independente se boas ou más; porém o fator determinante para uma tomada de decisão é a capacidade de conviver com ela. Você poderá se eximir de denunciar os pais de uma criança que sofre maus tratos, afinal, ela não é sua filha. Agora, conseguirá repousar a cabeça no travesseiro e dormir o sono dos justos, sabendo que naquele momento um ser pequeno está sendo torturado? Claro, se for um psicopata sua resposta será sim.

Logicamente existem escolhas infinitamente mais fáceis e difíceis que a exemplificada, como diria algum filósofo do caos ou pensador moderno, cada caso é um caso. Um dos ensinamentos mais significativos a que fui apresentado sobre o poder da escolha é o de um rapaz autista, filho de importante apresentador televisivo. 

Contou o apresentador que havia levado o filho a uma livraria e que o deixara livre para escolher os livros que quisesse. Apresentou-lhe uma pilha de publicações, ao que o pai ordenou que levasse apenas metade deles. A reação do rapaz foi instantânea, não levaria nenhum. O pai achando que se tratava de birra e já se irritando perguntou por que ele fazia aquilo e eis que surgiu a sabedoria plena. Ele preferia não levar livro algum a escolher aqueles que ficariam para trás. 

Por que quando há necessidade de escolha, já se está perdendo.

IV - 2015

Toda a decisão possui o mesmo percentual de mostrar-se correta ou falha. O inconveniente nesta equação é a necessidade de prever caminhos e atalhos a serem traçados se surgir o erro. É muito oneroso reprogramar uma viagem a cada estrada obstruída.

III - 2015

Ele já existe, espera apenas a oportunidade de estrear, repousar suas idéias compostas e complexas nas folhas de papel. Que ilusão é esta que se vive, em que os textos não encontram-se originalmente em papel. A certeza de que as estórias devem surgir, independente do meio que as recebam é a uma daquelas esmagadoras situações em que o progresso trava batalha com o erudito e a tradição, sem importar-se com a vida perene e serena da vida.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O Ser

Lidar com o ser humano é uma ciência das mais difíceis. Não é fácil tentar compreender alguém de carne e osso, sem arriscar sua sanidade.
Por melhor que seja sua intenção, e comentam que no inferno há milhares bem intencionados, você será visto de forma difusa se desejar conhecer alguém, essa é a realidade que nos envolve.
Somos treinados a julgar sem conhecer, negar sem saber todos os pormenores, dizer não sem escutar, e pior, as situações vão piorando conforme "sua configuração".
Se é casado, a maioria das mulheres corre; se é casada, a maioria dos homens "caem matando". Homem pegando todas é garanhão, mulher fazendo o mesmo, como galinha é descrita. Se é baixo; pintor de rodapé, alto; vira poste. Homem que gosta de homem é fruta, mulher que gosta de mulher é sapata. Magros são paus-de-virar tripa, gordos rolhas de poço e por ai vai...
O ser humano (humano?) é perito nesse tipo de julgamento. Creiam que ainda pode piorar, porque muitas vezes há a indiferença das pessoas, a suspeita que uns se aproximam dos outros, sempre com aquela sensação de segundas intenções, sejam financeiras, tráfico de influência ou desejos sexuais.
Enfim, vamos parar de filosofar e ir trabalhar, porque as contas do mês estão aterrizando na caixa de correio e se possível veja as pessoas de forma diferente do que fomos ensinados, o que deve nos diferenciar é apenas nosso caráter...
Vamos em frente, fazer vento, porque o mundo é grande!

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Bulhufas te espera

Tenho um amigo, que foi eleito Presidento de um pequeno Reino-Republicano-Ditatorial-Parlamentarista-de-centro-direita-esquerda-e-em-cima-do-muro, chamado Bulhufas. 

É um primor de lugar! Acreditem!

Alicerçado por um slogan forte - "Vote Motta, o político que entende Bulhufas", a campanha foi suja, com opositores denegrindo a imagem do candidato a torto e a direito. Estórias do tempo do arirri-pistola vieram à tona. Logicamente que todas rechaçadas de forma contundente, não passaram de boatos infundados que tentavam manchar uma carreira ilibada!

O período eleitoral não foi fácil, afinal como candidato único ao cargo máximo do Executivo-Inoperante-Bulhufense, teve que superar a desconfiança de seus eleitores com promessas fundamentadas nos achismos-modismos-machismos-e-feminismos tão recorrentes no mundo político. O primeiro turno foi de uma ferocidade única e os votos brancos e nulos venceram por ampla maioria estatística, obrigando a população não recenseada de Bulhufas a retornar às cédulas de papel. 

Seguindo a velha teoria do que realmente importa em eleições não são os votos e sim os escrutinadores o nobre candidato foi eleito magistralmente com mais de 100% dos papelinhos depositados.

Algum desavisado pode pensar que um governo assim eleito, não teria apoio do legislativo. Ledo engano; partindo do pensamento maquiavélico que os fins justificam os meios, os nobres deputados Bulhufenses fazem jus ao robusto salário e legislam em causa própria, na mais santa paz, presenciada apenas em mosteiros medievais.

Contando com uma profissional e capacitada equipe ministerial que não para de crescer - na última reunião, compareceram 69 ministros - os projetos de melhoria de vida da população assalariada são encaminhados para o Registro Geral de "Arquivência", para uma análise mais detalhada e posterior rejeição.

Acreditem, não existe lugar mais organizado, correto, sério e seguro para viver. Nunca antes na estória desse encantado País a população foi tão bem conduzida. O Presidento dá água e pão aos seus comensais, brioches são distribuídos aos borbotões, o banco estatal financia qualquer obra particular do mandatário supremo, o futebol e a bolita de gude são os esportes nacionais, com torneios e campeonatos transmitidos 24 horas por dia e na falta do carnaval, há um fantástico recital de trovinhas sacanas que envolve toda a população.

É lindo de se ver!!!

Tudo é magistral!!! 

E inspirado no poema escrito pelo nobre brasileiro Manuel Bandeira "Vou-me embora para Passárgada, lá sou amigo do rei,lá tenho a mulher que eu quero. Na cama que escolherei...", nada mais correto a fazer que bradar a plenos pulmões me vou para Bulhufas, lá sou amigo do dono, terei a vida que quero do jeito que me der na telha... e se bobear, quem sabe não sobra um ministério???


sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

O Corvo

O Corvo (The Raven) é um poema escrito por Edgar Allan Poe e publicado pela primeira vez no New York Evening Mirror no dia 29 de Janeiro de 1845. A versão abaixo é a tradução de Machado de Assis, realizada em 1883.


Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho
E disse estas palavras tais:
"É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais." 

Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora,
E que ninguém chamará jamais.

E o rumor triste, vago, brando,
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto e: "Com efeito
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais."

Minha alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: "Imploro de vós - ou senhor ou senhora -
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo prestemente,
Certificar-me que aí estais."
Disse: a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.

Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta:
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.

Entro co'a alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais tarde; eu, voltando-me a ela:
"Seguramente, há na janela
Alguma coisa que sussurra. Abramos.
Ela, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso.
Obra do vento e nada mais."

Abro a janela e, de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre Corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto
Movendo no ar as suas negras alas.
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo - o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: "Ó tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais:
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?"
E o Corvo disse: "Nunca mais."

Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Coisa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta,
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é o seu nome: "Nunca mais."

No entanto, o Corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: "Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora."
E o Corvo disse: "Nunca mais."

Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
"Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: "Nunca mais."

Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao Corvo magro e rudo;
E mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
Achar procuro a lúgubre quimera.
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: "Nunca mais."

Assim, posto, devaneando,
Meditando, conjecturando,
Não lhe falava mais; mas se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava,
Conjecturando fui, tranqüilo, a gosto,
Com a cabeça no macio encosto,
Onde os raios da lâmpada caiam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
E agora não se esparzem mais.

Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso.
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível;
E eu exclamei então: "Um Deus sensível
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora."
E o Corvo disse: "Nunca mais."

"Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: "Existe acaso um bálsamo no mundo?"
E o Corvo disse: "Nunca mais."

"Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No Éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais.
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!"
E o Corvo disse: "Nunca mais."

"Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa!, clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fica no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua,
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua."
E o Corvo disse: "Nunca mais."

E o Corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!