terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Um pouco de História

Tenho um amigo de quase três décadas que praticamente ganhou na loteria sem ter jogado. Graças ao trabalho ferrenho dele e da esposa, o Toninho desfruta dos louros deste seu esforço e todo ano parte em viagem junto com sua amada Janier para desbravar novos locais, absorvendo cultura e História em todos os cantos do mundo. Agora eles estão em uma temporada européia, conhecendo entre outros locais a Escandinávia e a Polônia e nesta última, mais especificamente Varsóvia.

Para os não iniciados em História e Geografia, ela é a capital polonesa. Centro político, industrial e maior cidade do País, contava em 2012 com mais de 1,8 milhão de habitantes, número grandioso para uma cidade que no inicio de 1939 contava com 1,3 milhão de pessoas e ao final de 1945 com apenas 422 mil pessoas.

Estes números representam os efeitos destrutivos sofridos por um dos países mais atacados e dilacerados pela Alemanha Nazista de Hitler. É sabido o terror imposto aos judeus poloneses e a desumanidade afligida a eles. São de domínio público e históricos fatos ocorridos no famigerado Gueto de Varsóvia, em que durante os quase três anos de existência, a fome, as más condições de higiene e saúde, além das constantes deportações aos campos de concentração, principalmente ao de Treblinka. Para que se possa ter idéia da crueldade imposta, a população de 380 mil habitantes que foram enviados a ele, representava 30% da população de Varsóvia e ficaram enclausurados em uma área estimada a 2,4% do território da cidade.


Graças ao advento das redes sociais, o Toninho e a Janier, vão presenteando seus amigos com as imagens de uma cidade viva. Observá-las me instiga a tecer um paralelo com a forma que tratamos a nossa História. Os poloneses mantiveram intactos algumas construções de Auschwitz, entre elas o famoso portão em que se lê – “o trabalho liberta”, não como forma de permanente tortura mental, mas sim como lembrança escancarada da falta de limites para a imbecilidade humana. Em Varsóvia existem estátuas que registram em pedra os momentos de puro terrorismo a que indiscriminadamente toda a população foi submetida, mas também serve como indicação que apesar das situações adversas, eles resistiram, é como se as feridas e cicatrizes embora cicatrizadas ainda doam, e elas não são escondidas, ficam sempre à mostra, com um orgulho de terem vencido o mal.

Aqui em nosso Paraíso Tropical, essa belíssima República das Bananas, Terra abençoada de Vera Cruz, este país Tupiniquim bonito por natureza, onde não falta água, comida, moradia, saúde e segurança, os políticos brasileiros, mais especificamente os vereadores da capital gaúcha, votaram e aprovaram uma lei que altera o nome de todos os logradouros da cidade que façam referência a qualquer um dos autores do período ditatorial militar. Este mesmo movimento ocorre em outras cidades brasileiras, com projetos de lei e até mesmo alteração do nome de ruas, praças, escolas, ginásios entre outros. Parece-me que os legisladores brasileiros acreditam que extirpar o nome de obras, vá simplesmente suprimir um período Histórico. Essa não é uma discussão sobre a necessidade de reconhecer os acertos e erros do sistema de exceção que durou de 1964 até 1985.

O problema maior é varrer para baixo do tapete o que existiu, por mais que se tente, é impossível reescrever a História. É possível reescrever estórias, dessas que se escreve com um enredo bem definido, com começo, meio e fim e se possível com a mocinha sendo salva no final. Agora, se existe este movimento de exorcismo, não compreendo porque Getúlio Vargas não entra nesta leva de limpeza moral e ética da sociedade brasileira. Antes de ser o pai dos pobres e o velhinho simpático que ceifou a própria vida com um tiro, dentro das dependências do Catete, o caudilho de São Borja, foi um ditador implacável, comandou o golpe civil de 1930, fechou o congresso, rasgou a Constituição, perseguiu seus detratores e conduziu com mãos de ferro o destino nacional por 15 anos.

Sim, antes de tomar uma enquadrada de Roosevelt, e da ameaça do Pentágono em invadir o Nordeste brasileiro para instalação de bases militares para proteger o Atlântico Sul dos alemães que já estavam na África, Getúlio Vargas nutria apreço pelos ditadores europeus Hitler, Mussolini, Salazar, Franco e seus sistemas ditatoriais da primeira metade do século XX

O Ministro do Trabalho do Governo João Goulart, Almino Afonso, declarou em 2014 para a Agência Brasil que o período ditatorial deixou lembranças dolorosas e marcou a era de Vargas. “Podemos dizer que isso era uma projeção do que se passava no mundo. Basta lembrar Hitler, Franco e Mussolini, mas não justifica algo que foi um período doloroso”.

Fazendo uma pequena pesquisa, descobre-se que o Brasil possuía fortes relações comerciais com as forças européias do Eixo, inclusive firmando em 1936 acordo com a Itália para aquisição de submarinos que seriam pagos com algodão e outros produtos nacionais, além da importação de armamentos da Alemanha Nazista. A colaboração ou aproximação mais estreita com os Nazi se deu no caso da deportação de Olga Benário, esposa do líder comunista Luis Carlos Prestes.

A ignorância é uma benção, embora somente o conhecimento possa libertar. Um povo que conhece sua História e não se envergonha dela, ao contrário, reconhece seus exageros e percebe claramente os caminhos percorridos por seus antepassados, é detentor do combustível primordial – o saber - que domina de forma única, as nuances e fatos que lhe impulsionam a seguir em frente. A Nação que sabe, compreende, entende e lida bem com o que lhe ocorreu, possui chances menores de cometer os mesmos erros, torna-se livre e jamais se curvará a tiranos.


Crédito das fotos - Imagens retiradas da Internet, com exceção das fotos de Varsóvia, registros do casal Toninho e Janier.

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