Tenho um amigo de quase três
décadas que praticamente ganhou na loteria sem ter jogado. Graças ao trabalho
ferrenho dele e da esposa, o Toninho desfruta dos louros deste seu esforço e
todo ano parte em viagem junto com sua amada Janier para desbravar novos
locais, absorvendo cultura e História em todos os cantos do mundo. Agora eles
estão em uma temporada européia, conhecendo entre outros locais a Escandinávia
e a Polônia e nesta última, mais especificamente Varsóvia.
Para os não iniciados em História
e Geografia, ela é a capital polonesa. Centro político, industrial e maior
cidade do País, contava em 2012 com mais de 1,8 milhão de habitantes, número
grandioso para uma cidade que no inicio de 1939 contava com 1,3 milhão de
pessoas e ao final de 1945 com apenas 422 mil pessoas.
Estes números representam os
efeitos destrutivos sofridos por um dos países mais atacados e dilacerados pela
Alemanha Nazista de Hitler. É sabido o terror imposto aos judeus poloneses e a
desumanidade afligida a eles. São de domínio público e históricos fatos
ocorridos no famigerado Gueto de Varsóvia, em que durante os quase três anos de
existência, a fome, as más condições de higiene e saúde, além das constantes
deportações aos campos de concentração, principalmente ao de Treblinka. Para
que se possa ter idéia da crueldade imposta, a população de 380 mil habitantes
que foram enviados a ele, representava 30% da população de Varsóvia e ficaram
enclausurados em uma área estimada a 2,4% do território da cidade.
Graças ao advento das redes
sociais, o Toninho e a Janier, vão presenteando seus amigos com as imagens de
uma cidade viva. Observá-las me instiga a tecer um paralelo com a forma que
tratamos a nossa História. Os poloneses mantiveram intactos algumas construções
de Auschwitz, entre elas o famoso portão em que se lê – “o trabalho liberta”,
não como forma de permanente tortura mental, mas sim como lembrança escancarada
da falta de limites para a imbecilidade humana. Em Varsóvia existem estátuas
que registram em pedra os momentos de puro terrorismo a que indiscriminadamente
toda a população foi submetida, mas também serve como indicação que apesar das
situações adversas, eles resistiram, é como se as feridas e cicatrizes embora
cicatrizadas ainda doam, e elas não são escondidas, ficam sempre à mostra, com
um orgulho de terem vencido o mal.
Aqui em nosso Paraíso Tropical,
essa belíssima República das Bananas, Terra abençoada de Vera Cruz, este país
Tupiniquim bonito por natureza, onde não falta água, comida, moradia, saúde e
segurança, os políticos brasileiros, mais especificamente os vereadores da
capital gaúcha, votaram e aprovaram uma lei que altera o nome de todos os
logradouros da cidade que façam referência a qualquer um dos autores do período
ditatorial militar. Este mesmo movimento ocorre em outras cidades brasileiras,
com projetos de lei e até mesmo alteração do nome de ruas, praças, escolas,
ginásios entre outros. Parece-me que os legisladores brasileiros acreditam que
extirpar o nome de obras, vá simplesmente suprimir um período Histórico. Essa
não é uma discussão sobre a necessidade de reconhecer os acertos e erros do
sistema de exceção que durou de 1964 até 1985.
O problema maior é varrer para
baixo do tapete o que existiu, por mais que se tente, é impossível reescrever a
História. É possível reescrever estórias, dessas que se escreve com um enredo
bem definido, com começo, meio e fim e se possível com a mocinha sendo salva no
final. Agora, se existe este movimento de exorcismo, não compreendo porque
Getúlio Vargas não entra nesta leva de limpeza moral e ética da sociedade
brasileira. Antes de ser o pai dos pobres e o velhinho simpático que ceifou a
própria vida com um tiro, dentro das dependências do Catete, o caudilho de São
Borja, foi um ditador implacável, comandou o golpe civil de 1930, fechou o
congresso, rasgou a Constituição, perseguiu seus detratores e conduziu com mãos
de ferro o destino nacional por 15 anos.
Sim, antes de tomar uma
enquadrada de Roosevelt, e da ameaça do Pentágono em invadir o Nordeste
brasileiro para instalação de bases militares para proteger o Atlântico Sul dos
alemães que já estavam na África, Getúlio Vargas nutria apreço pelos ditadores
europeus Hitler, Mussolini, Salazar, Franco e seus sistemas ditatoriais da
primeira metade do século XX
O Ministro do Trabalho do Governo
João Goulart, Almino Afonso, declarou em 2014 para a Agência Brasil que o período
ditatorial deixou lembranças dolorosas e marcou a era de Vargas. “Podemos dizer
que isso era uma projeção do que se passava no mundo. Basta lembrar Hitler,
Franco e Mussolini, mas não justifica algo que foi um período doloroso”.
Fazendo uma pequena pesquisa, descobre-se
que o Brasil possuía fortes relações comerciais com as forças européias do
Eixo, inclusive firmando em 1936 acordo com a Itália para aquisição de
submarinos que seriam pagos com algodão e outros produtos nacionais, além da
importação de armamentos da Alemanha Nazista. A colaboração ou aproximação mais
estreita com os Nazi se deu no caso da deportação de Olga Benário, esposa do líder
comunista Luis Carlos Prestes.
A ignorância é uma benção, embora
somente o conhecimento possa libertar. Um povo que conhece sua História e não
se envergonha dela, ao contrário, reconhece seus exageros e percebe claramente
os caminhos percorridos por seus antepassados, é detentor do combustível
primordial – o saber - que domina de forma única, as nuances e fatos que lhe
impulsionam a seguir em frente. A Nação que sabe, compreende, entende e lida
bem com o que lhe ocorreu, possui chances menores de cometer os mesmos erros,
torna-se livre e jamais se curvará a tiranos.
Crédito das fotos - Imagens retiradas da Internet, com exceção das fotos de Varsóvia, registros do casal Toninho e Janier.
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